Project Gutenberg's Do que o fogo no queima, by Jaime de Magalhes Lima

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Title: Do que o fogo no queima

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: October 14, 2008 [EBook #26914]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DO QUE O FOGO NO QUEIMA ***




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Jaime de Magalhes Lima


Do que o fogo no queima



Composio e Impresso
Emprsa Grfica A UNIVERSAL
111, Rua Duque de Loul, 131
PORTO




DO QUE O FOGO NO QUEIMA





JAIME DE MAGALHES LIMA


Do que o fogo no queima

PORTO
Empresa Grfica A UNIVERSAL
111, Rua Duque de Loul, 131
1918




PROLOGO

_A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em
mses e os seus mses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam
a legitimidade e os beneficios, no se rendem e nem sequer esmorecem,
no obstante a insistencia do flagelo que lhe d visos de necessidade e
condio natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperana[1]
no primeiro momento, suspeito a conveniencia, seno a obrigao, de as
repetir e corroborar quando o tempo e a perseverana entre vicissitudes
contrarias as fortificaram e disseminaram._

_Da este opusculo._

_Heresias no ser talvez o termo proprio; melhor diria se lhes
chamasse crenas. Heresia  uma palavra que as tiranias do fanatismo
fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de um
dominio insaciavel e da intolerancia, sem alis alcanarem discriminar,
e muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem
usava os poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se
prevalecia da robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo.
No fim, ambos encontraro porventura que fizeram acto de f a seu
modo--indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusao de
heresia sofreu o martirio. Este ser, na realidade, o crente, quem mais
de perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu._

_Aquilo que desse drama hoje vemos, e  objecto da vida politica e do
estado, no desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do
dogmatismo eclesiastico absolutista. Duas especies de patriotismo se
encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o
adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:--o patriotismo de
servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por
acto bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem
por misso e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo
que o outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o
que  um impulso de excluso e averso, uma avareza, e o que  uma
confisso de bem querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas
especies de patriotismo, como ha dois modos e duas aspiraes de cultura
do homem, conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as
concepes do patriotismo correlativas so apenas uma das suas
multiplices manifestaes:--ha uma cultura que consiste em nos aprestar
para calcar e escravisar os outros, e ha uma cultura que se esfora por
nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixes e as ordenarmos
e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o
cho e a que olha para os cus, a que  uma tarefa de sordidez, em que
se degrada, e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que
nestes tempos de guerra se tem passado com os que por imposio da
consciencia se recusaram a combater, particularmente o procedimento dos
poderes constituidos da Inglaterra com as centenas dos seus_
conscientious objectors, _o patriotismo inquisitorial, cujas torturas e
penas vo desde o fusilamento puro e simples, tanto da feio
peremptoria do rigor continental, at  priso, trabalhos forados e
perda dos direitos politicos, que so as solues predilectas, menos
severas mas por igual mortais, da tradicional liberdade insular,--isto
nos manifesta, dolorosamente, no s quanto so profundos os
antagonismos essenciais e latentes de que as sociedades modernas se
compem, mas tambem quanto  morosa a jornada no caminho e na ambio
daquela liberdade e respeito mutuo, quando amor no seja, para os quais
no ha heresias._

_Embora! Essa escabrosa jornada no cessa. Ali mesmo onde sofre
terriveis assaltos inimigos, a assinala triunfos e progressos. Um
momento de brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas
sobre as naes que participaram na guerra, rebarbarisando toda a
civilizao por alguns anos, na expresso violentamente exacta de
Carlos Liebknecht, que paga com desoito mses de priso a audacia
insubmissa das suas heresias, isso no bastou para aterrar ou desalentar
as consciencias certas dos seus direitos e imperio, e inabalaveis na
segurana de um eterno renascimento e vitoria final._

_Os sintomas so claros._

_No conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto
favoravel  perda dos direitos politicos do_ conscientious objector,
_sem que no tivesse de lutar com uma oposio veemente, na qual se
juntaram homens de todos os partidos politicos, no excluindo os mais
acentuadamente conservadores. Foi ento que, sem embargo do seu
declarado e esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma orao
magistral, combateu a idolatria do estado, que, tornando-o superior 
lei moral, perdeu a Alemanha na confiana das naes civilizadas; foi
ento que, em palavras memoraveis, se ouviu a reivindicao da
preeminencia do dever perante a consciencia sobre a obrigao perante o
estado.  na crena naquela regio de obediencia superior que nos impe
qualquer cousa mais do que aquilo que o estado nos pde pedir, e que nos
d qualquer cousa mais do que o estado jmais nos poder dar, que ns
temos de sustentar a grande causa em que nos empenhmos. s vezes
dizemos que combatemos pela civilizao. Mas aquele em quem o dever da
consciencia sobreleva  obrigao com o estado dir antes que
combatemos para que a civilizao se mantenha uma civilizao crist, e,
por certo, em uma civilizao crist  mal violentar a consciencia dos
sinceros,  mal impr-lhes uma obrigao que eles julgam corruptora e
contagiosa._

_Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as
legies de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se
apressa a dar-lhe uma confirmao eloquente. A falencia retumbante das
artes politicas dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa
das guerras, para ao fim confessarem que pela guerra no teem soluo os
problemas que ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo
politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais
insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas foras e,
desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras
quantidades e energias mecanicas alheias a toda a influencia das foras
intimas espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na
incapacidade demonstrada das diplomacias profissionais ortodoxas para
assegurar, no direi j a felicidade dos homens mas a paz das naes,
induz a procurar em outros poderes a fortuna que estes muito
contingentes e mesquinhos no souberam dar-nos._

_ nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto
resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que nem s de po
vive o homem, que a historia e a garantia unica da civilizao  o
alargamento progressivo dos limites da espiritualidade  custa da
restrio dos limites das materialidades, e que os combates a que o
nosso tempo teve o triste privilegio de assistir, no so mais do que um
momento de conflicto e de violencia entre isso que no  po e  vida e
se sente oprimido, e aquilo que, sendo po, sendo repasto do corpo, seu
sustento ou seu prazer ou sua fora, todavia e cada vez mais se mostra
alento insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e
intangivel, que os sentidos no tocam, e se chama simpatia, amor,
humanidade ou caridade, e sempre e afinal essencia da vida._

_Preparemos para esse banquete o nosso animo._


_Eixo, 15-1-1918._




Do que o fogo no queima


Se da onda temerosa que comeou a assolar a Europa e o mundo em 1914
consideramos apenas a espuma enxovalhada, no ha maior infamia, nem
maior crime e indignidade.  uma degradao de incomensuravel
profundeza,  a terra lavada em sangue pela ganancia abjecta das
tiranias da sordidez.

Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G.
Lowes Dickinson, compreendendo a opinio de milhares de homens, o
desalento de muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o
cinismo inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste
esboo a situao:

A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da
riqueza. Isto  universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades
de opinio que prevalecem nos diferentes paises interessados, ninguem
pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da
civilizao, em qualquer impulso generoso ou ambio nobre. Conforme o
conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente
da ambio da Alemanha, vinda  conquista de territorio e poder; e,
conforme o conceito popular alemo, nasceu da ambio da Inglaterra,
correndo a atacar e destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua
fora. Assim, para qualquer dos beligerantes, a guerra mostra-se como
imposta por uma pura perversidade, e sob nenhum aspecto tem justificao
moral de especie alguma. Estes conceitos, na verdade, so demasiado
simples quanto aos factos; mas... a guerra procedeu da rivalidade de
imperio entre as grandes potencias, em toda a parte do mundo. A contenda
entre a Frana e a Alemanha no governo de Marrocos; a contenda entre a
Russia e a Austria no governo dos Balkans; a contenda entre a Alemanha e
outras naes no governo da Turquia--foram estas as causas da guerra.

 a cobia de mercados, concesses e colocao de capitais que est por
detraz da politica colonial conduzindo s guerras. Os estados concorrem
ao direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos so
movidos e tutelados pelos interesses financeiros. O ingls foi ao Egito
por causa dos prestamistas, o francs foi a Marrocos por causa do
minerio e da riqueza. Em todo o Oriente, no mais proximo como no mais
distante, so as concesses, o comercio e os emprestimos que levaram 
rivalidade das potencias, a guerra sobre a guerra, s _expedies
punitivas_ e, ironia das ironias! s _indemnisaes_, extorquidas como
uma nova forma, e especial, de roubar os povos que se levantam
esforando-se por se defenderem dos roubos. Por um momento, as potencias
combinam suprimir a vitima comum; no dia seguinte, lanam-se umas sobre
as outras a disputar o espolio. Estes so realmente na sua nudez os
factos sobre as questes entre os estados a respeito da politica
comercial e colonial. Emquanto a explorao dos paises menos
desenvolvidos fr dirigida por companhias, no tendo outro fim seno os
dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos
governos, emquanto as expedies militares acabando em anexaes forem
postas aos hombros do publico por motivos que no podem confessar-se,
ho-de acabar em guerra as naes que comearam pelo roubo, e milhares e
milhes de vidas inocentes e generosas, as melhores da Europa, ho-de
perder-se inutilmente, sem fim algum, porque interesses sinistros
jogaram na sombra a paz do mundo em proveito do dinheiro das suas
algibeiras.[2]

Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a
ruins paixes de dominio, avareza e sensualidade as multides inocentes,
o trabalho, a candura, a honestidade e o heroismo--cifra-se nisto a
historia militar do mundo. Estas seriam as causas da guerra, as da
ultima como as de quantas a precederam, esta a sua unica e eterna
maldio. S o que se viu com as companhias de navegao, e  publico,
desilude os menos crentes nas infamias da guerra. Quando as familias dos
que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e proveito dos que
os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de navegao, e tambem
dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento,  custa da
anciedade e atribulaes daqueles que criaram os filhos imolados nas
batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo
sangue que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no
cho esteril dos combates.

No duvidemos, a guerra e a ignominia so filhas do mesmo ventre.

Mas no duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia
corre a fazer as suas presas; outras foras se erguem que as dominam e
confundem. E sobre os destroos da politica, de ordinario infame,
floresce de continuo a consciencia moral, to pura na aspirao como
lenta mas inflexivel no crescer.

Estranha sujeio das potestades! Essa fortaleza satanica no  s por
si to robusta que prescinda da proteco do bem dos povos, da iseno,
do patriotismo, da fortuna moral dos homens e das naes, e de outras e
infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os
nossos sonhos. Para que as ambies da sordidez prevalecessem e
colhessem o seu quinho na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes
necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade
humana. Pressentiram que s por esse compromisso levariam os exercitos
s batalhas. Por uma singular escravido, a sordidez sujeitou-se 
nobreza. Talvez mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda
de impostura; mas sujeitou-se, no sem ignorar de que por fora ter de
cumprir muito daquilo que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu
poder as armas e o fogo, quanto  necessario para devastar a terra e a
embeber no sangue. E essa mesma sordidez armada, sentindo fugir-lhe o
poder perante qualquer cousa que o fogo no queima, aceitou a tutela e
imperio de foras imponderaveis e jurou-lhes fidelidade. A fora fisica
na sua maior opulencia destrutiva no sabe combater, sente-se
insuficiente, se no tem em seu apoio um principio moral que a legitime.
Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se necessario
convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava as
atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.

Eis a o facto capital de cuja compreenso depende a determinao do
caracter e mais profunda significao desta ultima fatalidade que ps as
naes em guerra--no so os principios que dependem das armas, so as
armas que dependem dos principios. Pelo gru em que as armas dependem
dos principios se afere a altura da civilizao de uma comunidade e de
uma poca, e pelo desrespeito ou pela corrupo dos principios se
julgar da profundeza da sua degradao. O progresso da humanidade 
puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a
penetrou e rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem
do que o fogo no queima. Se se ateiam,  porque aquela essencia eterea
lhes falece; se abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. Por
muito que condenemos os chefes negligentes e as castas desapiedadas que
vivem pela guerra, a fonte real do mal  o sentimento popular em que se
apoiam. A lio que a temos a aprender,  que as doutrinas e paixes
enraizadas, de que essas desgraas provm, s podem ser removidas por um
lento e firme labor das foras espirituais. Aquilo de que principalmente
se carece  a eliminao dos sentimentos cujas instituies alimentam a
inveja e o odio, e preparam os homens para a desconfiana e para a
agresso. (Lord Bryce).

Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade
essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as
saras que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam;  um arrojo
de sinceridade,  um processo terrivel e crudelissimo de pureza,
desprendendo os principios, a suprema razo de ser da humanidade, das
miserias infinitas que os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo
essa aparente contradico em uma imagem feliz, que s de noite as
estrelas brilham.

Se ha certas cousas eternamente belas que subsistiro quando a guerra
passar, tais quais eram antes da guerra comear e tais quais sero
sempre, e se o nosso dever  concorrer para as manter vivas,
compreendendo-as e amando-as (Gilbert Murray), a guerra que nos
angusta seria talvez perante essas cousas eternamente belas uma
experiencia, um transe de morte precedendo uma ressurreio esplendida,
de esplendor mais alto que todo aquele que precedentemente as houvesse
coroado. Porventura a guerra veio a combater pela violencia uma
civilizao turbada e enlouquecida pela sensualidade, uma civilizao
que nem soube acautelar-se pela persuaso nem corrigir-se pela
experiencia pacifica; ser a febre de uma infeco que a higiene no foi
capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de inteligencia,
que no por escassez de recursos.

O que vimos  luz desse brazeiro e que no viamos claramente antes que
ele se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, 
como uma aurora de redeno e esperana, como uma certeza divina.

Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, no  de
inteligencia,  de caracter. De que o mundo carece no  de uma nova
ordem nas cousas e nas instituies e inventos que as regulam; a antiga
muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece 
de melhor ordem nos coraes; o passado lho revelou pela sua historia e
o presente lho confirmou pelas provaes. De que o mundo carece, para
sua luz e ventura,  de mansido, dessa eternidade que o fogo no
queima; no  de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lana ao vento.

De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra no possa
gerar seno a guerra, por mais subtil que seja o esforo para a
transmudar em benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou
militar, ficar por nascimento sujeita  concepo inseparavel do ventre
de soberba e avareza que a gera; smente ser efectiva e fecunda quando
derivar de um renascimento da politica, da diplomacia e dos exercitos no
espirito religioso que se lhes insinuar. Fra disso ser uma fico e
uma iluso, transitorias e mentirosas como todas as fices e iluses
que os cataclismos infernais das criaes humanas se encarregam de
dissipar com a maior dureza.  inutil cogitar combinaes, tribunais e
semelhantes subterfugios para protelar em esperanas vs o que s ao
espirito pertence e s ele pde dar. As civilizaes vulgarmente
chamadas decadentes e decadas, porque minguaram em poder militar ou de
todo o perderam, so bastas vezes as que predominam, embora destituidas
de bens e foras temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo
que pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raas so os mortos
que governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das
aspiraes, e das energias morais em que essa eternidade se revela,
sobrepe-se s vicissitudes efemeras do tempo e completamente as
subordina, ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de
homens e a aniquilao de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos
a liberdade, Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na
piedade foram superiores a toda a corrupo, ruina ou escravido,
governam hoje mais ampla e firmemente do que na hora em que o poder
politico as servia; como, modernamente, a Frana no fulgor da sua
inteligencia, ou a Inglaterra na acuidade dos instintos morais, ou a
Russia na abdicao religiosa, ou a Alemanha na intuio das
temporalidades, so imperios fundados de uma vez para sempre,
insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da nossa
existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro
lhes tenha reservadas. A vida dos estados  nada, um instante
passageiro, comparada com a vida das civilizaes que, se realmente o
so, se realmente significam o desenvolvimento e afirmao progressivos
de uma alma, de uma relao com o infinito na existencia sensivel, no
admitem perda nem retrocesso, e nem sequer quebra de expanso. A riqueza
do espirito, porque no  deste mundo, embora neste mundo habite, no
depende das contingencias politicas das naes; a todas  superior, e
porque  superior, por nenhuma foi ou ser vencida. S pela riqueza do
espirito os povos se engrandecem e vencem ou sero vencidos; o resto 
acidental.

O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica
ultimamente precipitou os estados e as naes  qualquer cousa como um
terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e remotos as
ruinas de que os canhes cobriram a terra. Uma revoluo social se
efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido
por instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a
maior iniquidade e levantaria as pedras das caladas, subitamente foi
admitido como o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado
monopolisou o po e o fogo, e os povos submeteram-se; todos os
interesses individuais e de classe foram indistintamente imolados a
obrigaes sociais, demonstradas ou hipoteticas, e, embora no tumulto
proprio de semelhante radicalismo se insinuassem as torpezas
inseparaveis do remexer das riquezas, os povos consentiram pacientemente
na dolorosa e inaudita expoliao. Naufragaram na tormenta liberdades
que haviam custado o sacrificio de geraes inumeraveis e o martirio de
centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovao de
despotismos curvaram-se sem lamentos  fatalidade que lhes vinha em nome
da salvao publica. Evidentemente, se no houve a criao instantanea
de novos deveres, houve, pelo menos, uma reviso pratica e efectiva da
escala e amplitude dos deveres e dos direitos, a qual no pode fundar-se
em outra cousa seno na transformao da consciencia moral das
sociedades.

Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e
moral, ou  uma ruina na qual vo sepultar-se os melhores sonhos que nos
alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?

O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na _Atlantic Monthly_
de abril de 1916, e intitulado _Juizo de um Filosofo sobre a Guerra_,
responde a esta interrogao com uma preciso e profundeza devras
notaveis. Quanto dessa lucida apreciao das duvidas angustiosas que a
guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrio feita na
_Public Opinion_[3] onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e
guardar, pois melhor condensao da suprema e decisiva influencia dos
problemas morais deste momento da nossa civilizao no encontrei na
torrente de escritos que a preocupao dos aspectos morais da guerra
suscitou, interessando os mais altos e nobres espiritos do nosso tempo.

A causa dos Alliados vencer, diz o conde Hermann Keyserling, de uma
forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.

 inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional
que provocou esta catastrofe;  inteiramente inverosimil que os novos
tratados que teem de se fazer, no sejam uma reflexo das aspiraes e
esperanas de todo o mundo; o purgatorio desta guerra ter de consumar a
decadencia, transmudar em novas as velhas formas, acelerar o seu
desenvolvimento, aclarar o espirito-das naes.

Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a
paz em termos reaccionarios; jmais seria aceite pela opinio publica, e
no duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanh ser muito
diferente da Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha
mudado muito. Como a Frana, como a Inglaterra, como a Russia, ou ter
encontrado a sua nova alma ou, pelo menos, no estar longe de a
encontrar. E essa alma ser a de uma nao intensamente democratica.

No ha pois razo para pessimismo, apesar do horror da situao
presente. A guerra no pde ser seno horrenda, quando pelejada nas
propores gigantescas e com a intensidade de paixo que agora se
mostraram. Se os melhores entendimentos parecem cegos e os melhores
coraes se deixaram turvar pelo odio, a condio da maioria deve ser
pavorosa.

Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, _significam_ muito
pouco, desde que os homens durante a febre no so o que so; e a maior
parte dos horrores sero logo esquecidos, tal qual como com as pessoas
mais sadias que, depois de terem escapado de uma doena mortal, pensam
pouco nos sofrimentos por que passaram.

No esqueamos nunca que esta guerra significa uma crise
constituicional e que nesta conformidade temos de a julgar. S ento
seremos capazes de compreender as suas fases.

Digo que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto no implica,
todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela se
props.

Ser impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez
para sempre impea a violao dos tratados; uma nao ssinha no ter
possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um
individuo pde desprender-se dos laos sociais e de parentesco e seguir
exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista no tem
possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises esto
habitados em comum por diferentes raas. Mas, em vez disto, teremos
melhoria em outras cousas.

Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava
uma nao a oprimir outras naes, ser condenada, dando logar a uma
nova ideia, baseada exclusivamente sobre consideraes economicas e
militares, e deixando plena independencia a todas as naes quanto aos
termos da sua cultura. Muito provavelmente, o equilibrio futuro da
Europa depender, mais do que dantes, da colaborao sobrepujando a
oposio, o que s por si tornar menos frequentes as guerras.

Mas so inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa
certa  que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de
acelerar na vida interna das naes e nas relaes internacionais
aquelas transformaes que cada ano se teem mostrado mais urgentes e
cujas formulas ninguem, por agora, pde encontrar.

Ha uma inteno no labor cego da Historia.

No quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons;
muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos no podem deixar
de ser desastrosos. A morte prematura de milhes dos mais robustos e
melhores no poder beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos
semeiados ho-de estorvar por algum tempo toda a convivencia
internacional.

O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro
momento:--_Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui ser la
vaincue._ A um to longo e terrivel esforo ha-de seguir-se uma reaco,
uma depresso temporaria tanto mais acentuada quanto maior fr o
levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente
ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos
imediatos desta guerra podero ser francamente negativos.

Todavia, no retirarei uma s das palavras de esperana que escrevi,
nem que eu soubesse que nos esto reservados acontecimentos peiores
ainda do que aqueles por que temos passado.

Porque o progresso que realmente importa  o progresso no idealismo, e
este no pde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais
longos que eles sejam.

Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revoluo
Francesa? Materialmente no, nem em principio nem depois. Ainda mais:
mesmo hoje se pde pr em duvida se  consideravel o beneficio da
condio material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos.
Mas mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas;
e isto  que  superiormente importante, porque s uma mudana de
consciencia das cousas  capaz de mudar intimamente as proprias cousas.

O espirito afeioa a materia muito lentamente.  isso certo. Mas, por
isso tambem, nenhuma outra cousa a afeioa absolutamente.

A lei s comeou a ser o reflexo da rectido no dia em que os homens
comearam a conceber o que a rectido significava.

As instituies, s por si, so nada. As mais perfeitas que se possam
imaginar, so meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno
impulso da paixo, se no exprimem um grau correspondente de compreenso
espiritual.

Assim, a civilizao perfeita da antiga Roma no pde subsistir porque
apenas exprimia uma compreenso limitada; e, pelo contrario, o germen de
uma penetrao mais profunda lanado pelo Evangelho de Cristo nas almas
barbaras tornou-as aptas para um infinito progresso.

Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetrao
espiritual e a exteriorisao. No principio da nossa era a penetrao
era profunda, mas o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta
parece infinitamente superior quela. Isto explica o incomparavel horror
desta guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa
civilizao externa e o estado das nossas almas. Mas este horror
abre-nos os olhos do espirito.

Nunca mais e em parte alguma a opinio publica suportar os processos
tradicionais e profundamente imorais das relaes internacionais; nunca
mais admitir conscientemente que o poder  o direito. A nossa
consciencia das cousas ha-de mudar, e esta  a unica especie de
progresso a tomar em conta. No ha desastres materiais que anulem essa
conquista.

S o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento
material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimir, por si
mesmo, em sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente
caber-nos depois da guerra, seja qual fr o caminho que os
acontecimentos materiais tomem.

Ns, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu,
julgamos muitas vezes injusto que fossemos ns os escolhidos para esta
terrivel experiencia.

Console-nos a ideia da retribuio deste sacrificio.

No fossem os nossos sofrimentos, no fosse a desgraa que ns ao mesmo
tempo padecemos e causamos, e aqueles que ho-de vir depois de ns no
seriam capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o
conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em aco e vida,
no  menos verdade que s as aces consumadas do origem, em regra, a
novas realizaes.

Um mundo novo nunca nasceu seno da agonia do que o precede.

Nem porventura ser necessario esperar o fim da guerra e das suas
calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformao
salutar que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling
agoura em termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde j; alguma
cousa dessa redeno se mostra j fundada e inabalavel.

Se o mundo se acha ainda entregue  violencia estupida e cruel da fora
puramente fisica, se ainda abundam os que nela crem com um fetichismo
barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilizao, entretanto a
propagao de um sentimento vigoroso de desprestigio da fora a condena,
seno  miseria de um facto de abominao, pelo menos a um estado de
sujeio e escravido sob o dominio de poderes mais altos. No ser
propriamente o desprestigio da fora esse julgamento dos seus feitos e
crimes ao qual temos assistido, mas  desde j, e claramente, o
sentimento das responsabilidades da fora. O imperialismo e as suas
armaduras de ao e as suas tiranias e magistraturas vo a retemperar-se
em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe exigem, por
titulo de admisso, que de apanagio e privilegio, instituido em proveito
da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se
converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. Depositario
da fora, e no o seu livre possuidor, o imperialismo moderno, para
legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, cede a impulsos que
j de longe lhe vinham turvando a liberdade e o absolutismo, e tem de
cohonestar a ambio do dominio, e os interesses dos que dominam e
regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das
responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna
das naes e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob
a sua proteco e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um
simples instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de
avareza ter de passar, por efeito do progresso moral e das obrigaes
politicas correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa
transformao que a evoluo moral das sociedades vinha reclamando
lentamente, incitando e conquistando a custo, foi agora subita e
singularmente apressada pela violencia da guerra, pelas suas dores, pela
experiencia e desenganos de que ela se tornou portadora sinistra, todas
inclinando a crr que o imperialismo, para ser um processo de ordem
politica e como tal escapar aos impetos de uma reaco anarquica, ter
de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e inspirao de altos e
generosos deveres. S por estes e pela fidelidade com que os observar,
s pela actividade e pela soma de bens concretos que importar para a
felicidade dos povos, ser aceite e querido. Confiado apenas ao
prestigio das armas e  ostentao da soberba e da crueldade, da avidez
e da injustia, erguidas estas em seus tronos de riqueza, jmais ir
alm das criaes gigantescas que a historia nos mostra dissolvendo-se
invariavelmente na corrupo do seu proprio sangue. A desiluso
tornou-se completa no meio da catastrofe.

A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta
feio de servio do proximo, no s ao imperialismo politico, ao que
usa canhes, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a
todos os demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos
imperialismos das oficinas como at aos simples imperialismos
domesticos. Por fora da dolorosa eloquencia de um momento que revelou
na sua nudez a miseria de todo o isolamento orgulhoso dos homens e das
naes, sucede a urgencia da solidariedade e da cooperao quele
apetite de dominio, explorao, sujeio e posse que tem sido a alma de
todas as escravides e servides. Nesta lugubre escola, o capito de
armas aprendeu a respeitar o soldado, como o patro o operario, e o amo
o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens como das cousas, a razo
do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova liga. Isentou-se de
estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava s multides que o
cercavam: Os animais bravios que esto espalhados pela Italia teem suas
tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, que derramam
o seu sangue em defesa da Italia, no teem outra propriedade seno a luz
e o ar que respiram; sem casa, sem morada certa, vagueiam por todos os
lados com as mulheres e com os filhos. Os generais enganam-se quando os
exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus templos. Em to
grande numero de romanos haver um s que tenha um altar domestico e um
tumulo em que os seus antepassados repousem? No combatem e no morrem
seno para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os
senhores do universo, e no teem de seu um palmo de terra.

