The Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz

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Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)

Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz

Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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[Illustration: EA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGO AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL

DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
universo, e da adorao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON




SUMMARIO

Leis organicas das sociedades e disposies regulamentares dos estados:
de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanco penal. O
caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituio da
raa humana pela gymnastica. Reconstituio da ideias parlamentares pela
mesma gymnastica. Indicao de alguns exercicios para uso dos dignos
pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nao_. Mostra-se que o milagre
no presta. Ensina-se  _Nao_ o que so milagres e prova-se-lhe que
ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
personagem desde o seculo XVI at a ultima facada no Bairro Alto--A
ideia velha e a ideia nova.--Uma opinio de Tyndal cerca dos atheus.
Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin cerca das rases porque crescem
os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
da instruco primaria mostrou no ser aquelle philosopho nem aquelle
carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
educao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltres. A
covardia, instituio publica, etc.

Tdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
pertencendo a duas classes distinctas:

1. Crimes resultantes da infraco das leis organicas da sociedade;

2. Crimes resultantes da infraco das disposies regulamentares dos
Estados.

Emquanto as sociedades se no acham constituidas segundo o direito
absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
isto , emquanto as sociedades no attingem um desenvolvimento
intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
organisao, distinguindo o que n'ellas  difinitivo e organico do que 
convencional e contingente,--n'essas sociedades no podem dar-se seno
os crimes da segunda d'aquellas classes.  assim que vemos nas
civilisaes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entrram no
periodo scientifico da sua evoluo moral, como presentemente succede em
toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
tomram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
nos referimos, porque se comprehendeu que elles no violam unicamente um
regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregao que constitue o grande ser
collectivo.

       *       *       *       *       *

A sabedoria da legislao penal manifesta-se na mais justa e perfeita
demarcao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
repressivos da infraco das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
punio imposta  contraveno dos seus estatutos regulamentares,
distinguindo graduaes na culpa segundo a importancia dos interesses
feridos pela perpetrao do delicto.

 em virtude d'este criterio que so punidos com severidade,
unanimemente exigida pela opinio, os attentados contra o interesse do
commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
interesses so considerados os mais importantes das sociedades modernas;
ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
pela razo de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
conseguinte a civilisao rejeita como um acto de prepotencia e de
vingana.

Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: So mais do que
crimes, so verdadeiros erros!

Posto isto, vejamos qual  o estado da mentalidade portugueza afferido
pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e s respectivas
sances penaes.

       *       *       *       *       *

Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

No caso de Joanna Pereira vemos tres ros confessos e convictos de tres
crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
meio da chlorophormisao; o carroceiro, da remoo de um cadaver; todos
tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? No tomando conhecimento de nenhum d'estes
attentados e despedindo os reos em paz!

No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo  accusado de ter
falsificado uma certido de edade para o fim de salvar um mancebo do
recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
oito annos de degredo para a costa ds Africa!

O primeiro caso  um triplice attentado contra a ordem social. A
sociedade no s o no pune mas nem sequer o julga.

O segundo  uma contraveno de um regulamento administrativo. A
sociedade no s o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

       *       *       *       *       *

No analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnao d'este  uma
iniquiedade monstruosa.

O crime do que  accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
oito annos de degredo,  crime unicamente perante a letra de um
regulamento de caracter no s transitorio mas arbitrario--o regulamento
do servio militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do servio um recruta.
Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, s pde involver
inteno criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
Viciar a data de uma letra ou de um contrato  indubitavelmente um grave
crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
da propriedade. Mas alterar a data de uma certido de baptismo, para o
facto de isemptar do servio militar um cidado, no  offender um
interesse social;  o contrario d'isso:  servir o interesse que todas
as sociedades teem em que deixe de haver militares.

       *       *       *       *       *

O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios 
civilisao e  humanidade. Daria em resultado a eliminao do
militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores no foram
punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

Finalmente, para o facto da seleco da especie, os maridos seriam
substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
convertendo aos pianos, reforados pela aguardente, nos unicos
instrumentos da perpetuidade da raa.

       *       *       *       *       *

Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
unicamente  sociedade os nossos cumprimentos.


       *       *       *       *       *


Por occasio de se discutir no parlamento a reforma da instruco
primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopo da
gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinio de que a
gymnastica tinha um caracter immoral.

S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mos
e de pernas para o ar. Isto effectivamente no seria bem visto. E
comprehendemos que s. ex. sinta uma certa poro de rubor pensando que
ao dirigir n'um salo as suas homenagens a uma dama esta poder vir um
dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e
obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabea no espao
que medeia entre o tapete e o lustre.

Cremos porm que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades
da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
ex. tenha da coisa que fra das feiras se no chama a _sorte de foras_
mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

       *       *       *       *       *

Um illustre medico allemo, o doutor Schreber, director do instituto
orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformaes do
nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciaes na configurao
dos ossos da bacia, viciaes que inhabilitam muitas mulheres de serem
mes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
escola e que s podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poder
chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
s. ex. para alvo das suas predileces pelo pugilato athletico.

       *       *       *       *       *

O mesmo doutor Schreber assevera que  indispensavel introduzir o uso da
gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
mulheres padeam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
frequente e resultante da posio forada em que as raparigas se
conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
 espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
depois a operar sobre a regio abdominal de s. ex. as experiencias
dynamometricas, cuja perspectiva lana no animo pudibundo do digno
procere um to ligitimo horror.

       *       *       *       *       *

A physiologia moderna tem mostrado que a saude no  mais que o justo e
perfeito equilibrio das differentes foras inherentes ao nosso
organismo. A hygiene tem provado com muitas observaes e fundada nas
mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
todos os nossos membros e de todos os nossos orgos  o unico meio de
manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisao d'esse
exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulao do
sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
loucura so outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
revelaes, demonstra que existem estreitas e precisas relaes de causa
para effeito entre as variaes da circulao e os differentes graus de
actividade cerebral. A abolio da memoria, a perverso das sensaes,
todos os casos de nevropathia cerebral so resultantes de uma falta de
cadencia na vibrao dos centros sensitivos causada por um embarao da
circulao sanguinea no encephalo. Na Italia esto-se curando as
alienaes mentaes pela transfuso do sangue. O medico Ponza, do Grande
Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
de cura de alienados pela transfuso hypodermica.

Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispe para activar e
regularisar a circulao, de tanta importancia para a actividade
central,  a gymnastica.

O celebre hygienista Lacassagne diz: Um exercicio muscular geral, feito
em boas condies, produz os effeitos de uma transfuso de sangue.

       *       *       *       *       *

Ha estados morbidos cuja localisao no organismo escapa muitas vezes 
indagao e  sagacidade dos clinicos. Est-se doente sem haver
apparentemente perturbao alguma nas funces physiologcas. O symptoma,
frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
diminuio do noso peso com relao  unidade do nosso volume. A mais
segura medida da saude  a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
para tornar mais denso o corpo humano? Ha.  o regimen da gymnastica. O
doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
gymnastica militar da Faisanderie, em Frana, constatou, pelas
observaes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto  acrescentar a
densidade de 6 at 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
exercicio.

       *       *       *       *       *

Em um paiz onde a tisica faz to grande numero de victimas como em
Portugal,  util accrescentar ainda que uma das propriedades da
gymnastica  desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
doutor Burq.

       *       *       *       *       *

A fora muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
densidade, n'uma proporo de 15% nos quatro primeiros mezes dos
exercicios gymnasticos.

       *       *       *       *       *

A hygiene de musculatura  um facto de primeira importancia para a saude
desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
tecidos vivos se reconheccu que a sde principal da combusto
respiratoria  o musculo. Os differentes estados do musculo influem
directamente na composio do sangue. O exercicio  portanto um poderoso
modificador do sangue e como tal acta em todas as foras do nosso
organismo. Mas no ha seno uma especie de exercicio com propriedades
hygienicas e therapeuticas: esse exercicio  a gymnastica.

       *       *       *       *       *

Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faa o obsequio de considerar
que s  um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allem. O
doutor Sebreber demonstra que a unica occupao que sujeita quem a
exerce a um exercicio inteiramente harmonico,  a occupao da
jardinagem. Todo aquelle que no for jardineiro tem de appellar para um
methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
equilibrio as acquisies e os dispendios de cada um dos seus orgos.

       *       *       *       *       *

Taes so, resumidamente expostas, algumas das razes que militam em
favor da gymnastica. Em contraposio a estes argumentos no sabemos
seno de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos
mais fervorosos para que s.ex. no core diante da gymnastica, impedindo
assim o paiz de pr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
constituio atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
de reagir contra a hypocondria e contra a preguia, contra a atonia dos
nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
gotta, contra as affeces pulmonares, contra as escrophulas, contra a
obesidade e contra a idiotismo.

       *       *       *       *       *

Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licena para incluir o mesmo
sr. Vaz Preto, esto contaminados por enfermidades que a gynmastica
previne e corrige. De modo que uma boa administrao pedia que
gymnastica no s fosse decretada para as escolas mas tambem para as
duas casas do parlamento.

Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allems, suecas, os
exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
quanto estes exercicios so uteis no s ao desenvolvimento physico mas
ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
n'aquellas em que a gymnastica no existe.

Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
esqueceu uma disposio--precisamente a unica que teria alcance--um
artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
em cada sesso, as suas locubraes legislativas, para fazerem
gymnastica ao som de um orgo, como nas escolas americanas.

O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
que--digamol-o francamente--o que  o _cachenez_ do nobre duque
presidente seno o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
mais caracteristico de que s.ex. no tem gymnastica nos musculos do
pescoo e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
felicidade do paiz, que to estreitamente depende da preciosa saude do
nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
seguintes movimentos:

Voltar vigorosamente a cabea para a direita e para a esquerda (100
vezes); fazer girar o pescoo, na sua maxima flexo, sobre o peito e
sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braas (100 vezes); tomar
fortes e profundas aspiraes de ar (25 vezes). Depois do qu, s.ex.
reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomearia a
meditar sobre a felicidade da patria.

No mesmo sr. Vaz Preto o que  verdadeiramente a revolta do seu pudor
perante a adopo da gymnastica nas escolas seno o indicio de uma leso
mental concomitante e at certo ponto compensadora da obesidade? Pois
no  sabido que jmais a excessiva nutrio deixa de ser acompanhada
reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
seguintes:

Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz at o
limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
Depois do qu, s. ex. revestiria ameaadoramente as suas calas e
continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

       *       *       *       *       *

Se porm a todas estas consideraes for insensivel o sr. Vaz Preto,
n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo:
Velar-lhe a face!


       *       *       *       *       *


A _Nao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
cego j v, a paralytica j anda_.

       *       *       *       *       *

Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nao_ dsse cabimento
nas suas columnas um milagre to miseravel, to safado, to reles como
esse! Com effeito! foi ento para isso, para esse milagrotesito de
ccrc, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
os fazer ver e para os fazer andar os levou to longe?! ... Ora muito
obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
collaborram com s.ex. na bonita obra da peregrinao teem obrigao
restricta de abrirem immediatamente uma subscripo para o fim de
indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
lhes deram. Porque ns--e a _Nao_ bem o sabe!--ns temos devoes
locaes, temos devoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affianam, sob a
auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
resultados obtidos pela romagem.

Pois qu! A agua de Lourdes ao p da bica, na propria gruta, por conta e
na presena da santa, no ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
vezes impuras, quantas vezes com ms rolhas?!

No vimos ns ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
locomotores com agua das latas?!

E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento
para se metter s estradas e para ir por ahi fra em braos at Lourdes,
chega l e no obtem mais nada seno o que obteve a outra sem sair do
largo de S. Roque?

E ainda ousam dizer-nos--o que no pde ser seno por escarneo--que ella
_andou!_? Olha a grande faanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
correr, correr a sete ps, e trazer de l para esse fim cinco pernas a
maior do que as que levou!

Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascar que lhe fazia o
milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
sua devida altura, que o homem no s principiasse a ver pelos olhos mas
que visse tambem por outros membros.

Isso ento j valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
a _Nao_ o publicasse em telegramma: O padre cego appareceu-lhe um
olho em cada buraco do nariz e est-lhe a vir outro na cova do ladro,
pelo qual j l as suas rezas de costas na cama com o breviario por
baixo do travesseiro. A paralytica j deitou seis pernas novas e est
com dois grandes furunculos nos hombros: suppe-se que sejam as azas a
romper. Quando se lhe espremem os carnies bota pennas. Infinitos
louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cr dos voadouros
vemos que a paralytica nos sae pedrez!

Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
ordem, porque os ha muitos maiores.

       *       *       *       *       *

Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
coisas ao p das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito  zero.

O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenas,
das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que no podemos pr em
duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
demonstrada por casos de proteo, de conversao e de curas miraculosas_,
pelo revd. padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
exemplos.

Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um boto
dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
emquanto caem e continam a leitura em baixo, traando a perna n'um
estado do satisfao ineffavel.

O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreio do Var, com um
escapulario ao pescoo, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
illeso. No nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir! disse por
essa occasio um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lanar ao meio
das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
o escapulario encontrou-se intacto. Apenas, diz o padre Huguet na obra
citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco. (Pag. 17.)

Um soldado na batalha de Novara v cair em torno d'elle todo o
regimento, elle  o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada brao. (Pag.
20.)

Um desgraado, querendo suicidar-se, lana-se ao mar quatro vezes
consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o  praia, recusando-se
obstinadamente a submergil-o. O desgraado recorda-se ento que traz ao
pescoo um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
o escapulario em terra. Foi smente com esta condio que o mar se
resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

Alm de livrar de todos os perigos, sem excepo, durante a vida, o
escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleco dos
escapularios da Immaculada Conceio, do Rosario, do Carmello, etc._,
diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes so
arrebatadas pelos escapularios. Parece que no ha dia em que um milho
de diabos no roguem esta praga medonha:--Que ns levemos os
escapularios!

As approvaes pontificaes de todos os papas, desde Joo XXII at Pio
IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
arranje a morrer com o escapulario na sexta feira  meia noite, podem os
facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o ho de ver
por um oculo!

O uso do escapulario  extremamente commodo: no obriga a encargos de
nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
da confisso e da communho. Tambem no priva o penitente de qualquer
prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.
Guglielmi. O essencial  no o tirar nunca, nem mesmo _quando
voluntariamente se vae peccar_:  o que mais particularmente prescreve o
dito padre Guglielmi.

De todos os escapularios o que mais se recommenda  eleio dos devotos
 o do Sagrado Corao de Jesus, porque este escapulario nem sequer
precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
seguinte: Sobre um pequeno retalho de l branca--retalho quadrado ou
oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
virtude--applica-se um corao de flanella encarnada, bem talhado e
cosido a pesponto, de modo que imite a cora de espinhos acompanhada de
algumas gotas de sangue bordadas a seda. parte, em uma tirinha de panno
patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripo
sacramental: _Suspende! Est comigo o corao de Jesus_!

Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
d'estes escapularios, deital-o ao pescoo e ficar livre, para a vida e
para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
alto das torres, atirar-se s voragens do fogo e do mar, e metter-se
debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, no
far a _Nao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nao_, o mais que faz 
unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

Ha umas tantas coisas que a _Nao_ at devia ter vergonha de as dizer
... O que a _Nao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
esse pescoo, para a _Nao_ ficar ento sabendo o que so milagres!
Porque a _Nao_ no sabe o que so milagres!

Pr o padre cego a ver e pr a paralytica a andar no passa de uma
habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

Vir  feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
proposito para fazer perder  gente o gosto pelas devoes ...

Emquanto a ns o que a _Nao_ tem  o espirito maligno no corpo do
jornal! Cruzes, demonio!

       *       *       *       *       *

Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
satisfao  sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
fadista. O que temos que perguntar : Porque se no prendem os fadistas
todos?

       *       *       *       *       *

Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significao analoga a
esta--o _fadista_.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
toda a sua pureza esta raa de bravos de viella, sem officio nem
beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
frecheiros com as mulheres, soberbes e insolentes com os mesteiraes e
com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excurses
nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e aoitando
os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
adormecidos.

Entre os alludidos fidalgos figurava como gro-mestre da ordem, como
capito da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmo
do senhor rei D. Joo V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
interessantissimo principe, cujas tropelias creram, durante um seculo,
em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcanar com
um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
despegra da verga, que dobra no ar por entre as enxarceas e cara por
fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
tarde, com a illuminao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
com a creao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaas, os
combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razo
biologica de que toda a fora organica que se no exerce se elimina, o
antigo valento plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
espirito da faanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
vadiice, e tomou ento o nome de--fadista.

O fadista no trabalha nem possue capitaes que representem uma
accumulao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da explorao do
seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
elle espanca systematicamente. No tem domicilio certo. Habita
successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
esquadra da policia. Est inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool.  um anemico, um covarde e
um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito  concavo, os braos so
frageis, as pernas cambadas, as mos finas e pallidas como as das
mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
grande navalha de ponta e triplice calo na mola.  habitado por uma
molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
constituio normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
um soco. Elle sente isso e  traioeiro pelo instincto do inferioridade.
No ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
No ha seno uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
guitarra debaixo do brao substitue n'elle a espada  cinta, por meio da
qual se acamaradavam com a nobreza os pimpes seus ascendentes do seculo
XVI.  pela prenda de guitarrista que elle entra de grra com os
fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
composto de bacalhau e gros de bico polvilhados de vermelho por uma
camada de colorau picante. Por effeito da tradio na orientao mental
da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
alcouces de Alfama, que so levantados bebedos dos becos mal afamados,
que fallam em calo e que fazem troas no Colete Encarnado e na Perna de
Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compe-se hoje principalmente de
jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educao do
lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
de pandega. Usa como elles a bota fina de taco apiorrado ou o salto de
prateleira, a cala estrangulada no joelho e apolainada at o bico do
p, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapo arremessado para a nuca
pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beio
pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplao
imbecil; o tronco do corpo cado mollemente para cima do quadril; a
perna encurvada com o bico do p para fra; o _cachucho_ da amante
reluzindo na mo pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
mo na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabea alta,
esticando as cordoveias do pescoo e entoando as melopeias do fado, em
que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoes religiosas
 Virgem Maria, com uma voz soluada, quebrada na larynge, acompanhada
da expresso physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
miseravel.

De resto o fadista no tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condies
especiaes em que ama e  amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
todos os machos.

       *       *       *       *       *

 da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
incorrigiveis da criminalidade.

