The Project Gutenberg EBook of Amres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir

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Title: Amres d'um deputado

Author: Hippolyte Buffenoir

Translator: A. Ferreira

Release Date: January 12, 2010 [EBook #30946]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMRES D'UM DEPUTADO ***




Produced by Pedro Saborano





IV--Coleco Diamante

HIPOLITO BUFFENOIR

Amres d'um deputado

Guimares & C. editores--Lisboa


Amres d'um deputado


_Composto e imprenso na Imprensa
de Manuel Lucas Torres
Rua do Diario de Noticias, 93_




COLECO DIAMANTE


_Hipolito Buffenoir_


Amres d'um deputado


_Trad. de A. Ferreira_


1911
Guimares & C.--Editores
68, R. do Mundo, 70
LISBOA




I

_O caf Tabourey_


--Paga oito sous! gritou Carlos, o moo do caf Tabourey, dirigindo-se
 menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento, exercendo o
logar de caixa, e acompanhando o grito do lanamento d'uma moeda de
cincoenta centimos sobre o marmore d'um pequeno balco.

A rapariga guardou a moeda e deu-lhe o troco de dois sous, que Carlos
fez cahir sobre uma meza do fundo onde um freguez se achava escrevendo
uma carta.

--Oito e dois dez! resmungou o moo do botequim, tirando um prato e uma
chavena que se achavam sobre a meza.

--Est bem, guarda o resto para ti! retorquiu suave e tristemente o
freguez, mal erguendo os olhos da carta que estava terminando.

O relogio collocado quasi junto do tecto da casa, embutido mesmo nos
ornatos da cimalha marcava dez horas e vinte e cinco minutos e o
freguez do caf Tabourey olhando-o, melancholicamente, suspirou e pensou:

--Decididamente, no veem esta noite; levanto a sesso!

Ainda se demorou alguns minutos procurando na meza do centro, entre um
monte de jornaes, o Soir e no o encontrando, dirigiu-se  menina
Amelia Dufer, entregando-lhe a carta que acabava de escrever.

--Se esses senhores vierem, a menina faz-me o favor de entregar esta
carta a Maupertuis, sim?

--Com todo o gosto, sr. Ronquerolle, respondeu, amavelmente, a joven
Amelia, esboando um gracioso sorriso, completamente perdido, porque o
seu interlocutor havia j desapparecido na rua Vaugirard.

N'aquella noite, Ronquerolle, que se sentira invadido por um
aborrecimento maior que de costume, tomara uma importante resoluo.
Decidira voltar  sua terra natal, ha tanto tempo esquecida, e a carta
que elle entregara  menina Amelia Dufer, ao sahir do caf Tabourey,
dizia o seguinte:

                                                         Meus amigos:

Porque no vieram esta noite? Esperei-os durante muito tempo. Tenho
necessidade de os ver. Vou partir para a Borgonha.

Estou cheio de tristeza.

                                                        Vosso amigo,

                                                  Maximo Ronquerolle.

s onze horas, os amigos de Ronquerolle aos quaes aquella carta era
dirigida e que, aps o jantar tinham resolvido dar um passeio pelos
boulevards voltavam ao Bairro Latino, entrando no seu caf predilecto,
pensando, e com razo, que Ronquerolle, se j ali no estivesse, lhes
teria deixado o que elles vulgarmente chamavam as suas instruces.

Entretanto, o que mais desejavam era vel-o porque tinham a dar-lhe uma
importante noticia.

Estes rapazes chamavam-se Jayme Maupertuis, Feliciano Didier e Emilio
Branche. Eram, como Maximo Ronquerolle, poetas, jornalistas e politicos.
Pobres, quasi desconhecidos, procuravam ser alguma coisa e para esse fim
corriam em busca da fortuna e da gloria. Todos os quatro eram republicanos.

Tinham feito excellentes estudos na provincia, e aos vinte e vinte e
cinco annos haviam partido para Paris, com grandes receios das suas
familias, que os consideravam perdidos, no movimento e confuso da
grande capital.

Socegados na apparencia, eram quatro enthusiastas. A imaginao junta a
uma clara intelligencia, eram as qualidades predominantes de todos elles.

A sua conducta era irreprehensivel. A amizade que os unia era profunda.
Estimavam-se, adoravam-se mutuamente.

Ronquerolle e Maupertuis tinham-se conhecido na provincia, na sua terra
natal, na Borgonha. Travando relaes, de creanas, aos quinze annos,
durante os dez que se seguiram tinham-se perdido de vista at que se
haviam reencontrado em Paris, graas  Revue des Potes, que publicava
versos de ambos.

Didier e Branche eram do norte. Viviam como dois irmos. Uma bella
manh, juntos haviam deixado Lille, e juraram  sua entrada em Paris, de
sempre ahi continuarem a viver juntos e de juntos tambem seguirem a
carreira, que a sorte a qualquer d'elles deparasse.

Hospedados no hotel Lisbonne da rua Vaugirard, em pleno Bairro Latino,
ali encontraram  mesma meza, Ronquerolle e Maupertuis. Uma grande
sympathia se estabeleceu rapidamente entre esses quatro rapazes, que em
poucos minutos comprehenderam que os movia o mesmo pensamento, a ambio
e o desejo vehemente d'uma absoluta independencia.

Na occasio em que o leitor trava conhecimento com os quatro mancebos,
conheciam-se elles ha dois annos. Os primeiros tempos da sua franca e
leal camaradagem, tinham sido encantadores. Haviam comunicado os seus
pensamentos, os seus projectos de futuro, enthusiasmando-se mutuamente,
lendo os seus versos e conversando sobre os seus amres, pois que cada
um d'elles tinha a sua amante.

Chegados ao caf os tres amigos de Ronquerolle, receberam a carta que
este ali lhes deixara encarregando-se da sua leitura Maupertuis, que do
seu contheudo deu conhecimento aos seus companheiros Didier e Branche.

--Vamos depressa! disse Branche, que tinha por Maximo uma verdadeira
adorao.

Um quarto de hora depois, os quatro amigos achavam-se reunidos em casa
de Maximo Ronquerolle, que habitava no boulevard Montparnasse.

--J sabes da novidade? perguntou Maupertuis.

--Qual novidade?! disse Ronquerolle surprehendido.

--Sahiu o decreto.

--Um decreto!?

--Pergunta a Didier e a Branche!

-- verdade! ajuntaram estes.

--Trouxe-te o numero do Soir, que trata do assumpto, disse Branche.
Aqui tens, l, nas ultimas noticias.

Com effeito Ronquerolle leu um decreto do Presidente da Republica,
convocando os eleitores para reunirem em 15 de julho.

Ronquerolle, pallido de commoo, conservou-se um momento ancioso.

 que elle sabia que aquella data, marcada para as eleies de
deputados, poderia ter grande importancia na sua vida. Para elle esse
dia seria decisivo, na sua existencia, d'aquelles cuja aproximao faz
tremer o homem mais corajoso, causando-lhe calafrios.

--E ento, que me dizes do decreto? perguntou Maupertuis.

--Digo-te, respondeu Ronquerolle, que elle me indica, que tenho a
dizer-lhes coisas muito graves. Assentem-se que temos que conversar.

Os trez amigos de Maximo acceitaram o convite e emquanto Ronquerolle foi
buscar uns papeis guardados n'um movel proximo, esperaram anciosos que
elle falasse.

De volta para junto da mesa perto da qual se achavam os seus amigos
Ronquerolle lanou os papeis sobre a sua secretaria e aproximando o seu
candieiro de trabalho e tomando uma cadeira, disse rindo:

--Est aberta a sesso!

Ento Ronquerolle contou aos seus amigos que havia algum tempo estava em
relaes com o comit republicano de Saint-Martin, na Borgonha; que os
membros d'esse comit lhe tinham offerecido a candidatura por aquelle
districto, e que elle havia demorado a resposta at ao dia em que o
decreto relativo s eleies fosse publicado.

--Explendido! gritaram ao mesmo tempo os trez amigos. Bello! O decreto
sahiu. No ha que hesitar, acceitas!

--Mas eu hesito ainda; e se lhes pedi para virem aqui esta noite, foi na
inteno de lhes falar d'este negocio e de lhes pedir conselho.

E Ronquerolle tornou conhecidos dos seus amigos os documentos relativos
 futura eleio por Saint-Martin. Tratava-se de lutar, em nome da
Republica, contra o marquez de la Tournelle, que representava ali as
ideias reaccionarias, e que seria approvado por todos os fanaticos do
throno e do altar.

--Mas isso  encantador, exclamou Maupertuis, fars desapparecer o tal
marquez como uma simples bolinha de prestidigitador; e entrars na
Camara como uma bala de canho.

--No me embriaguem com palavras, disse Ronquerolle desenhando-se-lhe
no rosto uma nuvem de tristeza. No v eu contar com a victoria e me
aguardem as desilluses. A lucta ser encarniada, terrivel. O marquez
possue influencia,  rico, pode vencer...

--Ora adeus! interrompeu Didier. Todo o districto de Saint-Martin se
impressionar com a tua embriagadora eloquencia, inflamars todas as
intelligencias com os teus discursos, e no dia da votao, o teu nome
victorioso sahir das urnas.

--E depois, accrescentou Branche, que amava mais Ronquerolle do que a um
irmo, tu imaginas que vamos deixar-te combater ssinho?! Reclamamos
tambem a nossa parte na lucta; proponho que partamos comtigo para a
Borgonha, tomando a cidade de Saint-Martin, como nosso quartel-general,
da qual faremos fogo, de quatro barricadas, afim de reduzir  expresso
mais simples sua excellencia o marquez de la Tournelle e todas as jovens
e velhas devotas, que, estou certo, correm j por montes e valles
trabalhando a favor da candidatura de to alta personagem!

Uma formidavel gargalhada saudou a arrogante phrase de Emilio Branche, e
o proprio Ronquerolle foi obrigado a acompanhal-a olhando o seu amigo.

Depois de duas horas de discusso, ora calma ora ruidosa, ficou decidido
que Ronquerolle acceitaria a candidatura que lhe era offerecida, que
Branche, Didier e Maupertuis deixariam Paris durante o periodo
eleitoral, e que iriam a Saint-Martin auxiliar o seu amigo, e que, sendo
necessario fundariam um jornal de combate.

Ronquerolle mais pallido ainda que do costume, estremecia de satisfao
ao pensar que o seu nome ia sahir da obscuridade, e que ia achar-se
envolvido nas luctas politicas do seu paiz. Assaltava-o j o desejo, de
se encontrar, elle, filho d'um humilde artista borgonhez, em frente
d'esse arrogante marquez de la Tournelle, provando-lhe que os filhos dos
proletarios tinham mais sangue nas veias, que os filhos e os netos dos
emigrados de Coblentz, entrados em Frana nos carros de mercadorias do
estrangeiro.

Provava assim possuir o legitimo orgulho dos homens seguros da sua
consciencia e do seu valor e o desejo de ajudar generosamente os seus
amigos, fazendo-os saltar os obstaculos, que os impediam de obter uma
posio que lhes permitisse chegarem at onde a sua justa ambio os
attrahia.

No era s por si que Ronquerolle ambicionava uma situao, era por
Maupertuis, Branche e Didier. O primeiro a chegar ao ponto desejado
devia estender a mo aos outros, e, decerto, no era Ronquerolle dos que
poderia esquecer os companheiros dos dias difficeis da mocidade.

Era uma hora da manh quando os quatro rapazes se separaram.

Encontrando-se no boulevard Montparnasse, os amigos do poeta,
preocupados com os acontecimentos que iriam dar-se, guardaram silencio.

A noite estava magnifica. Uma brisa suave trazia  grande cidade os
vivificantes perfumes dos bosques de Ville-d'Avray, de Svres, de Meudon
e de Clamart. Alguns trens percorriam ainda os arruamentos e s
elles turbavam o socego d'aquelle bairro de Paris.

Chegados  encruzilhada do Observatorio, Maupertuis, Didier e Branche
voltaram a conversar animadamente.

Intimamente, porm, sentiam-se tristes.

--Uma nova existencia vae comear para ns, disse Maupertuis, uma vida
de discordias, de combates, de lucta. Podemos dizer adeus  bella
tranquilidade dos nossos vinte annos!

--E o que faremos das nossas amantes? acrescentou subitamente Didier.

--Daremos a liberdade a essas gentis avesitas, disse Branche, e no as
lamentemos que ellas sabero orientar-se no paiz do amr. Voces bem
comprehendem, que no podemos preocupar-nos com saias durante o periodo
eleitoral.

--Poderiamos talvez, interrompeu Maupertuis, envial-as para casa de seus
paes!

--Tu falas bem! tornou Branche; infelizmente ignoramos a sua morada.

--Porm, Ronquerolle, accrescentou Maupertuis, no poder, to
facilmente como ns, desfazer-se da sua amante. Trata-se d'uma ligao
sria. O que ser de Emilia sem elle?

--Meus filhos, disse Branche com ares paternaes, guardemos para amanh a
continuao da palestra, e vamos deitar-nos. A discusso fica suspensa.

E os trez amigos separaram-se.

Entretanto Ronquerolle, aps a sahida dos seus amigos, encontrando-se no
seu modesto gabinete de trabalho apressou-se a tomar algumas notas,
sobre o que se passava, e entrou no seu quarto.

Julgando encontrar a amante adormecida, avanou com precauo para no a
despertar. Qual no foi porm o seu espanto, quando a encontrou
embrulhada n'um robe de chambre, sentada n'uma cadeira e chorando
copiosamente.

--Que tens tu? disse Ronquerolle, aproximando-se e tomando-a nos braos.

A pobre rapariga soluava perdidamente, e no podia articular palavra.

Comtudo, como o amante a enchia de perguntas e a envolvia em caricias,
acabou por dizer-lhe que tinha ouvido toda a conversao que elle tivera
com os seus amigos, e que bem reconhecia que a legitima ambio de
Ronquerolle, era uma ameaa  sua felicidade, que seria a separao de
ambos, para sempre talvez.

E essa incerteza, era terrivel para ella, que apenas podia receiar e
chorar.

--Creana, disse ternamente Ronquerolle, porque duvidas de meu carinho?
No sou o teu amante, o teu melhor amigo? Por ventura, depois de trez
annos, que vivemos juntos, alguma vez te menti, te enganei, te abandonei
um dia, uma hora?...

Tentava animal-a, mas a duvida e o receio haviam ferido a alma sensivel
da pobre Emilia, e tornar-se-hiam mais vivos  medida que se fossem
desenrolando os acontecimentos, que to fortemente interessavam a
Ronquerolle.

A amante do novo candidato a deputado, era uma rapariga de vinte e trez
annos, de cabellos louros, olhos azues, d'um azul encantador, figura
insinuante, bem talhada, seio proeminente mas sem exagerao.

Adorava a Ronquerolle a encantadora Emilinha.

Tinham-se conhecido por forma um tanto ou quanto original.

Haviam frequentado ambos o curso d'um professor celebre da Sorbonne.

A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha,  qual os seus
parentes, que viviam na provincia, a tinham confiado.

Os amres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham comeado
com o aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim
do Luxembourg.

Que de encantadores passeios no realizaram Ronquerolle e a linda
rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Mdicis!

Que de ternas discusses elles no prolongaram percorrendo a Avenida do
Observatorio!

Que de alegres pensamentos, no os assaltaram ao atravessarem o
arvoredo, por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de
marmore, onde ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus
projectos, dos seus sonhos de felicidade!

Toda a fora da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de
vida, perpassava por elles.

Um dia juntaram-se as mos e apertaram-se com transporte. Depois,
Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e
finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no proprio
dia em que elle, eloquentemente, dissertava sobre os encantos dos amres
platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia  sua habitao e fazia da pobre
pequena sua amante.

Desgostos, inquietaes e lagrimas tinham j acompanhado essa ligao
durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle
e de Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as
angustias da pobreza, os tormentos da ambio, e as calumnias dos vis e
dos preversos.

Agora porm Emilia, conforme avanavam os dias e os mezes, sentia
avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por
circunstancias imperiosas, a deixar o amante.

Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como
Ronquerolle seria envolvido no turbilho do mundo, que a sua ambio o
prenderia completamente, e que ella, pobre flr colhida de passagem, no
caminho da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada  sua
dr, ao seu desespero.

Empallidecia e estremecia de commoo quando ao passar por uma egreja,
via descr, ou subir, para uma carruagem uma noiva toda casta e
lindamente vestida de branco, coroada de flres de larangeira. Tambem 
pobre Emilia seria grato, transpor assim as naves do templo, e ali
receber o sagrado annel de casamento.

Ronquerolle podia esposal-a,  verdade, a mais ninguem ella havia
pertencido. Para elle era ella uma mulher honesta; para elle devia
ella ser digna de usar o seu nome.

Por vezes ella tinha a illuso de que a sua ligao seria santificada,
mas pouco depois o seu intelligente espirito abraava tristes ideias e
tinha ento o presentimento do futuro, glorioso para Ronquerolle,
obscuro e desgraado para ella. E esse devotado corao de mulher,
verdadeiramente amante, preparava-se j para o sacrificio, em favor
d'aquelle a quem tanto amava.

Emilia tinha ouvido toda a conversao de Ronquerolle com os seus amigos
Maupertuis, Didier e Branche. Soubera que o amante ia deixar Paris,
partindo para a Borgonha, e o seu corao palpitara com mais fora, com
violencia.

Tinha visto com as mais sombrias cres o futuro que a sorte lhe
reservava e por isso chorava.

--No chores assim, supplico-te! disse-lhe Ronquerolle, olhando-a
ternamente. Commoves-me profundamente com as tuas lagrimas. O que pode
affligir-te assim?!

--Julgavas-me adormecida e no entanto eu estava acordada, respondeu Emilia.

Conheo os teus projectos e os dos teus amigos. Ouvi o que disseram ha
pouco.

O que te causa tanta alegria, entristece-me, porque  o fim d'esta nossa
ligao que surjir dos acontecimentos aos quaes vaes entregar todos os
teus pensamentos, a tua existencia.

--Creana! retorquiu Ronquerolle, pois  esse o motivo da tua tristeza e
das tuas lagrimas! Tu bem sabes que nunca te abandonarei! Vamos, socega!

Pensa na tua bella mocidade: e dize bem alto que te amo e que te hei
de amar sempre com toda a fora do meu corao!

Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convico, abrandaram um
pouco as inquietaes de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem
de amargura e de pezar.

Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua
poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos,
realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraar, que, a
todo o custo, precisava vencer.

A amante canada por fim das commoes soffridas, adormecera. E elle,
sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e  luz, d'uma
lampada, tendo a cabea encostada s mos, parecia recolhido n'uma
dolorosa meditao. O seu olhar brilhava e no mudava de direco
Relembrava as palavras do grande poeta inglez Shelley;

O mundo  feio e mau. Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de
Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos
cidados, aos trabalhadores, aos homems do campo.

