Project Gutenberg's Lendas e Narrativas (Tomo I), by Alexandre Herculano

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Title: Lendas e Narrativas (Tomo I)

Author: Alexandre Herculano

Release Date: January, 2006 [EBook #9654]
[Yes, we are more than one year ahead of schedule]
[This file was first posted on October 13, 2003]

Edition: 10

Language: Portugese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS E NARRATIVAS (TOMO I) ***




Produced by Joo Miguel Neves and PG Distributed Proofreaders
from images and OCR'd files of the National Digital Library
project from the National Library of Portugal.



This e-text is transcribed from the 1858 2nd edition of Lendas e
Narrativas (Tomo I).




LENDAS E NARRATIVAS (Tomo I)




ADVERTENCIA


A Advertncia que precedia a anterior edio, e que adiante vae
repetida, explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um
gnero de escriptos, que s muito tarde foi cultivado em Portugal,
se publicaram em volumes, quando talvez no devessem sair das
columnas dos jornaes, onde viram a luz publica. Considermo-los
ento, e considermo-los agora apenas como balisas no campo da
nossa historia litteraria, balisas que nos parecem ainda mais
toscas actualmente; porque ao passo que a reflexo e o tempo
nos amaduram o espirito, os defeitos de composio e de estylo
cada vez se vo avolumando mais aos olhos da nossa conscincia
retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje como ha oito annos,
simples marcos milliarios, a presente edio absolve-se pelos
mesmos ttulos porque devia ser absolvida a edio anterior.

Espervamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas
tentativas esqueceriam em breve offuscadas pelas brilhantes
composies que comeavam a avultar no caminho que havamos aberto.
O publico enleodeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor,
no esqueceu estes mal delineados esboos, que ficaram na sua
memria como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar
infantil.

Quinze a vinte annos so decorridos desde que se deu um passo,
bem que dbil, decisivo, para quebrar as tradies do Alivio
de Tristo e do Feliz Independente, tyrannos que reinavam sem
mulos e sem conspiraes na provincia do romance portugus.
Nestes quinze ou vinte annos creou-se uma litteratura e pde
dizer-se que no ha anno que no lhe traga um progresso. Desde
as Lendas e Narrativas at o livro Onde est a Felicidade? que
vasto espao transposto! E todavia, apesar do immenso talento
que se revela nas mais recentes composies, quem sabe se entre
os nomes que despontam apenas nos horisontes litterarios, no
vir em breve algum que offusque os que nos deixaram para ns
somente um bem modesto logar?

Oxal que assim seja. Os que nos venceram n'esta lucta gloriosa
sabero resignar-se como ns nos resignmos.

Ajuda, maio de 1858.



ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIO


Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram
impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicaes
periodicas o Panorama e a Illustrao, bem como o foram nestes
ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das
Lendas e Narrativas, collecco que, se trabalhos mais arduos o
consentirem, ser continuada com alguns outros, apenas esboados
ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os
manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo,
para se ajunctarem a composies mais extensas e menos imperfeitas,
que j viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas
preservar do esquecimento, a que por via de regra so condemnados
mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das
publicaes periodicas, as primeiras tentativas do romance historico
que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforos
do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero
amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes
da Europa,  este o principal, ou talvez o unico merecimento
delles; o titulo de que podem valer-se para no serem entregues
de todo ao esquecimento.  singeleza da inveno, a pouca firmeza
nos contornos de alguns caractres, o menos bem travado do dialogo,
imperfeies que nem sempre foi possivel remediar nesta nova
edio, revelam a mo inexperiente. Na historia dos progressos
litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe
a liberdade do pensamento, e que o engenho pde apparecer  luz
do dia sem os anginhos de uma censura to absurda na sua indole,
como estupida na sua applicao e esterilisadora nos seus effeitos;
nessa historia, dizemos, esta nova edio deve ser julgada
principalmente com atteno ao seu motivo,  prioridade das
composies nella insertas, e  preciso em que, ao escreve-las,
o auctor se via de crear a substancia e a frma; porque para o
seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos.

A critica para ser justa no ha-de, porm, attender s a essas
circumstancias: ha-de considerar tambm os resultados destas
tentativas, que, a principio,  licito suppr inspiraram outras
analogas, como por exemplo os "Irmos Carvajales" e "O que foram
Portuguezes" do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria
dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composies
analogas de mais largas dimenses, e melhor delineadas e vestidas.
Todos conhecem o "Arco de Sanct'Anna", cujo ultimo volume acaba
de imprimir o primeiro poeta portugus deste seculo, o "Um ano na
Crte" do Sr. Corvo, cuja publicao se aproxima do seu termo, e
o "Odio Velho No Cansa" do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se
as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos no
tivessem tornado indecentes as alluses mythologicas, se poderia
comparar ao combate com o leo de Citheron, que revelou  Grecia
no moo Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho comea
a manifestar-se o auctor da "Mocidade de D. Joo V", romance de
que j se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte
inedita, que  quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott.
Emfim o "Conde de Castella" do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepo,
posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo
destas fracas tentativas, e das que, em dimenses maiores, o
auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave
e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou
em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos
de corrupes, como uma condemnao muda; homem sobre tudo de
sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes
eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez,
como elle poderia fazer a Portugal o servio que DuMonteil fez
 Frana, isto , popularisar o estudo daquela parte da vida
publica e privada dos seculos semi-barbaros, que no cabe no
quadro da historia social e politica.

Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da
introducco do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma
literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecer
talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores s
publicaes que se lhe seguiram, foram a sementinha d'onde proveio
a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade
com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeio
do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de
ter por isso direito  indulgencia, resolveu-se a transportar
para o livro aquillo que, considerado em si, no mereceria talvez
sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, no
escriptos cuja apreciao exija largas paginas na historia
litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de
litteratura, indique o ponto d'onde se partiu.





O ALCAIDE DE SANTARM (950--961)




I


O guadamellato  uma ribeira que, descendo das solides mais
agras da Serra Morena, vem atravs de um territorio montanhoso
e selvatico desaguar no Guadalquivir pela margem direita, pouco
acima de Cordova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma
populao numerosa: foi nas eras do dominio sarraceno em Hespanha.
Desde o governo do amir Abul-Khatar o districto de Cordova fra
distribuido s tribus rabes do Yemen e da Syria, as mais nobres
e mais numerosas entre todas as raas da Africa e da Asia, que
tinham vindo residir na Peninsula por occasio da conquista ou
depois della. As familias que se estabeleceram naquellas encoslas
meridionaes das longas serranias chamadas pelos antigos Montes
Marianos, conservaram por mais tempo os hbitos erradios dos
povos pastores. Assim no meiado decimo seculo, posto que esse
districto fosse asss povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao
de um deserto; porque nem se descortinavam por aquelles cabeos e
valles vestigios alguns de cultura, nem alvejava um unico edificio
no meio das collinas rasgadas irregularmente pelos algares das
torrentes, ou cubertas de selvas bravias e escuras. Apenas um
ou outro dia se enxergava na extrema de algum almargem virente a
tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte no se encontraria
alli, se porventura se buscasse.

Havia, comtudo, povoaes fixas naquelles ermos; havia habitaes
humanas, porm no de vivos. Os arabes collocavam os cemiterios
nos logares mais saudosos dessas solides, nos pendores meridionaes
dos outeiros, onde o sol, ao pr-se, estirasse de soslaio os seus
ultimos raios pelas lagens lisas das campas, por entre os raminhos
floridos das saras aoutadas do vento. Era alli que, depois
do vaguear incessante de muitos annos, elles vinham deitar-se
mansamente uns ao p dos outros, para dormirem o longo somno
sacudido sobre as suas palpebras das asas do anjo Azrael.

A raa arabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra
familia humana, gostava de espalhar na terra aquelles padres,
mais ou menos sumptuosos, do captiveiro e immobilidade da morte,
talvez para avivar mais o sentimento da sua independencia illimitada
durante a vida.

No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que
subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado
um desses cemiterios pertencente  tribu Yemenita dos Beni-Homair.
Subindo pelo riu, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas
como um vasto estendal, e tres unicas palmeiras, plantadas na cora
do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemiterio de al-tamarah.
Transpondo o cabeo para o lado oriental, encontrava-se um desses
brincos da natureza, que nem sempre a sciencia sabe explicar:
era um cubo de granito de desconforme dimenso, que parecia ter
sido posto alli pelos esforos de centenares d'homens, porque
nada o prendia ao solo. Do cimo desta especie de atalaia natural
descortinavam-se para todos os lados vastos horisontes.

Era um dia  tarde: o sol descia rapidamente, e j as sombras
principiavam do lado de lste a empastar a paisagem ao longe em
negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular
um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lana, volvia
olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste:
depois sacudia a cabea com um signal negativo, inclinando-se
para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam
alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o
qual s era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas
ao da lana, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o
seu menear de cabea.

"Al-barr,"--disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos
indicavam uma grande superioridade sobre os outros--"parece que
o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de
Zarkosta[2] a sua ambio d'independencia; e at os partidrios
de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por
meu pae, no podem acreditar que Abdallah realise as promessas
que me induziste a fazer-lhes."

"Amir-al-melek[3],"--replicou Al-barr--"ainda no  tarde: os
mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto.
No creias que a ambio e a vingana adormeam to facilmente
no corao humano. Dize, Al-athar, no te juraram elles pela
sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e
da entrada dos christos chegariam hoje a este logar aprazado,
antes do anoitocer?"

"Juraram--respondeu Al-athar--; mas que f merecem homens que
no duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa,
e alm d'isso de abrir o caminho aos infiis para derramarem o
sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido
lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxal que falhassem
as esperanas que pes nos tens occultos alliados. Oxal no
tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e no houvera
de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu
irmo!"

Al-athar cobriu a cara com as mos, como se quizesse esconder a
sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixes oppostas.
Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou:

"Se os mensageiros dos revoltosos no chegarem at o anoitecer,
no falemos mais n'isso. Meu irmo Al-hakem acaba de ser reconhecido
successor do kalifado: eu prprio o acceitei por futuro senhor
poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o
quer, faa-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus
sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidh[5] que no soubeste
acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presena
dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no
desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio
que alimentas contra elles, o mais terrvel odio deste mundo,
o do amor prprio offendido."

Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras
de Abdallah. Os olhos, porm, de Al-barr faiscaram de colera.