Vinte sculos passaram desde que o mundo jazendo na servido desmentiu
na ironia e na crueldade dos factos a violenta aspirao do tribuno;
mas, feita daquelas cousas que o fogo no queima, prevalecia e durava
atravez de toda a derrota, e hoje vemos o que a justia das geraes lhe
guardava. Porque as plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, j
aprenderam a preguntar porque e para que  que l vo, e os que as
mandam j no sentem em seu poder arte de engano ou energia de captao
que lhes d segurana bastante para negar e roubar aos que combatem o
seu quinho na patria. Com pasmo vimos a Inglaterra estabelecer o
servio militar obrigatorio, mas talvez na surpreza muitos se
esquecessem de considerar que essa violencia feita s liberdades
tradicionais daquele pas era a democracia continental com o seu cortejo
de igualdades passando o Estreito, e, se no derrubava de um golpe o
remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dir, suspendia-lhe,
pelo menos, todas as garantias de estabilidade. O exercito deixou de ser
o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente  sua
voz; tornou-se em obrigao de defesa, comum a todas as classes e para
cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e
imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova
lei:--Cada homem, cada voto.  a igualdade do poder politico, preludio
certo e sabido das reivindicaes igualitarias continentais, ameaando
as desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra,
com a liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das
velhas aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela
origem das antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses
depois de estabelecido o servio militar obrigatorio, aparecia na camara
dos comuns uma proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o
_Times_ dava fros de cidade  discusso da conveniencia da constituio
de um partido republicano na Inglaterra, que esse jornal alis combatia
mas discutia, o que s por si  sinal dos tempos.

Por outro lado, a presso dos confrontos proprios de toda a angustia em
que as provaes nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes
desgraas teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em
sentimentos menos platonicos dos que aqueles que at agora prevaleciam
nas academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradies e
prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do seu
espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes
insinuando-lhe o tumulto e turvao do conflicto de diversissimas
aspiraes, algures a situao era diferente. Emquanto a Europa
arrastava entre fadigas e penas infinitas esse fardo que  a sua gloria
e a sua grandeza, e tambem, bastas vezes, o residuo morto da sua vida e
o estorvo fatal da sua vitalidade, alm do Atlantico filhos seus, que
ela criou e amamentou com o melhor do seu sangue, tinham fundado naes
opulentas de riqueza e felicidade, e regendo-se por principios assz
diferentes dos que nos preocupam e governam, e emancipadas em larga
escala do que a ns nos causa dano.

Ns, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de
bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos
envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da
dignidade e at da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de
caixeiro a magistrado, no raro inclinados a tomar por honra a
hierarquia social e a profisso, rebeldes a perceber que a honra  um
facto de consciencia e no depende da condio economica e da
classe,--com qualquer coincide e a todas pde ser alheia,--temos visto
com frequente desconfiana o desenvolvimento da grande Republica
Norte-Americana, suspeitando da sua nobreza e temendo, seno mesmo
aborrecendo, a rudeza das suas energias violentas, desprendidas de todos
os moderadores que entre ns lhes minguariam a expanso e os impetos. O
governo da multido e a paixo mercantil afiguram-se-nos por vezes uma
degradao, quando os referimos s hierarquias tradicionais e
hereditarias que nos andam no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias
de desprendimento dos bens da terra que essas fidalguias desprezam por
ignominiosos, sem embargo de consentirem que o seu desprezo sirva tanto
 elevao da alma e  generosidade como  ociosidade indigente e ao
desamor do trabalho.

Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando
mais uma vez na condio dos que nos aparecem melhor armados de espirito
e corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, no
podemos furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto no haver
constituio social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das
velhas civilizaes europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades
democraticas que desde Plato tivemos por portadores de depresso, no
redundam afinal na supresso de todas as superioridades e excepes,
compensando-a amplamente pela elevao economica e mental da mediania e
do comum. Sem embargo dos muitos descontos que necessariamente ha a
fazer em todas as prosperidades, o certo , e evidente, que os
Estados-Unidos da America, dentro das suas formulas democraticas e seja
qual fr o muito mal que das democracias possa dizer-se e verificar-se,
alcanaram uma situao politica admiravel, emquanto os Estados-Unidos
da Europa, to orgulhosos de saber, experiencia, ordem, categorias e
tradies, so ainda do reino da utopia, para o maior numero, e uma vaga
esperana, para um reduzido optimismo que teima em no descrr do
progresso moral da humanidade. No sem boas razes, a democracia
europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista transatlantico,
precario, a praso, sujeito  sorte da inteligencia e dos bons negocios,
ser mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar dinastico,
nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigao de
capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem
mesmo quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das
nossas terras se os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz
em que vivem se, em logar de se organisarem democraticamente, tivessem
fundado monarquias com as respectivas dinastias. E os factos recentes,
particularmente o que se tem passado nos Balkans, e estes opressivos e
indeclinaveis confrontos semeiam perplexidades, demasiado bastas para
nos deixarem caminho aberto e plano pelo qual possamos sair afoitamente
de semelhante labirinto.

Nem mesmo ser de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da
comparao da Europa e da America, alegando que as tradies da Europa e
a juventude da America no autorisam aproximaes. No, as tradies da
Europa so as tradies da America, e a idade da consciencia e da razo
de um e outro continente  a mesma; quem fundou as naes de alm do
Atlantico foram europeus repassados do que as civilizaes europeias
tinham de mais profundo. A diferena, onde a haja, depende apenas de
descriminarmos em que ramos da tradio, que muitos eram, se fundou a
civilizao americana, e em que ramos da tradio se manteve a
civilizao da Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as
ilaes praticas do confronto, de saber se foi a Europa ou a America que
se desenvolveu nos ramos sadios, qual dos dois continentes teve a
infeliz sorte de se aferrar aos ramos decrepitos, invadidos de toda a
casta de musgos e liquenes, continuamente sujeitos a inumeraveis doenas
parasitarias.

Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilizao
europeia, imaginando a America demasiado moa ainda para muito poder
sentir e pensar, para quem apenas tenha observado na America a torrente
do seu mercantilismo e a julgue destituida da alta espiritualidade que 
o nosso brazo, convm notar que os livros de Tolstoi se vendem aos
milhes nos Estados-Unidos da America, e os de Ruskin so lidos mais
largamente na America do que na Inglaterra.[4] A mais alta elevao da
alma de que a Europa foi capaz no sculo XIX e que esta personificou
esplendidamente em seus profetas,  comum na sua disseminao e
influencia s praias de aquem e de alm-mar, porventura mais querida na
terra virgem do que no cho exausto. E quem hoje reler _A Americanisao
do Mundo_, do extraordinario jornalista que foi W. T. Stead, ir
encontrar ensejos de aplauso e de admirao de uma larga previdencia,
nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos estimulado
apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos
publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os
seus navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito
volumosa bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito
em grande parte. No se amiudaram os momentos em que as palavras do
presidente Wilson teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas
juraram os estadistas encanecidos do velho mundo?!...

Destas divagaes do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se
salva, porm, intacta--a condenao da violencia como processo politico.
Em toda a hipotese chegamos  certeza--e essa certeza constituir um
poder politico de suprema importancia--de que para a prosperidade dos
estados e das naes valer sempre mais organisar do que armar; mais se
fortalecem as naes pelo desenvolvimento e coordenao das suas
relaes internas e externas do que pela invulnerabilidade
restrictamente militar. Nas naes como nos individuos, a saude
politica, como a saude fisiologica, ser mais um facto de equilibrio e
ponderao das suas energias do que o desenvolvimento sumo de qualquer
delas, seja qual fr, fora militar ou capacidade muscular. Se os
Estados Unidos da America no nos facultassem elementos decisivos nessa
demonstrao, bastaria para nos induzir em semelhantes concluses o
confronto da soberba e prolongada expanso pacifica da Alemanha antes da
guerra com os destroos de varia especie, economica e moral, acumulados
pela cegueira da sua febre guerreira, desde o dia em que se julgou capaz
de manter e acrescentar a grandeza por efeito e graa da violencia
militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento participava da
natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma extenso
incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia pelos
povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia da
fora  insinuao do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades
mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que
prostrou a terra e os nossos coraes na desolao, nessa hora brilhou
com um novo e imperecivel esplendor e que o fogo no queima; nessa hora
nos convencemos, subjugados pela dr e esclarecidos pela experiencia,
que a essencia da vida das naes, o que torna os seus povos eleitos ou
condenados, dignos ou infames, felizes ou desgraados, ou at mesmo
ricos ou pobres,  a sua alma, a sua aspirao, a sua f e a sua crena,
o seu caracter moral e religioso, perante o qual o saber e a fora so
unicamente uma iluso e uma insidia, uma traio tarde ou cedo destinada
a conduzi-los  vergonha e  miseria, se um instinto salvador no lhes
ensinou a disciplinar e conter esse saber e essa fora na obediencia a
uma aspirao superior.

A fortuna dos povos  em ultima analise questo moral, questo de
psicologia, traduco do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente
positivo de uma alma.

Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de
Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas
consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz
imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivao
psicologica da fortuna das naes em dois livros[5], que, a meu vr, so
das lies mais lucidas e serenas que o tremendo conflicto provocou.

Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro,
com rios de sangue, e da qual as geraes futuras tero de resgatar por
meio de incalculaveis e prolongados sacrificios as naes modificadas e
de todo empobrecidas, no foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos
colaboradores e interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra
proveio das tendencias e desordens da psicologia dos povos; as
cogitaes da filosofia e as inquietaes morais e politicas
correlativas que precederam a catastrofe e se amiudaram durante largo
tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre as convulses em que
haviam de rematar. Durante estes ultimos doze anos, imediatamente antes
de 1914, juntaram-se e cresceram na Europa os elementos de desgraa--um
grupo de estados inflamados pela consciencia da sua nacionalidade,
avidos de grandes presas, descontentes com cada distribuio,
emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos guias
espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia,
prontos a sujeitar-se  disciplina e s fadigas por amor de esmagar os
outros, e, se a confiana agressiva abrandava, sustentados na sua
propenso pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia
provocavam. Esta foi a dilatada condio de combate moral que vimos
tomar corpo em sua traduco fisica, nos factos.

Aqueles que ha trinta anos saram das escolas impregnados de
naturalismos, lutas pela vida e ambies e processos politicos
consequentes, sabem perfeitamente a que especie de direitos e deveres
essa sciencia e essa moral conduziam, e o que logicamente preparavam 
Europa, quando das bibliotecas e dos compendios universitarios, todos
revestidos da dignidade do amor  verdade, passassem a ser trocadas em
moeda corrente na pratica da vida publica e do comportamento individual,
em toda a escala das relaes com o proximo, ou o proximo fosse uma
nao de alguns milhes de habitantes, ou um simples mendigo que se nos
atravessasse na estrada e despedissemos por _vencido_ e _inferior_, ou
um mercador que nos acotovelasse no caes da alfandega e atropelassemos
para dar a precedencia ao nosso fardo. A sciencia e a filosofia,
legitimando toda a casta de soberba e avareza, acharam _natural_ a
brutalidade. Era o colapso absoluto da simpatia, do respeito, da
caridade e da justia, de todos os velhos bordes, apoiados nos quais
tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e cinco sculos,
para fundarmos as criaes singulares a que chamamos a familia, a nao
e a religio do amor dos homens.

Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invaso
materialista, esqueceram, porm, que a arvore tinha raizes e que, por
muitos ramos que lhe partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra,
e ao primeiro alento da primavera novos ramos iam crescer do tronco e
florir, em tudo semelhantes aos antigos. Esqueceram que as naes, como
a nossa alma, teem uma historia e instintos alimentados e avigorados no
correr dos tempos, e no haver foras de raciocinio nem impetos de
destruio que os arranquem do seu temperamento; esqueceram que a nossa
civilizao tem um caracter e esse caracter, residuo da fermentao de
uma longa vida, constante em sua essencia,  que afinal ha-de marcar-lhe
a linha de progresso atravez de todas as contingencias.

Mas no o esqueceu quem, desconfiando das indicaes dos tubos de
laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos
sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepo da vida no exame da
consciencia e nos livros do passado, a descobrindo as razes do
presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, o
passado assegura-lhe que as civilizaes no morrem por calamidades
externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilizao
romana cau, no porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu
corao estava fraca. Antes disso, o genio do helenismo morrra nas
longas guerras intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes
arrancaram o corao daquela vida civica que era simultaneamente a fonte
de inspirao do poeta, do artista e do filosofo. O que criou o
conflicto da Alemanha com as naes do Ocidente e com a Russia, foi uma
divergencia de alma, porventura um atrazo. Na realidade, a Alemanha
pouco participou daquele novo impulso democratico, humanisante, que se
ergueu na Inglaterra do sculo XVII e ainda mais vivamente na Frana do
sculo XVIII. Por differentes vezes e por diversos lados, desde a
Holanda do sculo XVI at  Blgica de 1914, as naes da Europa
ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para este espirito
de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes deles
tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para
a deram o seu quinho. Mas este espirito  a criao do Ocidente, e
foram elementos da sua escola que em maior ou menor gru levedaram a
estrutura politica e social da Europa central e oriental. Tocam tambem
a estrutura da sociedade alem, mas no se tem ponderado suficientemente
que o corpo principal do pensamento alemo se conservou alheio a este
movimento desde o comeo do sculo XIX. No foi assim ao principio:
Kant, o maior dos pensadores alemes, manteve uma inteira simpatia com o
humanitarismo do sculo XVII, e Fichte foi um idealista cujas lies
representavam uma fora de peso a favor da liberdade na luta com
Napoleo. Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento
academico na Alemanha associou-se, e cada vez mais, com os poderes
estabelecidos. O liberalismo que havia na Alemanha morreu em 1848. A
Alemanha fundou ento uma cultura propriamente sua, baseada em uma noo
do estado e das suas exigencias, do individuo e dos seus direitos sobre
o resto do mundo, que a civilizao ocidental repudiava.

