The Project Gutenberg EBook of Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda

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Title: Scenas da Aldeia

Author: A. Augusto de Miranda

Release Date: January 12, 2010 [EBook #30947]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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A. Augusto de Miranda


SCENAS DA ALDEIA



Editor

A. Augusto de Miranda

                 1909




SCENAS DA ALDEIA

Compos. e impres.--Typ. Universal
54, Trav. de Cedofeita, 56
e Rua das Oliveiras, 75, 77 Porto




A. Augusto de Miranda


SCENAS DA ALDEIA



PORTO
Typographia Universal, a vapor
75, Rua das Oliveiras, 77
1909




_Ao Ill.mo e Ex.mo Snr._

Conselheiro Albano de Mello

    _Permitta-me V. Ex., confidente das vicissitudes que tem agitado a
    minha vida de ha sete annos a esta parte, que eu colloque o seu nome
    illustre nesta pagina d'esta insignificante produco litteraria,
    que para V. Ex. s tem o merecimento de ser um testemunho de
    gratido._

                                                        _A. A. Miranda._




AOS MEUS PROFESSORES


Aos meus Condiscipulos


AOS MEUS AMIGOS




                                                           _Meu amigo:_

_As resumidas linhas em que eu condensarei as impresses que da leitura
do seu livro me ficaram no podem constituir, de frma alguma, isso a
que, nas nossas lettras, se chama--um prefacio. Sero apenas uma ligeira
carta sem subtilezas de critica profunda--a critica que nunca soube
formular, porque os criticos so personalidades todos de intellecto
raciocinado e frio e eu sou um homem todo de emoes._

_Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte
annos no deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que
primeiro os seus auctores tivessem, alm de um exacto conhecimento da
vida, completamente afinadas as suas faculdades d'observao, e sem que
o seu temperamento esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para
que depois, j em pleno triumpho, no se arrependessem dos
inconsiderados impulsos da juventude. Eu, pelo contrario, digo-lhe que
nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua actividade artistica dos
primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia do seu talento um
dia sentir a viva anciedade de vr como principiou. Os trabalhos da
iniciao representam at um documento essencial para o estudo das
intelligencias evolutivas e ascendentes..._

_No affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo ter a
vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para
ser-lhe agradavel--e isto pela viva sympathia que me inspirou. A
novella, para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepo e
de realisao, da plasticidade e do vigor da frma, da perspicacia da
analyse psychologica, de dextreza na modelao das figuras, da
diversidade dos coloridos na pintura dos scenarios: e estes dons apenas
advm da tenacidade disciplinada e do estudo, porque ninguem nasce com
um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo comprehender._

_No lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo
prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que
enternece algumas paginas--que  o sentimento d'uma alma pura e com
finas delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora
comea, um evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente
deseja orientar-se e que vir a impr-se s admiraes se fr animado
por uma vontade sem desfalecimentos. E to certo estou d'essa victoria
futura que desde j calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que
para a sua apresentao se houvesse lembrado do meu nome humilde e sem
auctoridade para estas ceremonias solemnes._

_Porto, 5 d'Abril de 1909._

                                               _Amigo muito affectuoso_

                                                           Joo Grave.




PROLOGO

Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente
estudante mediocre do lyceu, dou  luz o producto de tres longos mezes
de trabalho para a consecuo do qual tirei instantes preciosos
destinados  ardua tarefa de que depende a minha vida futura--tarefa
tanto mais ardua, quanto mais consideradas sejam as minhas escassas
luzes intellectuaes.

Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, s tem valor
por ser o fructo de um trabalho em que gastei, mrmente durante um bom
mez, uma parte do tempo precioso destinado s minhas lies. 
appellando para essa attenuante que espero merecer a complacencia do
publico em geral--tanto dos que convivem commigo de perto e que, vendo
em mim um individuo sem aptides para qualquer ramo do saber humano, vo
ficar admirados da ousadia de semelhante passo, como dos que, sem nunca
sequer me terem visto, esperam encontrar neste pequeno livro a summula
do valor d'uma intelligencia promettedora que comea a manifestar a sua
tendencia.

 minha inaptido vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres
annos; e assim  que o meu livro, fatalmente eivado de todas as especies
de imperfeies, s por uma disposio do leitor benevolo para uma
extraordinaria condescendencia, poder ser absolvido das faltas que
inconscientemente commetti.

Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos
meus collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as
difficuldades com que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.

Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no _Correio d'Albergaria_ um
artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei s Scenas da Aldeia, que
eu declarei em preparao, mas que ainda existiam em projecto na minha
mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e
publiquei ento no mesmo jornal um excerpto sobre a transformao
psychica de Maria Luiza.

Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me
preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres
quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu no podia dispensar
sem prejuizo das minhas obrigaes.

Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigao com a
devoo, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de
caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.

O meu livro est impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor
religioso, porque julguei que, tirar  simplicidade da vida alde o
sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a
d'essa graa original e to cheia de poesia que lhe d todo o seu valor;
julguei que era arrancar  vida da aldeia a sua alma.

Obedeci a esse principio, e no  gratido com que retribuo a meu
pae--um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do
seu corao quando me perfilhou--os desvelos que um filho recebe de seu
pae carinhoso. Nem to pouco obedeci  doura dos fructos que deveria
ter colhido da minha recluso de alguns annos num seminario.

D'este s me lembro com mgua, quando considero a falta que me fazem os
annos que l gastei inutilmente. De resto, represses, o pouco respeito
com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes
fica em caracter, e  tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos
alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque so, por assim dizer,
uns criminosos inconscientes.

D'elles s conservo um resentimento: alimentarem animadverso contra a
minha terra--Aveiro, talvez por causa das suas tradies de inimiga da
hypocrisia.

Um, chegou a dizer numa aula, na minha presena--quando se discutia no
parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga--que todos
os que se deixaram levar pelas palavras de Jos Estevam foram uma corja
de brutos--palavras textuaes--porque a variante da linha ferrea que
ento se construiu, alm de acarretar enormes dispendios  companhia,
prejudicava immenso, por causa d'uma terra _que no prestava para nada,
sem valr nenhum_, toda esta regio que anceava pela execuo do caminho
de ferro do Valle do Vouga.

Tirado d'isso, no tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram,
com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenas]
que levava arreigadas no corao, e de apagar outras. Se ha quem diga
que actualmente j se no fazem milagres, ou nunca houve quem os
fizesse, engana-se.

J v, pois, o leitor, que sou religioso e sou christo; no sou,
talvez, catholico, mas isso d-se na maioria dos padres, se no na sua
totalidade.

Ponto final sobre este assumpto. No v o meu livrco parar ao _Index_.

Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma
vez do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razes que
expuz, no deixo de merecer com alguma justia; e, confiado em que a
minha petio no ser infructifera, agradeo-a antecipadamente, e deixo
aqui consignado tambem o meu agradecimento pelos preciosos momentos que
o leitor haja de dispender na leitura d'este ensaio.


Aveiro, maro de 1909.




SCENAS da ALDEIA


I

Na margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz,
espreguia-se indolentemente, numa srie de formosos outeiros e encostas
de suave declive, uma aldeia.

A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o
verde das arvores e dos pinheiraes numa extenso de mais de quatro
kilometros, suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da
verdura d'aquellas collinas, como o lavrador atira a mo-cheia da
semeadura  terra fecundante.

Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam
proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que
uma mulher, conscia da sua formosura, lana quellas que no receberam
da natureza os dons com que ella foi dotada.

Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doura de um ar
diaphano, as suas melnas so brandamente agitadas pelo sopro suave duma
aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde puro da
vegetao do campo,  banhada pelas aguas transparentes do meigo e terno
Vouga.

Eis, em simples bosquejo, o que  essa aldeia que se chama Alquerubim.

Alquerubim!

S o nome  bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante
ao de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creana!

Pensareis talvez que estas palavras so a expresso expontanea do
sentimento que me inspira, como a todos ns, a evocao da terra que me
viu nascer.

No.

Quando pronuncio a palavra Alquerubim, a minha alma no experimenta
aquella sensao que nos faz pulsar de enthusiasmo o corao quando
pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos
no mundo; porque no foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no
seio materno.

Mas se no foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a
minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando
por um prado tapetado de boninas e violetas.

 por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do
meu peito, se no tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doura
inexprimivel--a saudade.

Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaada com os ramos de cada
arvore; em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros ps feridos por
uma pedra desligada da calada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga,
um pedao da minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a,
invade-me a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de ter, em
manhs frescas do vro, adejado mansamente sobre um campo tapetado de
verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.

Acaba de passar sobre o meu drso o frio do meu vigesimo segundo
inverno. Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama--Vida. E,
ainda que na primavera da minha mocidade, tenho comtudo j sido aoutado
por vendavaes ferozes.  no meio das tormentas que to cdo comearam de
me assaltar, que eu procuro refocilar o espirito e fortalecer o corao
nas dces recordaes da minha juventude.

Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas
madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo
se eleva um no sei qu parecido com um fumosinho que vem
condensar-se-me nos olhos. Lagrimas? No. No chega a formar gottas. Um
nevoeiro que me tolda a vista, mas muito tenue, que eu considero o
chorar da alma. Porque a alma tambem chora.

Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte,
percorro com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas
vezes andei horas esquecidas  procura de ninhos; supponho-me deitado na
caminha de ferro que minha me comprara para mim e quando, aos domingos,
ao ouvir o badalar do sino logo de manhsinha, eu me levantava, lavava,
e minha me ia ajudar-me a vestir a roupa nova para ir  missa; e eu l
ia, muito serio, ao lado de minha me, com uma bengalinha de bamb que
me tinham dado, e depois da missa voltavamos para casa, eu almoava e em
seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o campo, com os meus
companheiros. Recordo-me d'estes com saudade, alguns dos quaes, talvez
mais felizes do que eu, j morreram, e outros, andam muito longe, alguns
nem eu sei por onde, luctando com a vida, abreviando os annos da
existencia...

E nestas recordaes sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me,
attenuam os dissabores da minha vida presente.

Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica
felicidade que nos  dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu
movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle
tambem no retrocede s suas montanhas para d'alli voltar, em suaves
murmurios, a beijar as melnas dos sinceiraes o ouvir os dces cantares
das camponsas em dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos
apaixonados...............................................................
..........................................................................

Meu caro leitor, se s cidado, se passas a vida na atmosphera doentia
da cidade, vem commigo  minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, sers o
Dante e eu serei Beatriz.

Vers maravilhas: mas no as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos
de espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Vers maravilhas da
natureza que nos sensibilisam a alma e dulcificam o corao.

Sers conviva entre gente pobre, mas ba, nas suas simples refeies;
sers testemunha e confidente de conversaes despretenciosas e intimas
de paz, socgo e alegria,  lareira, emquanto o vento zune l fra e a
chuva fustiga as folhas das larangeiras e enta, nas telhas grossas da
choupana, a sua cano montona; assistirs s festas intimas dos
simples, ao seu labr quotidiano, aos seus regosijos, s suas alegrias,
aos seus pezares; palrars com a gente do campo e estudars a sua ba
indole; espraiars a vista por horisontes muito extensos, por sobre
montanhas longinquas; aspirars a largos srvos o ar purificado pela
folhagem de centenares de arvores, cruzado pelo esvoaar de milhares de
avesinhas silvestres e aromatisado pelo odr de myriades de florinhas
espalhadas por estes campos alm; e o teu rosto adquirir as cres
rseas das pintadas mas camozas que aqui ha em abundancia.

Depois, quando voltares  tua cidade, levars d'aqui profundas saudades;
a tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentir a
mesma commoo que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta,
vendo-se sem a tranquillidado dos campos, disse--_ rus, quando te
aspicio!_--oh! campo, quando te tornarei a vr!


II

O anno passado, n'uma manh serena e fresca de maio, fui ao campo para
vr nascer o sol.

Uma tenue claridade, precursra do dia, innundava j o ambiente da
aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as
arvores em completo repouso.

O mez de maio  um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era
uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e
frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dce orvalho da
madrugada.

Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massio de
heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os
seus trinados.

Nos requebros das suas melodias, nas inflexes dos seus variados
garganteios, havia um to expressivo influxo de dce sensibilidade, um
to grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle
silencio--apenas entrecortado pela voz do rouxinol--que pairava em volta
de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava
um massio de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno--mais
pequeno que o rouxinol.

Absorvido na audio d'aquellas melodias que arrancavam  minha alma
vibraes d'uma indizivel doura, e contemplando as ruinas d'aquella
casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma manso ditosa de felicidade
e amr ou, quem sabe? de expiao para uma alma desditosa e amargurada,
debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol,
eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um
rouxinol ao p a cantar melopas to sentimentaes que pareciam
repassadas de pungente saudade, a entoar canes to tristes como a
solido em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a
sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.

Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para no serem
profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na
pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa
das resignaes, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um
d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo
destino de acompanhar e realar com as suas melodias sentimentaes
aquelle quadro de saudade...

Fui arrancado  minha meditao pelo ruido do rodar pesado d'um carro de
bois.

O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo
estendia-se j uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.

Era a bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios, na phrase
de Vieira.

O rouxinol interrompeu a sua melopa e fugiu do arbusto.

O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.

Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nra, vinha dentro d'elle,
arrimado a uma aguilhada. Ao p de si vinham dois rapazes: um, dos seus
14 annos, encostado ao timo do arado; o outro, ainda creana de no
mais de 7 annos, encostado  sebe de vimes, as mositas mettidas
profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmo, pois no
era cortado segundo as dimenses do seu corpo.

--Eh! Tio Luiz! Bom dia.

--Ol! Bom dia, sr. Antonio. Ento por aqui j, to cedo?--Oh! Pra ahi,
_loura_! Oh! _castanha_!--Isso  que foi madrugar, hein?

--Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da
madrugada.

--Ah!  bom, l isso . Pois ns vamos alli abaixo lavrar uma terra para
semear milho. Vamos assim cdo, que  para fugir ao calr; porque ahi
por volta das dez horas, elle j apoquenta bastante quem anda no
trabalho. L os senhores,  como o outro que diz se tenho frio vou-me
aquecer, se tenho calr vou p'r sombra! e no sabem o que  andar a
puxar pelo corpo debaixo d'um calr de rachar!

--No sei, mas calculo. Mas, meu amigo, voc no sabe que todos os modos
de vida tm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de
laboriosa,  a melhor que ha! Diga...

--Ai! ai! ai! Se vamos...

--Espere! Diga-me l uma coisa: voc faz l uma pequena ideia do que 
uma pessa levantar-se ao nascer do sol e dizer l comsigo: vamos agora
a vr que tal est o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias;
preciso agora de fazer isto, fazer aquillo, etc., e,  noite, fatigado
mas contente, dando graas a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as
ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito--do
espirito, que  o melhor socgo!--e dormir a somno solto a noite
inteira! Voc sabe l quanto isso vale?

--Tambem no sei, mas calculo... Mas, se quer que lhe falle com
franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemec est
pr'hi a elogiar, por um emprgosito que me desse cinco ou seis tostes
por dia, sem precisar de calejar as mos nem me vr obrigado s vezes a
levantar cdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso  que  uma
vida ba! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto no pde sair. E
vae a gente assim vivendo n'esta vida to regalada, como vocemec lhe
chama...

--V? Pois n'isso  que consiste a felicidade: no nos importarmos nem
ambicionar coisa nenhuma. Vive voc resignado com a sua sorte, e no
aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino
que assim determinou...

--Pois  isso mesmo. Deus quer, no ha remedio seno sugeitar-se a
gente...

--Ora suppnha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco
tostes diarios. Voc, ao cabo de algumas semanas, comeava logo a olhar
com olhos de cubia o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois
tostes mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e
a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as
eleies, l tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu.
Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gente
_fidalga_, como vocs lhe chamam c, o seu ordenado tinha de ser muito
bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de
vestuario, etc., para voc se apresentar decentemente em publico.
Entretanto ia j deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto , mais
rendoso; supponhamos que o conseguia, e voc talvez no saiba que os
empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos so, menos trabalho
do. Voc ia-se habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada
vez menos. Comeava o seu corpo a resentir-se do torpr resultante da
inaco physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma
doena que ataca quasi toda essa gente que s come bora por desfastio.
La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, no apanhar
uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, no comer de mais nem
d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!

--Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...

--Podia ganhar e podia no ganhar. Olhe, meu caro: no ha vida como a de
lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.

--Mas ento porque  que o sr. no tomou esta vida?