"Pagas mal, Abdallah,--disse elle com a voz presa garganta--os
riscos que tenho corrido para te obter a herana do mais bello
e poderoso imprio do Islam. Pagas com alluses affrontosas aos
que jogam a cabea com o algoz para te pr na tua uma cora. s
filho de teu pae! ... No importa. S te direi que  j tarde
para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspirao sabida
de tantos ficar occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo
 que has-de encontrar o abysmo!"

No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza.
Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o prncipe
da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmo Al-hakem. Um
grito, porm, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago
um vulto sara do cemitrio, galgra o cabeo, e se aproximra
sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz
quasi lhe encobria as feies, vendo-se-lhe apenas a barba negra
e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em p de um pulo, e
arrancaram as espadas.

Ao ver aquelle movimento, o que chegra no fez mais do que estender
para elles a mo direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz:
ento as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica
tivesse adormecido os braos dos quairo sarracenos. Al-barr
exclamra:--"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!..."

"Muulin o peccador:--interrompeu o novo personagem--Muulin, o
pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas
e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina s
vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo
dos coraes. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambio!
Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balana dos destinos a ti,
Abdallah, e a teu irmo Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A
ti o throno; a elle o sepulchro. Est escripto. Vae; no pares
na carreira, que no te  dado parar! Volta a Kortheba. Entra no
teu palacio Merwan;  o palacio dos kalifas da tua dynastia. No
foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9]
da torre. Ahi achars cartas do kaid de Chantarya, e dellas vers
que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam
ao que te juraram!"

"Sancto fakih--replicou Abdallab, crdulo como todos os musulmanos
daquelles tempos de f viva, e visivelmente perturbado--creio o
que dizes, porque nada para ti  occulto. O passado, o presente,
o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me
o triumpho; mas o perdo do crime podes tu assegura-lo?"

"Verme, que te crs livre!--atalhou com voz solemne o fakih.--Verme,
cujos passos, cuja vontade mesma, no so mais do que frageis
instrumentos nas mos do destino, e que te crs auctor de um
crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o
guerreiro, pede ella acaso a Deus perdo do seu peccado? Atomo
varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar,
pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdo para
o orgulho insensato!"

Fez ento uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda
se viu sair da manga do albornoz um brao felpudo e mirrado, que
apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do
fakih fascinava. Coando pelos lbios as syllabas, elle repeliu
tres vezes:

"Para Merwan!"

Abdallah abaixou a cabea, e partiu vagarosamente, sem olhar
para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou s.

Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis,
porm, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais
de um milho de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era
um mysterio a sua patria, a sua raa, donde viera. Passava a
vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da
canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se no existissem.
Raras vezes se via que no fosse lavado em lagrymas. Fugia das
mulheres como de um objecto de horror. O que, porm, o tornava
geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o
qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque
as suas predices recahiam unicamente sobre futuros males. No
mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christos faziam
alguma correria, ou destruiam alguma povoao, elle annunciava
publicamente o successo nas praas de Cordova: qualquer membro
da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de
um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio,
ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante
s vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes.
O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto
popular a sua presena bastava para tudo car em mortal silencio.
A imaginao exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto
como o islamismo os concebia; isto , um homem cujas palavras
e aspecto gelavam de terror.

Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mo, dizendo-lhe em
voz quasi imperceptivel:

"Salvaste-me!"

O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso,
murmurou:

"Eu?! Eu teu cumplice, miseravel?!"

Depois, alevantando ambas as mos abertas para o ar, comeou
a agitar os dedos rapidamente, e rindo com um rir sem vontade,
exclamou:

"Pobres titeres!"

Quando se fartou de representar com os dedos a ida de escarneo
que lhe sorria l dentro, dirigiu-se, ao longo do cemiterio,
tambem para as bandas de Cordova, mas por diverso atalho.

[1] Santarem.

[2] Governador do Districto de Saragoa.

[3] Principe real.

[4] O famoso templo de Mekka.

[5] Poema de trinta versos, muito usado entre os arabes,
e que correspondia de certo muilo s nossas odes.

[6] Os reinos christos alm dos Pyreneus.

[7] Muulin significa o triste.

[8] Fakih ou faquir, especie de frade mendicante entre
os musulmanos.

[9] Sotuko--o andar mais alto. Os nossos escriptores
tomavam esta palavra n'um sentido evidentemente errado, servindo-se
delia para indicar o aposento inferior ou trreo.



II


Nos paos de Azzahrat, o magnifico alcaar dos kalifas de Cordova,
ha muitas horas que cessou o estrepito de uma grande festa. O
luar de noite serena d'abril bate pelos jardins que se dilatam
desde o alcaar at o Guad-al-kbir, e alveja tremulo pelas fitas
cinzentas dos caminbos tortuosos, em que parecem enredados os
bosquesinhos de arbustos, os macissos de arvores silvestres, as
veigas de flores, os vergeis embalsamados, onde a larangeira, o
limoeiro, e as demais arvores fructiferas, trazidas da Persia, da
Syria e do Cathay, espalham os aromas variados das suas flores.
L ao longe Cordova, a capital da Hespanha mussulmana, repousa
da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o illustre
kalifa, vla pela segurana do imperio. A vasta cidade repousa
profundamente; e o rudo mal distincto que parece revoar por
cima della,  apenas o respiro lento dos seus largos pulmes,
o bater regular das suas robustas arterias. Das almadenas de
seiscentas mesquitas no soa uma unica voz de almuhaden, e os
sinos das igrejas mosarabes guardam tambem silencio. As ruas,
as praas, os azokes, ou mercados, esto desertos. Smente o
murmurio das novecentas fontes ou banhos publicos, destinados
s ablues dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa
rival de Bagdad.