Ora, olhando pelas naes do mundo, com excepo da Alemanha, no vemos
sinais alguns de quebra de f naqueles principios. Pelo contrario, vemos
que as naes, uma a uma, atentam no facto de que so aqueles principios
que esto em risco. E, se assim , no se trata de uma civilizao
mortalmente enferma por falta de crena nos seus principios, por falta
de confiana em si, pelo pecado mortal de se atraioar.[6]

De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o comeo o poder de
uma aspirao que vem de longe e no se engana no rumo; sentiu-se a
obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica com o
seu cortejo de ambies e degradaes ser apenas um turvado espelho, um
acidentado esforo de realisao, sujeito aos vaevens de toda a
traduco concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de
cada raa e da de cada momento da civilizao, ora deformada e oprimida
por virtude dos seus combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em
derradeira sumula, invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e
profundo idealismo determina muito daquilo que, no primeiro movimento de
repulso e de horror perante a guerra, nos poder parecer smente a
assolao de uma torrente de abjeces e vilanias.

Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as consideraes
de elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu pas
a fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha
desprovido.

Por esse motivo e com o fim de traar os fundamentos essenciais dessa
renovao espiritual escreveu um opusculo[7], onde pretende que uma das
grandes vantagens da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida
pela insinuao organica de uma filosofia que inteiramente lhe repassou
todas as actividades--uma filosofia m, pervertida, conduzindo ao crime
em vez de conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepo
de um sistema das relaes do mundo e dos homens, crente na sua justia
e nobreza, e s por isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma
formidavel de combate, seno a mais eficaz das armas de combate, aquela
sem a qual todas as demais so frouxas. E isso teria faltado aos
Aliados.

Os alemes fizeram um estado que  um perigo para o mundo, porque o fim
desse estado  ruim; mas o estado da Inglaterra no tem um fim. Usaram
todas as suas virtudes com um fim material, e no viram que ele era
material; mas ns (os inglses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se
os alemes veem no seu pas um absoluto falso, ns no temos absoluto
algum, nem verdadeiro nem falso. Ha gente, e no  s alem, que cr que
a cultura alem pde salvar o mundo e que por isso anseia por uma
vitoria alem. Para ela, a cultura alem  qualquer cousa positiva,
qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de si por amor do estado,
e, procedendo assim, se erguem acima das suas foras naturais; e crem
que os alemes podem ensinar-nos todo este segredo de abandono do
interesse meramente individual, de modo que todos ns faremos a nossa
obra to sistematica e completamente como os alemes. Mas em ns no
encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater
meramente pelos metodos do passado, da mo  boca, e com esses metodos.
No teem razo, sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo
que o mundo nunca suportar, seja qual fr a limpeza que ele possa
trazer; porque com essa limpeza impe a escravido. Mas carecemos de
tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do
interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que
prepondera no espirito alemo. Os alemes pem o valor da Alemanha acima
de todas as cousas; mas ns, o que  que ns aprendemos a apreciar acima
de todas as cousas? Toda a nossa sociedade sofre da falta de valores, de
uma desvairada mundaneidade que nem sempre est contente comsigo. Este
descontentamento e este desvairamento envolve esperanas, mais
esperanas do que a intencional perversidade da Alemanha; mas nem o
descontamento nem o desvairamento so bons s por si, e no conduziro
ao quer que seja, se ns no formos capazes de encontrar valores, e os
justos valores.[8]

Na verdade, embora a afirmao categorica de que carecemos de uma
filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do
moralista reconheceu que carecemos de tornar bem claro ao nosso
entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente
individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no
espirito alemo, a acusao no ser de admitir-se em toda a extenso.
As suas proprias palavras a combatem, confessando que a questo  de
clareza de entendimento e de consciencia, e no de escassez de causa
intima ou ausencia de uma filosofia fundamental.

Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de
facto subsiste desde j e activamente. Trazemo-la no sangue, neste
sangue que  o legado de muitas geraes, e no qual se fundiram e
consubstanciaram, em uma tenacissisima aspirao, aquela liberdade que a
Grecia sonhou, a ordem que Roma fundou, e, coroao maravilhosa do
pensamento politico constituido pela antiguidade greco-romana, o
nacionalismo acalentado pela Renascena, movendo-se e medrando dentro
daquela catolicidade que uma vez nascida do poder e governo do imperio
romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se de um momento de
unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspiraes do
internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo
foi resultado da unidade religiosa--sem muito querer persuadir-se,
diga-se de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da
Humanidade, ou se invoque a Razo, ou nos inflamemos na F, a concluso
moral  em toda a hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o
cristianismo juntam-se na mesma concepo da ordem humana, nas mesmas
liberdades e responsabilidades, nas mesmas aspiraes e deveres de
igualdade e amor.

De filosofia no carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda
aquela, e profundissima, que a tradio e a experiencia de muitos
sculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha no  a mingua de uma
razo intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos
afasta  apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em
que o mundo latino e o mundo germanico sentem essa razo e os termos em
que lhe obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia,
aparentemente oposta de todo  nossa, em circunstancias apontadas por
Hobhouse nas passagens que acima traduzi, mas entretanto ns,
descuidadamente, sem nos esforarmos por definir e sistematisar os
motivos do nosso esforo, fomos vivendo a nossa vida e seguimos por
instinto o nosso caminho, sem o errarmos, no obstante no preguntarmos
para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos iluminou
tragicamente a jornada,  que vimos onde estvamos e que especie de
filosofia nos tinha conduzido at ali. Claro est que mais seguros se
encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os
haviam edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se
mostrar inexpugnaveis. Se o no fossem, se uma filosofia muito diversa
da que animou a Alemanha e lhe deu fora e coeso no nos inspirasse, se
aspiraes muito diferentes no nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia
reduzido a uma marcha triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de
um genero de civilizao pelo qual todos os povos da terra estavam
suspirando, ansiosos por abdicarem das suas aspiraes ingenitas no seio
do povo eleito. A invaso alem teria sido uma beno recebida de
joelhos e com hinos de louvor; no significaria a violencia, para nos
libertarmos da qual sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza
e da nossa alegria, e comprometemos por largos anos a sorte dos que nos
vo suceder e nos ho-de herdar encargos tremendos.

Ainda mais. No s traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos,
embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte
dispensado de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o
desenvolvimento dessa filosofia no deixou de se operar de continuo e
nos termos da sua essencia. E chegados ao momento de dar contas do
passado no presente, de revelar as ideias e paixes em que nos criamos e
mostrar pelos resultados ultimos a sua legitimidade, verifica-se que
temos sido fidelissimos servos dos principios da nossa civilizao,
bastas vezes contrariados e oprimidos pela adversidade do destino mas
sempre renovados, e ressurgidos e maiores, pela constancia da nossa
crena.

Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reaces de
uma fermentao mental e material prodigiosa houve um progresso, uma
logica, uma direco e um adiantamento em uma linha invariavel, bastar
considerarmos esta lenta renovao psicologica que graduou em diferente
altura o valor militar e o valor do trabalho, por virtude da expanso
dos germens inoculados em a nossa organisao pelo pensamento
democratico tradicional. J aprendemos, disse W. J. Bryan, antigo
secretario de estado nos Estados-Unidos da America, que  mais
vantajoso alargar a terra que possuimos, duplicando-lhe a produco, do
que acrescentar-lhe por conquista uma nova rea. ... Ha mais inspirao
em uma vida nobre do que na morte heroica. Entre tantas cousas que as
convulses politicas e militares destruiram e arruinaram no correr dos
sculos, sempre cresceram aquelas que o fogo no queima, certa essencia
espiritual, a razo de ser e proceder das sociedades, que
inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, ainda mesmo
quando a sua aco se ignora ou parece aniquilada para sempre.

Heroismos de hoje, todos constituidos pela fora de servir e criar,
expresso ultima de uma actividade de amor e de uma compreenso da
virtude dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa
civilizao, vo a eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de
conquistar e no arrebatamento de esmagar e vencer, paixes do odio, por
vezes fecundas e grandes pela coragem e at pela iseno que
significaram, mas invariavelmente barbaras pela crueldade dos impulsos,
inseparavel da sua fora intima. O trabalho que algum dia foi vileza e
escravido e arrastou o carro dos capites de armas em seus triunfos,
converteu-se agora em uma religio, e  ele que pouco a pouco vae
subjugando os capites de armas ao servio da sua defesa e culto.
Emquanto as balas cobriam de cadaveres as trincheiras de Verdun,
fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os arados sulcavam o
cho sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a consciencia
duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos que
sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, no menos
sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma
cousa sentimos, seno mudada, pelo menos crescida, por certo apenas
crescida, visto que nasceu comnosco, com a nossa civilizao, em todos
os seus modos a encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, 
to digno ser ferido ou morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma
nao como combatendo por ela.[9]

A gloria militar s pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista,
quantos morrem desconhecidos, e todavia to grandes que nem sequer
tiveram a ideia da gloria... O heroi maior  o que no conhece o seu
valor. Morre sem a si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a
terra absorve o seu corpo anonimo. Mas quanto  grande a grandeza de ser
humilde! O soldado mais humilde  o maior, aquele que se submeteu 
regra at  morte, sem imaginar que  notavel o que ele fez. Faz o que
tem de ser feito. Faz o seu oficio de soldado. A pura grandeza do homem
reduz-se sempre a bem fazer o seu oficio. O que  necessario, no  o
entusiasmo;  a consciencia profissional. O entusiasmo  apenas uma
desigualdade de temperamento.

Os combates que o trabalho combateu em Frana durante a guerra, igualam,
onde no sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. Atravs da
morte, atravs do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua
tarefa. Este heroismo do trabalhador encerra uma grande esperana porque
a fora eterna da nao reside no trabalho. A guerra no  mais do que
uma desordem momentanea. Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.
O campo, o trigo, o moinho conteem uma invencibilidade que a guerra no
subjugar. Nem as ceifeiras tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve
medo de servir de alvo. Sob a violencia passageira, a terra prossegue na
sua eternidade, e vemos as mos das ceifeiras ligarem as paveias com um
gesto que  sempre o mesmo desde o comeo do mundo. Ha na humanidade
foras que a colera do homem nunca ser capaz de prostrar, e  delas que
se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O soldado sabe vencer o
soldado. O trabalhador sabe vencer a morte. Ha um patriotismo
guerreiro que  sublime, porque afronta a morte. Todos devemos
inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que  ir para o
trabalho.[10]

Esse patriotismo que combate imperturbavel os combates do trabalho e que
o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse foi e 
invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa
alma e atravs da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia,
ilumina-nos e alenta-nos a esperana de que, sendo a maior fora e o
supremo padro da gloria humana, s a esse est reservado todo o imperio
em que as naes e as raas vivero para melhores destinos. Isso que
permanece sob as cinzas, e no as cinzas que o vento leva, isso ser o
sustento e a razo de ser da humanidade.  mais do que uma esperana; 
uma certeza e a mais vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas
entre os seus destroos.

O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que
faz seu lucro, do que a exaltar-se em vises que no lhe matam a sua
fome de prazeres caracteristicos, est pronto a advertir-nos de que
pouco importa que nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e
nobreza. Outros, e de baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e
destes havemos de nos socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes
e muitas vezes os vimos dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade
atroz. Esse scepticismo no desistir de procurar convencer-nos de que
toda a aurora de justia e amor conhecida dos homens, e muitas teem
sido,  invariavelmente entenebrecida por uma ruindade ingenita
indomavel que logo a confunde em uma noite cerrada. No ha que esperar
paraisos da bondade humana; sempre existiu e nunca governou o mundo. 
isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual como se nos dissesse que
no vale a pena semeiar a floresta nem crr no seu crescer, porque
sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas arvores, e
sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, s vezes das
mais frondosas e melhores.

Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita
obrigao, esforo e dever, viriam os homens praticos, esses de que
Cristo foi a negao, quando julgou pratico morrer na cruz para
ressurgir em espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.

Os homens praticos no se convencem com semelhante loucura, e esses
pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade  organisar a
sua vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario
comparado das guerras e das aspiraes de paz, acharo que as guerras
teem prevalecido sobre as aspiraes de paz e, porque assim aconteceu,
no poder acontecer diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra
para ser fecunda ter de preparar novas guerras, cogitando de continuo
na fora futura dos exercitos e no seu poder. Tudo o mais  utopia.
_Homo hominis lupus._ A unica esperana de sustentao dos homens 
avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes os dentes e banir-lhes do peito a
piedade. Devorar e ser devorado ser o ciclo infernal em que a politica
tem de penar. Amar e ser amado  iluso contraria  natureza e, mais do
que perigosa, mortal.