A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraado, e pude
tartamudear:

-- que... bem v, o mundo  assim... Ns vamos para onde nos
encaminham...

--Ah! Ah! Ah! Ser melhor mudar de conversa; vou-me  minha vida, que
est o sol quasi a nascer. Para esta vida--acrescentou elle, rindo-se
zombeteiro ainda do meu enleio--de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah!
Venha d'ahi no carro at alli abaixo, quer vir?

-- verdade. J o pudera ter feito, escusava voc de estar a perder o
seu tempo.

--Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu  que me devia de ter
lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.

Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mos  sebe e o tio
Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das
vacas, exclamou, na palavra consagrada para pr o gado bovino em
andamento:

--Eixe!

O carro poz-se em movimento.

--Diga-me c uma coisa,  tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta
casa, que alli est em ruinas?

--Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou,
por outra, a mulher do brasileiro que mra acol em cima na Herdade.

--Ah! Bem sei! Por signal que at a vida d'essa mulher em solteira 
muito interessante.

--Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas
arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.

--Mas o que acho esquisito  eu ter aqui passado tantas vezes e nunca
reparar para a casa seno hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou
capaz de escrever a historia da casa. Voc que diz,  tio Luiz?

-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem,
e olhe que  uma historia bem ba, alm de ser verdadeira, que  o
principal!

--Pois est dito. No descansarei emquanto a no escrever. Mal ou bem,
depressa ou devagar, ella ha-de sair!

-- senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...

--Descance, que ha-de ser voc talvez a primeira pessa que nesta
freguesia ha-de tl-a.

--E isso levar muito tempo,  sr. Antonio?

--Leva, leva! V que a minha vida no me permitte dispr de muito tempo
para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes no a escrevo.
Depois...

--Sim, sim!  preciso tambem depois _imprensal-a_, e tudo leva tempo.

--Pois  isso. Antes de meio anno ou mais, voc no a v.

--Seja l quando fr! Mas que Deus no me mate sem a ouvir lr. E olhe
que ha-de ser vocemec que m'a ha-de lr, ouviu?

--Est dito.

O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viosos, cheios de
orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina
transparencia.

O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas
semelhantes a dous grossos cordes que tarjavam o seu leito, os
passaritos, esvoaando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a
alvorada.

Numa encosta proxima, a vidraa duma janella reflectiu um claro--era o
sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.

O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:

--Agora vamos  nossa lida.

Emquanto saltei, respondi:

--Vo, vo; que se no fosse eu, j vocs tinham um bom par de leiras
lavradas.

--Que tem l isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pr
as vaccas  charrua!

--Olhe l! Que vem c fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que,
lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; no
podia ter ficado a dormir?

--Quer vir, deixal-o vir!  para se ir acostumando. Como j chega a uma
prateleira que l tenho na cozinha, diz que j  um homem. Que quer que
lhe faa?

      *      *      *      *      *

Quando me retirei--j o sol ia alto--o tio Luiz l andava a revolver a
terra, agarrado  rabia do arado, o dorso meio curvado pelo esforo.

Preparava a terra para lhe lanar os gros, cada um dos quaes se
multiplicou em dezenas d'elles.

Semeado naquella manh formosissima de maio, o milho nasceu, passados
alguns dias, lindo e verde: lanou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi
sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.

Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e
caricias verdadeiramente filiaes.

Trabalhos e fadigas, chuva e calr, tudo soffreu resignado, sempre na
sua fronte estampada a alegria e no seu corao a esperana...--A
esperana de qu?

Nem elle o sabe, o lavrador.

Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambies,
idolatrando os torres que seus paes regaram com o suor da sua fronte,
colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras
de que seus filhos depois colhero os fructos.

E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano
com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupao de
espirito, no dce convivio da familia reunida em volta da lareira nas
noites amenas do outomno.

Todos os dias,  hora crepuscular da tarde, quando um socgo religioso
repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Av-Marias,
a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma
robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo onde reina a paz e o
amr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeio da
noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha
de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do
Nazareno na noite da ultima ceia.

Entretanto, c fra, cortando o socgo da noite allumiada pelo meigo
luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja comea
a dobrar s almas, segundo o tradicional costume da aldeia,
repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos alm, penetrando
os limites da freguezia visinha, at se perder na solido da noite...


III

O tio Jos da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.

Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu
peito rijo existia um corao sempre jovial e bondoso, cuja ternura se
derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma
candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos
envolvia.

Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho,
moceto de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e
bondoso, a flr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma
rapariga de dezoito annos--o terceiro filho do casamento do tio Alameda
com a sr. Maria das Dres--chamada Helena, possuidora de uns olhos
que--no  por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno--lhe diziam
to bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que no havia rapaz
nenhum na aldeia que no desejasse andar toda a vida perdido na
escurido d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vr, por detraz de
dois labios nacarados que deviam ser dces como favos de mel, duas filas
de dentes brancos como a neve pura.

A familia do tio Alameda, alm d'elle e dos dois filhos, compunha-se de
um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que
para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma
pupilla que, orph de pae e de me, encontrara nos braos do tio Alameda
os carinhos paternaes que to cedo lhe faltaram.

Chamava-se Julia. Tendo ficado sem me aos cinco annos, a infelicidade
vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da
adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.

Foi ento que a misericordia do tio Alameda se patenteou devras; porque
o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia no podia ficar s no
mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa
voz apagada e apertando nas suas mos febris as do bondoso velho:

--Tio Jos... esse anjo, que ahi est a chorar... vae ficar sem ninguem
no mundo...

--Descana, Joo; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e
limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descana, que a tua
Julia fica na minha companhia.

O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mo que segurava na sua que
caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas
faces mortalmente pallidas.

Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.

--Olha o que te digo, pequena--dizia-lhe elle carinhosamente uns dias
depois da morte do pae. Tu agora s minha filha. Deus levou uma que eu
tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu
no has-de andar sempre a chorar! Isso so saudades,  certo, e as
saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu no posso
vr ninguem a chorar.

E o bom velho passava-lhe com carinho a mo pela cabecita loira.

--Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando no conhecia ainda o
mundo. Mas depois que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de
enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha
motivo para isso, ento no fazia outra vida.

A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.

--Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que est a fazer a
ceia, e espairecer.

E pegando-lhe docemente na mo, obrigou-a a seguil-o.

--Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha;  preciso que o
Belbuth venha c hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo
que v vr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas
chalaas, para distrahir esta pequena, que no faz seno chorar.

Quem no conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda no ha muitos
annos?

Quem ha ahi que se no recorde d'esse velho, rijo como um pro, e que
contava cerca de cem annos quando morreu?

Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma cdea e uma
tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca
de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia
austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou
tres barretes sobrepostos e enterrados na cabea.

Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um tolo com juizo. Sim; porque
trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o brao,
embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de
uma boa aco. E que melhor aco pode haver que o trabalho?

O Belbuth no era, pois, um tolo na verdadeira significao da palavra.
No fazia diabruras. No se ria frequentemente e sem motivo, como
succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em
equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei
algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de
conservao, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com
phrenesi, pela estrada adeante, no reparando nos estragos que podia
causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que
lhe conheci.

Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes do _sorte_ tm
para pras. Era o que se dava com o Belbuth.

Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a
estima de toda a gente, em vista da sua edade avanada, e era, alm
d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes
tomou parte.

Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer penses.
Dando frequentemente um ordenado suprfluo a um gluto, que passa a vida
regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes--e s
vezes nem isso!--, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem
escarnecidos--smente porque eram pobres--homens que, outrora, no vigor
da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes
corria nas veias.

O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos
farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por
habitao o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes,
entre dois lenoes de neve.

Limitando o campo da sua vida de vagabundo  rea d'esta aldeia, o
Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus--um
outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse
mundo como um cometa errando no espao, apparecendo de tempos a tempos
no logar de Paus, d'onde era natural.

Sobre este contam-se vrios episodios, alguns com bastante
originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.

Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria
crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de
cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe
matavam a fome com uma parcella que cada um tirava  sua lata de rancho.

Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O
Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada--pois a sentinella
estava a dormir--pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre
soldado do responder a um conselho de guerra.

Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no
quartel.

Uma outra occasio, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia
qualquer, alvoroando o povo todo.........................................
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--Olha l,  Belbuth! Tu namoraste alguma vez?

--Se eu namorei alguma vez? O qu?

--O qu! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?

--Nada! Tive sempre mdo desses demonios!

--Porqu? Fizeram-te algum mal?

--A mim no, porque eu nunca lhes dei confiana. Depois que vi o que
succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca
as pude vr. Quer saber, tio Jos, o que succedeu um dia a um camarada
meu por causa d'uma rapariga?

--Conta l.

--Aquillo, andam de combinao com o demonio! Um companheiro do meu
regimento arranjou conhecimento l com um d'esses demonios qualquer;
quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francses,
acol para uma terra que j me no lembra, o rapaz desappareceu. Logo
ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e
montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz
parte d'uma.

No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para
os lados de S. Pedro do Sul. Ns iamos perguntando se tinham visto um
homem assim, assim: at que uma mulher, que andava a guardar umas cabras
nos apontou um pinhal. Quando viu que no havia meio de nos escapar,
poz-se de joelhos deante de ns, a chorar tanto, que era uma dr d'alma!

Prendmol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos ento pelo caminho que a
tal desavergonhada  que tinha feito com que elle desertasse.

--E ento que  d'ella? perguntamos-lhe ns.

--Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em
terras de Portugal, para me no conhecerem, enfastiou-se de tal vida e
abandonou-me.

Pediu-nos ento elle que o deixassemos vir  vontade, jurando que nos
no fugiria.

Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, no nos fugiu; mas, quando
passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e j o no tornamos a
apanhar seno morto.

Tivemos de dizer que o encontramos j assim, para no sermos
castigados.

E agora, diga l, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia l
olhar com bons olhos uma mulher?

--Mas ellas no ho-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.

--Pois sim: no sero todas. Mas, como a gente v caras e no v
coraes, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de
mulheres, perde-se quasi sempre!..........................................
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IV

Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja
capella, assente na lomba do cabeo que se designa pelo nome do mesmo
santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado
pela encosta de Travass--uma encosta de aspecto taciturno, que olha com
melancholia toda a regio opposta simetricamente, sobre a qual se
estende, beijada desde a manh  tarde pelos raios do sol, a alegre
Alquerubim.

D'essa lomba v-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte
da Rata, a regio paludosa de que faz parte a magnifica e extensa
pteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre
o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, v-se ao longe,
desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do
Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do
sop.

Nesse dia, o cabeo do Santo Estevam apresentava-se galhardamente
revestido de alegres bandeiras que fluctuavam  virao da tarde como um
bando de pombas.

O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos
beijos, raios de calr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. Joo,
disposta em circulo, lanava aos ares harmonias que eram levadas, por
sobre montes e valles, a uma grande distancia.

Junto  capella, um rapaz de 24 annos, uma viola a tiracolo, encostado a
um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moas.

Era o Joo do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.

Causava gosto vl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao
seu bordo, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mo direita
pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxes numa ou noutra
caravlha para afinar o instrumento, comear a dedilhar um
acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, j cercado de
curiosos, no tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o
circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem 
atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com
o Joo do tio Alameda.

A derrota era certa. S havia uma que algumas vezes o levara de vencida:
era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e
expansiva. Era a Maria Luiza.

Havia quem dissesse que o Joo se deixava algumas vezes vencer por ella;
e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a
envolvia, to differente do que lanava s outras, via-se
claramente--porque o amr no pode estar em segredo--que ella no lhe
era indifferente.

--Olhae! l acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do
arraial.

Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas
uma por uma, e, dando uma ultima demo  afinao, tirou um accorde.

Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam--homens e
mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do
rei dos cantadores com a Maria Luiza, a sua rival... Porque ella l
estava, fresca como uma alface e risonha e purprea como uma papoila, em
frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:

    --Se tu soubesses, menina,
    Quantas 'strellas ha no ceu,
    Saberias quantos suspiros
    D por ti o peito meu.

A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a
ser ouvido pelo grupo todo.

A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe
sorridente:

    --Que importa o que diz um louco,
    Se falla sem sentimento?
    Cartas d'amor so papeis,
    Palavras leva-as o vento.

--Bravo! exclamaram do grupo.

--Sim, senhor!

--Responde-lhe agora,  Joo!

--Essa chegou p'ra ti! Hein?

Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.

    --P'ra que vaes, pois, ao sermo,
    Ouvir o padre prgar!
    Palavras leva-as o vento,
    Acabaste de o affirmar.

--Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o magano!

Mas ella no se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:

    --Palavras santas, eu ouo-as
    Com amr e devoo;
    As que Satanaz profere
    No me entram na corao.

..........................................................................

Quando terminou o debate, j o luar inundava o cabeo de Santo Estevam.

O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham
retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.

O Joo da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto , Maria Luiza alcanou
mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo,
exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto 
sua reputao de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.

Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expanso do
ardr da mocidade, o cabeo l ficou, na solido da noite, triste, com
as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado
pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle
ditoso dia que s se repetiria d'ahi a um anno...


V

Na vasta eira do tio Jos da Alameda haviam-se despejado quatro enormes
carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar,
dos fins de setembro.

O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu
optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no
logar.

Eram oito horas, e j uma boa duzia de alegres moas estavam a contas
com o monte, numa satisfao propria da mocidade em occasies de
folguedo.

Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das
raparigas.

No  uso convidal-os. Elles c viro ter  a phrase consagrada.
Effectivamente, elles, de ouvido  escuta, collocam-se nas
encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das
vozes nas desfolhadas, ahi vo como o co de caa farejando o rasto do
coelho at lhe dar com a cama.

--Eia! vamos l a isto! gritava o Joo da Alameda, alapardando-se entre
a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto  dar-lhe! Isto  dar-lhe! Em uma
ou duas horas est tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje at ao sol
fra!

--Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse
momento encafuado num gabo.

--Viva! gritaram todos.

--Obrigado! obrigado! dizia com bondade o Joo. Mas olha l,  tu do
gabo! Ns aqui no queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabea e
senta-te p'rahi como os outros. J todos sabem que aqui, s nossas
desfolhadas, s se vem de cara descoberta.

--E se eu no quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarado.

--Se no quizeres, replicou o Joo meio azedo, vaes j pelo caminho por
onde vieste.

Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:

--Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vr isso!

O Joo da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos
circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela
jaqueta.

Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no
dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabr maior.

O Joo dirigiu-se ao atrevido e este, na occasio em que elle estava a
dois passos, atirou o gabo ao cho, dizendo risonho:

--Ol, patro?

O Joo da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma
viso lhe houvesse de repente apparecido.

Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos
inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.

--Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.

--Olha o espertalho do rapaz!

O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a
sua brincadeira que fez ir  serra o filho de seu amo.

O alarido restabelecera-se, e o Joo, fuzilado pelas chufas das
raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.

O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local,
elevava-se j a algumas dezenas.

O monto de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de
mos, desapparecia a olhos vistos.

--Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trmula.

Era o tio Jos que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla,
trazendo numa das mos uma tripea.

--Viva, sr. Jos!

--Ento tambem vem tomar parte na desfolhada ao p da gente nova, hein?

--Com'assim!...  para me recordar dos meus tempos passados.

Entretanto ia-se ageitando na tripea, entre Helena e Julia que ficara
junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um p de milho:

--Porque um homem, quando chega  minha edade, que outra coisa pde
fazer, para se no entristecer e no pensar na morte que se approxima,
do que alimentar o seu espirito com recordaes dos tempos passados,
fingindo-se ainda nesses tempos que foram e no voltam?... E ser este o
ultimo, quem sabe?...--ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.

--Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente,
Helena. No se quer c tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha
alli ao pae com uma cantiga das tuas,  Joo!

Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio Jos, sorrindo bondosamente,
submeteu-se.

--Sim, sim! Uma cantiga! diziam.

--Muitas cantigas, muitas,  Joo!

--Haja animao! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma
das tuas!

O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignao,
preparou-se para cantar.

Todos se calaram. S se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar
simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a
cair nos cestos de vime.

O Joo pegou num p de milho, deitou um olhar de soslaio  Maria Luiza,
e cantou na sua voz sonora:

    --De tantas estrellas que ha
    Por'hi alm nesses ceus,
    Eu no encontro nenhuma
    Comparada aos olhos teus.