Que festa fra essa que expirra algumas horas antes de nascer
a lua, e de tingir com a brancura pallida de sua luz aquelles
dois vultos enormes de Azzahrat e de Cordova, que olhavam um
para o outro, a cinco milhas de distancia, como dois phantasmas
gigantes involtos em largos sudarios? Na manhan do dia que findra,
Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fra associado ao
throno. Os walis, wasires e khatehs da monarchia dos Beni-Umeyyas
tinham vindo reconhece-lo Wali-al-ahdi; isto , futuro kalifa
do Andals e do Moghreb. Era uma ida affagada longamente pelo
velho principe dos crentes que se realisra, e o jubilo de
Abdu-r-rahman se havia espraiado n'uma dessas festas, por assim
dizer fabulosas, que s sabia dar no seculo decimo a crte mais
polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno
de Hespanha.

O palacio Merwan, juncto dos muros de Cordova, distingue-se 
claridade duvidosa da noite pelas suas frmas macissas e
rectangulares, e a sua cr tisnada, bafo dos seculos que entristece
e sanctifica os monumentos, contrasta com a das cupulas aereas e
douradas dos edificios, com a das almadenas esguias e leves das
mesquitas, e com a dos campanarios christos, cuja tez docemente
pallida suavisa ainda mais o brando raio de luar que se quebra
naquelles estreitos pannos de pedra branca, d'onde no se reflecte,
mas cabe na terra preguioso e dormente. Como Azzahrat e como
Cordova, calado e apparentemente tranquillo, o palacio Merwan,
a antiga morada dos primeiros kalifas, suscita idas sinistras,
emquanto o aspecto da cidade e da villa imperial unicamente inspiram
um sentimento de quietao e paz. No  s a negrido das suas vastas
muralhas a que produz essa apertura do corao que experimenta
quem o considera assim solitario e carrancudo;  tambem o claro
avermelhado que resumbra da mais alta das raras frestas abertas
na face exterior da sua torre albarran, a maior de todas as que
o cercam, a que atalaia a campanha. Aquella luz, no ponto mais
elevado do grande e escuro vulto da torre,  como um olho de
demonio, que contempla colerico a paz profunda do imperio, e que
espera ancioso o dia em que renasam as luctas e as devastaes
de que por mais de dois seculos fra theatro o solo ensanguentado
de Hespanha.

Alguem vla, talvez, no pao de Merwan. No de Azzahrat, posto que
nenhuma luz bruxule nos centenares de varandas, de miradouros,
de porticos, de balces, que lhe arrendam o immenso circuito,
alguem vla por certo.

A sala denominada do Kalifa, a mais espaosa entre tantos aposentos
quantos encerra aquelle rei dos edificios, devra a estas horas
mortas estar deserta, e no o est. Dois lampadarios de muitos
lumes pendem dos arteses primorosamente lavrados, que, cruzando-se
em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e
ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne
murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do
aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman,
alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman
est ahi ssinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com
olhar inquieto, e de instante a instante pra e escuta, como
se esperasse ouvir um rudo longinquo. No seu gesto e meneios
pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico rudo que lhe
fere os ouvidos  o dos proprios passos sobre o xadrez variegado,
que frma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo,
uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do
throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto
de Abdu-r-rahman, que o v aproximar, pinta-se uma inquietao
ainda mais viva.

O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras
com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto
magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das
cans que comeavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba
negra. Os ps do que entrra apenas faziam um rumor sumido no
cho de marmore. Vinha descalo. A sua aljarabia ou tunica era
de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto.
Divisava-se-lhe, porm, no despejo do andar e na firmeza dos
movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia.
No era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo
estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os
olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao p do kalifa,
que ficra immovel, cruzou os braos e poz-se a contempla-lo
calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio:

"Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando
annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua
 sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em
Azzahrat seno para me saciares de amargura; mas apesar disso eu
no deixarei de abenoar a tua presena, porque Algafir--dizem-no
todos e eu o creio-- um homem de Deus. Que vens annunciar-me,
ou que pretendes de mim?"

"Amir-al-muminin[1], que pde pretender de ti um homem cujos
dias se passam  sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas
noites de orao basta por abrigo o portico de um templo; cujos
olhos tem queimado o chro, e que no esquece um instante que tudo
neste desterro, a dr e o goso, a morte e a vida, est escripto
l em cima? Que venho annunciar-te?!... O mal; porque s mal ha
na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos,
entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto , entre
os seus eternos e implacaveis inimigos!"

"Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade
de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso,
vencedor e respeitado; todas as minhas ambies tem sido satisfeitas,
todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira
de gloria e prosperidade s fui inteiramente feliz quatorze dias
da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo
acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e
em que j o tinha escripto?"

"Pdes apaga-lo:--replicou o rude fakih--pdes, at, rasgar
todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vs estas
faces sulcadas pelas lagrymas? vs estas palpebras requeimadas
por ellas? Duro  o teu corao, mais que o meu, se em breve as
tuas palpebras e as tuas faces no esto semelhantes s minhas."