Nem lhes abalar a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles
invocam e que alis demonstra o progressivo desenvolvimento da boa
vontade entre os povos e as naes, um declinar constante de averses e
incompatibilidades, at mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram
inimigos e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das
sociedades humanas ha um alargamento e fortalecimento constante das suas
faculdades de afeio, mas, como esse desenvolvimento  um facto de
evoluo e conquista gradual e no uma revoluo ou um fenomeno de
cataclismo, nunca poder isentar-se totalmente de um remanescente de
barbaria e crueldade que s progressiva e lentamente dece. E porque
esse remanescente persiste, o scepticismo, e a avareza, ambies, e at
mesmo certo heroismo, que todos so os seus acolitos, exaltam-se na
iluso de que os homens no mudam; e por isso fazem da m vontade
reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma moral
publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as suas
profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o
mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a
Frana; no tardaria a renovao dos combates entre estas duas naes.
Um dia, um homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores
diante do duque de Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou
que se mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate,
fizessem por todos os meios que fosse o mais tarde possivel. O proprio
guerreiro desejava a paz e suscitava uma politica conforme os seus
desejos; e o futuro deu-lhe razo. Guerra no tornou a haver entre a
Frana e a Inglaterra. Passados cem anos, encontramo-las aliadas. A
soluo pacifica mostrou-se mais pratica do que a soluo belicosa.

Entre a maior violencia das batalhas ouviro agouros de paz aqueles que
os quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a
Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemo de
uma alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser
eficazmente assegurada por uma aliana da Inglaterra, da Alemanha e dos
Estados-Unidos da America. E a imprensa inglsa, respondendo-lhe,
abstinha-se de dar opinio sobre a justia e praticabilidade de
semelhante insinuao, advertindo apenas que as incompatibilidades
suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a essa soluo--o que
equivale a dizer que, apagadas essas incompatibilidades, no ser talvez
uma utopia o alvitre. Pelo visto, o obstaculo  apenas de natureza
moral, outro no ha de natureza politica ou economica. No ser de todo
ilegitimo pr esperanas em hipotese to ousada, sobretudo se nos
lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a Frana e a
Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se no houvesse esse
espinho da questo da Alsacia, talvez a Alemanha e a Frana fossem hoje
aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.

Depois, a fatalidade da propenso logica insistentemente pregunta porque
 que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, no
ha-de estender-se  politica, ou melhor, como  que a politica ha-de
conservar-se alheia ao seu espirito e aco. Internacionalisou-se a
sciencia, a arte, a religio, o capital e o proprio comercio, apesar das
suas infinitas rivalidades; no se concebe que este impulso exclua a
politica. Pelo contrario,  sabido at que ponto o internacionalismo
penetrou nas oficinas, no so segredo nem pouca cousa as tendencias de
solidariedade que por l se insinuaram e medram. Admitamos que da
oficina trasbordem e se espalhem nos campos, onde a sua disseminao tem
de ser lenta por virtude da inercia caracteristica do espirito rural,
sempre moroso em seus movimentos, cautelosamente conservador, mas nem
por isso menos tenaz nas inclinaes. E mais no carecemos para sinal de
tempos novos, mais ou menos proximos, talvez mais proximos do que
remotos, se considerarmos a intensidade da actividade mental dos nossos
dias, a renovao da consciencia que ela importa, e a ordem social a que
essa nova consciencia conduz inevitavelmente.

O progresso, sendo como  unicamente fundado na fortaleza do espirito e
no seu desenvolvimento incessante,  indestructivel em sua constituio
e nos seus orgos, em toda a amplitude da sua expresso e expanso. O
que nos d a iluso de retrocesso ou de irreductibilidade da barbaria,
so as desordens de funco, no  uma leso essencial organica, que no
existe; so as enfermidades acidentais, passadas as quais as sociedades
voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente morbido--tal qual o
homem doente recuperando o equilibrio normal quando findou o delirio da
febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento de ser
perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe
eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltar o
velho a ser moo e o adolescente ressurgir criana. Uma identidade
especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de
qualquer opresso passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um
esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados
insistindo em nos assegurar que no renunciou, nem tem razo para
renunciar, s suas aspiraes e esforos. Negando que a guerra o
houvesse enfraquecido, tira das responsabilidades que lhe exigem e dos
feitos que lhe atribuem a demonstrao da sua fora e vitalidade. As
acusaes de falencia com que a diplomacia dos politicos de profisso
procura estigmatisa-lo e afasta-lo do caminho, no qual essa diplomacia
serve as cobias dinasticas e capitalistas, seriam em ultima analise um
tributo  importancia que lhe assiste nas relaes entre os povos e ao
alargamento e amplitude progressiva do seu poder. Confessando que o
nacionalismo agressivo teve um impeto de tresloucada ambio envolvendo
nas suas paixes o mundo inteiro, cr cada vez mais profundamente na
misso de paz que o zelo profetico dos seus mestres e o trabalho
paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos cincoenta anos com
to religioso ardor como manifesta eficacia. As dificuldades que o
assaltavam e os transes por que passou no desvairamento momentaneo dos
seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que governam, no
lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da f com que prosegue nos
seus combates e vitorias.

Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza
terminante que j no ha neutrais possiveis nos conflictos das
civilizaes. No se arrasaram fronteiras nem ser possivel, e muito
menos necessario, arras-las, porque a natureza e a historia as ergueram
por longos sculos, seno para sempre; mas cresceu a intensidade de
transito atravs dessas fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e
a comunho politica dos que nelas transitam. As relaes dos povos
estreitaram-se de tal modo que, se uma calamidade flagelou uma nao,
todas as demais sofrem nos seus interesses e afeies. Ora por Deus, ora
por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por ambio mundana, a terra
vai a converter-se em propriedade de um possuidor unico--o homem, um s
e no muitos, como no passado encontravamos e distinguiamos, sobretudo
quando os viamos em combate. E, se o possuidor  um s e a propriedade
se acha portanto indivisa, o conflicto  impossivel onde a unidade
organica se tornou essencial.

A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de
trez anos de combates atravs de mil esforos, vitorias e derrotas no
foram capazes de dar soluo ao conflicto e, pelo contrario,
demonstraram a sua inanidade como processo de soluo dos antagonismos
em oposio violenta, isso que fez que se chegasse  concluso de que as
naes teem fora para fazer a guerra, mas no teem fora para fazer a
paz, isso significa um golpe profundo na doutrina da confiana
militarista. Sobretudo a vitalidade dos interesses economicos mostrou-se
superior a toda a ruina por mera violencia. Por seu poder e relaes no
tiveram fora bastante para evitar a guerra, mas ficou de uma vez para
sempre certo que a economia das naes, fruto da paz, e da inteligencia
e dos afectos, no pde ser arrasada pela guerra. Essa economia subsiste
apesar da guerra e durante a sua propria aco; no ha exercitos que
possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais
fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe,
constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do
caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos,
que vivem de po, no vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se
das supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. A
violencia seduz porque nos dispensa de um esforo de reflexo, de um
trabalho de razo. Porque  necessario um esforo para desfazer um n. 
mais facil cort-lo.[11] Mas desde que os homens e as sociedades
chegaram  idade da razo, no s a sua honra mas tambem os seus
interesses temporais os induzem a esperar da razo o que erradamente
pediam  violencia.

Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspirao dos povos
e o consequente declinar das guerras, tem at hoje procurado orgos
adequados que lhe sirvam eficazmente as funces.  certo. Preponderante
apenas em um mundo moral limitado, carece ainda da largueza de
disseminao que lhe ha-de assegurar a consistencia, embora essa
disseminao progressiva se mantenha na historia das sociedades cultas
com uma constancia manifesta. Muitos tratados e tribunais de arbitragem,
muitos compromissos de paz se reduziram a _pedacinhos de papel_, e logo
se inflamaram e arderam mal se ouviram clarins de guerra. Outros, porm,
se mostraram consistentes e rebeldes ao fogo em iguais circunstancias.
Tambem  certo.

Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente
uma esperana e uma tendencia, uma ambio e um fim, ainda no eram de
facto uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com fora
executiva e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado
e estabelecido antes de se estampar e consignar na definio verbal e
nos contractos selados. Essa  a razo pela qual no se cumprem muitas
leis que j foram cumpridas, e ainda no se cumprem outras que j foram
apregoadas, e vigoram algumas que jmais foram traduzidas para o papel.
 que as leis, antes de o serem e para o serem, ho-de viver no mero
estado de aspirao do espirito; smente so leis e prevalecem emquanto
as aspiraes dos povos as querem e confirmam. Como poder de criar o
quer que seja nas sociedades e na consciencia dos homens, a lei escrita,
nacional ou internacional,  de um valor nimiamente hipotetico; a lei
ser, muito mais do que isso ou muito diferentemente disso, uma
verificao e explicao daquilo que natural e expontaneamente se criou.
Quando vem antes da criao que pretendem representar, ou quando lhe
sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao mais leve movimento
contrario.

Ora, em materia de guerra entre os povos, as propenses pacificas, que
so alis uma fora manifesta e crescente, no vo to adiantadas que
possam constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenas. Foi esta
antecipao do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade
que, mostrando-se o que na realidade era, revelando a fragilidade
propria de uma constituio incipiente, deu a muitos a iluso de que
esse principio e essa realidade no existiam em absoluto e no eram uma
fora em aco, e, porque acontecera que se mostraram incapazes de
afrontar as injurias de um momento adverso, jmais poderiam subsistir.

Quizemos talvez comear a casa pelos telhados, em vez de lhe dar
principio pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo
socialista acerta quando, reconhecendo que o internacionalismo
organisado anteriormente  guerra foi impotente para a conter, explica o
desastre e confia no futuro, dizendo que, emquanto os governos andarem
divorciados dos povos, emquanto eles forem autocracias e plutocracias,
emquanto os homens forem governados pela corrupo, pela violencia e
pelo engano, no haver garantia real de que a paz, mesmo quando
nominalmente observada entre as naes, produza os frutos ou assegure as
liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos no dirigirem a politica
dos governos, emquanto a democracia no for uma realidade, no haver
paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca
necessidade haver de uma fora de policia internacional.[12]

Se assim , e a observao dos factos decorridos nestes ultimos anos de
profundissimas convulses sociais e progressiva consciencia das suas
origens e remedios de todo confirma a esperana dos apostolos da
renovao politica do mundo, se assim , no podem vir longe os tempos
de paz.

Porque a vitoria da democracia, ainda que na revoluo da Russia no se
houvesse mostrado triunfante ou no fosse carregao inevitavel dos
navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres
pensadores, afeitos incorrigivelmente  liberdade politica e religiosa,
e naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por
amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que
foi a guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da
civilisao, mantidos e medrados em uma evoluo muitas vezes secular,
grande legado das cogitaes filosoficas do sculo XVIII e da
abundantissima experiencia do sculo XIX, a democracia  da essencia
constituicional do latinismo e de quanto ele de perto ou de longe criou
ou tocou, sem distinco de gentes ou de latitude para onde se
transportasse. Diferentemente se organisar conforme as necessidades e
tradies e acidentes da existencia dos povos sobre os quais impera;
poder ser aqui um sistema de fragmentao comunista, acol a
constituio de centralisaes colossais, e alm o livre jogo do
individualismo; poder ser na estrutura e na hierarquia das funces uma
monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentao despotica
das plebes ou a associao livre das actividades sociaes. Mas em todo o
mundo se tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituio
dos governos para servir os povos e a recusa indomavel da subjugao dos
povos para servir os governos. No espirito das comunidades decaiu a
ideia de serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia
sobrepoz-se, vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a
terra em comum e em comum obedecermos, no queles a quem a fortuna ou a
audacia deu a fora de mandar, mas smente queles a quem a consciencia
deu o talento e a obrigao de ser util e de proceder isentos de
interesse proprio, em beneficio do proximo. Uma democracia, aquela
democracia que persiste, cresce e ha mais de vinte sculos ressurge de
cada revez mais poderosa do que era antecedentemente, no  uma mera
forma de governo. No depende de urnas ou de leis de sufragio popular ou
de qualquer maquinismo. Isso  apenas o seu adorno. A democracia  um
espirito e uma atmosfera, e a sua essencia  a confiana nos instintos
morais do povo. Um tirano no  um democrata, porque cr no governo pela
fora; como no  democrata o demagogo porque cr no governo pela
lisonja. Um pas democratico  um pas onde o governo tem confiana no
povo e o povo tem confiana no governo e em si, e onde todos se unem na
f de que a causa do seu pas no  materia apenas de interesse
individual ou nacional, mas est de harmonia com as grandes foras
morais que governam os destinos do genero humano.[13]

Essas foras morais que governam a humanidade, no as queima o fogo. E
essas so as que ho-de fazer a paz, a presente como a futura, e a
futura mais robusta do que a presente.

Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar
a urna de uma eleio politica.

Havia no altar mr dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua
grandeza e resplendor dominavam o templo.

Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os
anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as
correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros
por carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de sentido, militarmente, e a
companhia perfilou-se em continencia.

Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo
transmudado em caserna, a dureza expulsando a graa e a crueldade
banindo a piedade.

Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos,
recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram quela gloria
que o menospreso desconhecera e ocultra sem poder destrui-la, porque
era de sua condio indestructivel. At sob o manto da injuria
persistira.

No  diferente desta a historia da humanidade--desta humanidade  qual
todas as naes pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de
nobreza, de f e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Pde
um impulso impio perverte-la e tranfigura-la por um momento. Muitas
vezes o tem feito e no poucas ter ainda, por certo, de o repetir. Mas
a manh sempre volta, porque o mover dos astros no cessou e, quando
volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.