N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a
amante adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado
do amante. Transportes d'amr enchiam ento o corao do joven
republicano e pensava, recordando ainda Shelley:

No, no! Nem tudo  feio! Nem tudo  mau n'este mundo! Tomo por
testemunha esta creana, que dorme aqui perto de mim, este seio que se
eleva e abaixa, respirando vida, estes bellos cabellos louros soltos
lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada do reflexos dourados...




II

_O marquez e a marqueza de Tournelle_


A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil
habitantes.  uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares
de praa forte, com as suas antigas muralhas, a sua guarnio e
sobretudo pelo seu velho castello, dominando a cidade e recordando os
tempos do feudalismo. Este castello  habitado desde tempos immemoriaes
pela familia de la Tournelle, que tem nos seus brazes a cora de
marquez.

Os de la Tournelle, durante muito tempo, foram os senhores da regio.
No tempo da Revoluo, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder
decahiu muitissimo; porm quando Bonaparte se apoderou do throno e se
fez imperador, readquiriram o seu antigo prestigio, graas s habeis
generosidades diffundidas na regio e mais especialmente na
circunscripo de Saint-Martin.

No momento em que se desenrolam os factos que relatamos, o marquez
Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta
circunscripo de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe
pertencia. Maire da cidade, conselheiro geral e deputado da direita,
no poderia affrontar os seus inimigos?

Alm d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de
republicanos que se agitava na sua circunscripo. Chamava a esses
bravos democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para
Cayenna, canalha sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e
insultando os padres.

No entanto, as ultimas eleies municipaes tinham mandado trez d'estes
assassinos a tomar o seu logar na mairie, ao lado do sr. marquez, e
o senhor de la Tournelle tinha d'isso um vivo despeito.

A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma
mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos,
sendo mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo
sempre a cabea arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente
desenvolvido nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura.
Os cabellos castanhos claros, os olhos azues, as mos finas com os dedos
alongados, os pequeninos ps, completavam o arsenal das suas graas
femininas. Alm d'isso, amava os perfumes, a toilette e dava leis s
grandes elegantes como as adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era
amavel para todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos.

Finalmente, no se poderia vl-a sem logo a amar. A bella Carlota no
tinha um inimigo, exceptuando talvez o baro de Qurelles, um
conquistador desprezado, que tinha jurado no morrer sem se vingar dos
desdens da altiva aristocrata. O baro vinha rarissimas vezes a
Saint-Martin, mas estava ao corrente de todos os acontecimentos da
pequena cidade.

A marqueza tinha no corao, ou antes na cabea, uma paixo deveras rara
entre as mulheres. Era ambiciosa.

Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o
prestigio superior da vontade e da energia. Porm o marquez de la
Toumelle pertencia  raa dos mediocres, terminando a marqueza por ter
compaixo d'elle. O marquez era um bello homem, muito elegante no seu
porte, muito bom cavalleiro, bom valsista, bom caador, conversador
agradavel ainda que futil, mas incapaz de empregar, por seu proprio
esforo, a actividade necessaria, e de seguir a um fim com tenacidade.
Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma grande confiana
em sua mulher e no tomava qualquer resoluo sem a consultar. Elle era
s quem dispunha dos altos cargos da circunscripo, s elle se
offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a
victoria? Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um
jornal, tendo s suas ordens um comit das pessoas mais elevadas da
cidade, batia o seu concorrente completamente, se acaso um se
apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia to tolo
que contra elle aceitasse uma candidatura.

--Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu
castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu
comit: Elles que nada teem, que so pobres como Job, fallam em ser
senhores! Pois bem! onde est o seu candidato? Que apparea! Vamos,
mostrae-m'o raa de biltres!

Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braos no espao,
ameaando com um gesto o caf da Poule-Blanche, logar da reunio
habitual dos republicanos de Saint-Martin.

A noite cahia lentamente. L em baixo, um ultimo raio de sol dourava
melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que
enervam a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos,
as aldeias perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade
insaciavel lhe subiam ao corao ao pensar que o seu nome dominava na
regio, como as torres do seu castello dominavam as choupanas da
visinhana. Um sorriso de satisfao lhe animou o rosto e teve palavras
d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando estava completamente
absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu creado de quarto,
Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que acabavam de
chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia o
Figaro e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as
noticias dos departamentos e das eleies. Os seus olhos cairam
immediatamente sobre estas palavras em normando: *Borgonha*,
circunscripo de Saint-Martin.

Leu soffregamente a seguinte noticia:

Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois candidatos se propem por
aquelle circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado,
representando o partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle
publicista, candidato do comit republicano. A lucta, diz-se, ser
violenta. Temos, porm, todas as razes para acreditar que o sr.
Marquez de la Tournelle bater o seu adversario.

--Ah! ah! ah! riu o marquez; a graa no est m.

Em seguida, dirigindo-se  galeria, chamou muitos dos seus amigos que
estavam no salo e leu-lhes a noticia que acabava de ler no Figaro.

--Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do comit realista, esse
Ronquerolle ousa apresentar-se aqui!  um homem sem valor, escoria de
Paris, um revolucionario, um escrevinhador. Conhecmol-o creana a esse
senhor! Usava uma blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam...

--No, disse o marquez, tornando-se srio, o pae Ronquerolle era pobre,
mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos
fieis eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e
fui eu quem em tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem
recompensado! O creanola cresceu e  elle quem nos vae dar combate,
meus senhores!

--Mas no  um adversario srio, replicou o conde d'Orgefin;  uma
creancice! Quem  o senhor Maximo Rouquerolle? No existe. Os
republicanos de Saint-Martin deviam pelo menos oppr-nos um homem de
valor e no um fedelho, um ninguem, um cidado Ronquerolle!

Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta
scena, esperando ordens do seu senhor.

--Est bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes
senhores sairemos hoje para fra da cidade, para Sennevel... Ah! espera,
Lapierre, leva o Figaro  senhora marqueza. O criado tomou o jornal e
retirou depois de saudar o marquez.

--Pobre Maximo! murmurava por entre os dentes, atravessando um corredor,
como estes tratantes te tratam! Est descanado, que eu te ajudarei com
as minhas fras a destruir esta nobreza. E isto simplesmente porque
outr'ora fmos camaradas na escola...

Lapierre foi interrompido no seu monologo pela campainha electrica. Ao
mesmo tempo, a marqueza atravessava a galeria que confinava com a escada
d'honra do castello. Ia passear um pouco pelo jardim antes que a noite
descesse completamente. O criado entregou-lhe o jornal. Apenas o abriu
os seus olhos cairam sobre a nota relativa  eleio de Saint-Martin.

Ao lr o nome de Maximo Ronquerolle, publicista, a marqueza
empallideceu, murmurando:

--Meu Deus! seria elle? ser possivel: Sim, sim, chama-se Maximo, como
eu Maximiliana, recordo-me.  elle que vae chegar?

A commoo da marqueza era to forte, que as suas mos finas se
humedeceram, como se tivesse febre; em logar de ir passear, como
tencionava, no jardim, voltou aos seus aposentos onde se deixou cair
n'um fauteuil.

Passado um instante, levantou-se sem fazer ruido e offegante, como uma
criminosa, temendo que qualquer dos seus criados a viesse surprehender,
abriu uma pequena secretaria e tomou um cofre de que s ella possuia a
chave, indo sentar-se junto da janella. A tarde tinha caido
completamente. Um ultimo raio, como diz Andr Chenier, animava ainda o
fim da tarde, mas as trevas do crepusculo invadiam toda a natureza. A
marqueza affastou as cortinas da janella;  luz do ultimo raio de sol
que desapparecia, pde reler uma carta que estava no cofre e que tinha
esta assignatura: Maximo Ronquerolle.

Era uma carta d'amr e d'amr apaixonado. Os versos misturavam-se com a
prosa e o signatario falava d'uma tarde, d'um baile parisiense onde
tinha danado com madame de la Tournelle...

Oh! porque vos vi eu? dizia a carta. Porque senti eu bater o vosso
peito junto ao meu n'esse baile onde me levou o destino, esse Deus do
mundo, segundo o pensamento de Schiller? Penso constantemente em
vs,  a saudade por vs que me alenta. No vivo, no aspiro seno 
vossa belleza.

Depois, impellido pelo lyrismo da sua paixo, Ronquerolle, ia at 
intimidade da marqueza, cantando a sua formosura hellenica em estrophes
d'oiro.

Os seus lindos olhos azues o seu porte altivo e distincto d'uma plastica
impecavel, o seu amr ardente, tudo alli cantava em arrobos d'amr e
d'enthusiasmo.

M.me de la Tournelle teve um estremecimento ao lr de novo esses
versos. Com effeito, lembrava-se d'um rapaz com quem uma vez tinha
danado, havia quatro anos e que, no dia seguinte, ousara escrevr-lhe,
fazendo-lhe uma declarao d'amr ardente... Porque guardara ella essa
carta que a podia comprometter? Porque a no rasgara e lanra ao fogo
como fizera a tantas outras produzidas pela sua belleza explendorosa?
Porque tremia, ao lr de novo uns versos, escriptos outr'ora por um
desconhecido que perdra de vista no grande mar da vida parisiense?

Mysterios do corao que nem mesmo os grandes sabios descobrem.

Enigmas do sentimento que zombam das investigaes mais cuidadosas.
Talvez, no fundo da sua alma, a bella Carlota sentisse uma alegria
intima, e como que occulta, de ter inspirado uma paixo to violenta e
to sincera como a que sentia Ronquerolle! Talvez que os versos do joven
poeta, com o seu rythmo harmonioso, lhe recordassem o doce encanto d'uma
valsa preferida! Talvez que a audacia de Ronquerolle lhe no tivesse
desagradado, e admirasse a sua temeridade corajosa, o enthusiasmo da sua
juventude!

A noite espalhava-se por toda a parte e ella ficara recostada no seu
fauteuil, com a luz apagada.

A escurido favorecia o seu sonho e, apertando entre as mos a carta,
murmurava, distraida, os versos de Ronquerolle.

E era elle, esse terrivel democrata, cuja canditadura os jornaes
anunciavam em opposio  de seu marido! Era elle que vinha 
circumscripo de Saint-Martin arvorar a bandeira da Republica contra a
nobreza contra a sua raa, contra a sua familia, contra ella mesma?

Ia voltar a vl-o e a fallar d'elle a cada momento!

--Meu Deus! Meu Deus! dizia, que singular aventura. Se meu marido
soubesse! Mas porque estou eu assim perturbada? Quem , afinal, esse sr.
Ronquerolle?

Guardou de novo e com cuidado a carta amorosa no cofre que fechou em
seguida, e que foi encerrar n'um dos esconderijos mais occultos da
secretaria.

N'esta occasio, o marquez de la Tournelle voltava do logar de
Senneval aonde tinha ido levar a nova da candidatura republicana a um
amigo da sua familia. Acompanhavam-o conde d'Orgefin e os srs. de
Trimolet e de Nipostte, pessoas da mais alta distino na cidade e em
todo o departamento.

Os cavallos do marquez passavam estrepitosamente na calada da rua
principal de Saint-Martin. Tinham j passado o theatro e o caf da
Bolsa. Um minuto mais e a carruagem estaria em frente da Poule
Blanche, o caf dos vermelhos, dos assassinos dos democs, como
costumava dizer o marquez de la Tournelle.

--Que ruido vem d'este lado! disse o sr. Trimolet, indicando a Poule
Blanche; ouvem meus senhores? De quem  esta voz? Ha alli uma reunio?
Escutem! Applaudem!

O marquez deu ordem ao seu cocheiro para demorar o andamento e os
cavallos comearam a andar a passo. A porta da Poule Blanche que dava
para a rua estava completamente aberta. O caf via-se cheio de gente,
empregados de paletot, taberneiros de blusa, operarios em mangas de
camisa e com o avental do trabalho. Sobre o bilhar viam-se muitos
garotos. Em cima d'uma cadeira junto do espelho do fundo, um orador
fallava. A sua voz sonora fazia tremer tudo e ouvia-se at da praa
junto  fonte. A multido escutava-o religiosamente.

--Queridos concidados, dizia o orador, accorri ao vosso appelo.
Agradeo-vos o no vos terdes esquecido de mim. Trabalhadores, sou dos
vossos! Republicanos, podeis contar commigo como eu conto comvosco!

... De que tratamos ns? Tratamos apenas de dezenraizar d'esta cidade,
d'este departamento, a arvore pdre da reaco monarchica e clerical;
trata-se de bater no proximo escrutinio legislativo, o senhor de la
Tournelle, esse marquez da idade media perdido nos tempos
modernos!... Pois bem! ns o alcanaremos, cidados!...

Applausos freneticos acolheram estas palavras, ouvindo-se immensos
gritos de: Viva a Republica! Viva o cidado Ronquerolle! Nunca a Poule
Blanche tinha abrigado egual gritaria popular. N'esta occasio a
carruagem do marquez, que caminhava a passo, chegava deante do caf
republicano.

Aos gritos repetidos de: Viva a Republica! Viva o cidado Ronquerolle! o
candidato realista empallideceu de colera. No havia que duvidar, os
democratas de Saint-Martin apresentavam realmente um candidato para lhe
fazerem opposio.

--Cidados, continuava Ronquerolle enthusiasmado com os applausos,
faremos tremer os de la Tournelle no seu castello feudal e
desembaraar-nos-emos do seu jugo. O povo, libertado pela Revoluo, no
quer nobres para o representar.  de cidados saidos das suas fileiras
que deve fiar os seus destinos...

Ronquerolle pronunciava estas palavras com uma voz estrondosa e o
auditorio tremia d'enthusiasmo.

--Como, dizia o conde d'Orgefin,  este tratante quem nos trata assim! E
applaudem-no. Mas, meus senhores,  necessario desembaraarmo-nos d'este
canalha!

A carruagem do marquez de la Tournelle transpunha a porta do castello
e ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidados reunidos na
Poule Blanche para festejar a chegada de Ronquerolle e dos seus
tres amigos Branche, Didier e Maupertuis.

A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta,
estava sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de
Saint-Martin. Toda a populao estava impressionada. Viam-se pelas
portas as mulheres ou faziam grupos nas ruas; os homens tinham invadido
todos os cafs na cidade e fallavam com animao da lucta eleitoral.

Na Poule Blanche a multido augmentava a cada instante. Os discursos
tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impresses acrca dos
oradores que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de
Ronquerolle. Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios
d'espirito parisiense, tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois
de Maupertuis, o presidente do comit republicano, Kolri, desenvolvra
um pequeno discurso cheio de bom senso e d'energia. Tinha posto o
marquez de la Tournelle nas peores condies e os exaltados no
fallavam j seno em ir cantar a Marselhesa debaixo das janellas do
castello.

Pouco a pouco, porm, a Poule Blanche ficou sem ninguem. A hora de
fechar tinha chegado. Kolri, o bravo Kolri ficara com os parisienses,
acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal.
Organisou-se ento, uma pequena sesso onde foi elaborado um plano de
campanha.

--Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que
avisar-vos de que vamos fundar um jornal. O primeiro numero sair
depois d'amanh. Chamar-se-ha Reveil de Saint-Martin.

--Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, ser o suficiente para
destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha
muito faltava aqui! Ah! a imprensa!  a alavanca do progresso!...

O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente
 porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a
scena do castello quando o marquez de la Tournelle lra no Figaro a
noticia da sua candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os
termos humilhantes com que o conde d'Orgefin fallara a seu respeito.

--Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da
delicadeza da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente
uma resposta  mensagem d'esse canalha.

Os clares do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar
perfeitamente calmo e a sua voz no traduzia emoo alguma extraordinaria.

--Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e
escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de ns! Guerra,
guerra implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda
antes de 89... antes de 93!

Ao pronunciar esta data, Ronquerolle exaltou-se dando um valente murro
sobre a mesa, o que atemorisou Lapierre.

A meia noite approximava-se. Lapierre retirou-se, promettendo a
Ronquerolle trazl-o ao corrente de tudo o que passasse no Castello.

Kolri retirou, tambem, por sua vez.

Tinha de convocar o comit republicano para o dia seguinte s oito horas
da noite e, sem perder um minuto, todos os cidados convictos deviam
collocar-se nos seus postos. A primeira reunio publica effectuar-se-ia
mesmo em Saint-Martin. O marquez seria convidado por elle a fim de
defender as suas ideias e o seu programma. Outras reunies seriam
organisadas em todos os logares dos districtos do departamento.

Os quatro amigos, quando se encontraram ss, riram extraordinariamente.
A sua mocidade tinha necessidade de despertar; o imprevisto da situao
encantava sobretudo Branche, Didier e Maupertuis.

Ronquerolle, esse era mais grave, porque todos os ataques iam cair sobre
o seu nome. Por outro lado a sua companheira, a Emilinha, preocupava-o.
Deixara-a em Paris mas  partida tinha havido uma scena pungente.

A pobre rapariga que no queria ficar s, queria por fora acompanhal-o.
Que lhe importava a politica? Ella no comprehendia cousa alguma da
eleio a no ser que ia ficar separada do homem que amava, do homem que
para ella representava tudo n'este mundo.




III

_Trava-se a lucta_


Ainda que fatigados pela viagem de Paris a Saint-Martin, pelos discursos
e conversaes enthusiasticas do Poule Blanche e se bem que era uma
hora da madrugada, os quatro alegres rapazes no pensavam em deitar-se.

No obstante as graves preocupaes da occasio os amigos de Ronquerolle
conversavam da maneira como se tinham despedido das suas apaixonadas
companheiras. Estavam ainda na edade feliz em que a bella
despreoccupao da juventude cobre todas as cousas com a sua aza
protectora; em que os dias e as noites no teem horas bastantes para
pensar nos projectos do espirito e nos encantos do corao, nas
confidencias d'amizade e nas caricias da alma.

--Meus meninos, disse Branche, para terminar a conversa,  muito bonito
fallarmos das nossas amantes, contar as suas phantasias, mas ns no
viemos aqui para nos divertirmos.

--Temos ainda trabalho a fazer, interrompeu Ronquerolle. Venham pennas,
papel e tinta e apparea o que ha de melhor no nosso cerebro. O primeiro
numero do nosso jornal, o Reveil de Saint-Martin, deve apparecer
depois d'amanh.

 tempo de descrevermos a nossa chegada. Tu, Maupertuis, redige um curto
artigo, descrevendo a recepo que nos foi feita, resume os nossos
discursos e retrata bem o enthusiasmo da multido. Tu, Didier,
ridicularisa o marquez de la Tournelle, s implacavel, calca-lhe sem
piedade a sua vaidade... Tu, Branche, convida os eleitores a saccudirem
o jugo da nobreza, critica as flres de liz e proclama os direitos do
homem!... Vamos; preparae essas pennas! Cravae os ferros at fazerem
sangue! Fazei fustigar o chicote do ridiculo!...

Os quatro jornalistas pozeram mos  obra. Ronquerolle, esse
encarregou-se de responder s palavras injuriosas do conde d'Orgefin. s
duas horas da manh uma carta volumosa era lanada na caixa do correio
por Branche dirigida  empresa do Reveil, em Paris, visto que o
impressor da localidade no ousava encarregar-se d'imprimir um jornal
republicano, por causa do sr. marquez, maire, conselheiro geral e
deputado.