O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman:
os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na cr, tomaram a
terrivel expresso que elle costumava dar-lhes no revolver dos
combates, olhar esse que s por si fazia recuar os inimigos. O
fakih no se moveu, e poz-se a olhar tambm para elle fito.

"Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas pde chorar arrependido
de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo
desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que
mentiu!"

Os cantos da bca de Al-gafir encresparam-se com um quasi
imperceptivel sorriso. Houve um largo espao de silencio.
Abdu-r-rahman no o interrompeu: o fakih proseguiu:

"Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem,
o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah,
o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"

"Oh,--replicou o kalifa sorrindo--j sei o que me queres dizer.
Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo...
Os christos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do
oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer j depoz a espada victoriosa,
e crs necessario expr a vida de um delles aos golpes dos infiis.
Vens prophetisar-me a morte do que partir. No  isto? Fakih,
creio em ti, que s acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na
estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro
no hesitaria na escolha: fra esse que eu mandra, no  morte,
mas ao triumpho. Se, porm, essas so as tuas previses, e ellas
tem de realisar-se, Deus  grande! Que melhor leito de morte
posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em
al-djihed[3] contra os infiis?"

Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia.
Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta:

"Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?"

"Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa
no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo
o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu
Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder,
fakih?"

"E todavia  necessrio que escolhas, hoje mesmo, neste momento,
entre um e outro. Um delles deve morrer na prxima noite,
obscuramente, nestes paos, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo
do cutello do algoz, ou do punhal do assassino."

Abdu-r-rahman recura ao ouvir estas palavras: o suor comeou
a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma
firmeza fingida, sentra apertar-se-lhe o corao desde que o
fakih comera a falar. A reputao d'illuminado de que gosava
Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o
haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo
decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar
o principe dos crentes. Com voz trmula replicou:

"Deus  grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim
da vida a perpetua afflico, a ver correr o sangue de meus filhos
queridos s mos da deshonra ou da perfidia?"

"Deus  grande e justo,--interrompeu o fakih.--Acaso nunca fizeste
correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedaaste
de dr nenhum corao de pae, de irmo, de amigo?"

Al-muulin tinha carregado na palavra irmo com um accento singular.
Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, no attentou por
isso.

"Posso eu acreditar uma to estranha, direi antes to incrivel
propheca--exclamou elle por fim--sem que me expliques o modo
por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o
ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat
verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome,
seja-me licito dize-lo,  o terror dos christos, e a gloria do
islamismo?"

Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mo para
o throno, e disse:

"Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome
da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio,
e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um
grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te
um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religio do
Koran, escuta-me, porque  obrigao tua ouvir-me."

O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o
negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado
a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte
subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que
elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse
com voz presa:--"Pdes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!"

Tomando ento uma postura humilde, e cruzando os braos sobre
o peito, Al-gafir o triste comeou da seguinte maneira a sua
narrativa.

[1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de
kalifa.

[2] Historico

[3] Guerra-sancta

[4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio,
e o summo pontificado.



III


"Kalifa!--comeou Al-muulin--tu s grande; tu s poderoso. No
sabes o que  a affronta ou a injustia cruel que esmaga o corao
nobre e energico, se este no pde repelli-la, e sem demora, com
o mal ou com a affronta, vinga-la  luz do sol! Tu no sabes o
que ento se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo
deixa fugir alguma lagryma furtiva, e at, s vezes,  obrigado
a beijar a mo que o feriu nos seus mais sanctos affectos. No
sabes o que isto ; porque todos os teus inimigos tem cahido
diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabea de
cima do cpo do algoz. Ignoras por isso o que  o odio; o que
so essas solides tenebrosas, por onde o resentimento, que no
pde vir ao gesto, se dilata e vive  espera do dia da vingana.
Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o corao
chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia
o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais
rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina
como ser facil aos altos entendimentos o encontra-lo!  por
isso que a vingana, que parecia morta e esquecida, apparece s
vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo
debaixo dos ps como a vibora, ou despedaa-nos como o leo pulando
d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno,
a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro
do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades,
meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!"

E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava
para elle espantado.

"Mas--proseguiu o fakih--s vezes Deus suscita um dos seus servos,
um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de
alguma ida occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama
urdida nas trvas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem?
Para mal?--No sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se
prepara a ruina do teu throno, e a destruio da tua dynastia."

"A ruina do meu throno?--gritou Abdur-r-rahman pondo-se em p e
levando a mo ao punho da espada.--Quem, a no ser algum louco,
imagina que o throno dos Beni-Umeyyas pde, no digo desconjunctar-se,
mas apenas vacilar debaixo dos ps de Abdu-r-rahman? Quando, porm,
falars enfim claro, Al-muulin?"

E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual
impassibilidade o fakih proseguiu:

"Esqueces-te, kalifa, da tua reputao de prudencia e longanimidade.
Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu ... No!...
Tens razo ... Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do
cu. Quero ser como elle ... Amanhan a estas horas o teu filho
Abdallah ter-te-ha j privado da cora para a cingir na propria
fronte, e o teu successor Al-hakem ter perecido sob um punhal
d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa
a minha narrativa?"

"Infame!--exclamou Abdu-r-rahman--Hypocrita, que me tens enganado!
Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr,
mas  o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses
trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias
quebrar a affeio mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir!
A minha reputao de prudente, vers que era bem merecida."

Dizendo isto o kalifa ergueu as mos como quem ia a bater as
palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o
menor indicio de perturbao ou terror.