Valores restaurados




Renascimento da educao classica


I

Em breves anos, veremos renascidos e florescentes a educao e o ensino
classicos. No tenhamos duvidas. Os sinais de resurreio so
manifestos, a germinao da nova ideia vigorosa; e nestes tempos em que
toda a transformao  rapida e a circulao do pensamento to activa
como a propagao da electricidade, manda a experiencia e a lgica
contar em curto prazo com uma profunda reforma dos programas escolares,
subordinada  nova aspirao, orientando-se em rumo diverso daquele
estreitamente positivo e scientifico em que com tanta incerteza e
naufragio navegamos ha uns bons vinte e cinco anos. As humanidades e a
cultura classica retomam seu logar e imperio. O clamor  geral. Ser
ouvido dos que o podem converter em uma fora activa eficaz.

Tem todos os modos de reclamao de verdade, justia e necessidade
pratica. No pode encontrar resistencia que prevalea sobre elementos de
tamanha fora e duma tal natureza.

As sociedades teem destas crises que, uma vez lanadas, logo se lhes
presente a soluo e os triunfos.

E a crise presente do ensino  dsse gnero.

No  uma novidade, realmente. No  uma aventura de ensaios e
tentativas para inventar homens novos, de novas aptides e estranhas
tendencias psicolgicas.

 no fundo o desengano de uma aventura, empreendida com muito boas
esperanas e rematada com muita desiluso,  a reposio das coisas do
espirito e da ordem da vida concreta naquelas condies em que durante
sculos se haviam mantido e prosperado.

Ha cerca de vinte e cinco anos disseminou-se na Europa, na America, e
por todo o mundo culto uma verdadeira mania de _realidades_, coisas
_praticas_, _utilidades_, vaga e implicita negao de outras coisas,
areas em semelhantes conceitos, com que os homens se haviam preocupado
at ento. E essas coisas no praticas, isso que se chamava beleza,
ordem, justia, aspiraes do puro espirito, passou ento  categoria de
inutilidades, toleradas apenas como enfado e desfastio, adorno e deleite
de curiosos e ociosos diletantismos.

O ensino amoldou-se a essa preocupao. Pr uma engrenagem onde estava
uma ideia, uma ideia aritmetica onde havia um silogismo, uma fabrica
onde estava uma esttua, e um apito de vapor onde se ouvia um canto de
poeta, tornou-se imediatamente a quinta essencia da sabedoria das naes
e dos seus estadistas, e o sonho de perfeio e grandeza dos pedagogos
progressistas e progressivos, dos que iam na frente e se propunham ir
muitissimo mais longe.

O ensino classico pareceu ento uma abominavel e esteril velharia;
dessorava o crebro, atrofiava os musculos, tinha por vezes um cheiro
detestavel a crte e sacristia. As famosas humanidades trocaram-se de
bom grado por abundantes animalidades. No homem considerou-se quasi
unicamente o animal e no mundo viu-se muito restritamente um processo de
multiplicao de comodidades.

Para isso se teriam criado a terra e as sociedades. Tudo o mais seria,
na classificao mais benigna, pelo menos antiquado.

Que olhassemos para a Alemanha, prgava-se. L  que se sabia. As suas
vitrias e prosperidades eram uma questo de escola, e de sciencia,
dessas muito faladas e desejadas e louvadas coisas prticas. Era o
mestre escola que tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas
glrias teriam sido apenas questo de laboratorios, retortas, lentes,
microscopios, raizes quadradas e taboas de logaritmos.

Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava a o elixir da vida,
a fortuna das naes e a felicidade dos homens. Latim, grego,
Aristofanes e Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o
tempo  rapaziada e no lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo
as inutilidades. Passassem aos museus respectivos.

L encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar
que lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais
no tinham nada de aproveitavel.

Assim fomos andando, nesta f, de reforma em reforma, a dar ar e luz
aos nossos institutos e liceus, sempre  espera de vermos sair de l os
atletas que haviam de renovar as naes. Mas os atletas tardavam. Em seu
logar, apareciam mesmo muitos enfermos. Comeamos a desconfiar de que a
sciencia no dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado
na escolha, passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas
armas.

Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um
escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado
scientifico e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades,
foi em um jornal socialista radical. Os que vo na frente do movimento
politico, os que reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em
nome da justia, e pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais
propensos a banir todas as velharias das sociedades contemporaneas e
futuras, seriam esses os primeiros a advogar a restaurao de processos
e intuitos da educao e ensino, postos de parte e condenados por
empecilhos do progresso.

A educao classica refugiando-se nas fortalezas do socialismo radical,
que se poderia muito logicamente supr todo impregnado de radicalismos
scientificos, era fenmeno para estranhar; e, na minha ignorancia e
despreocupao, de facto estranhei, no primeiro momento.

Mas em poucas linhas me desvanecia a confuso aquele artigo que acabava
de lr.

O qu?! dizia. As humanidades eram ms? Onde se formaram os homens da
Revoluo Francsa? Onde aprenderam os principios de liberdade,
igualdade e justia que proclamaram e por que se sacrificaram at ao
martirio, para nolos transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada
condio?

Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da
literatura romantica?

No, as humanidades no eram ms. Eram excelentes e suficientes. Os
homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a
historia, e nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.

O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para
os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais
nobres do seu caracter ho-de ser humanidades. Preferir-lhes
animalidades, reduzir o homem a um vulgar organismo sem diferena
fundamental dos seus semelhantes nas espcies animais, ou mais
simplesmente ainda passa-lo  categoria mecanica de motor e alavancas
conjugadas, destinado a diversas operaes de produo e consumo, era
uma degradao. Evidentemente, tornava-se necessario ser homem antes de
ser bicho ou maquina. Dependia disso a dignidade. Sempre assim se havia
entendido.

Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era
essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que
em sucessivos sculos e sucessivas geraes se reputou invariavelmente
bom ou belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por
vantagens incertas, teria sido insensatez.

A mais passageira reflexo no poderia deixar de concluir pelo
predominio do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se
eliminasse ou reduzisse, nunca.

De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente,
no  de apreciaes abstractas,  dos desenganos da experiencia.

No sou to moo que no tivesse conhecido os homens educados puramente
nas escolas classicas da primeira metade do sculo XIX. Conheci at
alguns desses professores de latim espalhados a capricho pelo pas,
regendo cadeiras singulares dessa disciplina, s quais as vilas, que as
possuiam, atribuiam orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se
aprendia tudo, imaginavam; e quem de l saia com louvor do mestre,
tinha-se na conta de homem instruido e culto.

Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai no teve outra
escola nem outra educao literaria. Aprendeu o latim com o professor da
vila em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o
Brazil, aos dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francsa e
modernismos correlativos, de que careceu para se pr a par do seu tempo,
nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em mar de comprar
livros, deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos
modernos apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas
tintas.

Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e
outros de educao identica, que todos conservavam vivas as tendencias
que na mocidade haviam tomado.

Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e
incidentemente tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os
caracteres que traduzem.

Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros
scientificos modernos, no descubro em que pontos e por que lados os
antigos eram inferiores aos modernos como homens praticos, como
conhecedores das coisas da terra e seus administradores, como capacidade
de reger os homens e lhes tratar os bens.

Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades to
desprezadas pelos seus filhos, que iniciaram a renovao economica da
Europa (e por sinal que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa
tragica); foram eles que organizaram a fbrica e traaram a via frrea,
que deificaram a maquina a vapor e os teares mecanicos, e tudo isso
fizeram no s com uma percepo clarissima dos fins e meios e
consequencias, mas com uma f e um entusiasmo que a prodigalidade de
invenes e as maravilhas da industria da nossa era jmais encontraram
em igual grau entre os contemporaneos. No tiveram nem sombra de
educao scientifica; nas suas escolas, as declinaes dos verbos e
nomes tinham uma importancia suprema sobre as quatro operaes
aritmeticas. No foi isso, porm, impedimento a que calculassem com
preciso e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. Meu pai,
latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo
classicismo, no deixou por essa qualidade de ser um comerciante
previdente, habil e seguro e um belo administrador das instituies
economicas em que serviu. Deu boas provas disso. Pois em matria de
literatura dessa especialidade no cansou a vista, quando alis muito
costumava lr. No seu espolio, entre algumas centenas de volumes,
smente um peregrino codigo comercial, ali perdido, lembrava o
comerciante.

 que a gente do seu tempo tinha uma concepo muito diferente das
necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje
a julgamos; parecia-lhe que era questo de simples bom senso, a que todo
o homem medianamente educado pde chegar, e muita ferramenta e metralha
que ns supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da
oficina. Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as
oficinas lhe ofereciam, segundo as relaes de conveniencia ou
inconveniencia que lhes encontrasse com os muitos e variadissimos
elementos sociais que iam tocar.

Para ste ultimo papel se destinava. E, como le era uma coisa
essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de
referencia de todos os progressos e invenes, o ensino das humanidades
lhe bastava, o conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre
confiando em que o melhor mestre da vida era a experiencia e da
experiencia rezavam abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.

No direi que a gente sada das escolas classicas pensasse isto to
nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em
pratica, o que foi sem dvida muito melhor e mais til. Da sua utilidade
colhemos ns os frutos, ns que, cheios de prosapia, emendamos,
corrigimos e em grande parte abandonamos por suprfluo o ensino dos
nossos pais--esse mesmo ensino que foi tanto ou to pouco mesquinho,
estreito e infecundo que deu de si uma transformao politica como a
Revoluo Francsa, uma revoluo literaria como o romantismo, e uma
revoluo industrial como a fbrica moderna.

O que todos ns poderemos verificar passando os olhos pela
correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, 
o primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao
feitor em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles
que hoje usa muitas vezes um professor dirigindo-se ao reitor da sua
universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as
autoridades e a exposio de suas narraes e reflexes so pedra
talhada e polida, duma finura de arestas em que no ha linha tremida ou
apagada; as ambiguidades, as confuses, os pleonasmos, a arrastada
negligencia de quem no sabe ao certo o que diz, eram provavelmente
pecados to graves que um fino instinto adquirido no correr dos sculos
os evitara sem mais esforo. Escrevia-se bem; escrevia-se com clareza.

Adivinha-se a resposta da sciencia. Vir clamar que o importante 
saber, no  dizer. Cheira-lhe a rap, a alfazema, a crte e a convento
esse cuidado na expresso. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vo.
Mas outros pretendero que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer,
nem por isso deixa de ser certo que para bem dizer  necessario pensar
bem, e emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a
melhor ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o
corrigimos, acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de
logica que afinal o alteram profundamente e subvertem.

Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas
glrias, eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas
prosas perante o falar correntio e limpido dsses velhotes fradscos que
em duas linhas sabiam dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra
forma se podia traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e
desejando repeti-lo, e convencido dos seus beneficios, no sei que haja
modo de o reproduzir sem beber das mesmas aguas que o criaram.

Smente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando
chegarmos  fonte j l encontramos uma multido. Tudo o anuncia.
Felizes os que forem na frente.


II

Isto escrevi ha seis anos[14], e, se agora tenho a indiscrio de o
desenterrar, no  para fazer registo, em meu beneficio, de
antecipaes, mas smente para lembrar como vinha de longe aquela
corrente de reaco contra o desvario do ensino meramente scientifico,
da qual nas minhas breves tarefas de jornalista fui um passageiro e
modestissimo interprete. Quanto ento dizia no era meu; era do tempo.
Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, esclarecido e animado
por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente revelado no
conflicto das naes armadas e em guerra sangrenta, representando a
Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gru maravilhoso de cultura e
organisao scientifica, significando a Frana, com os povos que lhe
esto aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por
insuficiente e ineficaz para realisar as aspiraes modernas da
civilizao, e resultando da oposio destas duas correntes a
necessidade de escolha e reforma dos principios fundamentais da
educao.

Um artigo magnifico, publicado no _Times_ em fevereiro de 1917 e
assinado por _Um oficial ferido_, pe em termos de perfeita clareza, que
convm registar, esta dualidade em conflicto.

So desse artigo estes periodos que vou transcrever:

A guerra ps em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as
inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil
homens, inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:--O
que  que na atitude alem perante a vida ha que no-la torna
intoleravel? Porque  que ns sentimos que a causa da Frana e da
Inglaterra  a causa da humanidade?

Isto preguntam, e, se so francses ou inglses, (latinos ou
latinisados, diremos ns), respondem que o que  intoleravel na
Alemanha, o que pretere as multiplices excelencias do seu saber e
espirito publico,  que ha nela qualquer cousa que grava sinais de morte
naquilo que ela toca; qualquer cousa que  a antitese da
individualidade, das aspiraes pessoais e esforo e sacrificio
espontaneo; um espirito que organisa os homens mas no os inspira, que
os cultiva mas no os ama, que faz um estado poderoso mas no faz uma
democracia nem uma igreja, e que, emquanto os pecados caracteristicos da
Frana e da Inglaterra so os dos homens, fraqueza, paixo e leviandade,
os pecados caracteristicos da Prussia, como ela  hoje, so os do
demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do corao, e o desprezo
pelo que  digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza humana...
Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra  apenas um
episodio, no  meramente entre o nosso pas (a Inglaterra) e qualquer
cousa to instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as
exigencias permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o
que tornou perigoso o espirito germanico  que ele no  alheio mas
horrivelmente identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o
espirito do imperialismo germanico  com demasiada frequencia o espirito
do industrialismo ingls e americano, com todo o seu culto do poder como
um fim s por si, com os seus padres materiais grosseiros, a sua
subordinao da personalidade ao maquinismo, o seu culto de uma
organisao complicada e mortal para a alma; e o materialismo, que na
Prussia se revela na adorao do poder do estado, revela-se na
Inglaterra na adorao do poder do dinheiro.