Antes de se deitar Ronquerolle abriu a janella do seu quarto que ocupava
s. A noite estava serena e bella. As estrellas brilhavam no co, os
perfumes das flres espalhavam no ar, uma frescura deliciosa vinha da
terra e um silencio profundo reinava pela cidade adormecida.  claridade
discreta da lua Ronquerolle via a praa de Saint-Martin e a fonte
decorativa. S o murmurio da agua, caindo, perturbava o silencio da
noite, ouvindo-se de vez em quando o vento silvar por entre as
folhas das arvores, nos telhados visinhos da egreja e nos ulmeiros dos
ribeiros.

Perante este espectaculo de paz, n'esta noite de junho to harmoniosa e
to encantadora, o homem politico desapparecia em Ronquerolle e no
ficava mais do que o poeta seduzido pelas bellezas da natureza immortal.
O mancebo no se canava de sentir a brisa refrescar-lhe a fronte, de
admirar esse espectaculo nocturno, vivo, que lhe recordava as scenas de
opera onde vivessem amres, subindo, de noite,  janella da bem amada a
depr um beijo.

Levado pela sua poderosa e febril imaginao o ousado filho da Borgonha
deixava-se guiar pelos pensamentos do amr e versos ardentes lhe
occorriam  memoria.

Ronquerolle contemplava a egreja de Saint-Martin. Uma fachada estava
toda illuminada pelo luar emquanto que a opposta mergulhava na sombra. O
seu olhar ficou preso ao portico junto do qual em creana tantas vezes
tinha brincado com os seus pequenos camaradas e revia-se correndo em
volta da mairie nos muros cobertos de cartazes e em frente do mercado
fechado por uma grade de ferro. Os seus olhos de repente fixaram-se
sobre a collina que dominava a villa, reconhecendo a torre feudal, o
velho castello dos de la Tournelle. Pensou um momento no seu
adversario, do que o distraiu uma luz que se via n'um dos lados do
castello.

--Quem velar a esta hora na habitao do marquez? pensou Ronquerolle.
Ser o meu inimigo a quem a minha presena impede de descanar? Ser
alguem doente a quem a febre e a insomnia impedem de dormir? Ser alguma
linda mulher que l, com a cabea repousando no travesseiro, um romance
de Balzac ou um poema de Alfredo de Musset? Ser uma mulher
linda?--Fazendo a si mesmo esta pergunta Ronquerolle bateu na fronte
como que recordando-se. Lembrava-se que outr'ora em Paris, fra
apresentado n'uma tarde, a uma mulher soberba que se chamava marqueza
de la Tournelle com quem tinha danado e a quem chegra mesmo a
escrever uma carta apaixonada. Acontecera isto ha trez ou quatro annos,
no sabia ao certo, mas recordava-se claramente d'essa tarde, do baile e
da sua carta insensata. Quanto  mulher no se esquecera que era loira,
que tinha uns seios opulentos, olhos azues e, quando caminhava uns ares
de deusa.

Os acontecimentos da vida parisiense so to accidentados e tantos, as
sensaes succedem-se to rapidamente, as paixes so postas tantas
vezes em jogo, sobre tudo para um mancebo que faz os seus inicios na
vida e na sociedade, que no  para admirar o ver Maximo Ronquerolle
recordar, por acaso, uma das suas aventuras, que, depois de tanto tempo,
encontrava perdida na sua memoria.

Essa luz, que brilhava na escurido da noite em uma janella do castello
do seu inimigo vinha lanar um claro na sua memoria obscurecida e,
occorrendo no sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou
que a pessoa que trabalhava l em cima, na habitao luxuosa do
marquez de la Tournelle, era a linda e elegante mulher que em
tempo lhe perturbara a cabea e o corao.

--Mas no! murmurou Ronquerolle. No  possivel! Estas cousas s
acontecem nos romances e no na vida real!... No emtanto, essa loira
divina d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza de
la Tournelle. Revejo-a ainda na occasio em que danava commigo e
encostava o seu peito desolado contra o meu... Pouco a pouco as
recordaes reviviam. Tornara-se nervoso, o seu corao batera
fortemente, querendo esclarecer a duvida em que se debatia. Os de la
Tournelle eram numerosos. Havia-os no Norte, no Meio-dia, na Borgonha.
Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle conhecera
outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua.

--Vamos! disse fechando a janella, so horas de dormir. Sei bem a quem
hei-de recorrer, interrogarei Lapierre.

Quando adormeceu, a aurora comeava a apparecer. O seu ultimo pensamento
fra de que seria bem extraordinario que ao marquez de la Tournelle
alem da cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher.

Ronquerolle no se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava
no castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina
Carlota. No lia, porm, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O
seu espirito estava demasiado agitado para se entreter com os doces e
consoladores devaneios litterarios. Trabalhava pelo triumpho da sua
causa, escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu
jornal, um artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma
maneira encantadora e em que fustigava o cidado Ronquerolle com toda a
malicia e crueldade d'uma mulher. Tambem ella espetava as esporas at
fazerem sangue.

O marquez de la Tournelle, dissemol-o j, tinha um jornal o Echo de
la Bourgogne, velha folha monarchica, assignada por todos os curas da
circunscripo de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza no
se dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um
elegante artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido
realista e em que zombava dos democratas.

Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia,
quem fosse o seu auctor.

Quando o marquez entrou na sua habitao, aps o passeio a Semeval,
contou toda a scena de que fra testemunha em frente ao Poule Blanche.

--Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos do-vos o exemplo;
trabalham, esto no seu direito e teem razo. Vivemos n'um tempo em que
 necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raa, do nascimento no
 mais do que uma lembrana longinqua.  necessario trabalhar-se, 
necessario descer  arena para se vencer. O poder, o futuro no pertence
seno aos homens d'aco.

O marquez de la Tournelle achou este discurso de sua mulher um
pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objeco. Convinha
voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por
intermedio dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe
n'uma reunio publica, expr-se a ser interrompido, a ter diante de si
por adversario de tribuna um atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de
trovo, e que saido do povo, lhe conhecia as emoes e as coleras, ser
um homem d'aco, n'uma palavra, no sentido em que o entendia a
marqueza; todo este papel, toda esta tarefa no se apresentava ao
espirito do castello de Saint-Martin sob uma perspectiva muito attrahente.

Depois que fra eleito deputado, no fallara uma s vez na camara.
Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco,
limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda
tomava a palavra. Quando, porm, nas galerias reservadas ao publico
appareciam algumas elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus
sorrisos como nos camarotes d'um theatro, no se esquecia nunca de as
requestar, lanando amiudadamente o seu monoculo.

O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do
Parlamento.

Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por no possuir mais que a
apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarar sob uma
fraqueza fingida as alegrias intimas do mando.

--Ah! que se eu fosse homem! disse a marqueza, ao concluir o seu
artigo para o Echo de la Bourgogne e lanando com despeito a penna;
ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.

Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel,
imaginando a maneira, de dar ao sr. de la Tournelle um golpe
traioeiro, a marqueza deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito
Luiz XV, coberto com um baldaquino que amres gorduchos seguravam.

Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de
Ronquerolle.

..........................................................................

Uma grande actividade comeou a desenvolver-se nos dous campos, a partir
d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre
o castello soberbo dos de la Tournelle e a humilde Poule Blanche
onde estavam hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se
apostas. Agitaram-se todas as paixes em Saint-Martin.

As proprias mulheres, se mettiam nas discusses. Muitas d'entre ellas se
mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um
bonito rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se no
organizava uma conferencia publica no theatro, um domingo, depois do
meio-dia? Ellas iriam l. E depois, no era s isso. Tinham simpathisado
com os tres parisienses. Eram d'este modo que designavam Maupertuis,
Branche e Didier. Estes cavalheiros diziam ellas, teem muito espirito;
conhecem a alta vida de Paris. Porque se no convidam?  necessario
deixal-os abandonados na Poule Blanche?

Tal era o objecto das conversaes quando, no domingo, 24 de junho,
appareceu o primeiro numero do Reveil o jornal de Ronquerolle.
Principiava por uma apologia vigorosa do regimen republicano,
seguindo-se-lhe um pequeno artigo intitulado: O sr. conde d'Orgefin.

N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando
as injurias que o conde proferira, terminava assim: Por consequencia, a
redaco do Reveil decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado
como um tolo e convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo
na quinta feira, 28 de junho  reunio publica que se ha de effectuar em
Saint-Martin. Por sua vez, reservamos uma queda honrosa para o nosso
elegante adversario, o marquez de la Tournelle, cujo papel na camara
tem sido at hoje egual a zero. Os eleitores julgaro depois de ter
escutado os dois concorrentes.

O artigo no levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava
esta bomba, apparecia do seu lado o Echo de la Bourgogne e o artigo da
marqueza, brilhando na primeira pagina com a assignatura Phenix.
Ronquerolle era ali martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com
habilidade o seu talento d'escriptor, os inicios da sua carreira
litteraria, considerando-o apenas como um estudante.

Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos
dignos de censura se o fizessemos chorar e tomar a serio os seus
brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripo de
Saint-Martin podero talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje
perdoam-lhe os destemperos mas com a condio de que em breve acabaro.
Em todo o caso seria bom que lhe impozessem silencio.

Ronquerolle no se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca
se alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o.
Separou o estylo e as ideias como homem de metier.

--Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, no  um principiante mas o
medo que lhe provoco  manifesto. A ameaa final denota despeito e
fraqueza Ah! bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei
quem tu s!

No castello houve uma discusso animada a proposito da reunio publica
annunciada. A marqueza queria por fora que seu marido e o conde
d'Orgefin acceitassem o desafio dos republicanos.

O comit conservador decidiu por unanimidade que se deixassem ss os
republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunio publica. Era
por outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era
necessario operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberao
encolerizou-se extraordinariamente.

--Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas
desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a
Saint-Martin ir a essa reunio. Contam comvosco l e vs no ides.
Ainda uma vez lembrai-vos da minha advertencia, dizei adeus 
eleio se vs proprio no defenderdes as vossas ideias!

A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as
simpathias iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido
conquistada por Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno
commercio e a burguezia, indifferentes at ento, davam coragem ao
candidato republicano. Na sua colera a marqueza agarrava-se a seu marido
sem piedade, e perguntava a si mesma porque casara com esse homem, s
bom para se pavonear n'um baile ou n'uma soire.

--Como este Ronquerolle  ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu
fim, abertamente, sem demora, com o bom humour da fora, com a coragem
da mocidade e com a resistencia das grandes convices! E eu que o
ataquei com colera! eu que tentei envergonhal-o!

 um prestigio do talento, o impr-se quelles que merecem o nome
d'adversarios. M.me de la Tournelle censurava-se de ter cedido 
phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!

Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se
sempre attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente
na vida, podem ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais
diversas, que se assemelham sempre pela honestidade superior da
conducta, pelo respeito do que  verdadeiramente grande e bello e pelo
desprezo soberano de tudo que  mesquinho, pequeno falso, venal e
baixo.

Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem
nunca terem trocado duas palavras; seguem-se por uma viso intelectual,
nas suas aces, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque
s ellas se podem comprehender.  isto que explica muitas vezes o
segredo d'essas melancholias profundas que absorvem o pensamento
completamente, d'esses sentimentos, d'essas ligaes, d'esses amres que
o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que um observador de
paixes considera naturaes e fataes.

A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o
republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era
novo, porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho
das suas obras, porque nada devia ao dinheiro,  lisonja e  intriga.
Tudo entretanto os separava, o nascimento, as ideias, a raa, a fortuna,
as relaes e a sociedade em que viviam; mas  lei mysteriosa que
preside aos sentimentos humanos, agrada vencer os obstaculos e acaba
sempre por ligar os que se procuram, os que sentem a necessidade de se
amarem.

A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a
vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando
bater para os Passeios. Estava encantadora na sua toilette de vero.
Agitada, contrariada na sua ambio, cheia de colera contra seu
marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do campo, de
descanar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos
bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo
galope rapido dos seus cavallos.

O retiro conhecido pelo nome de Passeios  um dos mais bellos logares
de Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O
rio, parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado
opposto uma cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo
tocar o ceu azul. Os Passeios so formados por tres avenidas
magnificas, com castanheiros e tilias centenarias. No fundo da avenida
central levanta-se uma estatua em marmore, datada do XVIII seculo e
representando Cybele. Alguns metros distante corre uma fonte rustica
mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.

 um passeio verdadeiramente encantador feito para o amr e para a
ambio. Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso,
abandonado durante a revoluo e que, com o tempo, tombara em ruinas. As
pedras amontoaram-se, as silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas
invadiram-as, mas as arvores resistiram  aco do tempo.

A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de
quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto s
ruinas do castello no ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas
suas economias.

Aos domingos, durante o vero os Passeios eram muito frequentados.
Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes davam alli
rendez-vous s suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara de
marmore, passa por ter visto cousas lindas.  semana, pelo contrario,
era um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a p de
Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.

A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres  vista do rio e das
suas margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe
sentir um encanto mysterioso.

--Meu Deus! como isto  bello! murmurava.

Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello
carvalho desejava vr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um
barco preso  margem do rio, balouando ao capricho do vento, e desejou
sentar-se alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma
palavra, toda a sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em
presena d'essas florestas voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa
verdura que a sombra torna mais attrahente.

M.me de la Tournelle mandou parar a sua carruagem no principio da
grande avenida. Desceu e caminhou a p por entre os castanheiros e as
tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar
o frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem
para regressar a Saint-Martin.

Uma vez alli, comeou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada
contra seu marido.

Appoiava-se ligeiramente  sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo
exhalava, a sua toilette, perfumando a atmosphera. Caminhava
arrogantemente, levando alta e direita a sua linda cabea loira, olhando
para diante com uma elegante arrogancia.

Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova
e bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias,
no meio do silencio da natureza. O corao batia-lhe mais forte do que
de costume. A solido do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza
fazia murmurar docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel
voluptuosidade.

Quando se dirigia para a fonte dos Passeios, viu de repente n'um banco
um homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava s. Tinha os braos
cruzados sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma
meditao de tal modo que no ouvira o passo ligeiro da marqueza nem
dera pela sua presena. Tinha a cabea um pouco inclinada sobre o hombro
e poder-se-hia acreditar que dormitava se no fosse o seu olhar vivo e
expressivo.

M.me de la Tournelle parou. No ousava afastar-se nem ir mais longe.
Impressionara-se ao encontrar um homem na occasio em que se encontrava
s, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou,
portanto; mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a
sombrinha o que attrahiu as attenes do mancebo que se levantou
saudando-a.

Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos,
para meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do
seu futuro, sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir 
superficie e nos pem em evidencia como nos deixam na sombra e nos
lanam no nada.

Quando reconheceu M.me de la Tournelle sonhava com a poesia da
natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das
solides e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar s
agitaes da vida publica, s febres e s agonias das ambies e ter uma
existencia pacifica em qualquer humilde habitao do seu paiz natal.

Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava
junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura
que a sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos
loiros nunca os esquecera!

--A senhora marqueza de la Tournelle? perguntou Ronquerolle.

--Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. No o conheo! Que me
deseja?

Ao dizer isto, M.me de la Tournelle recuou um pouco, olhando a
carruagem que tinha ficado  entrada da Avenida. Viu-a atravs a
folhagem do arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza
temia ser vista pelos seus criados que acreditariam facilmente n'um
rendez-vous, decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o
desconhecido que lhe dirigira a palavra.

--Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crr que no sou
para vs absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho
a confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!

--Vs?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso
inimigo!

--O destino, dizia Ronquerolle,  verdadeiramente o deus do mundo, como
j vos escrevi, citando Schiller.  necessario aproveitar. No fiqueis
immovel debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados
percebero que no estaes s. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa,
onde ninguem nos poder ver e vos direi todo o meu pensamento.

A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e
tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de
todas as vistas.

--Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a
perder-me por vs.

Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco,
contemplava-a e sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella
mulher. No via n'ella a marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata
que desejava a volta da realesa e que sonhava uma crte brilhante em que
triumphasse; no, ella no era para elle, n'essa hora, mais do que a
incarnao da elegancia, da juventude, da vida, do amr, da paixo
incandescente, que queima, que devra.

Por um phenomeno anlogo, a castell de Saint-Martin esquecia que o
homem que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os
infelizes que se revoltam, que fazem as revolues e que prendem os reis
e os imperadores. No pensava que esse homem incarnava o odio fatal do
pobre contra os rico, do humilde contra o poderoso, do opprimido contra
o oppressor. O que n'elle via era o talento promettedor, o enthusiasmo
da sua linda edade, a coragem do homem que luta, a poesia do ideal e da
aco, o encanto emfim d'um espirito superior e d'um corao preso ao
destino.

Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenes
imbecis da sociedade no podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a
natureza boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presena, por si
mesma, tem a sua eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem
singularmente as distancias.

--Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas no sabeis que me perderei
para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha
energia e no  d'hoje este amr, no  d'hontem. Ha quatro annos que
viveis na minha saudade. Recordae o baile em que danmos juntos, onde
vos tive junto do meu peito!... Recordai-vos...

--Amaes-me, vs! o orador das multides, o republicano fogoso, o
apologista do Terror!

M.me de la Tournelle estava de p e encostada  larga tilia, paternal
e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas no a occultava.

Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O
seu busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.

--Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia
lagrimas. Se vos amo!

Fez-se silencio. A commoo impedia Ronquerolle de fallar! Sentia
desejos de tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e
pensava: como convencl-a? S simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua
nobre intelligencia; era a arma mais digna para conquistar uma mulher
como aquella.

--Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a
este encanto, mas no posso. Oh! minha senhora, no misture com a minha
paixo as irritantes discusses politicas. No pairar acima d'essas
questes, para almas como as nossas, a ideal viso do amr? No se
encontram os grandes coraes n'esta esphera superior onde veem acabar
as disputas dos homens? Vde! tenho um orgulho que por vezes me arrasta
e que resistencia alguma far dobrar... appareceis-me, e estou prompto a
cair de joelhos deante de vs. Est domado o meu orgulho? Certamente
no, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos e parece-me que l nos
amaremos.

... No pensaes assim? Sei-o bem, no me enganei comvosco: o mundo ideal
a que aspira a vossa alma no tem nada de commum com as infamias,
com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e dos
partidos. V, respondei, senhora! No disse eu a verdade?

Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza.
Appoiava-se, como ella,  velha tilia e esperava resposta.

--Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias
parecem-se s flres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o
respiram.

--No me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada.

--Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo.

Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mo que uma luva
finissima calava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz
escapar-se.

--Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos
voltarei a ver?

A marqueza hesitou, sentia-se embaraada para responder. N'este momento
os cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente
fugiu a Ronquerolle, dizendo:

--Aqui, d'hoje a tres dias, s dez horas da noite.

Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o
frou-frou harmonioso de toda a sua toilette, custava-lhe a acreditar
na sua felicidade.

Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario
fechava, quando viu a carruagem desapparecer a caminho de
Saint-Martin entre uma nuvem de p, pareceu-lhe que a terra girava por
todos os lados e que o ceu ia sair-lhe do peito.

Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis
arrastavam. Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho,
voltou a sentar-se sobre o banco solitario em que M.me de la
Tournelle o tinha surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas
doces illuses.

--Dentro em tres dias voltarei a vl-a; dentro em tres dias ser minha.
 delicia!  felicidade inesperada! E j antecipadamente, escutava os
transportes da sua paixo, a alegria dos novos amres. De repente bateu
na testa e empallideceu.

--Mas, d'aqui a tres dias,  noite, ha uma reunio eleitoral em
Saint-Martin. No posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os
eleitores... Que fazer?

Ronquerolle acreditou por momentos que M.me de la Tournelle lhe
tivesse pregado uma pea. Ella conhecia a data e a hora da reunio
publica j publicadas no Reveil. Quereria ella d'esta frma pr 
prova o amr de Ronquerolle, forando-o a sacrificar a sua palavra de
homem politico? Quereria ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar
destruir a sua influencia em proveito da sua causa? Emfim, ter fallado
sem calculo algum e o rendez-vous que lhe marcou, na sua coindencia
com a reunio de Saint-Martin, no passaria d'um acaso que por vezes
tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna um obstaculo s
vontades do homem?

Ronquerolle no sabia que pensar.




IV

_O baro de Qurelles_


Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o baro
de Qurelles a Saint-Martin. Como dissemos j, era o unico inimigo da
marqueza por causa do despreso a que ella votara a sua paixo.

Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados 
escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe
enchia o cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente
at conseguir o seu fim e se o no conseguisse era por que ninguem o
poderia conseguir.

Com trinta e cinco annos, rico, este petit baron tinha tido uma paixo
louca pela marqueza de la Tournelle quando ainda era apenas M.elle
Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes,
o seu maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e
inteligente mulher por esposa.

A orgulhosa Carlota ria das suas pretenes.

--Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado baro teimava em
conseguir o seu desideratum, que hei de fazer d'esta creana?  to
baixo que se torna ridiculo.

No emtanto, Domingos de Qurelles no era um imbecil. Era para elle um
contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os
homens no se mediam aos palmos.

Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey no se via obrigada a
debruar-se para tomar o brao de seu marido e o elegante Sergio de la
Tournelle no tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A
repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica
personagem que era Qurelles contribuira immenso para o triumpho do
marquez.

--Ah! dissera Domingos de Qurelles, M.elle de Champeautey quer
desposar um pateta? Pois bem, que o faa, que d'isso se arrepender.

O baro viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu
departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos.
Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para
Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de des
Qurelles tinham sido at ento conservadoras se bem que com uma certa
tendencia liberal. A cr de conservador era uma tradico na sua casa de
fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, no desdenhava em
admittir as modernas theorias democraticas.

No era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se
fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer
dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. No se
desprezava em comer  mesa dos operarios quando para isso se
offerecesse occasio e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.

Se no perdoava  marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os
seus sarcasmos o sr. de la Tournelle, maire conselheiro geral e
deputado.

-- um asno, dizia des Qurelles, fallando do marquez; sim,  um
estupido esse espigado marquez de la Tournelle. Aposto vinte luizes em
como no sabe distinguir a sua mo esquerda da direita e que a respeito
de ortographia  um ignorante.

A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amr
proprio e sobre as irritaes do petit baron. Encontrava assim maneira
de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingana que tinha
acalentado durante tantos annos.

--Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingana. Por mais pequeno que
eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos
que vo ser n'este momento o meu instrumento de vingana. Dal-os-hei ao
novo deputado Ronquerolle.  um republicano exaltado... que me importa
isso.  necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez de la
Tournelle perca a eleio... Ah! o patife, no me exterminou ainda! Ah!
sr. marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vs quem d'esta
vez vir implorar a paz e ento entabolaremos as condices.

Como todos os apaixonados, o baro des Qurelles no renunciara,
ainda,  sua ultima esperana em commover o corao da mulher que
elle to extraordinariamente amara.

Era seu inimigo, por amr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda
a esperana de que, apezar de se no ter podido desforrar, talvez
podesse um dia fazer d'ella sua amante.

--Quem sabe, dizia, o que ser aquella mulher, que sentimentos lhe
dominam a alma, sobretudo depois da desilluso que deve ter sentido aps
o seu casamento com esse estupido marquez.

Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se
sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.

--Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha  merc dos nossos desejos.
Declaro guerra aos de la Tournelle, colloco todas as minhas baterias
em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha
treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; ser
finalmente o resumo de todas as minhas esperanas, de todos os meus
desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o
caso como entenderem. Se porm ainda assim a marqueza continuar a
mostrar-se esquiva, ser Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin.

Domingos de Qurelles adquiriu ento uma rara actividade junto dos
eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo
n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os
operarios, pagava-lhes de beber, comia com elles, acabando sempre as
suas conversas pela politica.

Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o baro
advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello.
O conde d'Orgefin, presidente do comit conservador, era d'opinio que
se devia tomar uma medida energica, e em plena reunio de todos os
marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no
castello do marquez de la Tournelle, a reunio dos oitenta a cem
proprietarios influentes da circunscripo; coroaria a reunio um grande
banquete.

--Que reles canalha que  este baro des Qurelles! dizia uma manh o
conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a
populao contra ns! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as
tradies da sua familia! Ah! marquez,  preciso que no nos enganemos,
se o baro fr contra ns at ao fim da lucta, perdermos votos, mesmo
muitissimos votos.

-- uma vingana de biltre, respondeu o marquez. O baro des Qurelles
 um poltro. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente
commigo, no dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis
por que elle nos odeia a este ponto?

--Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tlo, queria desposar a
marqueza, e no vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do
corao da marqueza, calcando assim os seus caprichos. Tratemos,
antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleio, lanamol-o 
margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.

Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu
procedimento e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o baro de
gosar deliciosamente os golpes que desapiedadamente despedia sobre os
seus adversarios.

Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus
cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas
mais avanados.

N'uma occasio em que na praa publica atravessava com a sua carruagem,
encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do comit republicano,
disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:

--Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o corao. Fazei-me o
favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de
Paris, que lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir  reunio publica
na quinta-feira  tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos
homens intelligentes e nada de deputados sem valor!

O baro des Qurelles dispunha de tres a quatro mil votos. Era um
influente nada para despresar n'um escrutinio onde s votavam dose mil
eleitores.

--Tenho o castello nas minhas mos! dizia o baro n'uma ceia, quando
bebia cognac em companhia dos seus amigos.

No fundo da sua consciencia pensava:

--Serei o senhor da soberba Carlota que sem duvida capitular por
ambio. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem despresado!

Emquanto o marquez de la Tournelle e o conde d'Orgefin tratavam da sua
reunio plena das fras conservadoras, emquanto o colerico baro des
Qurelles meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao
servio das suas paixes amorosas, os tres amigos de Ronquerolle,
Branche, Didier e Maupertuis, no perdiam o seu tempo. Os rapazes,
arrojados para as mulheres, como todos os jornalistas, produziam
estragos terriveis nos coraes das burguezinhas de Saint-Martin.

Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena
soire em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade,
que no temia defender as suas opinies democratas e que alem d'isso,
possuia uma bella fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom vivant
amando os prazeres da mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente
fornecida. Recordava muito as suas travessuras de rapaz no tempo em que
vivera na capital. Havia muito tempo que isto accontecera, ha pouco mais
ou menos vinte annos. Que praser sentiria, ao receber em sua casa os
quatro parisienses com os quaes conversaria dos tempos passados e das
suas loucas amantes.

s nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fisram a sua
entrada no salo de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e
nutrida, muito amavel, muito simples e muito mais nova que seu marido.

--Como, meus senhores, vindes ss? O sr. Ronquerolle no vem?

--Perdo, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo est
preparando n'este momento um discurso politico mas estar aqui antes
d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.

Tinham j chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de
Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que no
podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os
continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.

As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por
todos os lados a explicar que no tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a
quem uma pequena occupao detinha em casa. Esperava-se s por elle para
ser servido o ch. Quasi todos os homens se tinham retirado para o
gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salo e onde fumando,
se entretinham a fallar das eleies.

Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto
das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris
e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem
d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me
Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a crte a M.me
Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta tinha um espirito
romanesco. A sua maior felicidade consistia em lr folhetins e ser
heroina ideal das mais ternas aventuras.

--A vida sem paixo, dizia-lhe eloquentemente Didier,  semelhante a um
deserto arido.  um pouco a minha, e nem vs calculaes, senhora, o
quanto tenho soffrido pelo corao. Ah! Se no fra a politica por onde
fao carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem
mais infeliz da terra.

A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem.
Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas
apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu
lado, tinha levado a linda mulher do notario at ao precipicio
encantador mas perigoso das confidencias amorosas.

Eram onze horas quando chegou o baro des Qurelles. Desbroutin
tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O baro promettera vir e
viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez de la
Tournelle. Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se
por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem
intelligente de que lhe tinham fallado. A presena do baro interrompeu
por momentos a interessante conversao de Branche com M.me Desbroutin.
Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que
se fizera em volta do baro, para apertar docemente a mo de M.me
Beaumenard que lh'a retirou,  verdade, mas sem muito esforo.

Ronquerolle entrou finalmente no salo. Apresentou as desculpas da
sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao
baro, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A
pequena soire fra ainda alm dos seus desejos e no dia seguinte todo
o mundo o invejaria.

Ronquerolle escutava attentamente o baro des Qurelles. No fundo
desconfiava d'este homemzinho que to calorosamente defendia a causa
republicana.

--Que interesse poder ter este baro, pensava, na actividade que
desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario?
Evidentemente no trabalha por convico. Ha pois, na sua conducta um
mobil occulto. Qual ser?

E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o baro dos ps at 
cabea.

Pelo seu lado o baro tratava de sondar o espirito de Ronquerolle;
abordou successivamente todos os assumptos para ver at que ponto podia
confiar n'elle.

Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questes
politicas, mas fra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, des
Qurelles interrogou d'esta maneira o joven candidato:

--Conheceis a marqueza de la Tournelle?

Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um
instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio,
respondeu com uma soberana indifferena.

--A marqueza de la Tournelle!. Mas senhor baro, conheo-a como toda a
gente, e menos que V. Ex. certamente. Tenho eu tempo para me
occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus eleitores
e procurando bater o meu adversario.

O baro queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a
historia da sua paixo por M.elle de Champeautey. No receava tomal-o
para seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo
castello de la Tournelle.

A pergunta do baro tinha feito tremr um pouco intimamente Ronquerolle.
Ter este tagarella alguma suspeita? Ter advinhado a minha paixo, a
minha loucura pela loura e adoravel Carlota?

Ter surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que ser, emfim?

Todos tinham saido satisfeitos da soire de M. Desbroutin e, no dia
seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram
discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e
a malicia dos narradores. Recahia toda a considerao sobre o notario e
algumas ms linguas comearam a insinuar que a gentil M.me Desbroutin
no era quem mais lastimava os resultados da reunio politica de seu
marido.




V

_Os infortunios do marquez_


A reunio publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas
 ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa
reunio veiu avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do
soalho e que seria, a pesar seu, obrigado a faltar  sua promessa e ao
preo estabelecido, porque um particular tinha pedido cincoenta francos
pelo aluguer.

A sala do Poule Blanche era demasiado pequena e por esse motivo foram
ter com Matteus Baliverne, proprietario do caf do Commercio, que tinha,
no primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e
quinhentas a duas mil pessoas.

Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os
seus amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de
signal pelo aluguer da sala e beberam n'essa occasio em boa companhia
um copo de cognac.

--Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o
seu o copo de Ronquerolle.

No obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez
francos do signal.

--Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a
vossa sala no est segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor
Baliverne, tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes
do logar veem bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso,
descalarem-se no vestibulo, afim de danarem descalos para no
prejudicar a solidez das vossas salas?! Basta de gracejos, senhor
Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e ha dias comemos juntos, por
isso  preciso fallarmos com toda a franqueza. Vamos, dizei-nos qual a
verdadeira razo que vos leva agora a recusar-nos a sala que j nos
havieis promettido. Mas, por amr de Deus, se Deus existe, deixae em paz
o vosso soalho.

Matheus Baliverne estava embaraado, de cabea baixa, no sabia que
responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.

--Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a
verdade?  o marquez, no  verdade, que vos ameaa se nos concederdes a
sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de maire da cidade, e,
como necessitaes da sua auctorisao para conservardes o vosso baile
aberto at s 5 horas da manh, o marquez fez-vos comprehender que d'ora
avante vos recusar essa licena, no caso de eu vir fallar em vossa casa
aos meus eleitores!

Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o
escutava, respondeu a Ronquerolle:

--Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me, eu sou um homem energico
mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a
agradar a todo o mundo; no me trahireis no  assim? Confio em vs.
Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire
que me fez comprehender como o sr. disse, que no queria que a reunio
se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me
recusasse licena para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o
sustento, privava os rapazes de se divertirem.

Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confisso. Sorriu ironicamente, depois
do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de
Baliverne e encerrou-se no seu quarto.

N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fra convocada a
reunio devia elle ter o rendez-vous combinado, com M.me de la
Tournelle, nos Passeios s dez horas da noite.

Por uma estranha coincidencia, este rendez-vous apaixonado, a que
julgava no poder assistir, tornava-se agora possivel.

Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lanra nos seus braos a
bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o
como rival, temendo o poder das suas convices, impedia-lhe que
fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua
eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir 
tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua
infelicidade.

--Dentro de tres dias, s dez horas da noite! tinha segredado a marqueza
n'essa inolvidavel noite dos Passeios.

A reunio que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais
tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o Reveil que o detestavel
maire de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo
tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus
namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois
que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da
sua vida particular.

Visto que nada se oppunha  entrevista fixada pela marqueza de la
Tournelle, Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente
a sua toilette, perfumou o leno, poz uma gravata nova da ultima moda,
pegou no chapeu mais elegante, calou as luvas mais lindas que possuia e
as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.

Sentou-se, nos Passeios, no mesmo banco onde a marqueza o encontrara,
recordando as tempestades da sua juventude.

O dia estivera quente mas a brisa fresca comeava a murmurar por entre o
arvoredo.

Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e
o canto do rouxinol. Alguns ces uivavam nas herdades longinquas e uma
indefinivel voluptuosidade saa dos campos, dos bosques, dos valles e
descia dos cus.

--Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto que
ella venha! Mas, sem duvida, ella vir! Sinto que se aproxima! E
poder-me-ha ella enganar? Mas, porque no est ella j junto de mim?
Porque no tenho entre as minhas a sua mo mimosa, porque me encetou os
meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu
idolo?

O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua
impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma
herdade, parou.

--Soou a hora que me indicou. Estar aqui dentro de poucos momentos?
Porque no veiu j? Porque no ouo ainda o ruido do seu vestido de seda
passando na areia da avenida?

E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite,
mas no se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se
passou, hora d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez
no tivesse podido deixar o castello, e que tivessem surgido
difficuldades imprevistas que a impedissem de cumprir a sua palavra.
Resolveu esperar toda a noite. Nuvens pesadas pairavam no cu,
occultando as estrellas. No havia luar e a escurido da noite
tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera  brisa calma
da tarde.

D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escurido,
Ronquerolle espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a
impacientemente, queria vel-a, correr ao seu encontro. Crca da
meia-noite, uma frma occulta e mobil appareceu l no fundo d'um caminho
orlado de macieiras.

Surgia como uma sombra na direco dos Passeios.

--Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza!  minha emfim!

O corao batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz
d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle,
murmurou docemente:

--Sois vs, minha querida?

--Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?

Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto
com um espesso veu e tremia de esperana e d'amr. Sentiu-se
tranquilisada com a presena d'aquelle a quem ia tornar seu amante,
abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e
deu-lhe o brao, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi.

--Como podesteis vs vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.

--Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vs
imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se no me
amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!

Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amr e que s a morte o poderia
destruir. M.me de la Tournelle descanou um pouco mais ao ver-se
sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com
atteno as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.

Jamais ouvira to apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fra dos
romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca Ronquerolle,
pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos to
ardentes, d'exclamaes to enthusiasticas, como nunca occasio to
favoravel se lhe offerecera.

Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as
horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento
acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.

Ronquerolle tinha, entre as suas mos, as mos delicadas da marqueza e
contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o,
admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amr. Tremia
ao pensar na aventura em que se lanra e o seu seio arfava sob a emoo
commovente do remorso e da felicidade.

--Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem
restrices, sem pensamentos reservados e  a primeira vez que o fao. A
fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que no nos
amemos. Ah! quem descobrir os mysterios da ternura humana? Quem
conhecer a lei que preside s preferencias do corao humano? Quem nos
explicar como  que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite
linda, devorados pelo fogo da paixo, decididos a tudo vencer antes do
que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois
bella! E como vos amo!

E febrilmente o mancebo enlaava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto
sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se
decidido a tudo immolar ao seu amr para lhe provar que era digno da sua
ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.

--Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na
minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a
marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um
dia me mandastes? Ha quatro annos j. Pois bem, conservo essas estrophes
que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu to fielmente essa vossa
lembrana? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se
me gravou na memoria? Porque no deixei de vos admirar nas vossas luctas
e de vos amar?...

M.me de la Tournelle e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas
espheras da paixo. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus
pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se
comprehendiam, e que  delicadeza d'um correspondia maior delicadeza
d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher
amada.

Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeies
humanas se nortearam por consideraes mesquinhas, por interesse, pelo
dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso
pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.

Mas quando, no obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as
barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro,
dois entes se atraem, se encontram e se amam, este amr profundo, 
to puro e to bello, que por si mesmo constitue a base da vida
d'aquelles que o sentem, e que no esperam, seno a hora em que o tumulo
o destruir.

Era um amr assim, um thesouro de divinas sensaes que unia a marqueza
e o republicano. E, como n'este ultimo residia a fora do caracter, e
intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a
existencia de M.me de la Tournelle. Ella tendia mais para elle do que
elle a amava a ella.  o privilegio do homem: a fora fascina a graa. 
a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.

Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica
marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas,
separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja
d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se
entretinha a approximar e a unir n'um beijo.

No era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada
M.me de la Tournelle que alli estava, n'este momento.

No havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura
adoravel, embriagada d'amr, abandonando-se livremente nos braos d'um
homem que para ella attingira o mais alto grau da fora moral e da coragem.

O mesmo acontecia a Ronquerolle.

Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignaes, nada
tinha, n'este momento, do vingador dos soffrimentos populares. Todo
entregue ao encanto d'aquella paixo, o seu corao trasbordava d'amr,
a sua juventude brilhava, no vendo em M.me de la Tournelle mais do
que a formosa personalidade da belleza e da vida.

Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais
desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e
se adorarem se tinham unido debaixo do cu e jurado um amr eterno!

--Amo-te at  loucura! dizia Ronquerolle  marqueza.

--E eu, respondia ella, amo-te at morrer!