E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaa uma esganiada
em falsete, repetiram em cro, que se repercutia de valle era valle, os
dois ultimos versos da quadra:

    Eu no encontro nenhuma
    Comparada aos olhos teus.

Elle continuou:

    --s ondas dos teus cabellos
    Gostava de me atirar;
    Teus olhos, fares de esp'rana,
    Haviam de me salvar.

E o cro repetiu:

    Teus olhos, faroes de esp'rana,
    Haviam de me salvar.

--Isto  com a Maria Luiza, cochichou uma  sua visinha da direita.

--, ! Se fosse de dia, havias de vr a cara de malaguta com que ella
deve estar.

    --E do que morrer amando
    Se no ha nada mais bello,
    Queria amando morrer
    Nas ondas do teu cabello.
         Queria amando morrer
         Nas ondas do teu cabello.

    --Amei um dia uma estrella
    Que vi l no ceu brilhar:
    --Serei tua, me disse ella,
    Mas has-de vir-me abraar.
         Serei tua, me disse ella,
         Mas has-de vir-me abraar.

    --Dia de Natal hei-de ir
    Ao menino perguntar
    Qual ser a rapariga
    Com quem eu hei-de casar.
         Qual ser a rapariga
         Com quem eu hei-de casar.

    --E se no me responder,
    Pedirei a S. Joaquim
    Me d a Maria Luiza
    To babadinha por mim.

O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos
circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabea, e, com effeito, se fosse 
luz do dia, vr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma cr purpurina.

Na mesma occasio, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local
da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos
seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e
appareceram juntando ao alarido as suas exclamaes e motejos
inoffensivos dirigidos  Maria Luiza que, na opinio d'elles,
encavacara.

--Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que
se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer ir  serra a ninguem.

Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que j estava
reduzido a metade.

No meio da confuso d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas
gargalhadas das raparigas, entre tantos coraes jovens que, pondo de
parte todas as preoccupaes, s cuidavam de dar curso s catadupas do
ardor que d'elles dimanava, havia um corao joven, um corao de quinze
annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de
cambraia fina.

Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o
enthusiasmo que reinava em volta de si.

Paulo notou essa abstraco e, pondo de parte as attenes ao seu genio
folgazo, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.

--Ento a menina para que est sempre assim triste? Nem ao menos agora
se alegra? Ha j mais de um mez que est nesta casa, e ainda no houve
um dia em que estivesse alegre!

Julia respondeu s palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar
agradecido e ao mesmo tempo to dce, que elle, sentindo na sua alma
umas vibraes extranhas e no corao umas palpitaes que jmais
sentira, baixou os olhos como uma creana envergonhada.  luz da lua,
que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas
lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e
na expresso desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso
angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde
estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir
dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe
que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que
s via deante de si esse rosto...

Despertou do seu curto xtase, e olhou para Julia, que sorria para elle,
muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando
como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus
pequeninos toldados de nevoas.

--Oh! a menina chora?... pde elle articular.

--Voc, Paulo, parece ter muito bom corao; por isso deve entender que
tenho razo para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Voc
ainda tem pae e me?

--No sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente
triste.

--No sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.

--No, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para
elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expresso
de verdadeiro pezar, perguntou:

--Ento  porque lhe morreram quando voc era pequeno?

--No sei!...

--Voc quando para aqui veio que edade tinha?

--Doze annos.

--E at ento onde esteve?

--Estive em casa da mulher que me criou. Essa  que me disse que meus
paes me tinham abandonado quando nasci...

--Abandonaram-n'o?!... Que coraes to duros! E voc no chorou quando
ella lhe disse isso?

--No, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar me
e outra no conheo.

--E voc gostava de conhecer seus paes?

--Gostava!... disse elle num murmurio, to intimamente triste, que Julia
no se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.

A animao em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou
uma expresso resoluta e disse:

--J v a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais
infeliz, e comtudo no choro!

-- verdade, Paulo. Voc tem razo. No torno a chorar! Hei-de agora
esforar-me por ser alegre como voc.

--Ena! c est uma! gritou, vibrante, a voz de Joo que, em p,
empunhava uma espiga vermelha. Um abrao! Vou j dar um abrao a cada
uma!

Fra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma
maaroca s mos do Joo.

Este dispunha-se a abraal-as e ellas, com intenso gaudio intimo,
preparavam-se para receber o seu abrao.

Porque, afinal, no havia alli nenhuma que no sentisse o seu fraco pelo
Joo do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante
e com um corao como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois,
juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que j herdara da me e
outras tantas que o pae lhe havia de deixar.

Ora, um rapaz assim no era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona,
sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razo.

As leis da attraco da riqueza so as mesmas dos corpos celestes. A
materia attrae a materia na razo directa das massas e na inversa do
quadrado das distancias disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a
differena porm, que na gravitao universal no ha excepo alguma do
que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das
riquezas ha as suas excepes, de quando em quando.

Antes as no houvesse, porque se evitariam grande desgraas. O pobre,
embora inspire paixo ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si.
Nas mulheres, pelo menos, que  onde a vaidade humana se concentrou mais
impetuosa, o amr pelo pobre no  mais que um passatempo ephemero, um
capricho que se evola ao embate das primeiras reflexes em que a vaidade
serviu de juiz.

Pde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do corao,
submetter-se a esse capricho. Mas um corao d'esses  to difficil de
encontrar como as perolas no oceano Atlantico.

No admira, pois, que a affeio do Joo pela Maria Luiza no inspirasse
ciumes s suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illuso em
que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus
pensamentos, aguardando a desilluso da sua _doidice_, como lhe
chamavam.

Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abrao do
Joo da Alameda, disse eu.

Elle dirigiu-se  Maria Luiza, emquanto ia dizendo:

--Comeo por ti, rapariga, j que ests aqui mais perto. As outras que
vo esperando.

E depois cantarolou:

    --Chuchem agora no dedo,
    Mas  tudo sem maldade:
    So apenas brincadeiras,
    Tudo proprio d'esta edade.

E voltou para o seu logar.

Os rapazes acclamaram e bateram palmas.

--Bella partida! diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os
hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo no darem
importancia ao caso.

No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a
desfolhada terminou.

      *      *      *      *      *

O sol, no hemispherio opposto, tinha j brilhado no zenit dos nossos
antipodas quando comeou a retirada dos nossos personagens.

Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, danara-se
alegremente na mais dce expanso d'aquellas almas inflammadas do ardor
da mocidade.

A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a
seguir-lhe o exemplo.

Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando
pela estrada fra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade 
maledicencia, ventilavam, atravez o fsco prisma da inveja, o caso da
Maria Luiza.

--E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e
admirao, s suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, to proxima
do Joo como a Maria Luiza, no podera levar em paciencia que elle
preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um
moceto d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!

--Ora! Vocs tambem fiam-se em boas!

--Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?

--O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.

--Sim?!

-- verdade! E vocs no viram, inventou ella de novo, aquella grande
descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraou?

--Srio?!

--Deu! Eu vi! No admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle
se mostre assim para com ella. So rapazes! o que querem ...

--Pois decerto!

--E faz elle muito bem! Quando ellas so assim,  bem feito!

--Que grande descarada!

--Cara sem vergonha!


VI

Natal, eu te sado!

Quer a tempestade ruja l fra com indomavel fria ameaando prostrar as
oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarellea as brancas e
innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e
benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e 
noite um docl azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por
sobre a minha fronte--eu amo-te, h! Natal!

Amo-te, quer rias como uma creana loira perseguindo uma borbolta que
saltita de flr em flr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos
annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no
regao, lagrimas de saudade!

s bello quando ris; mas o teu sorrir  forado porque a tua alma 
triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.

s meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas so sinceras,
so o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas so uma
doura to intima, e to celeste! Por isso eu adoro-te.

Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente l em baixo
por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de
folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias,
e na atmosphera tpida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a
familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em tudo o que,
inspirando tristeza e melancholia, segreda  minha alma attribulada mil
pomas de amr, mil recordaes da minha infancia!

Viver de esperanas  um viver de incertezas e de decepes; cada dia
que desponta  um sorrir velhaco e traioeiro cuja hypocrisia a nossa
alma incauta e offegante no v.

Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo;  um viver, por
assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, j no tem
alento para novas esperanas e decepes; o sol j no tem aquella
expresso prfida que nos ludibriava, e cada dia que passa  uma conta
do rozario das nossas recordaes que a nossa alma alanceada percorre
orando e offerece ao Creador.

E tu vives de recordaes e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver
celeste!

Ha mil novecentos e oito annos que uma creana, tenra e mimosa como os
nenuphares do poetico Jordo, veio lanar sobre a humanidade obcecada os
raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras
palhas onde nasceu essa creana--to pobre como a mais pobre de todas as
creanas, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta--tu nasceste tambem:
tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito
vivificante da sua bocca divina.

E desde esse momento, no obstante o rolar dos seculos, conservaste
sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu
nome, envolvido duma aurola fulgente de luz divina,  proferido com
amr por todos que tm no peito um corao que soffre.

E tu vivers sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma me que
beije com ternura o pimpolho fecundado no seu ventre e existir um
infeliz; que chore uma lagrima!

      *      *      *      *      *

O dia de Natal amanhecera triste e soturno.

Atravez da escurido que desapparecia lentamente, o vulto d'um casaro
se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito
velho j, com uma das mos levantada para o ceu, numa attitude de
misericordia.

Era a egreja com a sua torre.

Que velhinha! Que velhinha!...

Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella est recordando com mgoa as
innumeras intempries que tm zurzido o seu dorso, e, extenuada,
profundamente abatida, parece impetrar do cu a piedade que dos homens
ingratos no tem conseguido obter...

O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.

Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas btegas de agua, e o
ceu, como que canado, apresentava um aspecto soturno.

Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que
sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia
elevar-se muito alta.

Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar,
em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia
repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulaes
sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manh.

 esquina do adro, o Facca, abrindo uma das portas da loja, olhou
sombrio para o ceu pardacento e resmungou:

--Hum!... Temos mais mlho!...

Uma mulher, encafuada num mantelte, conduzia uma pacifica vacca que
puxava a uma carroa. Acampou no adro e, depois de ministrar  vacca uma
rao de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a
carroa, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que
consistia em hortalias.

 entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no
cho um csto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num
pedregulho,  espera de freguezes.

O sachristo abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo,
embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas
penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortalia e dos
figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um Deus vos d muito bom
dia!, entraram, benzendo-se seraphicamente, com o p direito na egreja.

Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos
altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e n, com um
sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio
todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os
braos, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraar a humanidade
inteira num amplexo de amr divino e paternal.

Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas
de pequeno lte.

Os fieis comearam a affluir ao templo.

O velho prior...

--Que bom homem que elle era! Que candura d'alma se reflectia sempre
naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amr e
affabilidade! Com que bondade me pousava a mo na cabea, era eu
pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doura que s as sabe
pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na
contemplao das tres perfeies naturaes--creanas, musica e flores!

Elle appareceu, com a expresso jovial de sempre, envolvendo num olhar
carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que j l estavam, e
ajoelhou na escada do altar-mr, inclinando humilde e religiosamente a
cabea encanecida.

Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capello veio, j a egreja
estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o
povo que enchia a capella-mr.

Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar
onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.

O sachristo abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o
povo comeou a entoar o Bemdito.

Todos ento, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amr,
acompanhada d'uma genuflexo, nos psinhos, que pareciam pinhes, d'essa
pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas
mos, acompanhando cada genuflexo que faziam d'um Natus est nobis.

Finda a adorao, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de
gente que aguardava o leilo das offertas.

Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma
das extremidades do muro que veda o recinto em volta da egreja, e,
pegando numa abbora, exclamou, sorridente:

--Vale bem sete vintens! Para mais, e no para menos!...  massia e
deve ter pouca pevide! Isto para filhoses,  de estalo!

--O dia das filhoses foi hontem.

--Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Est em sete
vintens!...

--Oito! gritou um do lado.

--Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem d mais?...
Oito!...

--Nove!

--Nove vintens! No ha coisa mais barata! Eu no a fazia nem por nove
mil reis!

--Mas comial-a de graa, mesmo assim cra!

--Coma-a voc. No sou seu irmo. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma.
Nove... duas. No...

--Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.

--Cento e oit...--V p'r' diabo! So os mesmos nove vintens. Quem d
mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...

--Abboras?

--...tres!--V p'r missa.--Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.

Vieram depois mais aboboras, cujo leilo decorreu sempre no meio de
inoffensivas zombarias do mesmo theor.

Ceblas, boras, garrafas de vinho fino, ps de porco, tudo appareceu no
leilo.

--Ora at uma gallinha c appareceu! Cinco tostes! Se ninguem a comprar
fico eu com ella.

--Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...

--Tomaria voc que eu o convidasse tambem. Cinco tostes!

--Seis!

--Seis tostes! Est pezadinha. Seis tostes e meio a mim!

--Sete tostes.

--Sete! Mau! J no fico com a gallinha!

--Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.

--No metto o dedo onde voc costuma metter o nariz. Sete tostes! Sete!
Sete tostes, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acol ao tio
Manuel Joaquim.

Chegou a voz s quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha
coberta de setim, fechada.

--Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados.
Parece que foi feita por mos de fada! No vale menos de cinco tostes.
Est fechada e deve ter qualquer coisa ba c dentro!

--Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!

--Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostes e... e... tres--v
l!--pelo que tiver.

--Nove tostes! gritou de longe uma rapariga.

--Ah! Ests com o olho nella? No que ella  bonita, l isso ! Nove
tostes!... Nove tostes!...

--E meio, disse o snr. Silveira.

--Nove tostes e meio! S o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira
a... cheira a no sei ao qu que tem c dentro...

--Dez tostes! repetiu a mesma rapariga.

--Ests morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a no comprares,
hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostes!

--Mais um vintem, disse o snr. Silveira.

--Dez tostes e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para
todos os lados.

--Onze tostes! gritou de novo a rapariga.

--Ests desesperada! Onze tostes!...

--E meio!

--Onze tostes e meio!

--Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.

--Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostes e meio! Eh!
rapariga? Ento tu?

--Um quartinho! disse ella.

--Um quartinho. V l! Um quartinho! Quem mais d? Isto deve ter
amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho,
uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! At  uma pena ir para
as tuas mos, rapariga! Um quartinho...

--Tres!

--...tres!--No preciso c de ponto.--Acol para aquella cachpa.

A linda caixinha passou de mo em mo at  compradora.

Todos admiravam as cres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se
em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.

Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada  fechadura. Todos,
em bicos de ps, aguardavam a surpreza.

A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma
coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.

Era um rato.

      *      *      *      *      *

Retrocedamos  vespera do Natal,  noite da conoada--a noite
tradicional da confraternisao de todos os coraes que, ligados pelo
sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade alde,
offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante
prestes a descer  terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus
coraes transbordando do mais acendrado amr divino.

Penetremos em casa do tio Jos da Alameda.

Antes de passarmos  cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala,
para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um
presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de
camelias brancas, to brancas, to puras, como pura era a alma de quem
com tanto carinho e desvelo as collocou alli.

Fra Julia quem se encarregra da confeco do altar, em que gastou duas
horas.

Colhra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as
camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e
alli, naquelle altar, as collocra uma por uma, pacientemente, com um
angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a
candura da sua alma.

Ao terminar a sua tarefa, corrra, cheia de contentamento, a chamar
todos os da casa para verem a sua obra.

--Muito lindo! Est muito lindo! dizia-lhe o tio Jos, passando-lhe
paternalmente a mo pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por
teres tanta habilidade.

--Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer sero? perguntou,
radiante, Julia.

--Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus at  meia
noite, que  para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a
cosinha, emquanto a ceia se faz.

E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.

O corao sempre  um grande artista! Aquella creana, ha tres mezes
ainda, to triste, to pensativa... Oh! o amr! o amr!...

 que Paulo e Julia amam-se.

Lanadas no bero da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes
que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas,
compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mos,
acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, no j pelo caminho
agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a
suavidade das rosas, em que j no ha agruras, onde tudo so madresilvas
e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas
passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a
Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados
d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma
trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, s quaes flores um anjo,
transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dce nectar e o
leva ao seio de Deus...

Paulo e Julia amam-se com um amr todo ideal; amam-se com aquelle amr
dos coraes predestinados que amam uma s vez na vida.

Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulso que os
anima um para o outro, esses coraes, quando ss, estudam-se
mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanas apaixonadas que
no se atrevem a manifestar-se o seu amr; mas nesse natural
retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem
ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplao mutua das suas
almas, durante esse silencio em que cada um d'elles s ouve o ruido do
pulsar do seu corao, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se,
amam-se cada vez mais...

Penetremos tambem na cosinha.

A formosa Helena prepara, sobre a meza tsca, a massa para as filhoses;
com as mangas do vestido arregaadas deixando vr os seus bem torneados
braos at ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.

Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, esto
sentados o tio Jos, Julia, Joo, e, na extremidade do banco, Paulo.

O tio Jos entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos,
excepto o Joo que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio
ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua
abstraco, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a
mergulhar-se nas suas reflexes.

-- paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narrao d'um conto; isto
est quasi prompto: agora  preparar a cert e fazl-as. Mas, emquanto
as fao, o pae ha-de contar aquella historia to engraada que nos
contou o anno passado.

--Que historia?... Eu j me no lembro do que contei hontem...

--Aquella de um demonio que andava s almas na noite do Natal e que,
tendo ido a casa d'umas pessoas que eram muito ba gente, teve de fugir,
porque se arriscava a ficar na cert das filhoses mais rilhado que um
torresmo. Lembra-se?

--Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar  minha
av, era eu pequeno. Ha que tempo l vae isso!... Mas como era o
principio? Lembras-te?

--Tambem j no sei! Tu sbel-o,  Joo?

O Joo pareceu despertar d'um sonho.

--O qu?!...

--Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho
e bondoso.

--Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vr o que amanh hei-de
levar ao Menino Jesus--disse elle sorrindo, admirado da sua inspirao.

--Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora _menina_ e duas ou
tres linguias. Tm muito ba venda no leilo.

--Eu  que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia.
No  bonita, Helena?

--Gosto muito d'ella. Mas olha que  preciso metter-lhe qualquer coisa
dentro. Amndoas, por exemplo.

--Ah!  verdade! No me lembrava!

--Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse
do canto Paulo.

--O que ? O que ? perguntou com curiosidade Julia.

--A caixa  muito linda, ou  assim, assim?

--Oh!  toda coberta a setim de duas cres! E com fitas de seda muito
chics! Helena que diga.

--A caixinha at  mal empregada no leilo, disse Helena, porque pde ir
parar s mos de quem a no saiba apreciar e a no estime.

--Bom! disse Paulo com resoluo. Pois nesse caso mais graa tem a
brincadeira.  uma coisa que vou metter dentro da caixa amanh de manh,
e que vae fazer rir s bandeiras despregadas toda a gente que estiver no
leilo. Porque, indo fechada, ho-de ter a curiosidade de vr o que vae
dentro. Ella tem chave?

--Tem; vae presa a uma fita. Mas o que , Paulo?

-- um rato!

--Ah! Ah! Ah! Tiveste ba lembrana, e...

Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto
aldrabada chamou de fra:

-- tio Alameda! Voc no d um caldo e dormida ao Belbuth?

--Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se
pressurosa a abrir-lhe a porta.

Elle entrou, tartamudeando umas boas noites e todos o acolheram
jubilosamente.

Deixemos o Belbuth conoando com esta ba gente e alegrando-a com
narraes de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na
casinha modesta da Maria Luiza, que est triste e pensativa...

Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!

Sim. Essa mesma rapariga, desembaraada e alegre, que, no arraial do
Santo Estevam, supplantara o Joo da Alameda, o cantador invencivel; a
mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abrao, goso
momentaneo que foi a origem de mil dissabores.

Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a
Maria Luiza costura debruada: e a me, j velha, talvez de mais de
sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre
os dedos com facilidade.

As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, do um
tom de tristeza quella manso de paz e socego.

No poste da chamin, est dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos
estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.

--Vae deitar petrleo naquella candeia, Maria, disse a me.

Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou  candeia o
almejado liquido que fez soluar a luz, tornou a olhar com olhos de
anciedade para a porta da cosinha, e voltou  sua costura, dando um
suspiro.

Porque olha ella to insistentemente, perguntar l para si o leitor,
para a entrada do seu tugurio, e porque toma s vezes no peito tanto ar,
que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em
suave murmurinho, as espigas maduras d'uma cera?

E porque  que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites
serenas, para a tua varanda ou para o aido, ssinho, a contemplar as
estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mgoas
que suffocam o teu peito?

Impressiona-te a concentrao do espirito d'essa rapariga que, outrora,
sempre de expresso radiante, espalhava em volta de si a alegria, como
uma flr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?

Segredos do corao.

Sim: o corao, pequeno como , pratica obras estupendas. Fazer de Maria
Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje,  uma obra que eu colloco
na ordem dos impossiveis.

Pois o impossivel realisa-se?

Realisa.  um exclusivo do corao.

O pae severo impe as mais terminantes ordens de recluso  filha
enamorada. Fecha-a na alcva, e volta com a chave, que colloca,
juntamente com a do porto, debaixo da sua cabeceira.

Dorme descanado, porque a janella  alta e, a dar-se a evaso, o
gradeamento, difficil de transpr, torna impossivel a fuga.

O sol, de manhsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e
penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que
accorda e leva a mo ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu
thesouro.

--C esto! monologa somnolento e carrancudo.

--E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais
chocarreiro do sol.

Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear,
descanado, o somno da manh.

Quando accorda, j o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado
de avareza e vae abrir a porta  sua andorinha...

Oh! decepo cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da
escurido, por esses ares fra!

 que o corao va quando quer. No tem elle azas?

 um grande artista. Os maiores prodigios que tm assombrado a
humanidade so obra sua.

Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe
a frma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de
penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venra,  possivel a
qualquer artista.

Polir uma alma... s o corao.

A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como
a peccadora de Magdalo differe da penitente que est osculando e
orvalhando de lagrimas os ps do Nazareno.

Mas... quem espera ella?

O Joo do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amr,
se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que
ella tivera o privilegio de ser abraada por elle na presena das
companheiras que tentaram disfarar a inveja que lhes causra, a Maria
Luiza comeou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de
maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja comea por sua vez
quando se tem o reconhecimento da inaptido ou da inferioridade.

Se se podesse obter de um invejoso resposta  pergunta porque invejas?
elle diria inevitavelmente invejo porque valho menos.

Mas o invejoso no fica por aqui.

Dado o primeiro passo na senda das depravaes, prosegue.

Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella
purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e
consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um corao embotado
pelas aces vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das
depravaes.

_Abyssus abyssum invocat._

Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas
gttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que at ento poderia
dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sde, affectou-se das
propriedades mortiferas da peonha que, de mollecula em mollecula, foi
affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.

Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peonha da
maledicencia as linguas restantes da freguezia; e a honestidade da Maria
Luiza, como a flr branca da aucena aoutada pelo vento cortante da
tempestade que no consegue prostral-a no lodaal que ameaa conspurcar
as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante
d'essa maledicencia.

Joo comprehendeu a situao de Maria, e no hesitou em collocar ao
abrigo do seu peito essa flr que, por sua causa, tinha sido exposta ao
rigr das intempries.

--Maria--disse-lhe a me depois de um muito prolongado silencio; so
horas de deitar. O Joo no vem c hoje decerto, o pae talvez o no
deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida
em volta de si.

--Mas v a me deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me alm
d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez no falte...

Como deve ser ditoso ter esperana num corao que nos ama!

Deve ser to ditoso esperarmos num corao que nos estremece, como
penosa deve ser a deseperana num corao que idolatramos.

Joo amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque no ha ninguem que
melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a
mulher sabe, por instincto, que um homem no tem a habilidade com que
ella finge um sentimento que est longe de possuir.

O Joo no havia, pois, de faltar. No tinha elle sido sempre pontual em
vir ministrar ao seu corao o alento de que tanto necessitava para no
desesperar de viver?

Que significavam tres mezes de constantes provas de amr, de tantas
promessas e juramentos que no auge da sua paixo, elle lhe fizera,
traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...

Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a 
sua profunda meditao e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em
volta, viu-se s. Engolfada nos seus dces pensamentos, nem notara a
retirada de sua me.

O vento continuava sussurrando l fra, semelhante ao gemer do mar, e a
porta j gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.

No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e montonas badaladas
que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu corao impaciente.

--Onze horas!... J to tarde!... E elle sem vir!...

Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres
leves pancadas na porta.

Com certeza que no era o bater de Joo que ella to bem conhecia,
porque o corao comeou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se
levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:

--Quem bate a esta hora?!

Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez  cabea
d'um homem, a seguir um gemido, e aps isso a fuga de duas pessoas que
se perseguem.

E nada mais ouviu, que as pulsaes agitadas do seu corao sobresaltado
e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros
sobranceiros ao Vouga.


VII

Tres dias depois, o tio Jos da Alameda recebia a visita da snra.
Joaquina das Dres, uma creatura, que,  semelhana de mais meia duzia,
frequentava diariamente a egreja na _perfeita_ observancia dos preceitos
do Divino Mestre.

Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja,
tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do
proximo, assoalhando trpemente a vida intima de cada um. No
distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau
de torpeza e abjeco que encerra o procedimento de vasculhar os actos
menos meritorios que outrem pratique, no alcanam ao mesmo tempo a
quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de
auxiliarem a conspurcao da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda
que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o p bemdito da
caridade.

A snra. Joaquina das Dres era uma d'essas creaturas, que no pudera
soffrer que um rapaz to bom, to sympathico, fosse arrastado to cedo,
e sem necessidade, ao bando dos renegados.

--Nada! dizia ella comsigo, tomando a resoluo de se dirigir a casa do
tio Alameda; isto no pde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o
filho do caminho do peccado em que anda!

E fra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um
acto dum _valr altamente humanitario e divino_, como era o de conduzir
uma ovelha ao redil, no lhe pezando, porm, o remorso de que, para o
conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lanada ao
desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa
do tio Alameda.

--Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu
sorriso de bondade  beata.

--Quero fallar-lhe em particular, snr. Jos.  um negocio de muita
importancia que lhe quero communicar.

--Sim?! Queira ento vir aqui para a sala, para que ninguem nos oia.

Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme leno
tabaqueiro, tomou uma expresso de affectada piedade, e, sentando-se, a
um signal do velho, cruzou as mos sobre os joelhos, dizendo:

--Snr. Jos! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem,
prgou a sua religio e indicou o caminho que ns deviamos seguir para
nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram
escriptas e foram passando de bcca em bcca, a sua religio chegou at
ns e continuar seguindo emquanto no mundo o espirito do mal no deixar
de dar gerao. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem
Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua
religio. Outros no acreditam em nada d'isso, e esses so os rprobos
condemnados s penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom
christo, , por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao
caminho do ceu esses perdidos na escurido do peccado.

E quando ns temos obrigao de chamar ao caminho do dever esses que
nasceram j debaixo da proteco do demonio (a snra. Joaquina fez o
signal da cruz,) muito maior obrigao temos de conduzir ao caminho da
bemaventurana os que, tendo sido bons christos, se deixaram seduzir
pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais
inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).

O tio Alameda ouvia-a muito attento, no comprehendendo onde a beata
queria chegar. No a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada,
continuou, mais moderada:

--O snr. Jos desculpe-me de eu no comear logo a expr-lhe o caso...

--Eu, na verdade, no sei onde quer chegar, senhora...

--Eu me explico. Espero que tomar na devida considerao as minhas
palavras, pois que, tratando-se de seu filho...

--De meu filho?!... Que fez elle?

--O seu filho, snr. Jos, vae numa vida muito m! Numa vida que lhe far
perder a sua alma se vocemec, com a auctoridade de pae, se no
oppusr...

--Mas explique-se, por Deus, sr. Joaquina!

--Olhe, snr. Jos: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza
que, segundo as famas que tem, no  das mais honestas?

--Conheo! Eu conheo a Maria Luiza!

--Pois o seu filho anda mettido com ella j vae para tres mezes; e isso
fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem to temente a
Deus. Reprehenda-o, snr. Jos, reprehenda-o!  uma bella alma que se
perde. Alm d'isso, dizem que anda to cgo por ella, que vae todas as
noites l a casa...

--O meu filho?! O meu Joo?!

-- verdade, sr. Jos. E to desavergonhada  a filha como  a me, que
consente poucas vergonhas l em casa.  preciso que elle mude de vida,
que j anda muito nas bccas do mundo! E anda tambem em muito maus
lenes, porque, na vespera do Natal do Redemptor--aqui baixou a voz,
fallando com calr e vehemencia, e meneando os braos nuns gestos
disparatados--espancou um rapaz que ia a passar  porta dessa tal Maria
Luiza!

--Na verdade, sr. Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faa isso!

--Pois  verdade, sr. Jos. O pobresinho de Christo ia a passar muito
socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabea, que o
ia matando. E matava-o, se no foge. Ora vocemec no ha-de querer que
seu filho ande assim nas bccas do mundo por causa de uma mulher
perdida.

O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narrao da
beata.

Esta continuou, dando s suas palavras um tom mais mellifluo e repassado
da mais revoltante hypocrisia:

--Reprehenda-o, sr. Jos, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o
saiba, que  capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lana alguma
excommunho! E o peor mal  d'elle, que condemna a sua alma s penas
eternas.

O tio Jos da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces;
e, meneando tristemente e com desalento a cabea encanecida, e pondo as
mos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com
amargura:

--Meu Deus! No permittaes que estes poucos cabellos brancos que me
restam sejam manchados nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de
meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!

      *      *      *      *      *

--Que viria c fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vr
retirar-se a sr. Joaquina, muito satisfeita pelo _dever de consciencia_
que acabava de cumprir.

--No sei. Esteve na sala a fallar com o patro, e este appareceu com as
lagrimas nos olhos.

--O diabo da velha! No veio fazer coisa ba, pela certa.

O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio
Alameda.

Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma
profunda angustia que lhe opprimia a alma.

--Pae? chamou Helena. O jantar est prompto.

--E o Joo onde est?

--Est no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.

Durante o jantar, o tio Alameda esforou-se por conservar uma expresso
de contentamento; pela sua parte, Joo parecia nunca ter estado to
alegre. Depois da refeio, o pae chamou-o a occultas da familia, e
disse-lhe:

--Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E  de tamanha importancia o
que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de
vida que me restam.

Fallava com uma to pronunciada amargura, que Joo, prevendo o fim que
elle queria attingir, e commovido mais pelas ms impresses que seu pae
teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque
no lhe escapra a vinda da beata) do que pelas palavras do pae,
respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vo vibrar:

--Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um
cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo
obediente...

--Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas  na
tua ba f.

--O erro que pratico?! E que erro  esse, meu pae?

--Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu,
que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos
filhos, quero prevenir-te de que andas por mu caminho. Muda de vida,
filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha
velhice!

--Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no
cho. Pois isso so contos do mundo, que...

--Mas o mundo  o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo  um
grande peccado!

Joo levantou resignado os olhos para o pae, e disse:

--No me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia
tranquilla e a convico de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessa,
por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia
porque ninguem lhe dava um pedao de po a ganhar, o meu pae, que tinha
sido o causador de toda aquella desgraa, o que fazia?

--Soccorria-a...

--E no lhe importava o mundo, com a sua m lingua?

--Mas que relao tem isso com o caso de que se trata?

-- exatamente a mesma coisa. Oia-me, meu pae, porque vou fallar-lhe
com o corao nas mos. Pela alma de minha me, d'essa santa a quem eu
tanto queria e cuja memoria para mim  sagrada e a quem meu pae
idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expr-lhe toda a
verdade.

O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho
continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das
suas palavras:

--Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa
ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram,
e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva  Maria
Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas s tinham o nome, riram-se
do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troaram-na
muito, e eu ento, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei
de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr
a roda, dando um abrao a cada uma, como  costume. Abracei, porm, a
Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer,
achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas
linguas damnadas comearem a levantar falsos testemunhos  pobre
rapariga, cuja reputao foi maltratada; porque, a sua honestidade,
tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar
por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que
conheo ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto,
no me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram
nada que dizer d'ella seno depois d'essa occasio!

Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a
quando a via, e a tristeza da rapariga, antes to alegre, impressou-me
muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir c dentro uma
certa necessidade de a vr todos os dias para a animar, e, quando
fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a
recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua me que j no
podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me
disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar
outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu,
meu pae, senti dentro do meu peito no sei o qu que me fez humedecer os
olhos, e disse-lhe que no se apoquentasse, que eu olharia por ellas.