No  mais nobre este ultimo,  mais ignobil, porque  menos
desinteressado que o primeiro. No  to violento,  mais maliciosamente
corrupto, e, pelo que respeita  massa do genero humano, quase
igualmente tiranico. Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de
cobia mercantil, o espirito do materialismo  um s, e  um s tambem o
espirito que lhe resiste.

E, se ns sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a
conservao e desenvolvimento da liberdade espiritual, so dignos de
sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que so dignos de
sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da
personalidade mais claramente esto envolvidos, e onde o que os ameaa 
mais evidentemente obra de motivos materialistas,  a esfera da
educao.

A educao oferece, todavia, uma especie de _experimentum crucis_, uma
conjuntura na qual se podem pr em prova as causas pelas quais afirmamos
ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser
julgados, no pela correspondencia diplomatica que a precedeu, no pelos
esforos que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilizao
que dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, no s
sobre o inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos
quais alega ter combatido.

Se, como ns pretendemos, a causa da Inglaterra  a causa de todas as
mais altas possibilidades do espirito humano, ento teremos de perpetuar
essa mesma causa em as nossas instituies sociais, cujo caracter
depende do caracter da educao que dermos aos nossos filhos e filhas.

Uma calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar  nossa consciencia para
que  que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dr, esclarecida
pela mais cruel das experiencias, dependero os fins e processos dessa
criao.

O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educao
impetuosamente scientifica,  que a vida imporia mais pelo que pensamos
e sentimos, pelo repouso ou pela inquietao do nosso espirito, do que
pelo que dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa aco
apreende e pelo que a nossa inteligencia alcana.  isto o que de todo
temos trazido esquecido, naquela sujeio dos homens s cousas que foi a
paixo cega da educao scientifica moderna e da especie de cultura que
ela produziu; e foi por muito evidente se haver tornado esta
subalternisao dos valores morais perante as conquistas materiais que
M.me Montessori, com uma penetrao profetica, muito antes que a guerra
o manifestasse pelas suas angustias, julgou que o homem que to
maravilhosamente transforma o seu ambiente e curva o universo  sua
vontade, no conseguiu transformar-se a si mesmo.

Nem se imagine que este modo de vr  o preconceito tradicional do
latino e seus derivados e afins, todos impregnados de aspiraes de
nobreza e heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a
propria existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Alm
do Reno, onde a fora criou o seu imperio e o administrou e acrescentou
em menoscabo de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e
enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o
filosofo cuja elevao de espirito e profundeza de inteligencia so de
apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixes de
patriotismo que o possam perturbar, no nega a falencia da utopia
materialista. Discorrendo sobre _as experiencias da guerra e as
exigencias do futuro_, confessou que a guerra revelou um predominio
geral de egoismo, falsidade e cobia entre todas as naes nela
interessadas, mais largamente disseminado do que at aqui se suspeitra.
Em seu conceito, a crena na bondade fundamental da humanidade recebeu
golpes profundos. A Alemanha orgulhava-se do seu trabalho, mas este
orgulho do trabalho, organisao e educao carecia talvez de cousas
fundamentais da vida que ele preteriu; em vez de cultivar essas cousas
mais profundas e imponderaveis, o alemo acrescentou s ambies do
trabalho as cobias do prazer. Os desejos do corpo tomaram o logar dos
desejos do espirito, e  essencial para uma nao a cultura do senso
responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um sentimento que a
habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o ilusorio,
entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. No
hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeio do trabalho, mais
pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo
que de humanidade nele houver. Quereria vr a nao mais ardente no
apreo daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais nao
alguma pde ser verdadeiramente grande, sem os quais nao alguma pode
cumprir a sua misso no mundo.

O desprezo a que chegaram esses altos e grandes valores da alma, que
so a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o
sentimos nas relaes quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da
guerra, embora de uma eloquencia suprema, era desnecessaria para
reconhecer a miseria moral a que haviamos baixado; no comercio moral das
sociedades ha muito se acumulavam os sinais de depresso. Visitassemos
ns um liceu ou uma universidade, preguntassemos pelas suas aspiraes
aos rapazes que l andassem, e este queria ser engenheiro, aquele queria
ser medico, aqueloutro advogado, e ainda alguem preferiria ser
comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos contos de reis e a
isso referiam o valor da carreira. Nem um s nos responderia que a sua
ambio era viver de pouco, honestamente, engrandecendo o espirito e
servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela classe de
homens, de que Plato falou, onde disse que  pequena, rara por sua
natureza e o produto de uma educao ideal aquela classe de homens que
voltam a face firmemente para a moderao, quando sentem uma necessidade
ou um desejo, que so sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga
fortuna, que preferem os lucros moderados aos grandes. Mais uma vez
podiamos dizer com o filosofo grego que a massa do genero humano 
exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no
desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito
moderado. Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos
de achar, que estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que,
para sermos ricos, queria no que acrescentassemos as riquezas mas que
diminuissemos as necessidades; e muito menos tinhamos possibilidades de
descobrir quem estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho
e a preguntar que utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo
inteiro se perdeu a alma. (S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da
terra constituiram-se em finalidade humana; no distinguindo mais o que
se deve aos bens do mundo e o que devemos s pessoas, as pessoas
mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do mundo, em vez de
serem morada da beleza divina e do seu culto. A educao toda se
enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de
captar as cousas ou de possuir as almas.

No, no era a moderao platonica, nem a nobreza romana, nem o
desprendimento, o que iamos buscar s escolas. As vitorias alems de
1870, corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente,
lanaram o mundo, a exemplo da Alemanha, na superstio ignominiosa e
aviltante da riqueza, da fora e da cobia.

Assistimos agora  demonstrao tremenda da inanidade dessa ambio.
Vinha, porm, de longe a desconfiana, e at a averso, da cegueira da
brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e
cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de
tal modo agravava, no direi j a tradio humanitaria, mas sobretudo o
nosso modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento
e progressos, enxameiam as lembranas da primeira hora, quando Mathew
Arnold--e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno
espirito--escrevia, em 1871, que o imperio alemo seria apenas um
despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar,
barbaro apesar das suas escolas e universidades.

E vinha de longe a ameaa da preterio da civilizao de qualidade pela
civilizao de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse
extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da Frana e que
teve neste mundo o nome de J. Joubert!

Em 1809, apreciando uma _Memoria sobre a Instruo Publica na Holanda_,
j ele afoitamente exprimia apreenses que hoje se tornaram caso julgado
por uma experiencia rematada em demonstraes dolorosissimamente
irrefragaveis. Aquela boa gente que havia escrito a _Memoria_, dizia
ento esse notabilissimo pensador francs, pensava que o fim da
educao literaria  e deve ser, no tornar o espirito mais belo, o
gosto mais puro, a percepo mais justa, a lingua mais adornada, a alma
mais delicada e a memoria mais feliz, mas smente dar ao espirito um
maior numero de aptides para toda a especie de conhecimentos. Choravam
o estado do seu pas a este respeito: Os estudos das matematicas, da
fisica, da historia natural andavam ali muito desprezados. Os
_auditorios_ em que estas sciencias se ensinavam, eram pouco
frequentados, mesmo quase desertos, em alguns logares. Disso coravam, e
no  isso, diziam, o que o estado actual das luzes e da sociedade
exige. Para se porem pois de nivel com o estado actual das luzes e da
sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, no encontrando nunca
as suas razes no interior das cousas, porque tm o espirito pouco
penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim tm olhos,
desejariam eles que se ensinasse tudo  mocidade, mesmo  infancia, para
a tornar capaz de saber tudo.[15]

O conflicto das diversas aspiraes da educao, sentiam-no aproximar-se
os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza
do espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de
aptides tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das
cousas, sabemo-lo ns agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo
cultivado com esmero e consciencia durante cincoenta anos e terminando
por dar ao mundo o espectaculo de todas as desolaes de uma
brutalidade, no fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e
contente na sua soberba, a negao altiva do helenismo e do cristianismo
que fundaram a civilizao, foram o seu leite e so o seu sustento, a
sua substancia.

Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da
sensibilidade, eu, que no posso gabar-me de haver sido _educado_ no
latinismo, porque no  educao que se tome em conta a arrastada e
desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui
_nascido_ no latinismo, o que para a constituio psicologica sobrepuja
a educao, no escapei s apreenses de M. Arnold relativamente ao
germanismo tumido de sciencia e to minguado de humanidade. Em 1888,
algum demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas
notas: Sobre a cidade pesa um brao de ferro, a multido abdicou nas
mos de uma vontade; s ela a move. A graa e a elegancia, a vivacidade
e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento. A Alemanha, que
Berlim nos mostra, afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a fora
em um corpo informe. Toda a sua alma cristalisou nesta aspirao--ser
forte, invencivel. Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de
mos dadas com o genio militar, alcanaram emfim dar-lhe uma rara fora.
Pde viver-se assim?  esta a ultima palavra da civilizao, ou
simplesmente uma gloria efemera, saida da coincidencia das aptides de
um povo com as necessidades do momento historico? A Revoluo Francesa,
iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuais, simultaneamente
deu aos estados constituies que conduzem  fraqueza e impotencia
politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao plo oposto.
Assim como s ns pudemos vr os povos educados nas instituies
derivadas da Revoluo, s os nossos filhos podero saber o que  um
pas educado na admirao da fora. Todas as profecias sero prematuras,
embora vagamente pressintamos que a civilizao  mais alguma cousa do
que a fora.

Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porm,
toda a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilizao tem de ser
mais alguma cousa do que a fora, e de que, por maior fora de remexer a
terra e dominar os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspirao
e atraioou-a, se com a fora no coincidiu o desenvolvimento moral do
homem e das sociedades, naquelas bases de amor, respeito, liberdade,
desprendimento e generosidade que o genio greco-latino concebeu e fundou
de uma vez para sempre. Guiados pelo passado e alvoroados pelo
presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou hesitao, onde e como
aquela aspirao de outrora rediviva ha-de realisar-se, por que meios
ho-de criar-se e educar-se os homens que a ho-de servir e manter em
corpo e aco.

Entre a educao classica e a aspirao da dignidade sobrelevando a pura
aspirao da fora, ha uma relao intima e imediata. Aquele mesmo
Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria da Alemanha,
prevalecendo apesar das suas escolas e universidades, esse,
distinguindo entre o estudo das letras, que  o estudo da aco da
fora humana, da actividade e da liberdade humana, e o estudo da
natureza, que  o estudo das foras no-humanas, da restrico e da
passividade humana, julgou que o fim e cargo da instruco... 
habilitar o homem a _conhecer-se a si e ao mundo_.

Imagino mesmo que s isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal
compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que s
isto demandar cultura e  rigorosamente objecto de educao. A outra
educao, a que na essencia  aprendizagem scientifica, essa, como a
sciencia importa de ordinario alterao da condio material das cousas,
depressa entra na categoria do facto quotidiano, e desse modo, por
efeito de contacto e presena fisica, se torna de conhecimento
inevitavel. As leis e progressos da fisica, da quimica e de toda a
mecanica correlativa so faceis de conhecer desde que tm como resultado
imediato e patente o para-raios, a maquina a vapor e o telegrafo e o
telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a infinita mudana
correlativa ou afim. So cousas que se vem e no podem deixar de ser
vistas e consideradas pelo seu volume e presso continua. Os estados da
alma  que no so assim palpaveis; a mais pequena obra de arte demanda,
para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e mental
que, a no ser em aptides de excepo, s por educao, s por uma
insinuao persistente e adequada se alcana. E da a diversissima
natureza do ensino scientifico e da educao classica, seno o facto
capital que faz que a educao seja propriamente aquela cultura
literaria, moral e estetica que constitue a aspirao classica. O resto,
com o rotulo espaventoso de sciencia, ser porventura questo de
conhecimento e ensino a acrescentar  educao, que  uma s, onde as
exigencias profissionais o exigirem.

Ora ns por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a
sujeitar e aproveitar em beneficio da fora, e simultaneamente, e por
demais tambem, desaprendemos as letras e os modos e termos de as
converter em instrumento do conhecimento e disciplina da nossa alma.
Entre agonias o verificamos. O desengano  profundo. E, ao senti-lo e na
ansia de rehaver o perdido, de pronto a logica nas sugere os meios de
resgate e nos manda voltar aquela antiga e segura estrada pela qual a
Renascena caminhou, confundindo com boas razes em um s estudo o
Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade classica, na qual essa
cultura atingira uma beleza sem precedentes.