..........................................................................

Como tinham decidido os directores do comit, um grande banquete se
devia realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da regio tinha
sido convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna
politica do sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado
o senhor bispo de Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de
Saint-Martin. No se tinham esquecido dos grandes industriaes da
circunscripo, que dirigiam numerosos operarios e que convinha prender
por qualquer delicadeza.

Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam
chegar de todos os lados ao castello de la Tournelle, conduzindo toda
a nobreza.

Mancebos em breaks de caa, sorriam s condessas, viscondessas,
baronezas e s velhas donas de castellos que vinham cooperar na
manifestao contra a Republica.

Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin,
transpunham a p o porto do castello, e, s onze horas e meia, o grande
salo estava completamente cheio. No se esperava mais que o sr. bispo
de Dijon que tinha promettido vir e que, como se sabia, se encontrava
justamente nas visinhanas do castello n'uma viagem pastoral.

Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os
lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo
vinha acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario
particular. A carruagem parou em frente do perystilo do castello e,
sorrindo, de bom humor, o prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas
de admiradores, de mulheres elegantes e de lindos rapazes, levando,
quasi todos, nas suas gravatas em forma d'alfinete uma flr de liz.

O marquez de la Tournelle adiantou-se para receber o principe da
egreja, dando-lhe as boas vindas.

O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude
da marqueza.

--Senhor, disse o marquez,  o unico contratempo que temos em to bello
dia. A marqueza est um pouco adoentada e no poder assistir ao
banquete de que tenho a honra de vos offerecer a presidencia.

O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento,
perguntava o porqu e a causa d'esta ausencia da dona da casa. As
dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios, bispos,
arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias.
Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados;
querem conhecer o fundo, a raso, segundo a expresso popular, dos
pequenos e dos grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos
lares, na choupana do pobre, como nos palacios dos ricos.

--M.me de la Tournelle, disse o bispo de si para si,  uma mulher que
vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos,
quando tudo a est convidando a apparecer?

No obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do corao
o prelado estava longe de conhecer a verdade.

Acreditava em alguma discusso por amr proprio entre marido e mulher,
qualquer disputa interna, mas a supposio de que uma adultera estava em
casa dos de la Tournelle no passra ainda pelo seu espirito.

M.me de la Tournelle recusra-se abertamente a comparecer ao
banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem
violencia, sem longas explicaes, mas mais do que significativa.

Fra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discusso. A bella
Carlota fra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe
era inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem.

A marqueza no cuidou mais da agitao politica do seu partido. O amr
vencera-a; Jamais tinha pensado em que semelhantes tempestades se
desencadeassem na sua alma. Quasi que se no conhecia. A paixo que
sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e
tudo aquillo que at ento constituira o seu ideal submergira-se,
obliterara-se, aniquilara-se quasi.

Comeava a amar a solido dos seus aposentos. Estava impaciente, febril.
Tentava entregar-se  leitura mas a sua atteno divagava. Tomava
rapidamente um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lanava para
o lado sem o ter lido.

O amr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma
doente. Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que
experimentava era uma melange de dr e de alegria, de inquietao e de
esperana, d'orgulho e de medo. Louca d'amr, passeava febrilmente no
seu quarto quasi que fallando em voz alta, aproximando-se de vez em
quando da janella e contemplando os prados, a relva e, l no fundo, a
pequena cidade de Saint-Martin.

--Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haver em ti
para assim me esquecer do que sou? J no perteno a mim mesma desde a
nossa entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei
feliz... Tua! Tua para sempre!

E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creana,
beijos ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma.

O banquete realista! A lucta dos partidos O triumpho d'uns e a perda
d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a interessava no momento
em que o imperioso delirio da paixo se apoderava d'ella e a torturava.

..........................................................................

O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A
principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado
toda a gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar.

A sua cadeira vasia l estava e cada conviva lanava muitas vezes um
olhar involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios
mais maliciosos.

Presidia o bispo, tendo sentado vis--vis o conde d'Orgefin. Ao todo
os convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calo, com as
armas dos de la Tournelle bordadas nas fardas, faziam um servio
irreprehensivel sob todos os pontos de vista.

Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os
cerebros, destravaram-se as linguas e a animao augmentou. D'Orgefin
observva os convidados e tirava um bom presagio das suas felizes
disposies. D'uma sobriedade notavel, o conde no bebia seno agua,
conservando o seu sangue frio. Ao toast fez encher a sua taa de
champagne para levantar um brinde ao triumpho dos principios
monarchicos, fazendo um speech enfatuado d'odio ao governo republicano.

Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro
bisnau, no convinha comprometter-se muito com o partido
conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas ideias;
via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revoluo, mas
os membros da egreja so prudentes. O bispo gostava antes de estar do
lado do cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro
estivesse mais conhecido, elle cuidaria do seu caminho.

Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os
habitantes da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente
preocupados. Este banquete era um acontecimento que entretinha todas as
conversaes.

Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praa, na fonte, e
em frente da mairie formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe
appetecia.

Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de
Saint-Martin foram todos para os lados da Poule Blanche. O presidente
Kolri discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche,
Didier e Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de p e, a
cada instante se ouvia copos tocando o do candidato republicano.

Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre
n'um paiz a liberdade e a justia que nascem, fazendo-lhes comprehender
que, na maior parte do tempo, o luxo do rico  sustentado pelo trabalho
do pobre.

O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre
da ambio e do amr, pensava nas suas aventuras de ha dois dias com
a marqueza de la Tournelle, deixando-se levar pela sua paixo. Todos
os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.

A sensao dos beijos da sua amante parecia no poder deixar o seu
rosto, no podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrana.

Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista.
No suppunha que recordaes amorosas tinha gravado no corao da bella
Carlota.

Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais
violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo
republicano uma amizade mais profunda.

--Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando
poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos
alfim reunidos, ss, no silencio da natureza e fra do ruido das cidades?

E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graa das suas
longas tranas, a sua mo to fina, os seus seios incomparaveis, o
perfume da sua toilette.

Separando-se, aps a sua entrevista nos Passeios, Ronquerolle e a
marqueza prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleio
de 15 de julho.

--Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo,  impossivel, disse a
marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida,
expulsa, vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido,
tornar-te-ias suspeito a todos os que defendes e pezar-te-ia sempre
o teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns
dias antes de ti. Virs ento juntar-te a mim e l construiremos um
ninho para o nosso amr.

Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava
as datas.

--Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso
Paris, quando partir.

J elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleio quer
vencesse ou no o marquez.

O amr e a ambio confundiam-se no seu espirito e no seu corao. No
corao da marqueza s o amr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se
reunia tudo para si. Ronquerolle pagava em amr, amando-a tambem, mas,
dotado de faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e
com esse fim esperava elle construir o pedestal do seu amr.




VI

_Momentos decisivos_


O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar
confiana e serenidade.

O banquette do castello de la Tournelle produzira um grande
alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde d'Orgefin
appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os eleitores.

A presena do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr
o boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto
de se dizer que renunciaria  sua candidatura.

Ronquerolle, porm, no perdia o seu sangue frio. Sem descanar
percorria a circumscripo, reunindo os eleitores nas salas da estalagem
onde repousava. O seu comit trabalhava na expedio das profisses de
f, boletins para votos e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis
redigiam os numeros do Reveil que saa agora tres vezes por semana.

Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio
subito do baro de Qurelles. No principio da campanha eleitoral,
viram-no lanar-se abertamente na lucta e tomar o partido, seno, por
Ronquerolle, ao menos contra o marquez de la Tournelle; passados,
porm, quinze dias o baro emudeceu e tornou-se quasi invisivel.
quelles que se lhe approximavam e que o interrogavam respondia que era
necessario esperar para a ultima hora para poder inclinar-se
definitivamente para um dos partidos.

Uma colera estranha se apoderara do baro. Sentia-se indisposto com todo
o mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e at
contra si proprio. As suas manobras no tinham dado resultado algum e
conhecia que afinal era mais do que o tolo da fara. O seu zelo na
lucta afrouxava por isso, no saindo, quasi, do seu castello.

Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleies, o
baro levantou-se uma manh com mais mau humor do que o do costume.
Maltratava os criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos,
passeando com impaciencia e anciedade n'uma galeria, contigua aos seus
aposentos, e que dava sobre o jardim.

Quando um dia estava assim preso da irresoluo e do desgosto de vr que
a bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que
uma deputao d'eleitores o procurava para lhe fallar.

Feliz por ter essa nova distrao no meio dos seus desgostos internos,
desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se
assentados uns quinze homens.

Viam-se muitos maires influentes dos arredores da cidade e lavradores
de blusa que esperavam de chapeu na mo.

--Vejamos, senhor baro, disse o mais velho dos eleitores presentes, por
quem devemos votar nas proximas eleies? Vimos pedir-vos este conselho.
Faremos o que o senhor baro nos ordenar.

Estas palavras envaideceram o amr proprio do baro des Qurelles.
Sabia bem que a delegao que se encontrava na sua frente representava
bem umas vinte communas importantes.

--Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e vs,
senhor repuplicano, tendes a vossa eleio na minha mo.

Aps este discurso mental, o baro voltou a ter o bom humor antigo.

--Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente
envaidecido com a vossa resoluo. Dar-vos-hei, sinceramente o meu
conselho. Mas a questo merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos
para almoardes commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas
resolues energicas.

Na realidade, o baro no sabia que responder aos eleitores que o vinham
consultar. Como todos que se veem embaraados pediu tempo para
reflectir. Se por um lado, odiava de morte o marquez por que fra o
rival que m.elle de Champeautey lhe preferira, por outro lado
custava-lhe favorecer a eleio de Ronquerolle.

No comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas
o certo era que o aborrecia.

Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um
obstaculo aos seus desejos, porque o arrebatado baro no renunciara 
esperana de possuir mais tarde ou mais cedo o corao da bella Carlota.

Durante os preparativos do almoo, os homens da delegao foram passear
para o parque do baro, que por sua vez se retirou para o seu gabinete
de trabalho, preso d'uma perplexidade inquietadora.

--Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que votem
por esse tolo do marquez de la Tournelle saber a marqueza reconhecer
que  a mim que deve o no ver o seu orgulho e o seu nome
humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista pelo Ronquerolle quem
me assegura que a sua eleio no vem pr uma barreira invencivel entre
mim e a minha paixo?

Torturado pela duvida o infeliz baro no sabia para que lado se havia
de voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do Echo da
Borgonha, o jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de
vermelho que estava, tornou-se pallido como cra. Na primeira pagina do
jornal destacava-se em normando um suelto ironico que lhe dizia
respeito. O auctor do pequenino artigo troava do baro pela sua pequena
estatura e fazia insinuar que a pequenez da sua intelligencia estava na
proporo da do seu corpo.

Era ferir a cora sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um
punhal, pz fim s suas hesitaes e decidiu da eleio do circulo de
Saint-Martin.

Ah!  isso? Pois bem! disse o baro. Senhor de la Tournelle, meu
amigo, ficars fra da lucta, sers vencido, assim o espero. Feliz
Ronquerolle, um bom genio te protege!

O baro des Qurelles desconhecia por completo a grande verdade que
dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha
para elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificra assim a
vaidade d'um baro? Quem tanta sorte dera a Maximo?

Quem? A propria marqueza de la Tournelle. Louca pelo seu amante, capaz
de fazer por elle todos os sacrificios, no pensando seno na sua
fortuna e na sua gloria comeou a por ao seu servio toda a artilharia
dos seus ardis femeninos.

Des Qurelles estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma
resoluo. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante
o almoo que offerecra aos eleitores inflentes que tinham vindo
consultal-o.

--Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos,
finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Est entendido,
no  assim, no proximo domingo votaremos como um s homem no bello
Ronquerolle. Eis um que tm sorte.

Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo
constantemente e rindo  vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrio.
A conversao foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos
que corriam na cidade e na regio. Fallou-se da marqueza, de M.me de
Beaumenard, a mulher do banqueiro; de M.me Desbroutin, a mulher do
notario.

--Parece que esses senhores, dizia o baro, no teem muito que se
queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses
no vem para aqui s para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porm, o
melhor. O que est nas boas graas da gentil M.me de Beaumenard  um
finrio. Ah! que linda coisa  a mocidade!

O almoo terminou alegremente, como havia comeado. Tomou-se caf no
jardim, onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres
horas da tarde. O baro fez a ultima recommendao aos seus hospedes:

O mot d'ordre  que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e
levae por toda a parte a boa nova!

Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A
intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo
contra o baro, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua
reserva.

Ficou louca d'alegria e louca d'amr quando soube da resoluo de des
Qurelles. Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado.

-- meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da
fortuna e da gloria. Sers tu fiel, ao menos?

O caracteristico do verdadeiro amr foi sempre o sacrificio pela pessoa
amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a
morte, por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o
somno e se  feliz com este tormento, com esta dr, com este mal
implacavel que invade todo o nosso ser.

A soberba Carlota estava no paroxismo da paixo. Calma na apparencia
sentia-se devorada pelo frenesi do amr. Passeando no seu jardim,
sentia-se to dominada pela imagem e recordao do seu amante que a
custo caminhava. Uma languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por
uma d'essas deusas antigas que atravessavam os bosques sagrados da
Grecia e que desappareciam n'uma nuvem azul. Jmais viso to bella
podia inspirar um poeta. Jmais a incarnao da vida se tinha
manifestado n'uma mais nobre creatura!

Ronquerolle sentia-se falto de energia.

No ultimo sabbado, vespera da eleio, esteve dominado por um febre
ardente. A inquietao devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria
de novo passar  obscuridade? Alm d'isto o amr de M.me de la
Tournelle, como uma ferida incuravel, invadia-o, torturava-o,
dominava-o. Elle, um homem forte, o cidado inflexivel, sentia-se
vencido por essa mulher, por essa sereia de cabellos loiros.

--O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde
est o meu sacrificio?

Uma agitao extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu
 abertura do escrutinio.

Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo
promessas a uns, ameaando outros, espalhando profusamente por toda a
parte as listas.

Por seu lado os partidarios de Ronquerole no ficaram inertes.

Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia
sem igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato
republicano. Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem
suprema que tem o soldado quando est prestes a derrotar o inimigo.

Quando, no domingo de manh, o escrutinio se abriu, os dois partidos
estavam perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se
grupos formados na praa publica e que depois se dirigiam a votar 
mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam o
marquez de la Tournelle, outros riam-se de Ronquerolle.

Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoego no
abandonou o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte.
Victima da ambio, debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha
censurado o seu procedimento e s o seu amigo fiel, Branche, estava
junto d'elle absorvido pela mesma incerteza pelas luctas do futuro.

O escrutinio fechou-se s seis horas, comeando immediatamente o
apuramento de votos. A sala da mairie estava completamente cheia. Os
eleitores presentes escutavam silenciosamente a contagem dos votos.

Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos.

--Sr. de la Tournelle!

--Sr. Ronquerolle!

Crca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se j entre os
operarios. Vencia o cidado Ronquerolle, segundo todas as
probabilidades. Tinha a maioria de 1500 votos s na cidade de
Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como uma bomba de dynamite.

Uma multido compacta que esperava as noticias em frente  casa da
camara, gritou instinctivamente: Viva a Republica!

Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovo. O seu
ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de la Tournelle e
gelou de terror os realistas que se encontravam reunidos no salo.

--A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes
gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!

De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem
interrupo os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano
saa vitorioso.

Crca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada.
Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um
delirio entre os republicanos.

O Poule Blanche illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas
ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle no podia acreditar no seu
triumpho. Tinha os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado
pela febre.

Foi preciso que se mostrasse  multido, da janella, entre bandeiras
tricolores e illuminaes. Estava pallido como a morte. Quando se fez
silencio pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginaes
e fazem transbordar os coraes d'enthusiasmo.

Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou  multido da maneira
a mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes
e valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao
seu quarto, quando j tinham terminado todas as manifestaes,
Ronquerolle encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a
febre; tinha passado a hora d'angustia.

Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto ambicionava. Os
obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma nuvem
ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos.
Estava satisfeita a sua ambio.

--Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da noite
a escrever-lhe.

Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu
livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.

--Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da
minha carreira! S bemdita, porque me ajudaste, porque foste
immensamente corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua
raa; porque, afinal, tu sacrificaste-te... Que farei eu para
recompensar o teu amr que to alto vae? Ah! no inicio da minha
carreira, pobre, obscuro ainda, no tenho seno a minha mocidade para te
dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel Carlota, a ti,
cuja graa me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a ti cujo
ser me enebria!...

Que dias felizes eu antevejo! Que ideal viso me persegue! Que nobre
destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!

Ninguem saber que nos amamos, ninguem advinhar o segredo da nossa
amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios
merecimentos e no para obedecer s convenes sociaes, no para nos
conformarmos com interesses pueris.

... Para ti toda a minha alma, para ti o melhor do meu pensamento,
para ti a minha vida!

Ronquerolle no podia de maneira alguma terminar a carta. O seu corao
transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua
existencia: o passado, o presente e o futuro.

Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a
ponto de a si mesmo perguntar se no estaria preso d'uma allucinao.

E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado.




VII

_Vida nova_


Na quinta-feira seguinte ao dia da eleio, pelas dez horas da manh, a
cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fra de costume.
O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era j
asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do
edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu
estandarte, e ia formar-se o cortejo.

Os republicanos preparavam-se para acompanhar at  estao dos caminhos
de ferro o cidado Ronquerolle que partia para Paris.

Por entre os grupos que se viam formados pela praa, o observador
prespicaz teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas s
outras pareciam tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu
sorriso era contrafeito.

Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beaumnard, a mulher
do banqueiro, da buliosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellio, e
finalmente da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das
contribuies.

Todas tres muito amigas, no tinham segredos umas para as outras.

Madame Beaumnard deixara-se prender pelas declaraes amorosas de
Didier; Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis
conseguira fazer sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.

Ai, como so rapidos os dias felizes!

Os apaixonados retomavam o vo em direco a Paris, e a vida monotona da
provincia ia recomear para aquellas galantes mulheres.

De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres
amigos, de todos os membros do comit republicano e de numerosos
cidados, pertencentes s diversas classes da sociedade. Estava pallido,
quasi livido e uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez,
resultante da fadiga e das commoes soffridas. A fanfarra executou a
Marselheza e o cortejo poz-se em marcha.

Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres
amantes, trocaram-se rapidos olhares e as tres mulheres no puderam
conter as lagrimas.

--Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beaumnard.

--Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.

--Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.

Quanto a Madame Desbroutin, estava to commovida, que apenas poude dizer:

--Que ha de ser de ns, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia,
o amr a paixo.

A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao
das eleies. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali
chegou.

A grande cidade estava n'essa occasio deserta. A alta sociedade partira
j para as estaes de aguas, para os banhos do mar, para o campo.
Apenas ficra a populao que as necessidades da vida prendiam em Paris.
O calor tornava-se mais violento dia a dia.

A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido
entre um pateo e um jardim.

Habitualmente demorava-se no campo at aos fins de novembro, mas o seu
regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido
pelo marquez seu esposo.