A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informaes de um
inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
em tres cathegorias. A primeira cathegoria  composta de individuos que
verdadeiramente no deveriam ter entrado nunca na priso. So lanados
nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
ou de caracter, a qual no obsta a que elles tenham uma moralidade to
s como a de qualquer de ns.  segunda cathegoria pertencem individuos,
mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
tornarem bons ou maus segundo a direco que recebam. A terceira
cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto,  rebelde
a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
conselhos. Para estes a cadeia  um logar improrio; seria preciso
confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
no fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado no teria
seno proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
conviria principalmente dar instraco; emquanto aos terceiros o melhor
expediente seria a morte.

 util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

 ou no  da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
incorrigibilidade  em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
repetidos?

A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

.

N'este caso pergunta-se:

Pde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
justia mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

No. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
que o Estado  cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade 
irresponsavel da perversidade individual, no succede o mesmo, e a
sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que  ella que sustenta, ao
abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

Dado o fadista, a sociedade no pde certamente evitar o criminoso. A
sociedade porm pde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
instituio concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

Desde que um cidado deixe de poder explicar unicamente pelos
supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
Estado tem o dever de o prender, no para encarcerar mas para coagir ao
trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

       *       *       *       *       *

O mais perigoso de todos os animaes vadios  o homem. Comparado com elle
o co, ainda quando damnado, pde-se considerar inoffensivo. E todavia a
policia, que tem para o co que ainda se no damnou as precaues da
rede e da carroa, no tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
contagio, seno um expediente repressivo: o de lhe archivar a
photographia no commisariado geral.

Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
de garantir a segurana publica: tire o retrato aos ces e deite a rede
aos fadistas.


       *       *       *       *       *


Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legies
contrarias, arrojram-se encarniadamente uns sobre os outros,
esmurrram-se, esguedelhram-se, cuspiram-se na face em odes,
aoitram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regies
lombares das musas.

Mysterio sobre as causas que moveram to cra guerra entre duas escolas
poeticas alis to pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
ellas existissem: a escola da _Ida Velha_ e a escola da _Ida Nova_!

       *       *       *       *       *

Os da Ida Velha dizem que no ha nada como a ida d'elles. E fundam-se
para isto em que  uma ida solida, experimentada, garantida.

O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
annos.

Ergueu-a do cho como morta, chuchada, espipada, moda pelas pgadas de
duas geraes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Ida Velha por uma ponta e
pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
e levou-a comsigo  sociedade, onde a receberam bem. Cercram-a varios
outros no menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
que aquelle que a levantra do cho. Andou pelo brao de um e pelo brao
de outro recebendo declaraes de affecto e dadivas de amor. Mo to
dedicada quo firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, s solemnidades
publicas, s casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranas_; dedicou versos  Lapa dos
Esteios,  Stoltz e  Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
s Graas nas notas da verso portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembla
da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmram, para lhe serem
agradaveis, o seu amor  lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
finalmente nas altas regies officiaes. Foi aos paos dos nossos reis!
De quando em quando observava-se que ella comeava de repente a
encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fra
insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinio,
e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo  Ida Velha. O
poder moderador, com a sua real cora na cabea e o seu real manto s
costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
achando-se to chupados e to desfallecidos como a propria ida que eram
chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
tinham tido a honra de bufar  mesma ida e pelo mesmo canudo que
servira  primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembla da
Galocha e os empregados publicos do Gremio no o permitiam, e torcendo
altivamente o bico das peras, diziam que a Ida se no se podia pr 
merc da populaa infrene e ignara. Vivendo assim  custa do sopro dos
poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
Ida, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoo a
condecorao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
ajoelhou-se-lhe aos ps e propoz-lhe leval-a s aras de Hymenen; ella
porm, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
exclusiva do vate. Este, de pura dr, pregou na parede um prego e
suspendeu n'elle, por um lao de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

Nos ultimos annos a Ida Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
communicao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
Algumas pessoas devotas tinham-lhe j resado por alma. Soube-se agora,
com grande satisfao dos que a conheceram no galarim, que a Ida Velha
ainda est viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
onde no ha outra ida de dentro para o servio da familia.

       *       *       *       *       *

Os da Ida Nova teem esta falha notavel: suppem que a Ida velha
vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
que prepondera nos destinos do mundo, E vem-se moos honestos e
engraados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
se fosse uma fora da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
ha meio seculo no passa do um artificio convencional e de uma
superfetao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
nenhum dos interesses do espirito ou do corao do homem no tempo
presente.


       *       *       *       *       *


_O Primo Bazilio_, novo romance de Ea de Queiroz,  um phenomeno
artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
obra  preciso discriminar o que n'ella pertence  jurisdico da arte e
o que pertence aos dominios da pathologia social.

       *       *       *       *       *

Eis a doena que este livro accusa:--A dissoluo dos costumes
burguezes.

O mais caracteristico symptoma d'esse mal  a falsa educao. A educao
burgueza tem um defeito fundamental: mantm na mulher a mais terrivel, a
mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
ver porqu.

Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
representao da vida exterior e o systema da vida intima.

Basta olhar de fra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
do templo para se fazer uma ida do que pde ser dentro o culto d'essa
religio--a familia!

Comparem-se as nossas edificaes urbanas, os casares da
baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
graciosas construces arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
com o seu claustro interior, o poo de marmore ao centro do pateo, as
galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
pequeno jardim, que  o corao da casa. Comparem-se com as sabias
edificaes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
predios do bairro central de Lisboa ao p dos novos predios de esquina
de rua no Hanover. As novas casas allems no stylo gothico francez,
modificado segundo as exigencias da civilisao moderna, so obras
primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehenso da hygiene, da
moral, da estetica; so verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
systema de educao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cres,
branca, cr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraos
cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
cantam os passaros, de balces em que desabrocham as flores sempre
frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
outros tantos ramalhetes, so interiormente distribuidos do modo mais
elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
nobres prazeres da familia. A disposio mais escrupulosamente estudada
do salo, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
luz e bom ar, permitte s mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguo sombrio e infecto,
com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogo por baixo
das caarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
queimada, so os sepulchros da saude e da alegria.

 n'essa serie de prateleiras, de gavetes de familias, que se chamam os
_Arruamentos da Baixa_, que  educada a lisboeta.

Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observao:

Noto um facto que me enche de perturbao e de horror--n'esta cidade
no ha creanas.

Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cr de palha,
desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
largo de Cames, da praa das Flores, do Aterro: l encontramos
effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas no
encontramos uma unica creana, a cuja saude sua me se tivesse
sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espao de tempo a sua
preoccupao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
fresco.

Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
frequentam as lojas ou fazem visitas, onde  que esto as creanas? As
creana esto dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
proposito. Tomar proposito_  uma locuo essencialmente local e
intraduzivel, que quer dizer: aprender a no saber andar, a no saber
rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
menina s principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
indispensavel para no tagarellar imprudentemente, para no contar que
houve favas para o jantar ou que o pap ralhou com a mam. Haver favas
para o jantar e ralharem o pap e a mam  de resto tudo ou quasi tudo
quanto se passa em casa, porque no ha interesses de espirito, nem ha
instructivas occupaes praticas. Falta o jardim, a grande escola da
infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
flores. Tambem no ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
jornal e os romances das traduces baratas. Nenhuma especie de estudo.
Nenhuma applicao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
aprende o francez e o inglez. Esta educao completa-se em casa
ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educao so
appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salo tocado no piano
diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
funco sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. No leu ou
no entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

No a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
phenomenos.

No a distraem os interessantes cuidados do _mnage_, porque da casa,
assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
nenhumas noes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, to
moralisadores e to attractivos, teem para ella o caracter de um mister
gnobil, desprezvel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
essencia da cozinha nacional,  discrio de uma criadagem vill, que
retribue o desprezo de que  objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
casa o que ella sabe unicamente  que ha duas ou tres salas de apparato
que se mostram s pessoas de fra; um quarto mais ou menos infecto, uma
possilgueirinha mobilada pelo Gard, em que ella dorme at s dez ou
onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que d
respostadas; e uma latrina contendo um fogo em que por meio de varias
borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

Na religio ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
elegantes: as romagens  fonte de Lourdes; a orao em frente da gruta
no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
de Roma; a contrico aos ps do summo pontifice, coberta de renda
preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
orgos soluam e o sol coado pelas vidraas coloridas se espelha nas
couraas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
desembainhadas. Presta ainda bastante considerao s interessantes
ceremonias da elegante religio nacional, como a do Mez de Maria na
bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas aucenas, fresquinha
e graciosa, similhante a uma _bombonire_, ou como a da Semana Santa nos
Inglezinhos, a cuja _petite entre_ destinada aos intimos rodam os
_coups_ magnificos da piedade escolhida.

Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
seu _bnitier_ barato; pelo Deus da procisso do Carmo e da procisso da
Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella no tem seno duvida ou
desdem.

Na moral as suas convices baseiam-se em uma serie de principios
theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
contradictoria de interesses praticos, tirando esta concluso: que o
dever consiste na mais habil combinao que se possa fazer d'essas
theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
sociedades corruptas:--o socego.

Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto , principia a
ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
os homens. Percebe ento vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
regio social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
da _toilette_; com uma cabea ca; n'um quarto que no cheira bem; tendo
um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balco, que pensa pela
cabea de um jornal barato e mal feito, e uma me que se enfastia
medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
cntra o destroo dos annos e contra o preo crescente dos generos
alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
aguadeiro, ralhando com o marido.

Principia ento a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
quarto sem tradies, sem historia, como o de uma estalagem; o saguo
infecto, onde zumbem no vero as grandes moscas gordas e pesadas; a
cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
caarolas gordurosas e as louas esbotenadas; a sala pretenciosa e
inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
arabes defronte do sof, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordo no
meio dos cortinados.

Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinco
decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
 sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
mais simples, mais triviaes, e  para se dar um aspecto superior, para
se encobrir do que , que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
a respeito dos criados que no tem, das visitas que no faz, da opera
que no viu, dos livros que no l, da modista a que no vae, dos banhos
que no toma, dos jantares que no come, das dignidades, das distinces
ou do luxo que no usa.

Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas no
lhe sae o que quer: no sabe organisar aprazivelmente a casa, no sabe
tornar encantadora a familia.

Humilhada, infeliz, comea a descoroar a pouco e pouco da sua
predestinao superior. Sente que ha na sua constituio moral uma falha
da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiraes.
No se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que  o resultado da
perfeita educao.

Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conhea o facil
processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cair com uma
simplicidade tragica.

O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condies,  o
dandy. Porque o dandysmo  a unica frma sob a qual a distinco se lhe
apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
pensamentos ter para ella menos seduces do que uma cabea bem
penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
uma fina risca cr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
espirito, nenhuma delicadeza de corao, nenhuma virtude de caracter
exercer sobre a imaginaoo d'ella a fascinao com que a subjuga a
alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, ser
aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
se calar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
Frana, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando s penetrantes
essencias de Lubin e  febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos ps d'ella, para lhe dizer
obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia s outras,
_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
seu joelho desformado pela falta de circulao proveniente de um defeito
caracteristico da sua raa, o defeito de no saber atar as ligas; apezar
ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
nacional ... Se, apezar de tudo isso, to desdenhoso, to frio, to
gloriosamente corrupto, traando a perna, descobrindo desleixadamente as
suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
attenciosa e benevola as scintillaes do seu correcto _plastron_ de
Poole, e as exhalaes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
cabello frisado  Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte no
saber negar.

       *       *       *       *       *

Tal  o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
medonho, tragico, sobre o qual Ea de Queiroz escreveu _O Primo
Bazilio_, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convico social, e 
esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo no tinha
seno convices esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
espirito da sociedade que fez a Revoluo, que caiu no Imperio, que
supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros no pediam  arte de
1830 seno uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas ento
cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradies
gothicas da edade media e fizeram uma restaurao litteraria e burgueza
da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipao
da forma mais profunda indifferena pela questes sociaes do seu tempo.
Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
phylanthropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa.  uma
sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
pontos da sua peripheria at as mais reconditas intimidades do seu ser.
Esta reconstituio no se est fazendo empyricamente pela revoluo ou
pela sentimentalidade, est-se fazendo scientificamente pela
convergencia harmonica de todos os esforos intellectuaes sobre o mesmo
problema. Comprehendeu-se que so solidarios todos os estudos, os do
mundo inorganico e os do mundo organico; que so correlativas todas as
leis desde a da indestructibilidade da materia at a da evoluo social;
que finalmente se no pde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle  o elo que
prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga to estreita,
que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
dos ramos da sciencia se reflecte na direco de todo o trabalho mental
em qualquer das suas manifestaes, dando por exemplo a theoria
zoologica da adaptao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
dizemos, a arte no pde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
trinta annos. Esse papel -lhe imposto fatalmente pela nova orientao
mental da sociedade. A arte moderna no pde j hoje basear-se em
risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
e para que tenha a importancia de um agente da civilisao, em factos de
caracter scientifico, isto : em factos que sejam a funco de leis
sociologicas. Queremos factos, no queremos exclamaes: _Res non
verba_.

Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepo litteral, que
se tirou a designao _realismo_.

Chamar realismo ao que  puramente grosseiro, ao que  descarado, ao que
 torpe,  calumniar o dogma. Uma obra de arte pde conter o maximo
numero de torpezas e de obscenidades e no deixar por isso de ser
simplesmente lyrica.

O _Primo Basilio_  um romance realista porque  a representao de um
facto social visto atravez de uma convico scientifica. Luiza, a amante
do primo Basilio,  a personificao tremenda da tendencia morbida de
uma epoca. E  n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
dos livros no premio que n'elles se concedia  virtude e no castigo com
que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
afflictiva  um facto accessorio, que no conteria seno esta moral
negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
cartas.

A moral d'este livro no est em que a prima de Basilio morre depois da
queda; est em que ella--_no podia deixar de cair_.

Reconhecemos que esta moral  pouco accessivel  maior parte das
comprehenses. Esse  o grande mal do livro, ou antes esse  o grande
mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppe um
estado de civilisao artistica e litteraria superior  que existe na
sociedade portugueza. Suppe manifestaes parallelas nas applicaes da
philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construces, na
hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituies, na
critica dos costumes, na propria critica da arte.

Ora essas manifestaes no existem por emquanto n'um estado de
vulgarisao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
_Primo Basilio_. A sociedade portugueza no comprehendeu ainda de um
modo collectivo e solidario, que  urgentemente indispensavel por todas
as manifestaes do pensamento proceder  reconstituio da educao
burgueza.

De sorte que o dizer-se, como n'esse livro,  mulher nossa
contemporanea: Eis--aqui est o modo pavorosamente simples como tu te
rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens,--parece um
insulto quellas que so as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
companheiras de trabalho, as nossas mes, as nossas irms, as nossas
filhas. Essa affirmao, porm, deixaria de ter um caracter
apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

Eu no sou um homem isolado no meio da sociedade a que perteno. Sou
uma parte d'essa legio de trabalhadores dedicados, profundamente
honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
ambio heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
minha qualidade de artista, a ti mulher que me ls, o mais que eu posso
fazer  commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereo-t'o eu tal como
elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
meio forado das gals, friamente calculador, sovina, absolutamente
pdre. E  esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
em preconceito, de erro em erro, s trazida, atravez de todos os
elementos que constituem a falsa educao que te deram, a admirar e a
proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
perteno ha uma religio, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
convergentemente estaro n'este momento--no momento em que eu tenho a
concepo artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehenso nova, assento
em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel.  religio
compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
demittir-se da soluo do teu problema.  politica, emprehender a
reforma das instituies em vista do teu aperfeioamente.  moral,
fazer-te comprehender a noo da justia.  sciencia, o determinar com a
maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
applicao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia.  critica,
finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porm, no me competia
como artista seno uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
these, fazel-a viver na maxima elevao esthetica: porque meio? por meio
da mais perfeita frma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.

Se com a natureza essencialmente artistica de Ea do Queiroz fosse
compativel a humildade de uma explicao n'essas bases, o seu livro
teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
artista tem a obrigao de se no explicar,--o que seria invadir uma
funco alheia na justa diviso do trabalho intellectual moderno. Ha um
gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
religio do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
como o philosopho deve ser indifferente  theologia, o artista deve ser
indifferente  opinio. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
se por um lado  a condio essencial da sua misso perante a pura arte
e perante a pura philosophia, por outro lado ella  a principal causa de
ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
a comprehenso dos espiritos e a satisfao das consciencias.

Taes foram as razes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
_Primo Bazilio_,--uma to perfeita obra, que a consideramos como sendo
uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
gloriar uma litteratura--ns fizemos esta prophecia: Que este livro
seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados 
observao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
biologia, instrumentos inuteis--s vezes perigosos--para todo aquelle
que no tem a sciencia de os pr em exercicio e de ver por elles a
divina revelao de um novo mundo.


       *       *       *       *       *


O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
exclamou:--Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta!

       *       *       *       *       *

O _Diario Illustrado_ no ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

Ora este caso no se pde deixar assim envolvido na duvida. So
historicas as palavras do sr. Sampaio ou so puramente uma legenda das
montanhas, inventada pela imaginao supersticiosa dos pastores dos
carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
de Tarbes? Pde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
a authenticidade d'aquellas expresses? Foi effectivamente o sr. Sampaio
que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
No seria antes algum dos outros heroes j celebres na historia da
cordilheira dos Pyreneus? No seria o paladino Rolando, sobrinho de
Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
Durindana na batalha de Roncesvalles? No seria o proprio Carlos Magno?
No seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
Champagne? No seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
da belleza da paizagem, entre os valles de Barges e de Bagnre?

Est o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabea do
sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
quem, depois de jantar,  janella da hospedaria, palitando talvez os
dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
dizeres?

Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem asss
convicto em suas crenas, asss profundo em suas vistas e asss firme em
suas resolues, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
jantar:--_Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
phrase no  uma fico, se ella existe realmente fra do estado
abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz no pde cruzar
os braos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra to lucida como a
que o _Illustrado_ cita marcou a differena, toda favoravel  nossa
patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!


       *       *       *       *       *


Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
especial:

1. Rir atraz da procisso dos Passos.

2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
viajante.

3. No ter dado pateada a um lente.

4. Parecer constrangido a dar lio.

5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

       *       *       *       *       *

Os alumos condemnados pela perpetrao dos delictos 1, 2, 3 e 4
appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
expulso temporaria em alguns dias de cadeia.

Procedendo d'essa forma o Poder Moderador no tomou em consideraoa
necessidade de fazer proceder  reviso da legislao academica. O Poder
teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sano dos regulamentos
universitarios s familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
mostrou ter um corao do excellente rapaz alliado a um cerebro de
legislador mediocre.

       *       *       *       *       *

Est pendente da confirmao regia, segundo nos consta, a pena imposta
aos reus do crime n. 5, julgados j segundo o direito commum e
absolvidos pelos tribunaes civis.