Por certo, no podemos reviver aquele mundo grgo em que os poetas eram
soldados, os politicos generais e cada homem um membro do parlamento.
Nem o deveremos desejar. Mas podemos experimentar a apreenso de uma
parte do seu espirito. Essa existencia, fossem quais fossem as suas
faltas, no tinha a especialisao dissolvente do mundo moderno. Ali
ninguem era absorvido pelo seu comercio e pelo seu ganha-po; um homem
conservava-se em primeiro logar um ser humano e exercia as faculdades e
experimentava os prazeres proprios da natureza humana. O artifice no se
tornava uma maquina, nem o lavrador um vilo. O soldado, o mercador, o
homem de letras no resvalavam no profissionalismo estreito. O
historiador derivava das horas passadas nas assembleias e no campo o seu
conhecimento da politica e da guerra. O poeta e o filosofo haviam estado
em contacto com aquela natureza humana sobre a qual moralisavam e
escreviam.[16] Evidentemente, uma nova constituio economica das
sociedades e o seu proprio desenvolvimento mental determinaram
adaptaes e sujeies que nos foram a ser diferentes do que fomos no
mundo grego. Mas dentro dessa nova constituio subsiste qualquer cousa
essencial que s a Grecia e Roma souberam penetrar, definir e fundar;
subsiste aquela aspirao de perfazermos um tipo humano que atravez de
todos os cataclismos humanos e cosmicos se mostrou eterno, intangivel,
no susceptivel de melhoria ou correco. Percorreu a Grecia toda a
extenso do pensamento humano que at hoje nos tem sido acessivel,
enquanto Roma experimentou--e essa foi a sua inexcedivel fortaleza--toda
a extenso da disciplina moral at hoje concebivel e realisada; e essas
duas civilizaes, conjugadas e ungidas pelo idealismo judaico,
fundiram-se e completaram toda a forma superior da actividade humana em
espirito e aco, deram o homem na sua integridade, e assim se tornaram
a aspirao daquilo que chamamos civilizao, ou melhor, a medida da
civilizao. O que se seguiu  apenas o processo do seu desenvolvimento,
ora tumultuoso, ora coerente, regrado e continuo, ora crescendo, ora
quebrando-se em depresses passageiras, mas jamais se desligando do seu
impulso inicial e razo de ser, isto , conservando em toda a
contingencia, propicia ou adversa, a imutabilidade do seu fim e vontade.
Nem mesmo cessa quando nos aterra um conflicto como esse que ps o mundo
todo em guerra. Pelo contrario, se temos serenidade de animo bastante
para em meio da angustia apreciarmos os erros que a suscitaram,
acharemos, como Eucken achou julgando o seu pas e no obstante o fervor
com que o ama, que todo o mal proveio de uma exagerada adorao da fora
fisica e de uma inadmissivel preponderancia das cobias de uma
animalidade insaciavel, ofendendo aquela integridade do homem na sua
ponderao fisico-moral de que a Grecia e Roma nos legaram os exemplos
sublimados.

Por esta lio crudelissima voltaremos  educao classica, por ela
seremos levados mais uma vez quelas fontes de pureza de espirito de
cujas aguas uma obcecada dissipao nos tornou to indigentes como
sequiosos. Seja qual fr a sorte das armas e o ajuste maquiavelico das
chancelarias, ao fim encontraremos que a vitoria foi unicamente da
civilizao, dessa fora constante que nos anima e  superior a todas as
raas e a todas as naes, quer lhes julgue a prosperidade transitoria,
quer as alente entre a decadencia a mais profunda. Porque os estados,
seja qual fr a sua capacidade politica, podero disciplinar os povos,
arregimenta-los para qualquer empreza de construco ou demolio, mas
no criam a civilizao, que  uma aspirao psicologica etnica,
prevalecendo sobre toda a contingencia e ressurgindo de todo o
abatimento. Os povos servem a civilizao conforme as suas aptides, no
a inventam; e sero nobres ou vs, vencedores ou vencidos, conforme a
serviram bem ou mal, fiel ou deslealmente.

Baptizar-nos nas fontes da vida que a antiguidade classica descobriu e
onde miraculosamente se fortaleceu e engrandeceu--eis o verdadeiro
inicio da civilizao. E essa iniciao tornou-se tanto mais urgente
quanto  certo que, chegados a um momento de vitorias esplendidas da
democracia, o futuro das sociedades mais do que nunca deixou de depender
da vontade e do caracter dos que governam, mais do que nunca se acha
confiado  liberdade dos homens, e, por conseguinte, mais do que nunca
tambem fica absolutamente dependente da capacidade moral desses mesmos
homens. Esse futuro ser ou uma orgia mansa, quando fr regrado, em que
o zelo da boa distribuio e nivelamento das meras comodidades,
tornando-se absorvente, s por essa absorpo avilta a nossa alma e a
expe s degradaes proprias da animalidade estreme, para as quais o
alcoolismo  o sumo pontifice e o mais activo carrasco; ou um culto da
beleza e da dignidade humana na sua integridade e gloria, para o qual a
unica habitao conveniente so o templo em que Plato orou, e os
logares em que o estoicismo se ouviu, e aqueles outros, altissimos, que
a graa crist ilumina. Fra disto, o futuro das sociedades, por mais
abundante e generoso que ele seja das diversas fortunas materiais que as
constituies democraticas possam outorgar-lhes, no passar na essencia
de uma brutalidade, mais ou menos feliz e duradoura, mas a breve trecho
condenada a afundar-se na decrepitude, apodrecimento, vergonha e ruina
que so o termo inevitavel de todas as brutalidades.

No so outras em materia de educao as concluses da guerra. Nem a
Alemanha escapa  sua evidencia e aco, embora por um instante se
tivesse arvorado em apostolo da fora. No s os sinais de renovao so
ali to claros como em qualquer outra parte do mundo, mas o seu passado
 garantia, alis magnifica, da robustez do seu idealismo. Um vento de
loucura fez perder a cabea a um povo forte, e julgou-se deus... no
imaginando, posto que muito sabio seja, que esta infatuao da sua
pessoa  precisamente o sinal de uma moralidade inferior, de uma
mentalidade de primitivos. (A. Loisy). A Alemanha, que foi um lar
sagrado da espiritualidade no seculo XVIII e ainda em grande parte do
seculo XIX, tornou-se por uma fatalidade armazem de meras ideias,
invenes e munies; os seus valores de alma, os que se davam e
recebiam por amor, foram trocados por valores mundanos comerciaveis,
pelos que se transmudam por dinheiro, ou se negoceiam por astucia e
odio, ou se arrebatam por conquista. Mas cousa alguma induz a crr no
caracter incuravel da doena, nenhum sintoma pde em boa f apontar-se
que demonstre a corrupo insanavel daquela excelente materia prima, da
qual foi feita, em tempos no remotos, a gloria espiritual da sua gente,
e da qual tambem vieram  humanidade bens preciosos e inolvidaveis.

Para as geraes que nos sucederem, nem sequer poder ser surpreza uma
reconciliao da Alemanha com uma parte daqueles que impetuosamente ela
tem combatido, e uma reconciliao to completa que lhe d ingresso na
unio latina. As afinidades espirituais e historicas da Alemanha so
muito mais proximas do mundo latino do que de qualquer outra especie de
mentalidade, particularmente daquela que domina nas civilizaes
orientais e nas que com elas tm parentesco; a sua paixo presente da
fora, onde conciliao possa ter e no seja puramente uma rebeldia cega
contra toda a insinuao de idealismo, mais de pronto encontrar termos
de identidade na simpatia humanitaria activa, propria do latinismo
ocidental, do que no quietismo mistico e no desprendimento passivo que o
Oriente infundiu e alimenta no slavo. De facto, mais de vinte e cinco
seculos de historia demonstraram que no ha seno duas civilizaes--a
que cristalisou na sobriedade atica, na austeridade moral romana e na
graa crist, fundidas e disciplinadas, e a que vagueia nos
arrebatamentos do Oriente, to de pronto erguidos em extasis de
desprendimento como inflamados na opulencia insondavel da sensualidade.
 mesmo esta oposio de temperamentos e a diuturnidade dos conflitos
que ela causa na ansia mutua de absorpo, na paixo violenta de
transmudar o antagonismo em uma unidade politica e mental estavel, que
de continuo esperamos e nunca chega,  esta atraco reciproca do
Ocidente europeu e do Oriente, protelando-se em guerras infinitas e
conquistas efemeras sem jmais lograrem unir e fundir suas aspiraes
originarias,  esta incompatibilidade at agora irredutivel, quer seja
por amor, quer seja por despotismo, tudo o que tem experimentado e por
muitos modos,  este confronto, de ordinario penoso e raro contente,
que, mais do que as vicissitudes do desenvolvimento interno proprio
dessas duas civilizaes, constitue o drama supremo da historia da
humanidade e suas epopas. At mesmo perante esse dualismo tragico, o
que nestes ultimos quatro anos se tem passado no mundo e que nos seus
males nos parece tamanho, no passar talvez de um acidente do
desenvolvimento interno da civilizao ocidental, porventura uma simples
desproporo entre a civilizao de quantidade, por demais avolumada, e
a civilizao de qualidade, a necessidade de reduzir essa desproporo a
termos de equilibrio consentaneo com os nossos fins, tradies e
vontade.

No havendo idealismo de consequencias praticas fra destas duas almas e
no se concebendo a vida fra de qualquer idealismo imanente, a Alemanha
ter por fatalidade logica de se consubstanciar com uma dessas duas
almas, e adivinha-se sem maior esforo para onde se inclinar, tanto
mais que se sabe donde veio, onde foi buscar a trama da sua civilizao.

A experiencia da vida , em uma larguissima extenso, a reduco ao
absurdo de uma grande parte da propria vida;  um fabrico incessante de
rebutalho de aspiraes. O que na infancia se nos afigurou grande, no
raro se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a
creana cobiou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e
despresou-o a idade da razo. Esta constante e progressiva reviso e
eliminao de valores, que praticamente conduz  simplicidade e
psicologicamente acrescenta e engrandece a espiritualidade,--isto
constitue a civilizao, se o consideramos na historia dos povos, e 
por igual uma parte, e muito grande, da educao, se o observamos no
desenvolvimento individual. A cultura e a educao do homem e das
sociedades no so outra cousa seno o processo e a aco dessa reviso
de valores iniciais, que teve o seu primeiro padro em Esparta e a sua
ultima medida, e a mais alta, em Jerusalem, no Calvario.

Perante esta lei de sucesso de valores, verificada na historia e de
continuo renovada em nossa consciencia, aquilo que se passou no mundo
nestes ultimos cincoenta anos, e de que a Alemanha foi o mais perfeito
exemplo e o mais retumbante porta-voz, esta paixo de materialidades e a
crena em suas virtudes, que para suprema eficacia deu a escravido do
homem perante o estado, a abdicao na abstraco perigosa e despotica
que se chama o governo; essa ambio de fora fisica, em cujos
fundamentos alguem entreviu uma supersticiosa mitologia, no teria sido
mais do que a expresso de um momento infantil do desenvolvimento dos
povos civilizados, que o tempo ha-de corrigir pelos proprios impulsos do
crescimento, tal qual est demonstrado na historia das naes latinas.
Direi mesmo que quem observar com simpatia e serenidade o conflito de
opinies que a guerra inflamou, ter repetidas vezes encontrado entre os
homens mais exaltados na admirao da Alemanha e dos seus feitos, at a
defesa das crueldades da sua cultura, caracteres da mais profunda
pureza e da mais cativante ingenuidade. So crianas grandes, crianas
excelentes, preciosa materia prima da bondade e da justia, apenas e
passageiramente dominadas pelo que melhor corresponde  pujana da sua
juventude, naturalmente turbulenta, ainda avida de dominio, como 
proprio da sua fora, aprestando-se entretanto para aquelas eliminaes
que lhe ho de transformar os impetos em anseios de liberdade e de
desprendimento, visto que esta  a qualidade humana por excelencia.

Demos pois ao tempo o que  do tempo, e, enquanto esperamos por dias
menos agrestes, invoquemo-los pelo nosso esforo, por essa arte divina
que as geraes glorificaram sob o titulo de educao classica.


FIM


    [1] _A Guerra. Depoimentos de Herejes._ (F. Frana Amado; Coimbra,
    1915).

    [2] _The European Anarcky_, (Allen & Unwin).

    [3] N. 2843, de 16 de abril de 1916.

    [4] J. Bryce. _The American Commonwealth_, 3. edio, vol. II, pag
    788.

    [5] _The World in Conflict_ e _Questions of War and Peace_. (T.
    Fisher Unwin; Londres, 1915 e 1916).

    [6] L. F. Hobhouse, _The World in Conflict_. Pag. 98.

    [7] _The Ultimate Belief._ (Constable & Company; Londres, 1916).

    [8] Clutton Brock. _L. c._ Pag. 105 e 106.

    [9] G. Lansbury. _Your Part in Poverty._ (G. Allen & Unwin;
    Londres). Pag. 48.

    [10] Pierre Hamp. _Le Travail invencible._ (Edition de _La Nouvelle
    Revue Franaise_; Paris, 1916).

    [11] L. Tolstoi. _Journal intime, 1895-1910._ (Paris: E. Flammarion,
    1917), Pag. 17.

    [12] _The Herald_, 28 outubro de 1816.

    [13] _The War and Democracy._ (Macmillan & C.; Londres, 1915). Pag.
    1 e 2 da _Introduco_, por A. Zimmern.

    [14] Na _Educao Nacional_, 2. serie, n.os 49 e 57, de 15 e 24 de
    junho de 1911.

    [15] J. Joubert. _Correspondance._ (Perrin & C.e; Paris, 1914.)
    Pag. 190 e 191.

    [16] R. W. Livingstone. _A Defence of classical Education._
    (Macmillan; Londres, 1916.) Pag. 77.




INDICE


                                                              Pag.
  Prologo                                                     V
  Do que o fogo no queima                                    1
  Valores restaurados--Renascimento da educao classica      57



DO MESMO AUTOR

    * Sonho de Perfeio, 1901, romance.
    * Vozes do meu Lar, 1902.
    * Na Paz do Senhor, 1903, romance.
    * Reino da Saudade, 1904, romance.
    * Via Redemptora, 1905.
    * Apostolos da Terra, 1906.
    * S. Francisco d'Assis, 1908.
    * Jos Estevo, 1909.
    * Alexandre Herculano, 1910.
    * Rogaes de Eremita.
    * Salmos do Prisioneiro, 1915.
    * A Guerra, Depoimentos de Herejes, 1915.






End of the Project Gutenberg EBook of Do que o fogo no queima, by 
Jaime de Magalhes Lima

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