O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de
sua mulher, no ousava acompanhal-a  grande capital. Por outro lado o
continuar em Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por
isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.

Ronquerolle, em vista da sua nova situao, alugara uma ba habitao
perto dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu
secretario e rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier
installar-se-hiam nas immediaes.

A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam
ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas
parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar
inteiramente  sua amante.

Durante esse espao de tempo esses dois entes privilegiados foram
completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade
augmentando, augmentou a sua paixo. At ento elles tinham-se mais
adivinhado do que conhecido. E que alegria foi para elles o
reconhecerem, mutuamente, que eram ainda superiores  ideia que se
haviam formado de sentimentos, de intelligencia e da elevada concepo
do amr.

Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza
de Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua
mocidade, simplicidade, pela vehemencia da sua paixo e do seu formoso
espirito, e tambem pela sua insaciavel ambio.

Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus
projectos de futuro. No queria entrar na camara dos deputados para se
deixar seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da
corrupo, da ignorancia ou do embuste; mas sim para representar
verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de
apoio...

Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e
quando j descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz
repetia  sua amante os seus sonhos de esperana, deixando as palavras
seguirem o curso do seu fogoso temperamento.

Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de
la Tournelle; perda-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeo
ao pensar que em breve te tornars uma figura celebre, que os mais
provocantes sorrisos te vo ser dirigidos, e que, pode ser, que ento,
eu no seja a unica a possuir toda a tua alma!

--Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura no sentimos que
este amr  de vida e de morte.

--Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amr para
a vida e para a morte!

Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes
passeavam juntos, a p ou de carruagem, percorrendo os bairros mais
afastados e solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse
reconhecida nos seus passeios em companhia do joven deputado republicano.

N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua
desviada da habitao de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo
ao cruzarem-se com um individuo que seguia em sentido contrario.

Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um vu espesso e no
poude por isso ser reconhecida.

O homem que passara perto d'elles era o baro de Qurelles, que, por seu
turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezoluo de vigiar a
marqueza.

Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o baro nem mesmo
reconheceu Ronquerolle, mas fra reconhecido por este e por madame de la
Tournelle.

--Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno baro a seguir-nos os
passos.  preciso acautelarmo-nos at que d'elle estejamos livres.

Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o
impressionou.

Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe
escrevia.

Ronquerolle ainda no a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do
seu regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.

Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o
fim dos nossos amres! Eu bem sabia que uma nova vida ia comear para
ti, meu adorado Maximo, e que eu, pobre flr desfeita, seria sacrificada
 tua ambio, que uma nova paixo exige.

Bem sabia ao vr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico
amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes
morrr a descr pela escada fatal das raparigas bem educadas mas
pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem,
depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! No! No! Repito-te,
antes a morte!

No me digas que ainda me amas; se assim fosse no terias vindo
abraar-me logo aps a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu
ests aqui ha quinze dias, e em vo te hei esperado todas as manhs e
todas as tardes.

Oh! Maximo! Meu querido Maximo! No poderei eu ainda apertar-te nos
meus braos, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de
fechar os meus olhos  doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao
cemiterio e coberta com algumas ps de terra?

A tua querida toutinegra d'outros tempos

Emilia.

Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio
lhe banhava a fronte. No tinha esquecido completamente aquella pobre
creana companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia
 qual jurara eterno amr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no
seu corao e no seu cerebro pela viso estonteante da marqueza de la
Tournelle.

E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto,  pobre
rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os
seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calr, e o amr
d'outros tempos transformara-se n'uma affeio de irmo.

Emilia havia comprehendido essa mudana, mulher de sentimento, sentira
que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.

Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, s n'essa
immensa Paris, ella s o tinha a elle no mundo para proteger a sua
juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.

Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes,
Emilia comprehendra que uma outra paixo enchra a alma do seu querido
Maximo, e ento todas as suas esperanas, j de si to frageis, se
abateram de um s golpe.

Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.

A pobre creatura, imagem fiel da resignao disse a si propria: Maximo
j no me ama, pois bem, s me resta morrr.

Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em
Paris ha quinze dias e o esperou em vo, chorou lagrimas de sangue e
decidiu-se por fim a escrevr-lhe, como unica esperana de vl-o, ao
menos uma vez antes de morrer.

Ronquerolle, tomado d'uma inquietao mortal, ao terminar a leitura da
carta da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e
dirigiu-se a casa da pobre rapariga.

Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu  porta,
abriu-lh'a com o corao despedaado, mas ainda com uma migalha de
esperana.

Foi tal a violencia da commoo recebida, que a pobrezinha, cahindo
nos braos do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos no poude
articular palavra.

O triumphador no podia crr no que os seus olhos viam. A sua pequenina
Emilia no era mais que uma sombra do que fra.

Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e
pelas noites de insomnias, davam quella creaturinha o aspecto d'um
phantasma.

--Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxal que eu no chegasse demasiado
tarde! A pobre creana est ferida de morte pelo desgosto que lhe
causei, e a sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.

Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma
alegria verdadeiramente infantil exclamou:

--Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.

Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!

Como eu te esperava!

Como eu receava morrer sem te abraar ainda uma vez!

Como eu te amo!

Se tu soubesses como eu te amo!

Tu, bem sei, tu no podes amar-me da mesma forma.

Sei muito bem que tu no podes prender na tua vida uma simples sensitiva
como a pobre Emilia...

Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a
percorrer. Tens que alcanar a gloria.

Eu vejo bem a differena da minha vida para a tua.

Precisas de amres enebriantes; desejas o explendr que possa satisfazer
o teu immenso orgulho...

Eu conheo-te bem!

Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira
d'outros tempos tinha razo.

Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava
sempre a reconhecer o fatal abandono a que fra votada.

Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover
as recordaes dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus
amres, dos seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a
Mendon, a Montmorency, a Ermenonville.

--Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.

--Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes
crr. Sentia-te perto de mim.

Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jmais os enganam.

Alm d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.

A sua presena confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu
no estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e
Maupertuis.

O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.

Um extranho encanto havia em volta d'ella.

Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canap, perto da
janella. Lembrava uma convalescente que procurava cobrar fras, e
a quem o menor esforo enfraquecia.

--Voltarei a vr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem
coragem. A tua vida ter ainda dias felizes.

--No, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!

Pois no reparas?

No vs que eu no te fao a menor pergunta?

Nem sequer me queixo!

 a suprema resignao do condemnado.

Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para
o boulevard de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a
janella onde outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da
pobre creana. A sua dr to verdadeira, to sincera, to eloquente,
envenenava a sua felicidade.

Aguardou assim a hora em que M.me de la Tournelle o esperava.

A marqueza no teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante
tinha qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o.
Perguntou-lhe a causa da sua dr.

Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso
que tinha sobre o corao, contou-lhe toda a historia da sua ligao com
a pobre Emilia.

--Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida,
disse-lhe elle.

O soffrimento d'essa pobre creana, cahe sobre mim como um remorso.  o
primeiro da minha vida!

Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre
abandonada.

Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim:
estou cada vez peor, meu amigo, vm depressa. Eu no nasci para viver
n'este mundo demasiado brutal. O meu pobre corao quebrou-se ao embate
da primeira amargura.

Tombou como uma flr que a tempestade lana por terra, e cousa alguma
n'este mundo pode j reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle no
pode viver.

A flr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o
seu perfume.

Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.

Outras flres vem substituil-a, outros felizes dias vo nascer, e a
outra a pobre florinha morreu e no ressuscitar.

E que bellos momentos ns tivemos na vida meu querido Maximo!

Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lies da
Sorbonne e do Collegio de Frana, quando iamos passear de brao dado,
sob as sombras de Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras
de amr, quando tu apenas ousavas apertar-me a mo?

Abenoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha
juventude, porque to depressa me fugiste?

Porqu meu bem amado  to rapida to fugitiva a felicidade?

E porque ser que ha na vida fatalidades que nos quebram o corao?

Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo
terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cdo
morrer!

Entretanto a ambio vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem no
descobriro nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para
mim, essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude
apreciar.  essa a minha suprema consolao.--A tua pequenina amiga
d'outros tempos--Emilia.

Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu
remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e
morrendo de desgosto no o deixava um instante.

Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que no
tinha a fora para supportar as brutalidades da existencia e que o
primeiro abalo derrubava.

Ha no meio da corrupo das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que
possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os
heroismos. Nada as mancha; ellas veem o mal que para ellas avana, mas
os seus olhos se fecham sobre a viso pura que vive na sua alma e a
perversidade jmais as alcanar.

A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu
ideal como a hera em volta da arvore.

 esse todo o seu destino.

E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos
palacios dos ricos, como nas habitaes dos burguezes ou nas cabanas dos
pobres. O observador  primeira vista no os apercebe, to modestos
elles so, to simples, tanto se occultam na sombra; mas por pouco
que o seu olhar investigador saiba lr nas consciencias, analysar a vida
dos homens e o aspecto das coisas, elle no tarda a reconhecer o
heroismo do corao, onde, na apparencia s ha uma existencia monotona,
sem colorido e sem perfume.

As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicaes obscuras, que
toda a gente ignora, de que ninguem falar e de que mesmo o que d'ellas
 objecto no suppe toda a grandesa.

 quando essas creaturas amantes e to felizes por se sacrificarem j
no existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.

 quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se
reconhece a bondade do seu espirito e do seu corao e que se lhe faz
verdadeiramente justia.

Mas ento,  j tarde!

Esse arrependimento posthumo no consola do remorso de haver quebrado
desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um
thesouro de ineffavel ternura e de amr sincero, de ter feito chorar
dois lindos olhos, de ter feito o desespero d'um inexperiente corao.

Dar-se-hia ento dez annos da existencia para tornar a vr uma hora
apenas essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi
comprehendida e que  amada.

Mas so j inuteis ento os desesperos e estereis os votos.

A morte no mais devolver a sua presa, e o turbilho do mundo,
chama-nos e attrahe-nos com os seus risos, as suas canes, o ruido
das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.

Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se no tivessem
amantes, se fariam irms de caridade, dedicando-se aos doentes e 
paixo pela cruz.

Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais
humildade que orgulho, mais resignao que coragem para a lucta.

Tinha sonhado o amr como a junco de duas vidas no formando mais do
que uma.

Aos dezesseis annos, essa fragil creana realizava o typo perfeito da
joven que ama perdidamente.

Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.

Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz
tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella
para elle erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.

D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse
acompanhado.

Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o
mal fazia constantes progressos.

Ronquerolle no a abandonava. Sentava-se aos ps do seu leito e
prodigalisava tantos cuidados  doente como se fra me da infeliz
rapariga.

Graas a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fra
chamado a tractar da joven Emilia.

Todas as manhs esse medico vinha vl-a e ficava surprehendido dos
progressos da doena, e resumia por estas palavras as suas impresses:
uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.

Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao p da
doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitao da pobre
rapariga.

--Ora vde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!

Ahi est uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o
equilibrio das fras  incompleto.

 cortada pela dr, como um fragil canniado pela ventania.

A sua fraqueza faz d'ella uma santa.

Os entes verdadeiramente fortes (e vs pertenceis sem duvida a esse
numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes
verdadeiramente fortes, so talvez mais feridos pela desilluso do que
essa infeliz creana, mas vivem, no soffrem materialmente, sorriem at
quando  preciso, teem-lhes inveja, crem que elles so felizes.

Olhae, por exemplo, para mim!

Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentaes?

Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande
ferimento moral, me atormenta.

Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico.
Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e
comtudo devia ignorar em que mundo de emoes se encontrava agora o seu
espirito.

E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados,
todos os carinhos a Emilia.

Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os
dias, de manh e  noite informar-se do estado da doente.

Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo
Branche, para distrahir a infeliz rapariga.

Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.

Os pulmes esphacellavam-se, o medico perdra ja toda a esperana de
salvar a terna creaturinha.

Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.

No podia j deixar o leito.

Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fras para lr.

E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lr as
bellas paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogo nas
noites de inverno.

Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de
deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e
outros.

Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperao dos
poetas e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa
e a felicidade que se aguarda.

E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida
pela dr, agarrada pela morte.

Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.

Quando, aps ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro
sobre o leito e a sua ainda bella cabea tombava sobre o almofado, e
perdia-se n'um mundo de recordaes.

Via-se ento ainda muito creana; rodeada de carinhos, adorada por sua
me, que tambem bem cdo a morte arrebatara.

Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.

Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os
seus modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mos rogava
a Deus e  Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.

Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, aps a morte de sua
santa me.

Tinha ento quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para
ser quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.

Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma;
sim, com toda a sua alma to leal, to enthusiastica.

E quando apenas tocara na taa da vida era preciso deixar o festim e
seguir at l baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.

Emilia no podia, mau grado a resignao do seu temperamento e do seu
caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.

Como a Joven captiva, de Andr Chenier, ella desejaria no morrer ainda.

Pois qu! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do
mundo sem ter visto acabar a primavera, sem ter colhido as flres
d'essa estao, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, sem ter
conhecido o vero abrasador, nem o outomno fecundo!...

Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.

Ronquerolle foi admiravel de dedicao.

Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia
morrer, Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.

Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sres humanos,
accomodra-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.

Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de
felicidade lhe tivessem sido promettidos.

--Maximo, dizia ella no desvairamento da raso, Maximo, meu querido
Maximo, ns vamos unirmo-nos para sempre!

Coisa alguma nos poder separar, no  verdade?

A minha vida vae ficar unida  tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua
mulher.

Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua
esposa. Se soubesses como eu soffri por ser smente a tua amante!

Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza,
sobre o teu brao, e de cabea erguida, sem receio!

Pois bem, o meu sonho, est realisado, no  verdade? E eu sou feliz. J
posso acompanhar-te sem crar. Agora dizem ao vr-nos passar em
Luxemburgo: ahi vo dois jovens noivos; e como elles vo contentes, como
se amam!

Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua
querida toutinegra d'outros tempos, como elle tinha por costume
chamar-lhe, brincando com ella como duas creanas.

E o deputado de agora tapava o rosto com o leno e soluava.

Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis,
d'uma simplicidade encantadora.

--Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu levar-me-has
para o campo, no  assim?

Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques
e das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus
de vero, que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem.

N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presena d'um
sacerdote e recebeu os sacramentos com a devoo e recolhimento d'uma
creana na sua primeira communho.

Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e
receber a hostia sagrada das mos do sacerdote, a impresso n'elle
produzida foi to violenta, que no poude conservar-se ali por mais
tempo e sahiu a respirar por um momento no boulevard Montparnasse.

Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava.

Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava.

Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do
que se passava.

--A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrer mal chegue a noite, so
estas s palavras do medico. Parte-se-me o corao e soffro muito por
vl-a assim desfallecer.

No quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella.

Eram umas quatro horas da tarde.

A marqueza quiz acompanhar Maximo at  cabeceira da moribunda.

Emilia j mal respirava.

A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a
cabea.

O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era
como uma phrase completa e fatal.

A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar,
aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar.

Madame de la Tournelle collocra-se ao lado do medico.

O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de
Emilia.

A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava
que durante muitos annos a infeliz que ia morrer fra a amante de
Ronquerolle.

Este, sentado aos ps do leito da pobre creaturinha sentia a mais
violenta das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de corao.

E olhava essa figura magra, descarnada, que elle amara nos dias da
sua irrequieta mocidade.

Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem cr,
n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador!

E no podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que
elle amra, e gelar aquelle corao que lhe pertencra.

Emilia fez ainda um esforo para se sentar no leito. Ronquerolle correu
a ajudal-a.

A infeliz voltou-se ento para o lado onde se encontrava madame de la
Tournelle, e poude ainda dizer:

--Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle!

Depois pondo a mo fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu:

--No tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu
teria querido viver apenas para ti...

Tu no sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenders e sinto que
no poders esquecer-me!...

E nada mais poude dizer. A sua linda cabea cahiu novamente sobre a
almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava.

No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flres, dirigia-se
lentamente, pelas dez horas da manh, para os lados do cemiterio do Pre
Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario.

Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz
soluava, immerso na dr, aniquilado.

Uma dama com o rosto coberto por um espesso vu, tentava
inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um homem,
com o queixo encostado ao casto dourado da sua bengala, embrenhava-se
em mysteriosos pensamentos.

Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o
medico que tratara Emilia.

Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha  ultima morada, tanto
do rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do
fraco.

Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear.

A manh estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus
reflexos de ouro e aquecia os boulevards.

Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de
flres e seguido apenas por uma carruagem.

E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris
possue em to grande numero.

Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedra o logar  tristeza,
conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da
ambio fra dominada pela da dr.

Passou os dias a evocar a tocante recordao d'essa rapariga que elle
tinha amado, que a elle se havia dado com todo o seu corao, que elle
possuira e que morrra por elle. De noite no podia dormir, erguia-se e
ia contemplar o retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes
da sua habitao.

Quando olhava para essa figurinha to graciosa, de olhar to
singello e to suave, o seu corao estremecia com as recordaes do
passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu
rosto varonil de tribuno popular e de poeta.

Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as.

Sabia-as de cr, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da
mocidade, era para elle motivo de intima consolao.

Eram j de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as
datas traziam recordaes a Ronquerolle.

--Que fatalidade! exclamava elle.

Tudo se acabou.

O luto entrou no meu pensamento e jmais o amr me dar uma alegria sem
uma triste recordao. Encantadora e ba creana, com a tua mocidade
levaste tambem a minha para o tumulo. Os tempos de illuso acabaram-se,
as horas tranquillas no voltaro mais. Agora s vejo na minha vida
sombras e tempestades.

Para acalmar as suas apprehenses, para procurar serenar os seus nervos,
Ronquerolle comeou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia.

Compoz um verdadeiro poma em sua honra e fl-o publicar n'uma revista
litteraria.

Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos.

A marqueza de la Tournelle respeitou a dr do seu amante.

Ella sentia uma infinita e deliciosa commoo ao pensar que tambem seria
adorada por aquelle homem, e mais ainda que a ba, mas simples
creaturinha que acabava de morrer.

Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle
sahiu como que d'um sonho quando leu no Jornal Official, o decreto
presidencial, e recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o
Parlamento ia recomear os seus trabalhos. Estava como um homem que aps
um longo e profundo somno, desperta com a impresso de que tem um rude
trabalho a desempenhar, e um grande caminho a percorrer. Experimentado
pela dr, devorado pela paixo, Ronquerolle ia entrar na vida politica
como um verdadeiro athleta, treinado por violentas luctas.




VIII

_Policia dupla_


As tribunas da Camara estavam cheias de gente.

Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a
Paris, mulheres da moda, elegantes, avidas de emoes oratorias,
politicos de varios matizes, alguns ms linguas e intriguistas e
parentes e amigos dos deputados, de tudo ali havia.

As ordens eram severissimas relativamente  entrada; era impossivel
assistir  sesso legislativa, sem um bilhete perfeitamente em
regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.

N'uma das primeiras tribunas, um pouco  esquerda, viam-se duas mulheres
novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e
agitavam habilmente os seus leques.

De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o lorgnon de aros
de ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma  outra as suas
impresses.