Agora, meu pae,  occasio de eu lhe fazer uma declarao, que ha muito
desejava fazer-lhe, mas...--e ao mesmo tempo pedir-lhe perdo do meu
procedimento:--eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres
alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, no
morrerem  fome... Perde-me, meu pae, e consinta que continue a
soccorrer aquellas infelizes com o po de cada dia!

O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito,
disse:

--Perdo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, no
devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido
ha mais tempo para commigo, que me no opporia a isso. Mas tambem 
preciso que uma pessa no se deixe levar s pela bondade do seu
corao, que muitas vezes nos no deixa vr certas coisas que... Emfim,
 preciso sempre raciocinar e vr...

--Meu pae! A Maria Luiza  honesta!--interrompeu o filho com vehemencia.
Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigao de a
defender da desgraa que a ameaa. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a
minha estima por ella converteu-se em amr, e este em paixo. A minha
resoluo  salvl-a por completo da deshonra com que quizeram
maltratal-a!

--Que dizes?! Pois tu queres...

--Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza est innocente, ia
jurl-o pelas cinzas de minha me.  uma victima das linguas invejosas.

--J te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom corao encara
debaixo d'um aspecto e a razo debaixo d'outro. No me opponho a nenhum
casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero  a minha
honra acima de tudo...

--A sua honra no soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se.
Cumpro um dever de consciencia e do corao.

O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente,
disse:

--Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava
s onze horas  porta d'essa rapariga. Foi verdade?

--Foi verdade. Como vissem que eu no desistia do meu proposito,
quizeram lanar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da
sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um
individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater  porta de
Maria Luiza. Eu todas as noites l vou, e ella preveniu-me de que,
depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham l ido bater de
mansinho  porta. Espreitei no dia seguinte, mas no vi ninguem. No fiz
mais caso, e passados cinco dias voltaram l. Eu ento, nessa tal
noite--foi na vespera de Natal--fui pr-me de novo  espreita. Passado
muito tempo, um embuado approximou-se, muito cautelloso, e bateu
devagar tres pancadas. Ia j a retirar-se, talvez por me no ter visto
sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar
uma bastonada, que  para l no tornar.

--Fizeste mal, filho. No te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode
ser-te fatal, porque por vingana, esse homem pode fazer-te peor. Se te
certificaste da m inteno d'esse homem e confiavas na seriedade da
Maria Luiza, devias deixar correr. No ha nada melhor que entregarmos
certas coisas ao desprezo. As ms linguas chegam a canar-se, e l vem
um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a
verdade  como o sol que dissipa as trevas mais espessas.
Precipitaste-te, e agora s censurado e tido como desordeiro, e isso 
muito penoso para um corao de pae. D tempo ao tempo,  um dictado
muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonana.

E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz ento o
que a tua razo e o corao te aconselharem. No sou como muitos paes
que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com
quem tenha outro tanto. No. Eu quero que meus filhos vivam contentes e
felizes; e a felicidade no se alcana com a riqueza.

--Obrigado, meu pae! disse Joo com os olhos marejados de lagrimas,
radiante de alegria e ao mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons
conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como
attendeu s minhas supplicas, ainda que outra coisa no esperava da sua
bondade!

E, apoderando-se das mos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguido.

O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que
lhe bailavam nos olhos.


VIII

Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam
no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual,
emquanto outros, j velhos, e algumas mulheres, de todas as idades,
entravam religiosamente na egreja.

Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do
evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado
por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada
para a missa.

O tempo deslisava, havia j uma semana, sereno e cheio de doura. 
quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre:
parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era
desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam
tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar  natureza que
no era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.

Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taas de
crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria
ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico,
lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.

O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda
chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhao da egreja
espreitando o sol, levantou vo, s primeiras badaladas do sino, e foi
adejando para os lados do campo.

Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por
tres alazes, atravessava o adro, absorvendo a atteno de todos.

Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos,
typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir--fato claro de
casimira, e calas d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar
sem difficuldade com as botas caladas; parecia alem d'isso, a avaliar
pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia
de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi
toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.

Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita
gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a
sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, v as pessoas
e as coisas que julga n'uma esphera inferior  sua.

Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios  _pose_ do pedao
d'asno--de que logo o apodaram--no qual os mais velhos reconheceram o
filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a _bisnaga_.

--Ento vocs no se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos
quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade--d'aquelle
garotlho que a Quiteria _bisnaga_ tinha?

--Ah! sim! D uns ares d'elle, d!

--Pois  este figuro que ahi vae. Andava por ahi  ma do cho, todo
esfarrapado e ranhoso. A me pl-o a servir alli em casa do fallecido
pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocs sabem. Esteve l
uns dois annos, se tanto, at que um dia pede dinheiro emprestado ao
patro para ir para o Brazil, na condio de lh'o mandar quando o
ganhasse. O patro disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o
ganhares, manda-m'o; e se o no ganhares, fica por inteno da minha
alma.

--E ganhou-o bem, logo se v!

--Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e
mandou-lhe tambem dizer que s voltaria  terra quando estivesse tanto
ou mais rico do que elle; que, do contrario, no punha c mais os ps!

--Ora vejam o que  a sorte!

-- assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada  me.

--Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e j no apparece na feira
dos cinco a comprar e vender creao!

--J no tem necessidade d'isso. At parece que anda mais nova.

-- verdade! Olha a _bisnaga_! Se ella no tivesse tido a habilidade de
arranjar aquelle filho, no tinha agora uma velhice to mimosa.

--Meu caro...  a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco
mais ou menos, pobre como Job, sem saber lr nem escrever...

--Ora vejam!

--Quero dizer... elle aprendeu l a lr, mas isso foi j depois de estar
bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter
alguma instruco. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois
dizem que tem uma ba fortuna.

--Meu amigo:

    Se fres ao mar pescar,
    Que a fortuna te no deixe.

--Isso, isso! Ah! Ah! Ah!

    Lana as redes, vem-te embora,
    Quanto mais burro, mais peixe.

E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:

--Vamos para a missa, que deve estar a comear.

      *      *      *      *      *

Nesse mesmo dia,  tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a
digesto do jantar, preguiosamente espernegado num escabello,
saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente
em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente
semi-cerrados.

Estava s, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a
cosinha no era, segundo o seu modo de vr de homem rico, logar
apropriado para isso.

A me, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos
servios domesticos d'esse dia--dia de gala em casa da tia
Quiteria--ultimava as arrumaes da sua cosinha onde n'esse dia um
frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados,
deram s paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais
agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da
visinhana.

--Viva, sr. Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e
cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoa, fazendo uma mesura
com o chapu na mo. Ento est contente, hein? Tem c o seu filho...

-- verdade, Francisco. Como no hei-de estar contente, se ha tantos
annos o no via?

--Decerto, decerto! Pois eu queria v-lo, porque a gente gosta sempre de
vr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle  capaz de fazer que me
no conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que
eu, sempre...

--No digas isso, homem! O meu Joaquim no  d'esses. Olha: entra para
alli, que l o encontras.

O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr. Quiteria (
necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era
um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pio e na
procura de ninhos. Vivia s com sua me, a tia Maria das Neves, que
corrra logo a dar os parabens  sua visinha e as boas vindas ao filho,
a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa cr, que
no parecia at vir de terras brazileiras.

Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lanando um olhar meio
perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:

-- senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!

--Ah! s tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o
brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.

--Ora ento, com sua licena. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha
chegado, mal parecia que no viesse visital-o, porque, sempre foi um
rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando
jogavamos o pio?...

--Ah! sim! sim! interrompeu o _bisnaga_ com expresso de desdem.

--Depois, pensei l commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda,
embora eu seja pobre e elle esteja rico...

--Arranjei uns patacos,  verdade. No  muito, mas... contentar.

--Teve sorte! Teve sorte!  porque Deus lhe achou merecimentos para
isso. Ah! quem o viu e quem o v! Quando ns iamos  cata de ninhos,
acol por...

--Ah! sim! sim! Olha l uma coisa: tu no fumas?

--Fumo...

E, puxando por um _kentuk_, ajuntou:

-- que eu no queria... faltar ao respeito...

--Ah! sim! Deixa l isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do
bolso do casaco.

O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois ddos no
charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso
mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na
bcca.

--Espera l, homem!  preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que
saisse o fumo?

E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que
tirou da boquilha de aros de oiro.

O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o
metter na bcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se
chamam de _espera gallego_ por causa da grande demora do enxofre entrar
em combusto, e, raspando-o nas calas de saragoa, com elle accendeu o
charuto.

Entretanto, a _bisnaga_ recebe a visita, na cosinha, de varias visinhas
que a vm felicitar pelo alegro que a vinda do seu Joaquim lhe veio
dar.

Este, abrindo a bcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo
companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de
rapaz:

--Olha l uma coisa: a respeito de _pequenas_, como vae isso por ahi?

E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.

--Ha por ahi uns peixes bem bons!

--Sim?

--Conheceu a tia Joanna Maneta?

--A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria...
Bem sei, bem sei. Ento?

--Ento, tem l uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!

--E ser facil de...

--Ai! Ai! Ai! Isso  s chegar-lhe!--e esfregava, um de encontro ao
outro, os ddos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi
um par d'ellas que no vo assim com duas razes! Querem s que os
rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria no precisar de
muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se no 
uma  outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz
da orelha, tem l o tio Alameda!

--Alguma filha geitosa, hein?

--Oh! de estalo! Isso  o que ha de melhor por estas redondezas. Mas
est nova!...

--Que edade tem?

--Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Alm d'isso, era uma grande
desfeita ao velho, que  muito respeitado, e quer-lhe como  luz dos
olhos.

--Isso de desfeita  o menos. O diabo  ella ser menor.

--Pois  isso... Ah! a proposito do tio Alamda! No sei se vossa
senhoria sabe que elle, alm d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus
vinte e quatro a vinte e cinco annos?

--No sabia, mas fico sabendo.

--E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serdia?

--Hum! No me reccordo, no.

--Bem,  a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serdia, uma rapariga
toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um
gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem;  at
chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, no
ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era
derrota certa. Ora essa tal filha da Serdia, e que se chama Maria
Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde
appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! At algumas vezes
ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas
mais tarde  que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que
se tem feito os esforos para o retirar, porque dizem que casa com ella,
e no ha meio; e  porque, segundo consta, a rapariga  mal empregada
n'elle, porque se portava mal, e, alm de elle ser um bello rapaz,
estimado de todos, d um desgosto ao pobre velho do pae, que no faz
ideia. Ora por estas razes,  uma obra de caridade desviar o rapaz
d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque
tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!

--Ah! Ah! Ah! Queres ento dizer que, com duas arrastaduras de aza e
outras tantas promessas...

--Ora nem mais! Alm d'isso, no  mau petisco! E como anda toda inchada
por o rapaz andar assim pela beia, sabendo toda a gente o que ella foi,
era bem feito.

--Oh! diabo! Mas  preciso fazer isso com geito. No v o rapaz fazer
alguma...

--Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do
rapaz, comearei a metter-lhe em cabea que a rapariga anda a perder a
cabea com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e,
finalmente, quando vossa senhoria comear a entrar em combate, ella, com
certeza, no resiste, e ento eu direi ao rapaz se fr preciso, que foi
ella at que se entregou a vossa senhoria. Ver depois como elle at me
agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.

--Bem. Arranja l as coisas, e, quando fr occasio, mostra-me a
rapariga. Agora ouve l uma outra coisa: no ha por ahi quem queira
vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto , com agua em
abundancia, e onde se possa fazer uma casa?

--Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que
fica aqui nesta rua,  beira da estrada, mesmo  esquina da viella da
Nra.  um aido grande, tem boa agua, e est num sitio lindo, donde se
v o campo todo...

--Pois isso  que me convinha comprar.

--Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver
resolvido...

--Paga-se-lhe bem e...

--E arranja-se tudo  surrelfa; escusa de a annunciar.

--Pois  isso. Vamos ento l.


IX

Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo
a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, comea a
vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, s
inspiravam tristeza, comeam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e
tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando,
cantando, juntam a sua alegria  alegria da natureza, parecem inebriados
com tanta doura.

Era num dia limpido da primavera, s sete horas da manh--uma manh de
agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de
vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da
atmosphera d'uma extrema limpidez--uma d'estas manhs cheia de vida que,
gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um
desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.

O tio Jos da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com
um sorriso de amargura e satisfao. Contempla as arvores rejuvenescendo
de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas
por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados,
recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para
nunca mais voltar, e, na sua profunda abstraco, estremece  voz d'um
homem que, por detraz de si, o chama.

--Viva, sr. Jos! Est gosando a frescura da manh, hein?

Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr. Quiteria de Jesus,
de arma ao hombro, trajo de caador, chapu molle derrubado e cheio de
orvalho.

-- verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe
parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situao). Ento
anda caando, logo de manh?

--Sa a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli
pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para
me entreter e gosar a manh que est muito linda, e fazer vontade ao
almoo. Entrei por aqui dentro sem pedir licena...

--Ora essa! No precisa! Quando quizer, no s o meu aido est s suas
ordens para passear, mas tambem a minha casa est sempre aberta para o
receber.

--Muito obrigado! Muito obrigado!

--Olhe: vamos at l e descana um pouco. Entretanto faz-se o almoo
e...

--Oh! sr. Jos! Muito obrigado pela franqueza!

--Obrigado pela franqueza! Essa no  m! Nem pelo almoo eu quero que
me fique obrigado...

--Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu  espera em casa, e...

--Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve
trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...

--Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoar duas vezes...

--Olhe que no faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de
almoar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe
fallo...

--Oh! nem nisso se deve fallar. E j que assim quer, terei hoje o prazer
de almoar na sua amavel companhia.

--Vamos l. Se estamos com ceremonias, no saimos d'aqui hoje.

E o velho, travando-lhe do brao, encaminhou-o para casa, que ficava a
cerca de cem metros.

Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da
agricultura d'aquelle anno, que promettia no ser fecundo, de pouca
novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um
anno de fome; applicou o adagio se no chover em maro e abril, vender
el-rei o carro e o carril.

--Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz em maro queimou a velha o
mao; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a
queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho.

O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas
consideraes sobre a agricultura, de que no percebia nada, com
monosyllabos, acnos de cabea e breves repeties do que ia ouvindo.
Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que j podia fallar, e, como
quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vem um dia
deitados em leitos ffos e voluptuosos e gostam de alardear os seus
haveres, elle fallou dos seus negocios, das transaces dos seus
capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na
aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde
andava j a construir uma casa, etc., etc.

Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.

--Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O sr. Velloso almoa hoje
comnosco. Prepara-lhe o almoo.

Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador
sorriso o seu hospede que, levando a mo ao chapeu, a cumprimentou com
uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.

O tio Alameda conduziu-o  sala, onde conversaram emquanto Helena,
coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricass com ovos e
linguia.

s oito e meia chegavam Joo e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as
calas empoeiradas.

--Helenasinha, perguntou Joo entrando alegremente na cosinha; est
prompto o almoo?

--Sim senhor.--E acrescentou a meia voz: temos c hoje um hospede para
almoar.

--Um hospede? E quem ?

--O brazileiro, o sr. Velloso.

--O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoar hoje c?!

--Oh! parece que no ficaste contente! respondeu contristada. Ests
zangado com elle, Joo? perguntou com visivel anciedade.

--No, no estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito
com elle?

--Ora! Isto  geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma
leve vermelhido que lhe tingiu as faces, o que no passou despercebido
ao irmo, affastou-se, dizendo:

--Ah! que j me ia esquecendo o estrugido!

Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo
angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto
entre as mos e os cotovellhos apoiados sobre a meza......................
..........................................................................

Terminado o almoo, o sr. Velloso despedindo-se cortezmente e muito
reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o
tractara, e intimamente jubiloso pela retribuio de olhares ternos com
que galanteara disfaradamente Helena prometteu voltar uma vez por
outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipao o convite para irem
egualmente  sua casa nova, logo que estivesse concluida.

--Isso ainda leva uns mzitos, dizia o tio Jos. Segundo dizem, vae
ficar uma obra ba, e...

--Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!

--Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar.  porque Deus lhe achou
merecimentos para isso.

O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e,
estendendo a mo ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.

--Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me
entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mo rugosa a mo macia do
brazileiro. Um velho como eu, que j no pode ir trabalhar, estima
sempre que lhe faam companhia, mrmente pessoas delicadas como o sr.
Velloso.

--Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro
partiu--dizem que  muito cheio de presumpo e vaidade. No acho!
Parece-me at muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter
muito bom corao. Parece muito bom sujeito.

--Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como
num echo, Helena.

Paulo e Julia, a quem no passaram de todo despercebidos os olhares
incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e
Joo, pegando no casaco, pl-o ao hombro, e pondo-se a caminho,
precedido de Paulo, murmurava comsigo:

--Ser muito boa pessoa, ser! Pode at ser um santo! Mas... no vae 
minha missa! Aquelle olhar no indica coisa boa!... E ento a lrpa da
minha irm a modos de... Isto de mulheres!... Ora faa elle alguma, e
ver quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda est no
Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dir!...

E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num
intelligivel crescendo:

--Vm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem
se lembrarem que j foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se ento
uns pedaos d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para
c com as tuas basfias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem
ento l um palerma d'um visinho, mais chapado que um porto de ferro,
que--Ah! Ah! Ah! at d vontade de rir!--me vem dizer que tome conta na
Maria Luiza, que anda tla pelo _bisnaga_! Que era s elle fazer um
gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a
peito fazer-me alguma desfeita! Que grande bruto me saiste,
Francisquinho das Neves! Que se livre mas  elle! Ah! Ah! Ah! A Maria
Luiza! Que dois brutos me sairam o _bisnaga_ e o Neves! Este, embruteceu
com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle!
Ah! Ah! Ah!

-- patro! Ento o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!

--Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem.
No digas do que ouviste, percebes?

--Sim senhor.

--Tudo aquillo que eu vinha a dizer,  como se ninguem o ouvisse...

--No ha duvida, patro.


X

O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr. Quiteria de
Jesus.

Com uma dedicao quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam
quelles que, graas  plutocracia, tm o dom de os fascinar como um
individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da
tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funces d'um
co fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem.
Com uma differena, porm: o co serve seu amo a troco do alimento que
lhe d, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente,
com a dedicao dos espiritos boaes que se inclinam, sem mesmo saberem
nem procurarem saber o motivo, a uma causa.

Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das
ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.

--Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, aps o
que foi logo procurar o visinho--parece-me que estou apaixonado pela
filha do Alameda.

--Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?

--Estive l em casa esta manh, e at me deram de almoar. O velho  um
bello homem, coitado. Mas o filho  que me parece pouco de brincadeiras!
E  por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no
negocio.

--Pois ento vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da
rapariga, ainda tem coragem de...

--s pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irm a
valer. Sou at capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigao de
pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?

--Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...

--Digo que vou empregar os esforos para que o filho do Alameda deixe a
tal Maria Luiza. Mas agora  preciso tento no jogo!--E, fallando mais
confidencialmente, continuou--Eu vou, primeiro que tudo, vr se engano a
Helena. No sei se me comprehendes...

--Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!

--Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste.
Dize-lhe agora que fizeste aquillo, smente para o rallar, que  para
elle no andar de p atraz commigo.

--Percebo muito bem.

--Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o
que has-de fazer.--E ajuntou com um sorriso malicioso:--E  mais uma
spa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda no  m de todo!...

--Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!...  capaz de
as levar todas a fio!...

--Pois tu no sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais
bonito do que os outros? No! Ha at por ahi caras muito melhores do que
a minha. Mas... bem vs que hoje o mundo no olha a formosuras... Isto
em questes d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais
um pio ds sobre o caso: s dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um
gracejo da tua parte...

--Sei muito bem.

--Que  para eu c dispr as coisas  minha vontade.

--J est mais que percebido.

--Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo l a casa do Alameda, e a
rapariga, que no parece desgostar de me l vr, ir-me-ha assim ganhando
uma certa amizade... um certo amr... at que...

--Vossa senhoria l arranja! E, quando fr preciso farejar...

Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia--ou talvez o
dissesse instinctivamente!--a cathegoria do seu baixo mister.


XI

Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de
chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creana.

Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das
estrellas.

Um socgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco
adeantada da noite--eram nove e meia.

Na aldeia, os homens tm por norma a natureza: levantar com o sol e
recolher com elle. No ha o bulicio nocturno confuso e s vezes
estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunio e
cavaqueira nos cafs, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar  um
cenaculo de alegria, paz e amr, e smente s vezes, quando nas noites
longas de inverno podem dispr de algum tempo de distraco, juntam-se,
at ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde
ouvem lr o jornal que o lojista assigna. As noites do para tudo,
dizem ento.  ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que
se estabelecem os principaes pontos de reunio--os nucleos da ingenua
cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos
que mais impressionaram a curiosidade publica.

Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as
folhas das arvores. A amplido do ceu, recamado de myriades de
estrellas, parecia um immenso campo cheio de flres.

A portaria do alpendre da casa do tio Jos da Alamda abriu-se
cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na
sombra.

Em seguida um outro vulto--o vulto d'um homem encapotado--se deslocou do
escuro do cmoro fronteiro, e approximou-se.

--Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao
approximar-se.

--Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dce de Helena.

--No sabe, no pode calcular a satisfao que me d, accedendo aos
desejos do meu corao, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que
ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o
apoquenta e que s tenho podido exprimir por olhares!

--Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo  gravidade do passo
que dei comparecendo  entrevista que prometti, que o meu corao no 
insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me
parece ter lido nos seus olhos: a no ser que eu me engane, porque no
tenho experiencia do mundo...

--Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que
da sua parte houvesse para commigo egual affecto!

--Ha! Talvez mais...

--Oh! No diga isso!--E, tomando-lhe as mos, continuou com ardor
crescente-- fazer uma injustia ao meu amr por si, que no tem
limites!...

--Ser o que diz... no duvido. Mas deve attender a que, para eu dar
este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do corao com a
razo, em que esta ficou vencida por aquelle...

--Sim: comprehendo isso, e oxal que eu tenha a felicidade de poder
mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as
aspiraes do meu corao!

--Isso, senhor, s depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez
sente o perfume das flres do amr que o calr dos seus olhos teve o
poder de fazer desabrochar, outra coisa no desejo que a minha
felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu
corao suspira, a vida inteira.

-- esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi
muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas
agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si s!

--Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um
sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas
essas...

--Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha
transformao. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!

E, com as mos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco,
transmittindo-lhe o calr que o inflammava, aquelle anjo to bello e to
candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava
nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo
sensaes at ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.

--No acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mos febris
as mos tremulas d'ella.

--Acredito. Eu tambem o amo muito...

--Oh! muito!... muito!... Vs, as mulheres, sabeis to bem fingir um
sentimento que no tendes, que no sei se a hei-de acreditar!

--Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo. Mas peo-lhe que falle
mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!

--No tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha
mulher, em breve o mundo o ver! Sim! Nesse caso, que importa que nos
vissem?

--Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmo, e pensar... Deus nos
livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!

--Sim. Tem razo. Podia formar mus juizos e seria perigoso.--E,
baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe
palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio
dulcissimo.--Helena, meu amr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta
felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez
acreditasse no que dizes. Ahi est para que serve o dinheiro! Para nos
lanar o corao no desespero! Helena! Juras que me amas?

--Juro!...

A sua voz era trmula; e elle, tendo-lhe lanado um brao  roda do
pescoo, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com
meiguice:

--E juras amar-me sempre?

--Sempre!...

--E muito? Tanto como eu a ti?

--Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por
aquelle brao que lhe paralisava as foras d'animo e as physicas.

Elle ento depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava
inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um
salpico de lama que caisse numa das ptalas dum alvissimo lyrio.

E nada mais se ouviu, seno o arrastar surdo e quasi imperceptivel da
portaria que se fechava occultando  exigua claridade da estrada as
sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados--um, com um sentimento
todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo
lubrico...................................................................
..........................................................................
..........................................................................

A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se
abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.

Helena estremeceu, e, apertando fortemente o brao de Joaquim, exclamou:

--O luar no te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha,
Joaquim?!

--Tontinha! At me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Est-nos
annunciando um paraiso de felicidades.

--Deus te oua. Mas parece-me vr no rosto da lua uma expresso de
tamanha melancholia!

--Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa--a nossa
casa!--d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos l
juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro,  tardinha;
e havemos de ir,  noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de
mandar fazer, vr nascer a lua a sorrir-se para ns.

--Oxal que sim! Deus te oua! E juras-me que fars a minha felicidade?

--Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por
esse mundo alm, que hei-de fazer a tua felicidade!

E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:

--Adeus. At manh.

--Adeus Joaquim!

Helena conservou-se  porta at ver desapparecer o vulto do seu
bem-amado numa curva da estrada.

Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o
piar lugubre d'uma ave nocturna.

Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:

--Jesus! No sei o que o corao me adivinha!...


XII

E Maria Luiza?

Maria Luiza vive feliz na companhia de sua me, na recluso da sua
casinha, aonde, todas as noites, o Joo da Alamda vae levar ao seu
corao o balsamo suavissimo da esperana.

Que importa que o vento sopre frigido e impertinente l fra, se temos
dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das
intemperies?

Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram
affrouxando, e Maria Luiza comea a ser envolvida no esquecimento, que 
para ella d'um prazer indefinivel.

Elles tanto ho-de fallar, que ho-de canar! dizia-lhe o Joo, sempre
que ella, contristada, procurava na doura das suas palavras animadoras
refrigerio para as mgoas que a affligiam.

E com effeito, ella, ao sair de manh a buscar  loja a sua proviso
diaria, j no ouve os dichotes com que a principio alguma bcca menos
polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de
lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de
impetuosidade; e agora, j de quando em quando lhe sa ao ouvido um
adeus pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de
arrependimento.

Os vaticinios do tio Alamda iam-se realisando-- tempestade segue-se a
bonana; a verdade  como o sol que dissipa as trevas mais espessas.

Mas a verdade ainda se no patenteava e apenas se iam notando uns certos
retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que,
longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou
obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se,
vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.

Comtudo era j um symptoma de justia. Esta viria, no tempo devido, a
occupar o seu logar, e Maria Luiza comeava a sentir as delicias de um
proximo regresso  vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das
suas amigas em cujo olhar j lia o arrependimento.

E Maria, neste desanuviar do horisonte, antev j um paraizo de
delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de
gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe
toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu
azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vr um sorriso
despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe no smente o
regresso  vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de
fausto...

Ella afugenta da sua imaginao taes devaneios, e refugia-se ento na
meditao das palavras do seu Joo, a sua unica esperana, a sua vida,
porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuar a sl-a...
Sim! Continuar a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias
do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poder ella olvidar, num momento,
seis mezes de dedicaes, seis mezes que so todo um protesto
eloquentissimo d'um corao apaixonado? No! Maria Luiza no pde
ouvir-te,  novo Creso da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos
com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar
ingenuo e inexperiente d'este santo povo!

Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo
chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu Joo!

Elle delina, em palavras animadas da mais firme esperana, o seu
futuro--o futuro de ambos!--risonho como o sol ao nascer, lindo e
aromatico como um campo coberto de flres.

E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem
da bocca d'um profeta.

--Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu
Joo--Meu pae pediu-me hoje explicao d'uns ditos que lhe foram
assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal
empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle--que corao
d'oiro!--acreditou-me; prometteu-me at dar o seu consentimento para eu
casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a
tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda.
Beijei-lhe as mos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas
lagrimas! Que corao aquelle!

-- como o teu, Joo!

-- melhor,  melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os
sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, no s me
perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. J vs que, com um pae
assim, no devemos pensar seno em sermos felizes. Quando essas linguas
malvadas deixarem de fallar, ento... vers! vers!

      *      *      *      *      *

Maria Luiza estava um dia sentada a costurar  janella da sua casinha.
Era  tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e alm os
balidos dos cordeiros retoiando em volta das mes, e o mugir das vaccas
jungidas  canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e
as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares
alegres das creanas que guardavam as ovelhas.

Maria Luiza est mergulhada no turbilho dos seus pensamentos, sem
prestar atteno a toda esta harmonia do campo, nem s melodias d'um
rouxinol que canta em frente da sua janella.

Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo
desprezo da Maria Luiza? No; porque esta tambem d'ahi a momento
estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu  voz de um
homem que a saudava da rua.

--Ol! menina! Boa tarde!

Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo
para ella.

Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma
expresso sorridente:

--Boa tarde, sr. Velloso!

--Oh! conhece-me, e eu no tenho a honra de a conhecer!

--Quem o no conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico
 bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos
labios.

--Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de
formosuras.

--No percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto
embaraada.

--Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte
alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga
bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli,
outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais
bonita que todas as outras!

--E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...

-- impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui.
 impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento
com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...

--Oh! senhor! No tem nada que...

--Mas  que eu, com franqueza o digo, no pude resistir  vontade de
contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei
impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e
perde-me se a offendo com a minha franqueza.

--Oh! No diz nada que me offenda. So umas mentiras to sem valor,
que...

--Creia! isto  do corao. Trabalho tinha eu em chegar ao p de todas
as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: a menina  bonita! No!
Agora  que realmente fiquei devras impressionado, e no pude resistir
 vontade de contemplal-a por momentos, j que no poderei contemplal-a
todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E ento havia de estar
pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo
ento o motivo da minha admirao.

-- uma questo de pachrra...

--No , creia.  uma sympathia que a menina me inspirou. No  uma
simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua
belleza ter despertado a minha atteno.  que realmente no seu todo ha
no sei qu que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais
captivado fico! Vou-me ento embora, para no ter de ficar aqui toda a
vida.

--Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella
sempre com o mesmo sorriso.

--Ahi est como so as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se
de mil embustes que so acreditados como as palavras do Evangelho; e eu
agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!--E
accrescentou, com expresso ficticia de pezar--Mas no admira, porque,
segundo o mesmo Evangelho, Christo s fazia bem e dizia verdades, e
comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande
criminoso...

--Peo-lhe perdo, se o offendi; eu no queria chamar-lhe impostr.
Queria smente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de
verdade--atreveu-se ella a dizer--no deixavam comtudo de ter os seus
enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...

--Ora ainda bem que faz um pouco de justia aos meus sentimentos. Alguma
justia... no toda a que elles tm direito. Mas...

-- melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque
sinto que minha me chegou agora a casa e...

--Eu retiro-me. E peo-lhe que no fique fazendo fraco conceito das
minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa  crime, peo-lhe
humildemente perdo... e adeus!...

--Adeus, sr. Velloso.

--Bem! Isto no correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botes.

E, sorrindo, continuou:

--Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o
demonio da rapariga no  peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em
embeiar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,..
Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres so impostras como o diabo.
Nem que eu as no conhecesse! Oh! conheo-as to bem como a mim mesmo!
Ou talvez melhor, porque muitas vezes no sei o que quero, e o que ellas
querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, snda-se a
coisa; por demais  fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de
fidalga. Prometter-lhe-hei at casar com ella, pois que duvida ha
n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre
de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o
rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa.  para bem d'elle... e
meu!--accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! No ha
mulher que te resista!...

E caminhava cheio de contentamento, em direco ao campo, rindo-se
ssinho, como um idiota.

O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dce penumbra comeava j a
inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando,
eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao
hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo
os rebanhos.

--Ora vamos c dar uma passeata pela fresca at ao campo, monologou o
sr. Velloso, espraiando a vista pela planicie, empertigando-se e
affrouxando o andar, de mos nos bolsos das calas.

Uma creana de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios
de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo
brazileiro, interrompeu a cantilna que vinha assobiando, e disse:

--Adeus!

O sr. Velloso respondeu  salvao cheia de candura da creana com um
quasi imperceptivel e mal humorado adeus, resmungando em seguida:

--Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem
as pessoas com estes impertinentes adeus que nada significam e que no
se esquecem! E os filhos j vo pela mesma toada!... Que raio de
costume!

O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa;
uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.

O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espsso
salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que
accendeu, e retrocedeu.

Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e
as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.

--Trindades na aldeia so horas de ceia, dizem elles por c. E no ha
remedio seno dizer e fazer como elles, quando no chamam-me figuro.

Quando passou  porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou
alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes
distinctas que se alternaram.

Approximou-se e escutou. Me e filha rezavam o tero.


XIII

Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...

Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes
bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bcca
d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca
symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos
chilreantes, alegres como creanas. Estes outeiros, elevando-se
garbosamente em ondulaes suaves, eram tablados do mais colorido e
pittoresco scenario--o magnificente scenario pintado pela mo da
natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e
frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.

Tudo era poesia, tudo era amr.