"No chames ainda os eunuchos; porque assim  que ds provas
de que no a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir.
Para matar ou morrer sempre  tempo. Escuta, pois, o infame, o
hypocrita at o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e
altivo Abdallah? Bem sabes que elle  incapaz de mentir a seu
amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades
possiveis."

O fakih desatra de novo n'um rir trmulo e hediondo. Metteu
a mo no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras
de pergaminho: p-las sobre a cabea e entregou-as ao kalifa,
que comeou a lr com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi
empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir
sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as mos,
murmurou:--"Meu Deus! porque te mereci isto!"

Al-muulin fitra nelle um olhar de girifalte, e nos labios
vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel.

Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos
rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos
cheiks berebres, dos que se haviam domiciliado na Hespanha,
conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais
importante, porm, de tudo era uma extensa correspondencia com
Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem,
que por graves offensas passra ao servio dos christos de Oviedo
e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela.
Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se
via que Abdallah contava no s com os recursos dos mussulmanos
seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infiis
por interveno de Umeyya. A revoluo devia rebentar em Cordova
pela morte de Al-hakem e pela deposio de Abdu-r-rahman. Uma parte
da guarda do alcaar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que
figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro
do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes
personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias
desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarm com aquella
individuao que nas suas cartas elle constantemente exigia.
Al-muulin falra verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de
si a longa teia da conspirao, escripta com letras de sangue
pela mo de seu proprio filho.

Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dr
na postura que tomra. O fakih olhava fito para elle com uma
especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu
o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o
sentimento da vida.

" tarde:--disse o fakih.--Chegar em breve a manhan. Chama os
eunuchos. Ao romper do sol a minha cabea pregada nas portas
de Azzahrat deve dar testemunho da promptido da tua justia.
Elevei ao throno de Deus a ultima orao, e estou apparelhado
para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lanar
sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando
a justia espera no so boas horas para meditar ou dormir."

Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e
insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal
reprimido.

A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas
cogitaes. Poz-se em p. As lagrymas haviam corrido por aquellas
faces, mas estavam enxutas. A procella de paixes encontradas
tumultuava l dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrra
apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mo mirrada
de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse:

"Homem que guias teus passos pelo caminho do cu; homem acceito
ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior
 fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas
tu esquece-lo! Agora estou tranquillo ... bem tranquillo ...
Abdallah, o traidor que era meu filho, no concebeu to atroz
designio. Algum lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo
soberbo as vans e criminosas esperanas de subir ao throno por
cima do meu cadaver e do de Al-hakem. No desejo sabe-lo para
o absolver; porque elle j no pde evitar o destino fatal que
o aguarda. Morrer; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus
confiou-me no Andalus a espada da suprema justia. Morrer; mas
ho-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo."

"Ainda ha pouco te disse--replicou Al-gafir--o que pde inventar o
dio que  obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferena,
e at da submisso. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste
no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um
homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o
talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo.
Has-de confessar que se houve com destreza. S n'uma cousa no:
em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? ...
no digo bem ... fazer-me seu instrumento ... A mim! ... Queria
que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas allianas
com os amires infiis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou
a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as
mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado
dos christos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude
colligir estas provas de conspirao. Loucos! as suas esperanas
eram a miragem do deserto... Dos seus alliados apenas os de Zarkosta
e das montanhas de Al-kibla no foram um sonho. As cartas de
Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era
feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra
de Umeyya, esse  um segredo que depois de tantas revelaes, tu
deixars, kalifa, que eu guarde para mim ... Oh, os insensatos!
os insensatos!"

E desatou a rir.

A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revoluo, que ameaava
trazer  Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil,
devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessrio
afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter
energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle
desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio
amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do
corao a cruel lembrana de que era um filho que ia sacrificar
 paz e  segurana do imprio, o kalifa despediu Al-muulin, e
mandando immediatamente reunir o divan deu largas instruces
ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os
conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos
mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman
aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar
das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente
por salvar a vida de seu irmo, o kalifa mostrou-se inflexivel.
A cabea de Abdallah cahiu aos ps do algoz na propria camara do
principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra
em que o tinham lanado, evitou assim o supplicio.

O dia immediato  noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman
e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para
Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres famlias.

[1] Os rabes designavam os reis de Oviedo e Leo pelo
titulo de reis de Galliza.



IV


Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se
reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah,
ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas,
faziam sobre-sar as feies enrugadas, a pallidez do rosto, o
encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as caractersticas
do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas
mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas
entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiriadas
dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida
nssa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba
longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado
sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o
illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava
com outro velho, que, em p defronte delle, o escutava attentamente;
mas a sua voz saia to fraca e lenta, que, apesar do silencio
que reinava no aposento, s na curta distancia a que estava o
outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa.

O seu interlocutor  uma personagem que o leitor conhecer apenas
reparar no modo por que est trajado. A sua vestidura  uma aljarabia
de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que
nisto cifrou todos os commodos que acceita  civilisao. Est
descalo, e a grenha hirsuta e j grisalha cahe-lhe sobre os
hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez no 
pallida, os seus olhos no perderam o brilho, como a tez e como
os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina
a cr mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo;
nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixes
ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a
jorrar do volco que ainda parece dormir.  Al-muulin, o sancto
fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio
da intentada revoluo de Abdallah.

Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos
acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobrra a conspirao
que se urdia, e desde ento nunca mais se vra Abdu-r-rahman
sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do
algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descra como
a maldico do propheta sobre a cabea do principe dos crentes.
Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem
a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della
seno momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da
vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonra
os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da
escrava Nuirat-eddia, a conversao instructiva da bella Ayecha,
e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adoava
a existencia aborrida do velho leo do islamismo. Mas apenas
Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia
retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem,
to temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas
doutrinas, prgadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo.
Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e,
ao v-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os
sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da
sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a
outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio
que havia entre ambos ninguem o podia entender.

E todavia a explicao era bem simples: estava no caracter
extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado
de principe absoluto, situao em que so faceis grandes virtudes
e grandes crimes. Habituado  lisonja, a linguagem aspera e
altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de
ser para elle inaudita; depois a reputao de virtude de Al-gafir,
a crena de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar
e ao imperio, arrostra com a sua colera, e provra desprezar
completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman
visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem
predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte,
Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era
como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvao at o
throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperana de um futuro incerto,
que no podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido
pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto
de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao
carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando
para o ceu. Mas, s vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das
expanses mais sinceras, dos mais ardentes vos de uma piedade
profunda, de uma confiana inteira na misericordia divina, o Fakih
fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso
diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora,
que a gelar no corao do kalifa as consolaes da piedade, e
despertar remorsos e terrores, ou completa desesperao. Era um
jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o
palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as
garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma
estava o segredo da attraco e repugnancia, que ao mesmo tempo o
velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em
Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava
todos os dias.

A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do
oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado
do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia
ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de
Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas j de um verde amarellado
e mortal, desprendiam-se das tranas das romeiras, dos sarmentos
das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam,
e, remoinhando nas correntes da ventania, am, am, at rastejar
pelo cho e empear na grama scca dos prados. O kalifa, exhausto,
sentia aquelle ciclo da vegetao moribunda chama-lo tambem para
a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito.
Al-muulin durante a conversao daquella tarde havia-se mostrado,
contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras
havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava.

"Conheo que se aproxima a hora fatal:--dizia o kalifa.--Nestas
veias em breve se gelar o sangue; mas, sancto fakih, no me ser
licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre
os mussulmanos, o mal entre os infiis: fiz emmudecer o livro
de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno
firmado no amor dos subditos e na venerao e temor dos inimigos
da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer
pela gloria do Islam. Que mais pretendes?--Porque no tens nos
labios para o pobre moribundo seno palavras de terror?--Porque ha
tantos annos me fazes beber gole a gole a taa da desesperao?"

Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado
fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava
fazer gelar todas as ardentes idas mysticas do principe, lhe
assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento
o do velho monarcha, onde de feito j vagueavam as sombras da
morte: depois dirigiu-se  porta da camara, assegurou-se bem
de que no era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando
para ao p do almatrah, tirou do peitilho um rlo de pergaminho,
e comeou a ler em tom de indizivel escarneo:

"Resposta de Al-gafir o triste s ultimas perguntas do poderoso
Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor,
justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raa dos
Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia."

Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto.
Al-muulin continuou:

"No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha
havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do
propheta, e que no sabia torcer por humanos respeitos a voz
da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmo
de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais
illustres do Islam, segundo diziam."

"Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe
falava verdade, e rebatia as adulaes dos seus lisongeiros.
Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed
converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu
n'uma sentena de morte. A cabea do ministro cahiu no cadafalso,
e a sua memoria passou  posteridade manchada pela calumnia.
Todavia o principe dos fiis sabia bem que tinha assassinado um
innocente."

As feies transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expresso
horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pde fazer um signal
como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

"Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado
te allivia e revoca  vida. Continuarei. Podesse eu prolongar
assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

"Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmo,
ficou como insensato.  saudade ajunctava-se o horror do ferrete
posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu
as supplicas mais vehementes ao prncipe dos fiis para que ao
menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se
que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir...!
Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.
O moribundo arrancou um gemido.

"Ests um pouco melhor ... no  verdade, invencivel kalifa?
Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro
que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristo de
Al-djuf no se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha
passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas at o
Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid
de Chantaryn. Com um numeroso esquadro de amigos leaes este
ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb at Merida.
Foi uma esplendida festa; um sacrifcio digno da memoria de seu
irmo. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu
em torrentes."

"Pouco a pouco Umeyya comeou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem
o offendra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingana fra
a de uma besta-fra; fra estpida e van. Ao kalifa, quasi sempre
victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de
Chantaryn mudou ento de systema. A guerra publica e inutil
converteu-a em perseguio occulta e efficaz:  forca oppoz a
destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas.
Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer  luz do dia ningum
o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda
de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros
e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o
sol dos desertos. Corrra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por
toda a parte os thesouros da sua famlia e os prprios thesouros
at o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos
fiis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos
porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos
em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca
do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde
esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto
fakih..."

Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera
um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficra
sentado, hirto e com as mos estendidas. Queria bradar, mas o
sangue escumou-lhe nos labios, e s pde murmurar j quasi
inintelligivelmente:

"Maldicto!"