Vestiam toilettes muito elegantes; no emtanto mostravam-se  vontade
sem procurarem attrahir a atteno da camara ou das galerias, embora no
podessem passar despercebidas.

A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a
acompanhava era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita,
madame de Fleurus.

O ministro da guerra acabava de dar  camara explicaes sobre as
despezas no previstas pelo oramento, e das bancadas do Centro
ouviam-se ainda appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou
gravemente estas palavras:

--Na ordem do dia figura uma interpellao do sr. Ronquerolle sobre a
politica geral do governo.

--Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle.

Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema
esquerda, ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se
dirigiu lentamente at  tribuna dos oradores.

Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns
papeis.

Depois lanou um rapido olhar sobre o auditorio e comeou a falar n'um
tom muito baixo.

Tinha deante de si os ministros aos quaes no perdia de vista. Pouco a
pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em
todo o ambito do Parlamento.

Ronquerolle passava  fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a
hypocrisia d'alguns dos membros do governo.

Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder s para adquirirem
fortuna, no considerando o povo seno como uma machina util s suas
ambies.

Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a
sua amante.

Ao claro d'esse olhar apaixonado,  viso rapida d'essa bella figura,
d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado
n'um delicioso corpete,  vista d'essa mo fina e bem desenhada agitando
o leque finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma
forte commoo electrica, e encontrou para as suas palavras uma dico e
uma accentuao de tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio.

Ronquerolle, porm, nem via a Assembleia, esquecra os seus collegas, os
seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; no via
mais ninguem pelo espirito, seno a sua bella Carlota, a sua
conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua vida.

Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como j
havia conquistado o seu corao e os seus beijos.

Queria unir-se a ella pelos laos indestrutiveis da estima, e do
respeito pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro.

A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar.

Respondia ligeiramente  sua amiga, que lhe dava conta das suas impresses:

--Que pena, dizia ella  marqueza, que este homem no seja dos nossos!
Desejaria vr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com
este vigor.

A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoo de
felicidade.

Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante.

Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligao com Ronquerolle.

Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua
superior concepo do amr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria
vaidade, n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu corao.

Essa sesso da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade
de traos, que jmais se apagariam.

Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e
teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos j, e
que se assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem
flres.

O discurso de Ronquerolle causou enorme impresso.

Foi discutido por toda a imprensa.

Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as
suas doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel
eloquencia.

Na quinzena que se seguiu, o novo deputado no teve mos a medir.

Era uma alluvio de solicitadores.

Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegaes, ou convidavam-n'o
para conferencias e banquetes.

Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas
que a noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso.

N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a p para
sua casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras
as pessoas que andavam pelas ruas.

Chegado  altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou
um momento para deixar passar uma fila de carruagens...

Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou  sua
esquerda, um individuo cuja figura no lhe era desconhecida.

Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o
observava, alargou o passo e passou adeante do deputado.

--Ah! J sei, disse Maximo, este homem  um agente da policia. Depois da
minha interpellao ao ministerio, este honesto espio no me deixa um
segundo.

No se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia
secreta. O discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso,
temivel para um ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse
facto era fazel-o submetter a uma rigorosa espionagem.

Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de
que naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa
eloquencia que vinha de nascr e que se apresentava implacavel para com
a traio.

Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa
vergonhosa e ignobil observao dos agentes da policia secreta, o
inimigo da marqueza de la Tournelle no dormia tambem.

Mais enraivecido que nunca, o baro de Qurelles tinha resolvido, elle
tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua.

Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria
elle conhecl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura.

O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo corao no
vivia seno para o amr e pelo amr, cujo espirito jmais conhecra o
que fosse uma baixeza.

 assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiosas attacam a belleza,
a generosidade, a coragem, a franqueza que lucta  luz do sol, a
franqueza que procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu
caminho claro e leal.

Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos
silenciosos e invejosos. No teem seno um fim, incommodar, prejudicar;
seno um pensamento, infeccionar, macular; no teem mais que um desejo,
um empenho, buscar trazer at elles, at  lama que os envolve, as
creaturas de eleio, que lhes fazem sombra, e das quaes elles no podem
imitar as qualidades e as virtudes.

E assim  que, n'um jardim, se v muitas vezes uma lagarta repellente
instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as
petalas da flr.

O baro de Qurelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas no
era um imbecil.

Comprehendia que s uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em
campo para descobrir esse cumulo da infamia.

 uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos
Elyseos, aps um copioso almoo, quando subitamente deu uma palmada na
testa, como se fra illuminado por uma inspirao celestial e apressou o
passo.

--Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.me William tratar
perfeitamente do negocio. Como no havia eu pensado n'ella ainda?! Oxal
que ella no tenha mudado de rezidencia!

E Dominique, sem se envolver n'outras meditaes, cortou  esquerda,
seguiu ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao boulevard
Malesherbes, onde outr'ora M.me William occupava uma vasta habitao em
que dava soires muito concorridas de jovens ricaos, jornalistas,
romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com maridos
velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogo, ou o
leito, s seduces d'um baile, que comea s onze da noite, para
terminar s seis horas da manh.

--M.me William! perguntou Dominique timidamente ao porteiro.

--No segundo andar,  esquerda, respondeu o homem.

Podeis subir, madame est em casa.

O baro respirou.

Havia bem uns cinco annos que elle no visitava a mulher, cuja
recordao lhe viera to aproposito.

Receava no a encontrar, pois que M.me William era pessoa que se mudava
a miudo e que viajava mais a miudo ainda.

--Que milagre! pensou de Qurelles. O qu! Depois de cinco annos, ella
no deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez!

Ter renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos!

M.me William era de origem ingleza.

Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas.

Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito
britannico? Ninguem ao certo, o sabia.

M.me William, no emtanto, dizia que seu marido no tivera razo para a
abandonar e todos fingiam acredital-a.

Fra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos sales
frequentados pela alta sociedade.

Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe
protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia
indulgencias ao seu procedimento.

Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e
especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o
dinheiro, a intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de
fazer propostas deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher
cubiada, procurava-se para esse fim M.me William.

Por cada operao d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu
alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim
como as suas bellas toilettes e os ordenados dos seus innumeros
serviaes.

M.me William era uma mulher sem pudr e que dispunha para satisfazer os
seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.

Era, n'uma palavra, a encarnao poderosa e perigosa da immundicie
coberta de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame
podrido, merecendo ser lanada ao monturo, depois de ter sido esmagada
debaixo dos ps. Era a lagarta sem nome, de corpo repellente, devastando
esse immenso jardim humano que se chama Paris.

Tal era a immunda creatura  qual o baro de Qurelles ia confiar a
misso de perder a marqueza de la Tournelle.

M.me William no tinha ainda attingido os quarenta annos. Era bastante
formosa; e s por vl-a e ouvil-a ninguem podia jmais suppr as
torpezas da sua vida.

Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuao
estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seduco.

--Que foi isso, baro, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe
at aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem
singularmente?!

De Qurelles mostrava-se embaraado. No sabia como abordar o assumpto
pelo qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo
sem ter dito cousa alguma.

Mas M.me William  que comprehendia claramente que se elle voltara a
procural-a aps tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no seu
espirito existia qualquer preocupao grave.

Tinha a impresso de que era preciso manobrar com toda a astucia dos
dias solemnes e dispunha j em linha de ataque todas as suas baterias.
Fez assentar o baro n'um soph, perto d'ella, e interrogou-o sobre os
assumptos mais extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis
estratagemas para facilitar a confisso a um penitente, para o obrigar a
confessar qualquer grande peccado dos que no se ousam contar em voz
alta, de que s se fala na meia escurido d'um fim da tarde e fechando
os olhos.

Aps duas horas de conversao o baro descarregra do corao um grande
fardo.

A sua confisso fra completa.

M.me William soubera que Dominique gostava da marqueza de la Tournelle,
que elle tinha sido alvo dos desdens d'essa dama da aristocracia,
que elle desejava vingar-se humilhando a altiva fidalga; que era preciso
portanto, descobrir  marqueza qualquer amante verdadeiro ou falso,
fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em ba ordem, algumas
excellentes notas de mil francos na sua bolsa.

A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia
achar-se em frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha
ingleza no envolvia nos fios da sua teia to bella presa. Detestava por
natureza as mulheres d'um mundo superior ao seu, e reservava-lhes as
suas mais crueis ciladas.

Comeou por encommendar duas soberbas toilettes n'uma modista da moda,
no boulevard Haussmann.

--Meu pequeno De Qurelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o seu
coup, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os
vestidos que encommendra, sers tu quem pagar a factura como inicio do
negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade.

Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasio de abrir
emisses para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro baro, para
satisfazeres na caixa as obrigaes contrahidas.

E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire.
M.me William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua
ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas
queria obter dados precisos, exactos, constatados por ella tanto
quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurana e
firmeza de pulso.

Uma manh, acabando de tomar o seu chocolate, comeou a pensar
seriamente, no que ella chamava o negocio do barosinho.

--Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa
formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o
possue, trata-se de descobrir quem elle .

Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a
qualquer entrevista? No, deixemos esses processos vulgares  policia. A
marqueza ama o grande mundo, os bailes, as soires; adora tambem o
theatro e tem um camarote na Opera.

Ora,  evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.

 necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expresses, os
olhares; e d'isso me encarrego eu, M.me de la Tournelle!

A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra,
elles teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos
as scenas harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensaes
litterarias e artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a
emoo produzida attinge a sua maior intensidade.

O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece to bello, como
quando n'elle apparece tambem um trao da vida d'aquella a quem ammos.

M.me de la Tournelle e Ronquerolle no fugiam  regra geral,  lei
commum, doce lei que ordena quelles que se amam que tudo sintam em
commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.

Os dois amantes no podiam encontrar-se na sociedade. O logar de
deputado republicano no era, decerto, nos sales aristocraticos que a
marqueza frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas
comprehendiam que a sua ligao era impossivel se no observassem a cada
instante a maior prudencia.

O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu
palacete havia readquirido a animao de todos os invernos.

O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse
visto a conversar com sua esposa n'uma soire do grande mundo.

M.me de la Tournelle assistia s sesses da camara dos deputados, afim
de vr ali o seu amante.

Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado  sua carteira,
escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo
os oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua
actividade, e a marqueza era feliz vendo-o assim.

Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir  Opera, onde ella
apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza
todas as outras mulheres...

--Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano,  minha essa
sublime mulher!

Ammo-nos, adormo-nos e ninguem no mundo, alm de ns, conhece o nosso
segredo.

E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amr, Ronquerolle
atravez a sala do theatro enviava toda a sua alma  incomparavel Carlota.

Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares,
transmitia-lhe tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as
varetas do seu lindo leque beijos discretos.

Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de
orchestra interrogarem-se.

--Quem , diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo
camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa
estrella de diamantes?

-- a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor
informado.  na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.

Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...

Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade,
belleza e espirito.

Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua
deliciosa amante.

Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos
ouvidos essa palavra to doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:

--Amo-te! Amo-te!

Invejava e tinha ciumes de todos os que visitavam o camarote da
marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das flres e dos canticos
que enchiam o theatro.

As convenes sociaes no permittiam que aquelles dois amantes se
apaixonassem, que fallassem em publico. No podiam trocar palavras seno
na intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha
organisado com uma arte consummada.

Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privaes
e mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam
menos, por no poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as
mesmas emoes, os mesmos prazeres.

Uma noite, na Opera, Ronquerolle no poude conter-se. M.me de la
Tournelle estava s. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro
do pequeno salo interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da
sala, chamou a atteno da amante.

Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:

--Que imprudencia!

E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.

Apertou-a um momento nos seus braos e depois retirou-se com a alma
embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.

Esta rapida scena no teve testemunhas, comtudo M.me William, a aranha
ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza
estando s, tinha-se affastado por alguns minutos da frente do
camarote.

--Por acaso o amante da marqueza no pertencer  sua sociedade? disse
comsigo a perfida observadora.  um enygma ento, e como decifral-o?

M.me William havia j comeado a sua sombria tarefa de espionagem.
Sabia j o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o
palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a
perplexa. No podera ainda achar um facto preciso, que podesse
collocal-a n'uma pista que devesse seguir.

Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraado dos agentes lanados nas
suas piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu
partido uma noticia nos seguintes termos: O deputado de Saint-Martin
interpellar proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da
perfeitura da policia. Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes
infamias dos agentes secretos. O sr. Ronquerolle apresentar factos, no
bater ao acaso. Desejamos que o ministro seja d'esta vez, um pouco mais
feliz do que na sua ultima derrota.

O ministro havia comprehendido a inteno e a ordem fra revogada, ou
fra suspensa por algum tempo a observao secreta de que Ronquerolle
era alvo. Este no poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus
adversarios.

Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as
apparencias de legitima defeza politica.

Quanto mais penetrava no exame dos actos e dos homens do poder,
maior numero de ignominias encontrava.

A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam
honestos e dignos.

--De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. No so
phrases que  preciso lanar-lhes ao rosto, o que  preciso 
cuspir-lhes na cara.

M.me William reconheceu a necessidade de realizar uma larga entrevista
com o baro de Qurelles.

N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleio de
deputados em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de
Ronquerolle, o candidato republicano, e a parte que elle proprio tomra
nos acontecimentos.

--No fao ideia, interrompeu M.me William, como seja o aspecto d'esse
tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e c fra, e que
derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle?

-- um homem alto e delgado, disse o baro, e elegante como um principe.
Mas porque me faz essa pergunta?

--Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando
uma attitude de denguice.

M.me William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos
deputados.

Occupava logar n'uma tribuna no distanciada d'aquella onde M.me de la
Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares,
deliciando-se com a vista do amante.

A esperta ingleza reparou em que a loura Carlota no desviava os
olhos do joven deputado.

--Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente
senhora marqueza  necessario que eu vos faa seguir durante os vossos
passeios atravez a cidade de Paris!

As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se
alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados
uns dos outros.

Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas
reunies.

Alm d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a
Ronquerolle, de frma a estabelecer a duvida na espionagem de que
podesse ser alvo.

Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos  facil fazer falar os
creados e os cocheiros.

Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita.

Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente
deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de
manh e d'outras vezes  tarde ou  noite.

M.me de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fra de seu
palacete sem se comprometter.

Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia.

Em geral as pessoas que vivem na grande cidade no se occupam dos visinhos.

Nas casas habitadas por pessoas de alta posio s se exige uma
qualidade aos locatarios, e essa qualidade consiste em no fazer
ruido nas escadas.

O socego e algumas peas de cinco francos lanadas de tempos a tempos
nas mos dos porteiros auxiliam efficazmente os amres illicitos nos
ninhos dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos
predios teem duas entradas, e portanto duas sahidas.

Este systema aperfeioado permitte s pessoas que teem motivos para se
envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo
contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das
pessas que se occultam nas mysteriosas habitaes.

Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para
n'aquelle jogo de amr obter todos os trumphos.

De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da me commum, a
natureza, serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida.

Que prodigios de imaginao no teriam os amantes, para se vrem a miudo.

Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas
preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher
casada, pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a
perdr, se o segredo da sua ligao viesse a ser desvendado.

O marquez de la Tournelle no tinha a menor suspeita sobre a virtude e a
fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um co ao dono e nem
sequer discutia os seus menores caprichos.

Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de
devoo, como se ama e se venera uma divindade.

Depois do chque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos
olhos da marqueza, porque no seguira os seus conselhos.

Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da
frieza que sua mulher lhe testemunhava.

Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphra, M.me de Tournelle
apenas permittia ao marido que a beijasse na testa.

Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater  porta do
quarto de sua mulher.

--Sois vs, Sergio? perguntou ella com voz irritada.

E como elle lhe respondesse affirmativamente:

--Tende paciencia, mas no vos posso attender. Voltae para os vossos
aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain.

Effectivamente estava vestindo uma elegantissima toilette depois de se
ter perfumado dos ps  cabea.

Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amr; mas
para salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em
Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por
isso, para ir cahir nos braos do seu adorado, do seu querido Ronquerolle.

--Fui eu que errei, dizia Sergio de la Tournelle dirigindo-se para
os seus aposentos.

Devia ter escutado os seus conselhos e obedecr-lhe escrupulosamente...
Oh! A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa
engrenagem?

Carlota! Carlota!

Se tu soubesses como eu te amo!

Morreria por ti se m'o ordenasses!

E o desgraado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua
esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era
verdade, que jmais a podia reconquistar.

O pobre marquez devorava a ss o seu profundo desgosto, porque as suas
dres eram d'aquellas que no se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um
amigo intimo.

N'essa noite o marquez de la Tournelle no dormiu.

Ouviu dar todas as horas at s quatro da madrugada.

A essa hora a marqueza entrava em casa.

Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a
porta da rua, a carruagem entrra no pateo, depois a porta envidraada
da escadaria abrira-se para dar passagem  encantadora Carlota, e depois
tudo voltra  tranquilidade e ao silencio.

--E dizer que minha mulher est aqui perto de mim, exclamava elle, que
acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como
uma Venus, e que eu no ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse
ella me acolheria com um sorriso de piedade!

E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se
estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza,
mordia as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.

No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppr toda a
importancia da sua desgraa.

A marqueza, como  sabido, vinha no s do baile como d'um delicioso
rendez-vous de amr.

Fatigada dos abraos estonteantes de Ronquerolle, despia-se
vagarosamente, lanando o seu vestido de baile, levemente amachucado,
sobre uma poltrona.

Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso
republicano.

E adormeceu feliz recordando as phrases de amr, o delirio do olhar
apaixonado de Ronquerolle; e jurando no amar no mundo mais ninguem
seno a elle.




IX

_Drama sangrento_


M.me William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, no
podia penetrar nos segredos da vida privada da bella Carlota.
Dispunha-se ella a organisar uma espionagem especial e astuciosa, quando
uma manh recebeu um aviso muito secco, pelo qual era convidada a
apresentar-se das 8 s 10 horas na repartio do sr. prefeito da policia.

Desconcertou-se, e estremeceu,  vista d'esse papel impresso e com o
timbre da Prefeitura.

No emtanto resolveu no se preoccupar com essa nota inesperada e logo
que chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu
gabinete, conforme o aviso que lhe enviara, M.me William tomou um trem
e fez-se conduzir para a Prefeitura.

Apezar da sua ousadia e da sua depravao no se sentia muito tranquilla
ao subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na
consciencia uma serie de aces ms, que suppunha terem sido
descobertas, e achava singular que a policia viesse metter o nariz nos
seus negocios.

Esperou uma ba meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas
personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como
ella, chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.

Por fim um empregado chamou em voz alta: Madame William! Esta
ergueu-se rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete,
e passou a um gabinete onde esperou apenas um instante.

Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella no
havia reparado.

--Meu caro senhor, exclamou logo ella,  extraordinario! Ha sem
duvida um engano, um lamentavel equivoco. No comprehendo que a policia
me faa comparecer aqui, obrigando-me a...

E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentaes, quando o
individuo que se achava na sua presena, grave como uma sentena de
morte, lhe fez signal para se sentar, sem dar a menor atteno s suas
palavras.