O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viosos que
se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie
polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de
despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre
elle se debruava com carinho.

E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava
o teu jardim, roasse as suas ptalas mimosas na terra negra e immunda!

Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...

      *      *      *      *      *

O corao humano e, em especial, o corao da mulher,  uma fonte de
enygmas.

Maria Luiza, a flr predilecta do jardim do amr do Joo da Alamda, o
anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por
pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcanara
d'um corao bondoso quanto amr se pode dedicar a um ideal e quanta
dedicao se pode prestar a um ente que v deante de si o chos
horripilante da desgraa e da miseria--Maria Luiza cedeu s insidias do
brazileiro, vergou  logica revoltante das suas palavras maleficas como
a tenra aucena da encosta vergada ao sopro do Aquilo.

Desde ento, parece que at a sua casa ficou com um aspecto tristonho,
que o rouxinol que, de madrugada e  tardinha, ia cantar para defronte
da sua janella, j no sabia canes alegres, e que os cordeirinhos,
balando em volta das mes que pastam no campo, j no retoiam como
costumavam.

O triumpho, porm, que o sr. Velloso alcanou, longe de o contentar, foi
contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao
chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a
lembrana que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.

Nessa noite, s horas do costume, compareceu  entrevista com Helena, a
quem continuava a acalentar com a esperana de dias felizes passados na
sua casa nova.

Nessa noite, porm, a demora foi curta.

Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia,
retirou-se e recolheu a casa onde, fincando os cotovellos sobre a meza,
metteu a cabea entre as mos, e scismou mais de uma hora.

Parece que no tirou resultado da sua meditao--que era antes uma
catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro--porque,
levantando-se mal humorado, pz-se a passear agitado na sua sala de
pavimento terreo.

Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam
para cima de uma boa legua, at que resolveu deitar-se.

Se dormiu ou no,  que ainda no sei. Elle o dir manh ao seu amigo
Neves.

--Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manh cdo, no alpendre
do visinho que, ao vl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado,
com que escavacava uma acha, levantado no ar--diabos te levem mais a
lembrana que tu tiveste!

O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no cho, e, appoiando
sobre o cabo as mos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar,
como quem no comprehendia nada do que ouvia; at que, passados
momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado
d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mos o
bigode:

--Que lembrana?!

O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.

--Essa lembrana maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga
que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha
que dizia mal d'ella!

E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.

O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e,
depois de seguir machinalmente com a vista, durante um bom meio minuto,
os movimentos do brazileiro, gaguejou:

--Mas... Vossa senhoria falla srio?!...

--Antes no fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e
collocando, sem interromper a sua marcha, as mos atraz das costas.

Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos
do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.

O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:

--De maneira que a rapariga... no...

--A rapariga estava honrada como as mais honradas!  o que !

Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma
especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:

--Ora vejam vocs como s vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem
havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se
portava assim, se portava assado!... J me no torno a fiar em nada que
se diga!

--Pois se tu assim tivesses feito!...

O Neves calou-se quella observao, feita  maneira de censura.

Effectivamente, pensava elle comsigo, eu  que fiz mal em o metter em
contradanas! Mas... sbo! Eu no sabia! Nem tenho culpa do que se
dizia! Sou culpado e no sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo
de mal tem isso?

Foi sob a influencia d'esta ultima reflexo, que quebrou de novo o
silencio, dizendo resoluto:

--Afinal... vossa senhoria est para ahi com uns taes incommodos por
causa d'uma coisa que no presta para nada! Deshonrou a rapariga,
acabou-se! Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou
deshonrado?

O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:

--Tu  que no sabes as coisas. No  a deshonra que me incommoda! J
no  a primeira, nem a segunda, nem... eu sei l! O diabo  que a
nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a
encontrasse pura, seno a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo,  a
minha palavra. Depois, ainda que no fosse isto, bastava s o remorso de
lanar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por
causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as
vezes que se pem a fallar da vida alheia!

--Oh! senhor! Mas ento...

--Ento, o qu?

--Quero eu dizer que...--replicou o Neves coando na cabea,
contrariado--que, se no quer faltar  sua palavra...

--Sim: e a outra?

E voltou a passear.

--A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?

--No lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de
dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter
no seu passeio. E accrescentou--Alm d'isso, a essa amo-a devras!

O Neves, perplexo, olhava para o cho, sempre com as mos appoiadas no
cabo do machado.

--Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa
senhoria fazer?

--Eu sei l! Tenho dado voltas  mioleira, que nem sei como no
endoideci. Esta noite, quasi que nem preguei lho. Se pudesse casar com
ellas ambas, casava.

--Mas o melhor  chamal-as a um accrdo, e no casar com nenhuma...

--Qual accrdo, nem meio accrdo! s pateta, homem! Bem se v que no
tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era
o cabo dos trabalhos.

--Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accrdo...
Contar-lhe tudo, a ba inteno que vossa senhoria tinha de salvar o
rapaz da deshonra... finalmente, um accrdo  que servia. Vossa senhoria
est contra isso, mas  c a minha ideia, e talvez dsse resultado.
Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...

O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:

--Parece que dizes bem. Contarei primeiramente  Helena o succedido. 
uma facada que lhe dou no corao, mas que se ha-de fazer? O diabo 
para o contar ao irmo.  capaz de matar a outra.

--Levando-o por bem, no faz nada.  um pobre diabo!

--Bem. No ha remedio seno fazer isso. Esta s pelos demonios!

--No foi das melhores, no, sr. Velloso.

--Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a
saber depois a traio d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou at casa.
Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia,
perdo-te. Seno, tinhas de desemaranhar a meada.

--Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E
ainda estou a pensar num caso: como diabo  que o Joo da Alamda se
conteve, indo l a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... 
senhor Velloso! Vossa senhoria no se enganaria?

O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve
uma objeco; e, retirando-se, observou:

--Pensas que nasci hontem...

O Neves riu-se por sua vez; e, j ssinho, monologou, respondendo 
observao do Velloso:

--Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...

E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.


XIV

No mesmo dia,  tardinha, no campo, o Joo da Alamda gradava uma terra
que, durante o dia, tinha lavrado. Lanara-lhe a semente e procedia, com
a grade,  cobertura dos gros.

 frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sga numa
das mos.

O tempo continuava claro e sereno.

O immenso tapete de flres que se estendia no campo apresentava j, de
onde a onde, uma interrupo: aqui e alli, uma terra, resolvida,
sobresaa no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma
ou outra nuvem pardacenta.

 neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flres: mas,
em substituio, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas
brizas, nos d a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente
encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de
verdura--permittam-me a expresso--apparecem, de onde a onde, como
bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles,
despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos
milharaes; ellas, de lenos garridos amarrados graciosamente em volta da
nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho
pequenino e tenro, desde o despontar do sol at ao crepusculo da tarde.
 hora da sesta, depois da refeio do meio dia sorvida  sombra
deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se para dormitar sobre a relva
mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regao,
sempre em alegria e folgana honesta; e ainda outros, mais irrequietos e
folgazes, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo
atracados s margens do Vouga, e vo passear pelo rio.

O Joo da Alamda terminou a sua tarefa ao pr do sol. Collocaram a
charra e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozram-se a
caminho de casa, Paulo  frente, guiando o carro, e Joo atraz.

Ao passar  porta da Maria Luiza, Joo olhou para a janella onde ella,
todas as tardes, costumava estar, e no a viu.

--Est talvez l para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma
surpreza!

E, com um sorriso do satisfao, metteu por uma cancella contigua 
casa, p ante p, esperando encontral-a e rir-se de a vr surprehendida.

Espreitou para dentro e no viu ninguem. Machinalmente, entrou no
pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta,
e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes
vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.

--Ah! Est ali mais a me. Pois vou metter-lhes um sustosinho.

E dirigiu-se para l, com precauo, para no ser presentido.

O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do
fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao
formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os
vos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira.
Num destes havia uma porta, e Joo ficou um tanto surprehendido ao vel-a
fechada, devendo ser me e filha que l estavam. Mas, de subito,
percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu
corao comeou a pulsar precipitadamente.

Avanou at junto da porta, e escutou.

Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:

--Sr. Velloso! Que Deus me perde o passo que dei! D'hontem para c,
tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu no
devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que
no me deixa socegar o espirito.

Joo da Alamda agarrou-se com uma das mos a um barrote, e com a outra
esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente no
sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a
mesma voz que proseguia:

--Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso no tiver
piedade de mim, se no cumprir o juramento que me fez!

--Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a
outra voz, a do brazileiro.

--Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o Joo, luctando no seu
intimo contra a tentao de arrombar aquella porta. Homem infame, e
infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a
cabea, cambaleando, murmurava:

-- assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?!
Tanta dedicao, tanto amr?!...

E, chorando como uma creana, olhou mais uma vez para o alpendre.
Depois, como tomando uma resoluo, continuou:

--No! No quero manchar as mos no sangue d'um bandido! Que ganho com
isso? E, como um brio, voltou pelo caminho que tinha tomado.

Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela me d'esta, cuja
saudao no ouviu.

Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas
mulheres, de cantaro  cabea, davam-lhe as boas noites, que elle no
retribuia.

Tinha sempre, para cada saudao, um dito gracioso acompanhado d'um
sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante
e apressado.

Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os
hombros, continuavam o seu caminho.

Joo, quando chegou a casa, no tratou de vr, como era seu costume, se
o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido
nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu
sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma
escudella de agua mrna para lavar os ps, e, allegando uma violenta dr
de cabea, despediu-se do pae e recolheu  alcova.

--Queres que te traga a ceia, Joo? perguntou-lhe Helena quando lhe foi
levar a agua.

--No; no quero. No me appetece comer.

--Eu no sei o que tens, Joo! O Paulo diz que no te tinhas queixado no
campo de incommodo nenhum. Diz que s se foi que te dsse pelo caminho:
que ficaste atraz...

--Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te no
seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...

--Que ? perguntou Helena com anciedade.

-- o seguinte: mas digo-to s a ti, para no causar barulho, porque s
tu s quem pode fazer o que te peo.

E, esforando-se por dar serenidade  voz que lhe tremia, proseguiu:

--Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que
nunca mais aqui apparea!

--Ah! pois tu...--perguntou Helena, meia aterrada. No queres que...

--Sim! Que no volte c mais, para evitar alguma desgraa!

-- Joo! Mas... dize l: como o soubeste?!--E, entre a anciedade e a
surpreza, repetiu--Como o soubeste?!

--Como o soube?! Oh! Essa  boa! Ento, pelo que vejo, tu sabial-o, e...

--Ento vistel-o sair?!...

--Diabo! Ests a modos... Mas se eu vi o qu?!

--O sr. Velloso... Como no queres que elle c volte, para evitar alguma
desgraa...

--Pois vi! E tu sabial-o, e no m'o tinhas dito!

--Se eu o sabia?! Mas eu no te percebo nem tu percebes a mim!

--Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair.
D'onde?

--D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias
tudo e que tinhas visto...

--Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que,
contra o brazileiro, a revelao da irm lhe suscitara, disse:

--E  por isso que eu no quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora,
que no paro da cabea.

--Passa bem a noite, Joo. At manh.

--At manh. E no digas nada disto a ninguem.

--Descana.

Joo, ao ficar s, sentiu que tinha febre.

Atravez das suas ideias em desordem, s dois vultos divisava distinctos:
Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladro da sua noiva, o roubador da
felicidade do seu corao, e, para epilogo de tanta malvadez, o
pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima
observao saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o
abalo que sentiu dentro em si.

--Ah! Infame! No! Tu no has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de
tanta malvadez! Miseravel!...

E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara to
desapiedadamente aos ps o seu verdadeiro amr, a sua dedicao extrema,
atirou-se, soluando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma
creana.

      *      *      *      *      *

Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita
cautella com o irmo, que o tinha visto sair d'alli.

--Temo at que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que est com
uma forte dr de cabea; mas, ainda assim...

E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos
que, desde a vspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente
addiar a confidencia.

--Mas quando hei-de voltar, Helena?

--No sei...  melhor deixarmos passar dias... O melhor, at, Joaquim,
era tu chegares ao p de meu irmo e dizer-lhe: descana, Joo, que a
tua irm vae ser minha mulher. Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!

--Por estes dias, no, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em
Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcanarmos a felicidade.

--Pedir a Deus? Pois Deus pde l oppr-se  nossa felicidade, Joaquim?
Deus deseja-o, e por isso no precisa que lhe peam! S se fr para
metteres a mo na tua consciencia, e...

--s louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento
do meu juramento.

--Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres ento que
pea a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?

--Quero.

--Pois bem: pedir-lhe-hei... O corao, porm, annuncia-me coisas to
tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!

--Se Deus o consentir, has-de ser!

--Mas eu no comprehendo bem as tuas palavras!...

--No disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de
teu irmo?

--Sim; mas...

--Mas  que o que te quero dizer, s poderei dizert'o com mais socgo.
manh, venho c e...

--No venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e s te
approximas se eu abrir a portaria. Ento,  porque meu irmo no saiu.

--Bem. Boa noite, Helena.

--Adeus, Joaquim! At... quando Deus quizer!


XV

No dia seguinte, ao toque das almas, Joo da Alamda envergava o seu
capote e, pegando no marmeleiro--seu inseparavel companheiro
nocturno--saiu de casa. Deu a volta  Herdade, no que gastou cerca de um
quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse
affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma
negrura mais densa. Fra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu
posto de observao, donde se descortinava, atravez da negrura daquella
noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da
estrada esbranquiada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.

Joo passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escurido do cmoro
fronteiro.

O brazileiro, no seu posto, no ousava respirar mais fortemente.

Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas
folhas das arvores.

Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi
imperceptiveis, na torre de Eirl.

s dez e meia, Joo saa do seu esconderijo e mettia-se em casa.

Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada
mais se ouviu na estrada deserta.

      *      *      *      *      *

O sr. Velloso, com a preoccupao de espirito que lhe causaram estes
acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por no saber que
resoluo havia de tomar, pois, emquanto no entrevistasse Helena acerca
do succedido, nada poderia resolvr, faltou  entrevista na tarde do dia
seguinte a Maria Luiza.

Esta que, no dia antecedente, occultava a sua me as lagrimas que o
remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades,
attribuindo a causa das suas lagrimas  ausencia de Joo, cuja causa no
comprehendia.

Sua me acalentava-a, insuflando-lhe esperana no amr de Joo que, se
faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, 
hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do
campo, e no respondera  sua salvao.

--Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.

--A me que diz?! Encontrou-o...

--Encontrei-o alli acima.

--Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expresso de terrivel
anciedade.

--Ao toque das Ave-Marias.

E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o
corao, occultou o rosto nas mos, debulhando-se em lagrimas.

A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para
Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de Joo, de
quem se recordava com o corao amargurado e a alma mortificada pelo
remorso.

Sua me, que ignorava por completo a traio que sua filha perpetrara a
Joo, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar
a ausencia de quem no tinha a menor noticia, porque no ousava
interrogar ninguem a seu respeito, para se no expor a algum riso
ironico; e, no achando outro remedio que pudesse alliviar a afflico
em que a via, resolveu, sem o communicar  filha, ir a casa do tio
Alamda saber da saude de Joo, pois outro motivo no podia haver que o
impedisse de sair, seno a doena.

Custava-lhe muito isso, mas, como Joo tinha j dito que seu pae no
oppunha obstaculo algum  affeio do seu corao, encheu-se de animo, e
foi no mais firme proposito de expr ao tio Alamda as razes imperiosas
que obrigavam o seu corao de me a dar aquelle passo, que ao terceiro
dia, se dirigiu para l, eram dez horas da manh.

Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedao de pu de
sobreiro para uma chavlha.

--Sr. Jos, Deus vos d muito bom dia!

--Muito bom dia, sr. Rita.

--Deve admirar-se de me vr por aqui, no  verdade?

--Com effeito,  uma novidade. Ha que annos vocemec c no vem! E ha
que tempos tambem que a no vejo!

--No admira... Eu, passo a vida l em baixo, quasi nunca venho c para
cima...

--E, nem que viesse, tambem me no veria facilmente. Eu no saio do meu
aido, porque j no posso, estou velho.

--Est acabado. Velho no. Mas ao menos tem a consolao de viver em
socgo, com os filhos ao p de si, que lhe querem muito.

--Pois elles, coitados, no tm motivo para me quererem mal. Fiz por
elles o que pude...

--Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, tm sido uns
bons filhos.