N'esta conjunctura perguntamos:

 admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidados de
uma certa classe estejam sujeitos por uma legislao especial a serem
julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punies em vez de
uma, se as duas sentenas forem conformes; ou sendo simultaneamente
tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenas forem
contrarias?

Responder-nos-ho que o tribunal academico julga de circumstancias
especiaes que no so submettidas  apreciao dos tribunaes ordinarios?

Mas n'esse caso o tribunal academico com relao ao crime de que se
trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar  Universidade cabe apenas decidir se o facto de
sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lio.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de no perder de vista que
quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontaps, o deshonrado
no  propriamente quem os d,  por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questes
d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltres e de
covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
que ainda possa haver na mocidade portugueza.

Todo o homem que se no acha devidamente temperado na sua natureza
physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal,  um homem
corromido, sem o sentimento do respeito devido  dignidde da sua
especie, atreito s paixes mesquinhas, com manhas de reptil.

       *       *       *       *       *

Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaas da
fora alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porm a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
cidados, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
sempre da instaurao de processos ridiculamente pueris, requerendo das
crtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
atrophiar no corao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
velha troa academica por meio da instituio de exercicios viris,
proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.


       *       *       *       *       *


No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
Deus segundo Taine  um personagem official com os seus cortezos e os
seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
Providencia n'um discurso da cora o chefe do estado fez novo discurso
para prehencher essa omisso,--na velha, na religiosa, na solemne
Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocuo
presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
seguintes:

Dir-me-ho que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
das religies e comprehendendo os dogmas da theologia e a crena no
livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
perverso sem esperana, o corao do homem, dir-me-ho que se fossem
abolidas as sances theologicas a raa inteira se modelaria por alguns
exemplos de depravao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladres e
assassinos. Porque  s o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
medo, no conheceriamos mais do que o instincto natural e
desconheceriamos o dever.

Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
concluses. O scelerado no  em minha opinio a imagem da humanidade.
_Bebamos e comamos porque temos de morrer manh_ no  a consequencia
ethica da regeio dos dogmas.

As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos so taes que nenhum
christo se envergonharia de as professar, e nenhum christo as censura
seno desde que conhece a origem de que ellas procedem.

Reconheo de todo o corao e sou o primeiro a admirar a irradiao
espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religio produz na vida de
varias pessoas que conheo. Mas no posso tambem deixar de confessar que
muitas vezes a relligio passa por estrondosas derrotas ao procurar
produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeo da religio 
frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenas
procedem de distinces primordiaes de caracter que a religio 
insufficiente para nivelar.

D uma verdadeira satisfao o sabermos que existam no nosso gremio
homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
e cuja vida, no obstante, experimentada na pedra de toque de uma
moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designao offensiva.

Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
aquelles termos, no que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
comparados a muitas noes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
em si um caracter offensivo.

Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel 
sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
cidado justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido to firmes na
morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles no esperavam a cora
celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram to
zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
emprego dos seus ultimos momentos.

Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
 christo, o outro no.

O christo  Faraday, que Tindal considera um modelo da associao da f
religiosa com a elevao moral. O seu caracter  o mais proximo da
perfeio. A religio era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolao
dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
delicada flor da cavalleria.

O que no  christo chama-se Darwin. No tem o ponto de vista
theologico nem a commoo religiosa que constituiam um to poderoso
agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeio moral de
Faraday. O sr. Darwin, diz Tyndal,  uma natureza candida e simples, um
caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
 o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador to docil s ordens da
verdade como o patriarcha antigo s ordens do seu Deus.

       *       *       *       *       *

Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
verdade, de justia e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente  cultura da
intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
moral independente de toda a especulao theologica. Que fecunda these
para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
presente dos espiritos, em que as convices do homem esto geralmente
em contradio com as crenas da esposa e da filha, e em que to
necessario se torna portanto  harmonia moral da familia o principio
fundamental da conciliao das consciencias!

       *       *       *       *       *

Na reunio do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
Haute-Sane, expe com uma conciso profundamente lucida as causas que
determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
aos esforos do obreiro comea lentamente a operar-se: os trigos
crescem. Crescem em virtude de que lei?

Tal  a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
respondem aquelles que so encarregados de o instruir e de o educar. A
noo que elle recebe cerca do modo como o trigo cresce torna-o
fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
embair. Qual  o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio 
ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
operario acrescenta:

Faz-se geralmente crr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
desenvolvem em resultado de uma fora cuja paternidade vem de Isis, ou
de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora  o deus de
Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
amadurecer nas mesmas condies em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
dos successivos templos e das successivas religies em nada tem alterado
as leis da natureza. E todavia d-se por toda a parte o mesmo estado de
coisas: O indio cr que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
v nos seus o grande Todo. Em outros sitios  Budha. Para os gregos e
para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia  o grande Lama. Na
Africa  a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporaes de
sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
Respondeis-me que  impossivel.  effectivamente impossivel, o que  de
certo uma desgraa! Esse porm  o facto historico, que no podemos
deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
sobre as questes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
geraes.

 a guerra,  a guerra de religies.  tempo de lhe pr um termo. 
tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
legislao humana e a moral universal.

       *       *       *       *       *

Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestes de idas e de
principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
convices de sciencia ou de simples bom senso so consideradas
perigosas e banidas das discusses publicas.

Debalde a historia da civilisao ingleza n'este seculo nos demonstra
que a tolerancia absoluta na manifestao do pensamento  a primeira
garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
das idas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
evitando assim que a orbita das applicaes praticas seja invadida pelos
principios que no foram d'ante mo sanccionadas na opinio e pelas
reformas que ella no exigiu em nome de novas necessidades provenientes
de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal  o
methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbaes graves
que a impaciencia dos reformadores, no experimentada na pedra de toque
de uma discusso liberrima, lanou na vida pratica de outras naes,
como succedeu em Frana depois do segundo imperio, que corrompia todos
os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

Em Portugal essa importante lio tem sido absolutamente esteril.

Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
mostraram uma ligeira tendencia para produzir idas, o governo sem
nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
manifestar posthumamente as suas idas solicitando para os seus
cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
expem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepes
theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
a impunidade d'esses professores, dizemos, no se deve attribuir 
tolerancia philosophica do poder. Ella  simplesmente o
resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servios
publicos.

Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
vergonhosos e mais crassos alheios  doutrina dos programmas. Ha lentes
que esto acima da lei pela mesma razo que ha outros que esto abaixo
d'ella:--por falta de inspeco e de policia.

Um facto recente d-nos a prova mais cabal de que o estado no 
solidario nos progressos scientificos da nao, e que estes se operam
no sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruco primaria!

Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
mais moos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sesso, publicado do
_Jornal do Commercio_), _no  adversario do desenvolvimento da
instruco primaria, porque no deseja que continue a subsistir o estudo
de ignorancia do nosso povo, onde a proporo dos que sabem ler  de 1
para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc.,  de 1 para 6.
Mas no deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
proprio. Pde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
e temente a Deus, que no queira mandar o seu filho a uma escola cujo
mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
maiores glorias, embora a instruco estivesse pouco diffundida, a nao
portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; no pretende dizer com
isto que deixe de se derramar a instruco, porque tambem  apostolo
d'esta ida, mas quer que essa instruco seja ao mesmo tempo moral e
religiosa._

A affirmativa de que a nao portugueza attingiu um alto grau de
prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruco
estivesse pouco diffundida_,  um erro de historia que o nobre conde
quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
no  pelo excesso de instruco em s.ex. que a gloria e a prosperidade
deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior no podia realmente
ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
quer achar a differena que distingue esse tempo do tempo actual,
compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragana.

D. Joo I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
litterato. Teve a honra de hospedar na sua crte o grande pintor
Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle s
para formar a educao esthetica de um povo do que dez universidades e
vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da crte
portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. Joo I um  o infante D. Duarte, o creador da primeira
bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Ferno Lopes. O
ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
navegaes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal  o
senhor D. Augusto, conhecido de todos ns por o termos visto passar no
Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
nacional, que o acompanhram e que fizeram grande impresso na City,
onde os tomram por duas vaccas sem pernas. Eram os bas de sua alteza,
feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhes, Diogo Co, Pedro da Covilh,
Gaspar Crte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
Henrique e seus irmos souberam attrair a Portugal, que procederam
escriptores como Ferno Lopes, Gomes Annes de Azurra, Gil Vicente, Joo
de Barros, Damio de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Cames, talvez o
mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
hoje, a no ser por influencia de alguns professores precitos e
apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
que vo para administradores de concelho ou para amanuenses de
secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
instruido.  certo que no sabia ler. Mas saber ler no constitue
propriamente instruco, mas sim um dos meios de instruco. Ora o povo
dispunha ento de outros meios superiores  leitura. O marinheiro e o
soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
confeco das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
de ento no sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pde gloriar a
litteratura de uma nao.

A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
instruco! E conclue d'esse absurdo que um povo pde attingir a
prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
accumuladas contradies do seu texto, em que s. ex. ora  apostolo da
instruco, ora  apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
seria apenas inoffensivo. S. ex., porm, conclue a sua notavel falla
mandando para a mesa o seguinte additamento  lei que se estava
discutindo:

_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
ensinar ou inculcar doutrinas contrarias  religio catholica,  moral,
 liberdade e  independencia patria ser demittido nos termos d'este
artigo, independente da aco criminal que deva ser intentada. Os paes,
tutores ou pessoas encarregadas da sustentao e educao das creanas
podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

Eis ahi o que se no admitte, porque esta disposio legislativa
proposta por s. ex. produz a fixao legal dos seus principios a
respeito da instruco, isto : que deve haver instruco e ao mesmo
tempo que a no deve haver. No  outra coisa seno eliminar a
instruco, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
de processo e demisso immediata do professor, aos principios da
religio catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um to
profundo abysmo entre a concepo theologica e a explicao scientifica
dos phenomenos do universo, que toda a conciliao  hoje impossivel
entre o mestre e o padre. No duvidamos que o christianismo possa ainda
reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
e definitivas conquistas do entendimento humano. O que  certo porm 
que a direco reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
desde a Reforma at hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
aspirao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
interesses oppostos  impossivel. Pedimos licena ao sr. conde do Rio
Maior para lh'o provar.

Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que  o diluvio
universal, que lhe pergunta qual  a idade da terra, que lhe pergunta o
que  o homem pre-historico, o que so as florestas carboniferas, o que
 o arco-iris, o que  o pra-raios, o que  transformao das especies,
o que  a Torre de Babel, o que  o Eden; supponhamos que o alumno faz
ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
formular cerca das affirmaes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
A essas perguntas o mestre no pde responder seno com o erro ou com a
heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptram a sua
emenda  lei da reforma da instruco portugueza desejam que o mestre
responda pelo erro.

Mas isto  peior do que pr de parte a sciencia; isto , recebel-a para
a contradizer e para a destruir; isto  converter a ignorancia publica
em uma instituio do Estado.

Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho,  luz de uma
lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
apagou-lhe a lanterna.

Quem foi que deixou no mundo esta lio?

Foi o theologo.

Um povo ignorante  um povo em trevas, cuja lanterna  a instruco. O
legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz  o sr. conde
de Rio Maior.

       *       *       *       *       *

Notemos porm um facto consolador:

O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
sensivel diminuio de fora. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
de um velho sangue que se decompe e se dessora. A ida que elle tem no
cerebro  uma ida que se extingue.

Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demisso
do professor e o processo pelos tribunaes civis.

Inclinemo-nos diante de to manifesta mansido!

Nos fins do seculo XVI o _pendo da santa doutrina_, um lugubre pendo
negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era ento o professor idealisado
pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
argumentando a doutrina christ a este povo. Todas as mulheres e todas
as creanas saiam s portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos ps do
tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
amortalhada de negro, de cruz alada, tangendo uma campainha, como quem
leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
methodos porque se mortificam os impetos da carne.

Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
os estudantes  missa, do que colhiam nas sacristias uma certido sobre
a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

Hoje a parte disciplinar da nossa educao religiosa caiu com o pendo
negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinria, resta apenas a
cartilha de Padre Mestre Ignacio.

E  sobre essa cartilha solitria, em torno da qual caram dissolvidas a
uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
instituio civil,  sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
ensino publico de uma nao!

       *       *       *       *       *

Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ no cessam de elevar
aos cus em todas as manhs e em todas as tardes:

_Meu Deus, tornae ridculos os nossos inimigos!_

O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
instruco indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
orao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
_Farpas_, um crio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!






End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz

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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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