--Vs sois madame William, disse elle; madame William do boulevard
Malesherbes; no  assim?

--Effectivamente, respondeu a criminosa mulher.

--Est bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha de
serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes
a fazer por mais tempo concorrencia  Prefeitura de policia,
vr-nos-hmos obrigados a reconduzir-vos  fronteira.

M.me William quiz ainda balbuciar algumas explicaes, e tentou ainda
enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas
foi trabalho perdido. O homem no se desmanchou e disse-lhe ainda:

--Madame, sabemos tudo. No viestes aqui para fazer phrases
sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia j
vol-a dei. Fazei por no a esquecerdes.

E, como M.me William se erguesse, o homem accrescentou ainda, pondo a
mo sobre um masso de papeis.

--Madame, esto aqui documentos que vos dizem respeito. Como vdes
o masso  bastante volumoso. Devo prevenir-vos de que estaes sob a
vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a vossa.

M.me William regressou  sua habitao fortemente impressionada com o
que se passra.

No se entendia j dentro dos acontecimentos.

Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao baro
de Qurelles, pedindo-lhe para ir vl-a sem demora.

A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das
suas pequenas intrigas, mas no soube explicar como tinham esperado
tanto tempo para a advertirem de que tivesse cuidado nos seus
negocios. Havia annos que ella intrigava a sociedade parisiense, e
sempre a tinham deixado trabalhar  vontade. Mas apenas dirigira as
suas baterias contra M.me de la Tournelle logo a policia intervinha no
caso. Realmente a maldita Prefeitura queria tirar-lhe o po da bocca.
Afinal, pensava M.me William, aquelle trabalho a que ella se entregava
era como outro qualquer; era um meio de ganhar a vida honestamente.

O que se tinha passado, perguntar o leitor, para que a policia se
intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que
velava sobre a sua amante, como uma me vela pelo seu filho, havia tido
a suspeita de que a marqueza estava ameaada d'um grande perigo; e
redobrando de vigilancia, havia sabido da existencia de M.me William.

Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os
ataques na Camara, do joven deputado, dra immediatamente as ordens mais
severas relativamente  aranha ingleza to compromettedra.

E foi assim que M.me de la Tournelle, sem o saber, foi desembaraada
d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais deploraveis
consequencias.

O marquez, porm, comeava a sentir algumas suspeitas. Era to
desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua
intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a
causa unica da repulso que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a
bella Carlota fra mais attrahente e digna de ser adorada.

Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais
aristocraticos de Saint-Germain, no faltava s sextas-feiras da Opera,
nem a uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as
interessantes sesses parlamentares.

Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes
elegantes da vida parisiense vem ali apresentar os seus maravilhosos
encantos e as suas deliciosas frivolidades.

Nas seces mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle
nos termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom
tom e da verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o estandarte da
belleza no batalho das formosas louras.

A sua amiga, M.me de Fleurus, era rainha na crte das morenas.

Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que
muitas mulheres desejariam possuir.

M.me de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, por um
adoravel e quasi imperceptivel buosinho.

-- este o privilegio de ns outras as morenas, dizia ella algumas vezes
sorrindo, para M.me de la Tournelle. E devemos tirar todo o partido
possivel do que a natureza nos concedeu.

Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia
constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade
parisiense. Ella bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo
os mais fortes e os mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir
falar nos encantos, na elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.

Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.

No era s a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era
tambem, o seu orgulho.

Quando percorria com a vista as seces elegantes do Figaro ou do
Gaulois, onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a
abraar o mundo inteiro, e teria querido conhecer os reporters que
haviam redigido essas noticias to simples, mas para elle to
encantadoras, afim de lhes offerecer opiparos jantares na Maison
d'Or, em que o Champagne corresse a rdo.

Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se
falava de sua mulher como d'uma maravilha de graa e de seduco.

Esses elogios despertavam n'elle a paixo d'outros tempos. E tornava-se
a sua paixo mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria
esposa, como se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos
olhos sonhos voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel
intensidade o to falado supplicio de Tantalo. O divino licr
mostrava-se deante dos seus labios febris, mas o marquez no podia
mitigar a sde que o devorava. E no tentava sequer aproximar o calice
que brilhava como faiscas de diamantes.

Soffria em silencio, e a sua dr accumulava-se, como a agua d'uma
corrente que cae no fundo d'um precipicio.

Se elle fra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral
que quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la
Tournelle teria falado a sua mulher n'um tom que no permittiria a
replica, e teria arrombado sem difficuldade a porta do quarto de dormir
onde a marqueza se encerrava pretextando a fadiga ou o arranjo da sua
toilette.

 verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que
indicam o dominador, o conquistador, a marqueza no lhe teria jmais
fechado a porta; viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado
na fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.

A mulher ama a fora e despreza ou pelo menos sente piedade pela
fraqueza.  feliz em sentir-se martyrisada, no por um poder brutal,
feroz ou louco, mas por uma fora intelligente, bella e harmoniosa.

O papel d'um homem  na aco o que o da mulher  pela graciosidaoe.

Para M.me de la Tournelle o homem de aco era Ronquerolle; com elle
sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do
talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava
ligada ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida,
augmentando dia a dia pela fora adquirida e pelo encanto da recordao.

O marquez estava preso da maior angustia.

Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu
os aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de
dormir, o seu boudoir, o seu gabinete de toilette estavam saturados de
perfumes. Reinava ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do
grande mundo, quando acaba de se preparar para ir a um baile, a um
theatro, ou a uma entrevista de amr.

Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que
concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle
cahiu sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero
impossivel de descrevr.

Uma extranha recordao invadiu todo o seu sr, e lagrimas ardentes
queimaram as suas palpebras.

No boudoir, viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre
comsigo nas suas viagens, e nas suas mudanas de Paris para Saint-Martin
e de Saint-Martin para Paris.

Acudiu-lhe  mente a ideia de o abrir.

Veiu at junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava
fechado  chave.

-- singular! disse o marquez. Porqu este mysterio?!

E o seu vido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre.

Poz-se a sacudil-o.

Nenhum som se fez ouvir.

Ento a colera atravessou o corao d'aquelle desgraado homem.

Tomou o cofre entre as duas mos, acima da altura da cabea, e lanou-o
violentamente contra o marmore branco do fogo.

O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle.

O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as
cartas.

Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim
nos segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido,
lanava-o de encontro s catastrophes.

Com mo tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha
apenas alguns versos, e respirou.

A julgar pelo amarellado da tinta, havia j bastante tempo que esses
versos tinham sido escriptos. Olhou para a assignatura: Maximo
Ronquerolle.

--O qu, pensou elle, o nome d'esse homem!

Mas  uma infamia! Oh que fatalidade!

A outra carta no continha assignatura.

Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia.

 medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a
atravessar-lhe o corao.

Comprehendeu emfim todo o seu infortunio.

Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse
republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle
a quem tinham por habito chamar o cidado Ronquerolle. As duas cartas
que haviam saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado
 sua amante.

Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expresso de amr.

A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleio,
aps o apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso.

A carta dizia:

Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sde bemdita, pois
haveis secundado os meus esforos, tendo a coragem de me sacrificardes
os preconceitos da vossa raa, e a vossa posio.

Que hei de eu fazer para chegar at  altura do vosso amr, que se
affirma to poderosamente!

E mais adeante lia-se: Que bello destino antevejo, para ti e para
mim, deliciosa amante! Ninguem saber que nos ammos, ninguem advinhar
o segredo da nossa paixo...

Amar-nos-hmos, adorar-nos-hmos por ns mesmos, e no em obdiencia a
tlas convenes sociaes, no por nos conformarmos com pequenas cousas
ou interesses pueris!

A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o
infeliz marquez de la Tournelle.

Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse
espirito fraco, comprehendra de quanta magia dispunha sua mulher.

E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia
ter aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as
verdadeiras conquistas do amr.

Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado  sua amante que queimasse os
seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amr.

Ella sempre o promettera fazer mas jmais tivera coragem para cumprir a
sua promessa.

Essas lettras do amante eram para ella deliciosas recordaes do inicio
dos seus amres, e sentia uma extranha voluptuosidade em rell-as.

 to agradavel conservar os objectos que ho acompanhado o nascer e o
desenvolver d'uma paixo sincera!

As palavras escriptas pela pessa amada, quer sejam receosas, prudentes,
conselheiras ou loucas e irreflectidas; as pequenas lembranas ou
recordaes, um annel um leno, um livro; uma simples flr que secca mas
que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo, mesmo na sua
pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais eloquente
testemunha do nosso amr.

Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que so tudo para quem amou, e
que no trocaria essas recordaes d'um dia, d'uma hora, ou d'um
instante feliz na sua vida, por uma perola, um diamante, uma cora, um
reino.

M.me de la Tournelle no daria por um imperio aquelles dois papeis
escriptos pelo seu amante.

Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle.
Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria
Ronquerolle.

Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela
sua parte, no a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo.

No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas
cartas de Ronquerolle como um thezouro de alto preo.

O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu
pensamento.

--Est bem! exclamou elle com resoluo.

E tornou a collocar as duas cartas no cofre.

O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada.

Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pl-o no
mesmo logar onde o encontrra.

No queria que sua mulher percebesse o que se passra e principalmente
que elle tinha conhecimento da sua falta.

A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle comeou de
apparentar uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria
com satisfao e mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados
pequenas lembranas.

Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas
de conversao, teria dito: Que homem to feliz! E, no emtanto o
desgraado estava ferido de morte.

Durante um mez occupou-se em pr os seus negocios em ordem. Todas as
manhs o seu secretario vinha trabalhar com elle.

Algumas dependencias de sua casa, que estavam em ms condies foram
arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez
receberam a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis.

A marqueza no sabia que pensar do procedimento de seu marido.

Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares
perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida
tratava de assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros.

E no emtanto o marquez no tinha no cerebro qualquer projecto definitivo.

Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas
qual?

No teria podido dizl-o.

--Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle?
Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para qu?  uma
loucura. Elle est no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella
mulher a quem sorriu e que se lhe entregou... Eu  que deveria ter feito
com que ella me amasse. Devo matal-a, a ella,  culpada, ou pl-a fra
de minha casa? E seria eu menos desgraado, aps essas violencias? No,
no. O golpe est dado, a minha vida est envenenada e o meu destino
traado.

No posso confiar a minha dr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo.
Sou eu quem deve morrr!

Ah! Se eu no a amasse!...

E o desgraado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte.

Era o seu unico refugio.

N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo
o seu costume, indo a uma soire que dava a sua amiga, M.me de Fleurus.

Era nos fins de maio. A estao dos bailes e recepes estava a
terminar. M.me de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia,
para voar para os braos de Ronquerolle.

Estava prestes a deixar os sales da sua amiga, quando esta se aproximou
d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe parte, e
immediatamente.

M.me de Fleurus estava pallida e a sua apressada respirao denotava
grande emoo.

--Minha querida Carlota, disse-lhe ella;  preciso que voltes j a tua
casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei.

Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido
encontra-se muito mal... Partamos depressa.

Por sua vez a marqueza se tornou pallida.

Suppoz logo que uma desgraa irreparavel acabava de se passar.

Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma
confuso enorme.

 porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos,
corriam d'um lado para o outro falando e gesticulando.

Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos
agentes descia pela escadaria principal.

Ao vr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se
respeitosamente e ahi mesmo participou a M.me de la Tournelle o que se
passra.

Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do
marquez tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado
entrra nos aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrra morto sobre
um tapete, no seu quarto de dormir. Tinha-se suicidado; no restava duvida.

Na manh seguinte, Ronquerolle, que em vo esperra pela amante at s 2
horas, ao pegar no Figaro, deparou com estas linhas:

 ultima hora acabmos de receber uma triste noticia:

O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba de fallecer. Tinha
quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem, e um
amigo dedicado dos principes da casa de Frana.

O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo
triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido
nas ultimas eleies.

A sua morte  atiribuida  ruptura d'uma aneurisma. A marqueza est
inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam
com os seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas
respeitosas homenagens.

--Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxal que esta
desgraa no venha a recahir tambem sobre ella!

A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente
commentada, menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era
uma das senhoras mais conhecidas de mundo parisiense.

Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos
olhos do publico por ter succumbido  ruptura d'uma aneurisma, como o
Figaro, habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade no
guardou menos o segredo.

Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas
precisavam da marqueza e calaram-se.

Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passra. Quando os dois
amantes se encontraram aps a catastrophe e depois dos funeraes do
marquez, estavam inquietos e tremendo.

Abraaram-se fechando os olhos, e conservaram-se assim algum tempo
sem proferirem uma palavra.

--Saberia elle da nossa ligao? perguntou, por fim, Ronquerolle.

Porque se matou elle?

Teremos sido ns os culpados d'essa morte?

--No, respondeu M.me de la Tournelle. Meu marido de cousa alguma
suspeitou.

--Ests certa d'isso? interrompeu o deputado republicano.

--Sim, estou certa, replicou a bella Carlota.

Ronquerolle respirou mais  vontade.

Elle no explicava o suicidio do marquez seno pela descoberta da verdade.

M.me de Tournelle era sincera, nas suas affirmaes.

Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella
encontrra sobre a sua meza de trabalho.

Essa carta no encerrava a menor reprehenso, qualquer alluso que a
podesse ferir. Pelo contrario, era ella uma expresso do mais violento
amr.

O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica
motivos politicos.

Lendo essa carta d'um homem que ao escrevl-a resolvra j fazer saltar
os miolos, Ronquerolle demonstrra um sentimento de piedade.

--O desgraado, exclamou elle, no estava  altura da sua misso.
Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que
descance em paz.

A marqueza nunca suppoz que seu marido tinha lido as cartas de
Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero, comprehendendo
que nunca seria amado por ella.

Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle
tiveram conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a
sua derrota politica.

Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava
partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado
cahir, e como encontrra dentro d'elle a poesia e a carta de
Ronquerolle, que tanto amava, nunca lhe veiu  ideia que se passra em
sua casa um grande drama, que determinra a morte d'um homem.




_Epilogo_


Um anno  decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade
parisiense no se fala d'outra coisa, seno do casamento da marqueza de
la Tournelle com o deputado Ronquerolle.

O bairro de Saint-Germain considra como uma escandalosa unio a d'uma
mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado
orador, o inimigo do throno e do altar.

Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos
conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram.

A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria
occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior
silencio.

Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa unio nos seus labios
brincou um sorriso singular.

Monsenhor acabava de almoar, e saboreava uma chavena de caf tomado a
pequenos golos, no seu gabinete de trabalho.

O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino
Moka.

--Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete que
ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Ns ali
estivemos os dois.

--Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza no
assistiu a esse banquete politico.

--E porque no assistiu ao jantar a formosissima Carlota?

E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e
em voz quasi afflautada.

--O cidado Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor,
retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mo esquerda
e fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalho.

O prelado ficou um momento pensativo.

Depois enchendo um calice com finissimo licr offereceu-o ao seu
interlocutor e tomou um outro calice para si.

Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e
levaram-os em seguida aos labios.

--Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo.

--Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe o
reino dos cus.

--E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo.

--Ella! replicou o travesso vigario,  uma deusa do Olympo, que desceu
at ns.

Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de
Dijon, uma outra scena no menos interessante se dava em Paris entre
Ronquerolle e os seus tres amigos.

Tinham n'essa manh almoado juntos em casa do deputado republicano, e
depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio
de belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo.

Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordaes dos
primeiros annos da sua mocidade na grande Paris.

Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Caf
Tabourey, onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amr e
de ambio.

L estava ainda, esse caf attrahente, esse cantinho parisiense to
propicio aos homens de lettras e aos poetas.

Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram.

Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro
da casa, l estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de
copos.

A menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento estava um
pouco mais nutrida.

Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar
o caf.

A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou
estabelecidos e elle precisava descanar. A edade assim lh'o exigia.

Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se s suas recordaes. E cheios
de melancholia reconheciam quanto  verdadeira a phrase do poeta:

Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.

Ali encontravam a sua inquieta e desgraada juventude, os dias da
adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem
fama, tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel
orgulho. Que de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados
quella meza, sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo
versos, imaginando romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas
vezes a todos reanimava e que d'outras se desesperava sentindo-se tambem
vencido pela adversidade. Como parecia que esse tempo j ia longe!

--Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudmos os
nervos, vamos.

Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao
pescoo e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!

Merecem bem que as recordmos, essas loucas, mas lindas e alegres
companheiras dos tempos que no voltam.

Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.

Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.

Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal
rapido aos seus amigos e a conversao no proseguiu no caminho para
onde a desvira Maupertuis.

Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para
os seus amigos:

--Acompanhem-me.

E encaminhou-os para o cemiterio do Pre-Lachaise, at junto do tumulo
da infeliz Emilia.

O excellente rapaz no podia evocar os dias da sua primeira mocidade,
sem pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que
morrra por elle.

Quando essa lembrana lhe invadia o cerebro, o corao soffria e
Ronquerolle sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava.

Avanou ssinho at ao tumulo da sua amante.

Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia.

Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali
se conservou algum tempo, como que petrificado.

--Pobre creana, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida
pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida.

A primeira dr quebrou o teu debil corao; os rigres do destino ho
encontrado em ti uma presa facil.

Como tu me adoraste!

Ah! Tinhas razo quando no teu leito de agonia, me disseste que eu
nunca te poderia esquecer.

Tu foste a poesia e a flr da minha juventude e vivers eternamente no
meu pensamento.

Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o
marmore da lapide tumular:

    Appareces-me sempre, oh candida Viso!
    E choro-te saudoso, oh minha Primavera!
    Se no soffrra assim seria ingratido.
    Furtar-te  morte, amr, eu bem quizra,
    Mas sempre vivers na minha adorao.

Muito tempo ainda decorreu.

Branche, Didier e Maupertuis, comearam a inquietar-se.

-- preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dr pode matal-o.

Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um brao, afastou-o
d'ali. Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creana. Pararam depois
um instante nas immediaes do Pre-Lachaise e d'ali contemplaram Paris
que se desenrolava deante d'elles.

--Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desmos ao
turbilho, e esquemos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa
obra de justia... A ns a fortuna e a gloria! A ns a vida!

Ronquerolle apertou a mo do seu companheiro de luctas e sorriu
tristemente.

Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na
immensa cidade, na grande capital.

..........................................................................

Em cada anno, pelo comeo do mez de agsto, se v chegar ao lago de Cme
um par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de
cascatas emolduradas de flres. Dir-se-hia que se trata de dois
namorados que fugiram de casa de seus paes, e que ali se occultam, para
furtarem a sua alegria e o seu amr a olhares indiscretos. Nunca dois
entes mais sympathicos pela harmonia da sua mocidade, appareceram por
aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo do lago, volta-se a
gente para os admirar na sua encantadora marcha.

Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas.

Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que ho
conquistado a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae
essas felizes creaturas!

 a marqueza de la Tournelle que passa pelo brao do seu adorado e
apaixonado marido, o deputado Ronquerolle.

FIM





End of Project Gutenberg's Amres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMRES D'UM DEPUTADO ***

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