--Graas a Deus... No sairam dos peores, no senhora.

--Olhe, sr. Jos: com'assim, para o no estar a maar mais, vou
dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...

--Dir...

--Sei que o sr. Jos no  desconhecedor da affeio do seu filho Joo
pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para
comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se no fosse o seu bom
corao...

--Sei. Elle, coitado, tem um bom corao, l isso tem! Mas admitto-lhe
isso, porque, emfim, parece que a sua filha no  nenhuma ingrata que
no reconhea a dedicao d'elle, e no deixa de ser digna d'isso,
apezar do que para ahi diziam...

--Linguas do mundo, sr. Jos! Linguas do mundo! Sabe como  o mundo, e
por isso...

--Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se  um
rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado . Emquanto que um
pobre...

--Pois  isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma
grande affeio  minha Maria, e, at hoje, ha j sete mezes, faltou s
tres vezes  noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de
Natal--na noite de ceia--e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois
ultimos dias sem ns sabermos o motivo, a rapariga tem-se l desfeito em
chorar, que at me retalha o corao.

--Pois olhe que eu no sei o motivo...

--Ento elle no est doente?!

--No. Ante-hontem  noite  que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas
fortes dres de cabea, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de
manh, levantou-se e foi para o trabalho.

--Sim?!

-- verdade.

E a me de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que
viera, no comtudo sem pedir ao velho que expozsse ao filho a anciedade
de sua filha, que no podia adivinhar a causa de tal procedimento.

Quando, ao meio dia, Joo e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do
trabalho, o pae chamou Joo ao alpendre e participou-lhe que a me de
Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito
contristada, saber a razo porque ha dois dias elle no dava parte de si
 filha que outra vida no fazia seno chorar.

--Sim? perguntou, ironicamente Joo. Coitada! Pois que chore, que quanto
mais chorar menos urina! A me quer saber a razo porque l no vou?
Pois que o pergunte  filha, que o sabe to bem, ou melhor, que eu!

--V l, Joo! No sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar
por contos...

--No, meu pae. Tenho muita razo para assim proceder, e outro, no meu
logar, procederia d'outra frma.

E o tio Jos, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do
filho, sem outra concluso ter tirado que a suspeita de qualquer
acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois
seres que tanto se amavam.

Nesse dia,  tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a
Helena.

Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de
fallar com Velloso, e preoccupada, alm d'isso, com as palavras d'elle,
cuja significao no alcanava e traziam o seu corao amargurado por
uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.

O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a
dr que a pungia, esse esforo ia a pouco e pouco affectando-a
phisicamente. Uma unica consolao encontrara para a mgua: as
lagrimas--esse terno confidente dos infelizes--que vertia a ss na
recluso da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do corao mas
lhe desbotavam as cres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos
olhos.

Foi num mal dissimulado alvoroo intimo que recebeu das mos do mendigo
a carta, vinda da parte de Velloso.

Correu ao seu quarto e leu:

Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida to cheia de
tristezas, que no podes imaginar. Na esperana de te fallar, todas as
noites vou pr-me  espreita da tua casa, a vr se vejo abrir-se essa
portaria que  para mim a porta do ceu. Em vez, porm, de te vr
apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmo, que me espia,
esconder-se na escurido do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca
de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de
observao, vejo-o retirar-se.

 minha tristeza motivada por te no vr, junta-se a anciedade que tenho
de te communicar um segredo. Este  de tanta importancia, minha Helena,
e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu corao bondoso, que at
receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta
chegue ao seu destino; e, visto que no tenho outro meio de
communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presena de
espirito e confies em Deus para que no te faa desanimar  vista do que
vaes lr.

Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a
respeito de teu irmo que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria
Luiza, que eu no conhecia. Dizia-se que ella fra uma mulher leviana, e
que por isso no era digna da dedicao de teu irmo, um rapaz querido e
estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se
casava com ella, segundo constava. Como no me interessava com o caso,
apenas lamentei a sorte de teu irmo, com quem eu no tinha relaes.

Depois, porm, que te conheci, que te comecei a amar com este amr louco
que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra
d'elle e minha, porque era irmo da minha noiva, affastal-o do caminho
errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador.
Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza
tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para
conservar teu irmo na illuso em que andava, resolvi que ella
resvalasse ao lodoal d'outrora, para que teu irmo, abrindo os olhos,
visse a desgraa que estivera imminente de si.

Consegui, com effeito, graas s minhas promessas, o meu intento.
Jurei-lhe at que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas
de que a accusavam. E... cruel decepo! Maria Luiza estava pura, to
pura como tu, minha Helena, quando...

Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta at este ponto,
sentiu uma nuvem toldar-lhe a vista e, amarfanhando a carta, caiu de
bruos sobre o leito num chro convulsivo, murmurando em delirio, a voz
cada vez mais apagada:

--A lua estava to triste!... Um mcho, a piar mais triste, fez-me
calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito
feliz!....................................................................
..........................................................................

Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expresso de bondade,
tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar
ancioso, e perguntou ao pae, sentado  cabeceira da sua cama:

--Pae?... A carta?...

--Est aqui, minha filha. Socga. A agitao faz-te mal; no  verdade,
sr. doutor?

-- verdade. Ella quer muito socgo de espirito.  o unico remedio que
lhe receito.

-- coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o
velho.

--No. No vale de nada. manh pode levantar-se. Mas has-de estar muito
socegadinha hoje, ouviste?

Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:

--Leu essa carta, meu pae?

--Filha da minha alma, no ouviste o que disse o senhor doutor? No te
preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socga...

--Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em
sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas
que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade no 
aqui. J v que no agito o espirito a modos de me fazer mal.

--Mas no falles mais n'isso. manh fallaremos e...

--O pae leu a carta toda?

--Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e at quem a leu foi o
Joo.

--O Joo?! E que disse?!

--O Joo est socegado. Est na cozinha. Mas peo-te por amr de Deus
que no falles mais nisso hoje.

E, pegando-lhe numa das mos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas
nos olhos, dizia:

--Faz-me a vontade, sim, filha?...

Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja
leitura no queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.


XVI

Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de
toda a gente, era um seductor de donzellas.

Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o
brazileiro no abandonara  noite o seu posto de observao, toda a
freguezia, conhecedora dos successos que elle causara, augmentados,
naturalmente, pela phantasia popular, murmurava indignada contra esse
homem que viera, com a presumpo do seu dinheiro, interromper a paz e o
socego da aldeia e lanar a desgraa no seio d'uma to boa e santa
gente.

A propria Maria Luiza, o espirito do mal at ahi, passou a ser a pobre
avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavio.

Nos dois dias que se seguiram quelle em que Helena recebeu a carta de
Velloso, este,  mesma hora, fra para o mesmo ponto da alameda dos
eucalyptos, na esperana de que Helena, quando o irmo desistisse de o
perseguir, apparecesse  porta.

Porm, naquellas duas noites seguintes, a decepo do brazileiro foi
indizivel, quando no viu apparecer Joo a vigial-o, nem to pouco
Helena dava signal de si.

--Que se ter passado?... pensava, ao retirar-se.

Os dias passava-os em sua casa e na do visinho, que lhe communicava as
impresses que a seu respeito occupavam o espirito popular.

Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor:
nem sua propria me, que s vezes lhe queria manifestar os seus
queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licena para lhe
tocar nesse ponto.

Elle comeou a sentir remorsos da sua conducta.

Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo
devorador, elle no se atrevia mesmo j a apparecer na presena dos
obreiros que se occupavam na construco da sua nova habitao.

-- senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manh do
terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamda ficou sem
filho nenhum em casa! Ficou com elle o moo, mais aquella rapariga que
l tem, filha do fallecido Joo da Junqueira, e dizem que vo casar para
ficar na companhia do velho...

Mas o Neves achou inutil continuar, a no ser que quizesse fallar para
as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos
calcanhares, e, como um brio, sem dizer palavra, deixou o visinho
embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:

--Mas onde diabo ir elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a
tempo! Onde iro elles j!

E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de
presumpo:

--Ora ahi est para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como
eu, succedia-lhe isto? Olha l se eu me incommodo com nada! No tenho
dinheiro; assim, as mulheres no esperam nada de mim, por isso no deito
a perder ninguem! Nem me perco a mim!...

      *      *      *      *      *

O brazileiro, como um allucinado, penetrou no pteo do tio Alamda.

Parou, olhou em roda, e no viu ninguem. Chorou ento ao vr-se s
n'aquelle recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma
saudade do dia em que pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu
corao uma gotta de sangue que lhe assomava aos olhos transformada
n'uma lagrima.

A porta da casa estava fechada; e elle, no podendo resistir  desolao
do seu corao, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido
no pateo. Appoiou a fronte sobre as mos e deu curso s lagrimas que lhe
affluiam aos olhos........................................................
..........................................................................
..........................................................................

Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.

Olhou, e viu na sua frente, ao p de si, o tio Alamda, a olhal-o com um
olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.

Instinctivamente, estendeu para o velho os braos e cingiu-lhe os
joelhos, proferindo estas palavras com desalento:

--Perdo! Perdo para um infeliz!

O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces
enrugadas:

--Levante-se! Que Deus lhe perde, assim como eu lhe perdo.

O brazileiro ergueu-se, e, com voz trmula o angustiada, perguntou:

--Helena para onde foi?!

--Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe no podia dar.
Morreu para mim e para o mundo.

--Para um convento?!...

-- verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com teno de
embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que
prometteu internal-a n'um recolhimento.

--Oh! Isto e cruel!

--Sim!  cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se v privado
da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar.
Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vr, nem
voltar a esta casa onde viveu vinte e cinco annos to feliz e contente!

Os dois choravam. O brazileiro no ousou interromper as lamentaes do
velho, que proseguia:

--O senhor est vivo graas s minhas lagrimas que puderam conter o
brao armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, no queira
continuar na sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode
compensar uma parte d'esta serie de infelicidades que causou.
Arrependa-se do passado, e faa por esquecel-o com um futuro glorioso.
Eu, pela minha parte, perdo-lhe; Helena, que tem um corao d'oiro,
tambem lhe perdoar, e meu filho da mesma maneira. Falta s Deus. Para
conquistar o seu perdo, faa o que eu j lhe disse: salve o passado com
o futuro.

--Mas Helena... como poderei obter o seu perdo, se...

--Deus lhe transmittir a sua prece. No precisa de o ouvir, para lanar
sobre a sua memoria o perdo que se concede ainda aos maiores
criminosos.

O brazileiro estendeu ao velho a mo, e, com firmeza e resoluo, disse:

--Aperte esta mo:  a mo de um rehabilitado.

E, conservando apertada na sua mo mimosa a mo rugosa do velho,
continuou, com voz pausada:

--Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor
me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro
regenerar-me do passado. Se, at aqui, o meu dinheiro tem sido olhado
como um instrumento criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e
deshonestos e como uma base tsca sobre a qual eu edificava, sem olhar
para o bero pobre onde nasci, o meu castello de opulencia, quero que
para o futuro seja olhado como um man celeste que, descendo ao seio da
miseria, v mitigar a angustia dos necessitados. Quero que elle seja a
alavanca que me erga do lodaal em que me sepultei. J que eu, nascido
na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas
na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lanar um olhar
para baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da
miseria, eu quero, ento, descer d'essa altura para penetrar nos
tugurios pestilentos, nas espeluncas, para alimentar quem tem fome,
aquecer quem tirita de frio, e seccar as lagrimas de quem chora.

O velho abraou-o commovido, e accrescentou:

--E d'esse modo ser amado dos homens e abenoado de Deus; e subir mais
alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se l em cima,
no lanam um olhar de misericordia c para baixo!


CONCLUSO

Tres annos depois erguia-se, no sop d'um outeiro de suave declive, uma
casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie
que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua
frente.

O outeiro era revestido em toda a volta do seu sop por pampanos verdes
de vides que o engrinaldavam como uma immensa cora de verdura que
estremecia sob o sopro da virao; e no seu planalto estendia-se um
pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um
tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim
suspenso de Babylonia.

Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manh
pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do
Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava,
parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que ns, quando fomos
pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginao infantil, excitada pela
narrao d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa av
nos contava ao sero.

Todos os dias,  tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera
limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saa
d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando,
ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpa o poetico Vouga.

Ao passar por elle, os aldeos descobriam-se respeitosos e cheios de
acatamento, envolvendo-o n'um olhar dce de sympathia e venerao, e s
vezes ficavam-se a contemplal-o com expresso de intimo jubilo at o
verem desapparecer na curva de um atalho.

Nunca um mendigo se lhes approximava que no voltasse com aspecto
sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.

--So uns santos! So uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se.
Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, c no mundo!

Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a
fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a
noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mo esmoler e
caritativa saa a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou
impossibilidade, no ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os
horrores da miseria.

Essa mo que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos
infelizes e se subtraa modesta aos sculos de gratido, era de Maria
Luiza, a esposa do dno d'aquella casa, to rico como caritativo, que
distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.

O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos
antes, circulando em volta d'aquelles dois sres, tanto emocionaram a
alma popular, e o sr. Velloso  agora a caridade personificada, amado
dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.

Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de
cabea calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi
todos os dias passar alguns momentos com elles.

Esse velho  o tio Alamda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais
que em todo o resto da vida.

Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua
companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam
esses dois seres--Paulo e Julia--que a Providencia lhe atirara pela
porta dentro, para encontrarem no seu corao o que to cdo lhes
faltara.

Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz,  sua
Me: ahi lhe ficam os seus filhos. So dignos do seu amr; por isso,
conserve-os na sua companhia.

E o tio Alamda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a
necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.

Chamou um dia Paulo  parte, tinha elle j desenove annos, e
perguntou-lhe:

--Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente
fosse minha filha. A separao dos meus verdadeiros filhos da minha
companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separao agora atirar-me-hia
para ella. Convm que vs vos no separeis de mim nos ultimos dias da
minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez no, porque tenho uma ideia
que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?

O pobre rapaz, como no querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos,
sem poder responder  pergunta que o velho lhe fazia.

--Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou no casar com Julia?

--Se quero!...

Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a
paixo da sua alma, manifestou quanto amr occultara durante dois
annos no seu peito.

--Bem! disse o tio Alamda cheio de contentamento. Pela tua resposta,
vejo que gostas d'ella a valer, no  verdade? No sabes quanto estou
contente com isso.  preciso agora saber se  do gosto d'ella casar
comtigo. Vae chamal-a.

E Paulo, no cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.

Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues
cheios de doura e de submisso:

--Que quer, pae?

--Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com
Paulo, fazias-me a vontade?

Julia fitou os olhos no cho, ruborisada, dando naquelle silencio a
resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu corao apaixonado.

O velho, comprehendendo ento nesse momento que o seu desejo era a unica
felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e
poisando paternalmente a mo na cabea loira da creana, disse com
extrema bondade, pondo-se em p:

--E tiveste a coragem de me no revelares esse segredo, hein? Vejo que o
amas a valer, e no me tinhas dito nada, minha msinha?

Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a
contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com
candura.

--Est bem; continuou o tio Alamda. Quando o nosso Joo vier, o que no
ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua
chegada com o vosso casamento; e...

O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria, onde estava um
homem, com uma poro de cartas numa das mos e um sacco de couro a
tiracllo.

--Ill.mo senhor Jos Nunes da Alamda!

E estendeu um brao com uma carta na mo.

Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto,
estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil,
occultou o rosto no avental, soluando.

O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trmula:

--Que , Julia?! Alguma nova desgraa que nos sobreveio?!...

Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces
banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.

--Seja o que Deus quizer! L, filha, l. Estou resignado com a vontade
de Deus!

E, appoiando-se, curvado, sobre o basto que segurava com ambas as mos,
meneava dolorosamente a cabea.

Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e
desdobrou a carta.

Paulo tinha-se approximado, egualmente pllido, e, sem proferir uma
palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabea
 d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as
lettras que no entendia, porque no sabia lr.

Julia lu para si a primeira linha, a participao do bito de Joo, e,
deixando cair os braos, olhou, banhada em pranto, para o velho.

Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoo:

--Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.

E, estendendo as mos para os jovens, que estavam na sua frente
semelhando os conjuges em frente do padre, disse:

--Levou-me os filhos, e deixou-me a vs. Sois os meus pupillos, e d'ora
avante sereis meus filhos.

Abraou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada
pelos soluos:

--E que Deus abenoe o vosso amr, como eu o abeno!


FIM





End of Project Gutenberg's Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA ***

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