"Boa cousa  a historia,--proseguiu o seu algoz sem mudar de
postura--quando nos recordmos do nosso passado, e no achmos l
para colher um nico espinho de remorso!  o teu caso, virtuoso
principe! Mas sigamos vante. O sancto fakih Al-muulin foi quem
instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu
Abdallah; quem delatou a conspirao; quem se apoderou do teu
animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos;
quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto s
portas do inferno que se foste o assassino de seu irmo, tambem
o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu
nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctar o de tyranno. Ouve
pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos.
Ouve, ouve, kalifa!"

Al-gafir, ou antes Umeyya, levantra gradualmente a voz, e estendia
os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos
reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos,
e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo.
A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena no seria
facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante
do cadaver era a expresso mais energica da atrocidade de corao
vingativo.

"Oh, se no ouviria as minhas derradeiras palavras!..."--murmurou
o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se
depois a scismar largo espao: as lagrymas rolavam-lhe a quatro
e quatro pelas faces rugosas.--"Um anno mais de tormentos, e
ficava satisfeito!--exclamou por fim.--Podra eu dilatar-lhe a
vida!"

Dirigiu-se ento para a porta, abriu-a de par em par e bateu as
palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto
pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin
parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta
e grave disse:

"Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

Houve quem o visse sar, quem  luz baa do crepusculo o visse
tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das
lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa.
Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ningum mais o viu desde
aquelle dia.





ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)




A Arraya-Miuda


O sino das ave-marias, ou da orao, tinha dado na torre da s
a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multido de
casas, que apinhadas  roda do castello, e como enfeixadas e
comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa,
pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acol as
luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam
como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a
hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos,
a estreita senda de bosque deserto no era mais triste, temerosa
e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da
capital. O que, porm, havia ahi desacostumado e estranho era o
completo silencio e a escurido profunda em que jazia sepultado o
pao d'apar S. Martinho, onde ento residia elrei D. Fernando, ao
mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de
passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido
agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse
mar revolto no tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia
que vem aps a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poder averiguar por
seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarado,
quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho
Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da s, na rua
que sobe para os paos da alcaova, sete ou oito portas acima
dos paos do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal
ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lanarote
Peanha, e que havia annos abandonra o servio maritimo para se
dar  mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa,
no s pelo luxo do seu adereo, e bondade dos liquidos encerrados
nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um
aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e
muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo
aos tavolageiros de profisso, para perderem ou ganharem ahi,
em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de
ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario
dos seus antecessores e successores, julgra ser mais rico e
poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que
roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal,
segundo o costume de todos os reis no comeo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do
corregedor da crte e de todos os saies, algozes e mais familia
da nobre raa dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante
estabelecimento industrial. O elixir que elle empregra para
produzir essa maravilhosa cegueira no sabemos ns qual fosse;
mas  certo que no se perdeu com a alchimia, porque se v que
elle existe em mos abenoadas, produzindo ainda hoje repetidos
milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida
vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhana desta porta
da antiga crca, onde os rudos vagos e incertos, que sussurravam
pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como
em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se,
estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante
fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que
trasbordava at o breve terreirinho da s, falando todos a um
tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que s
vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e
blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava
aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente
a colera popular.

J no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje,
colerico. Ento coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa
de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos
lados, no meio de uma espessa m de populares, ouviam-se palavras
ameaadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes
individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o
vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdio se
revelava nos seus coromens de panno d'Arrs, nos cinctos escuros,
nas camisas e vus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes
e esganiadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro
e insolencia daquellas desgraadas. Em cima dos bofetes viam-se
picheis e taas vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados,
que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que s vezes
sobresaam atravs do rudo daquelle respeitavel congresso, no
provassem que esses honrados cidados, suavemente embalados pelos
vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma
boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo
companheiro de gloria de micer Lanarote estava visivelmente
prostituida e livelada com as mais immundas e vis baicas de
Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e
pela primeira vez o vicio e a corrupo tinham transposto aquelles
umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos
do povo no tem cabida os adornos de ouropel.  a unica differena
moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crem
melhores, porque no gymnasio da civilisao aprendem desde a
infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor
aquelle turbilho de planetas; o centro moral,  roda do qual
giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras
de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados
e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa.
Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento,
e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que
o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora
sobresaa no rudo, e s se confundia com alguma jura blasphema
que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as
modulaes das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e
abafado, de certo modo semelhantes a claro affogueado que sulcasse
rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea
de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduao se conhecia pelos
barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calas
de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados
de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo,
que lhes alargava a passagem, chegaram ao p do homem alto e
trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo
que nenhum dos circumstantes pde conhecer quem eram. Bastantes
desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o
indagar; mas uma identica reflexo atou todas as mos. Ao longo
da cxa esquerda dos embuados via-se reluzir a espada, e no lado
direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote
deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para
virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que
entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente
bsteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos,
portanto, o pr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao
homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabea
fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a
turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de
respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados
ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com
as cabeas apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como
alheios ao sussurro que comeava a alevantar-se de novo  roda
delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez
voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello,
elle deu signal com a mo de que pretendia falar.

"Ouvide! Ouvide!"--bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella
multido desordenada.

Todos os pescoos se alongaram a um tempo, e viram-se muitas
mos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das
orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador
principiou:

"Arraya-miuda[1]! tendes vs j elegido, entre vs outros, cidados
bem falantes e avisados para propr vossos embargos e razoados
contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher
de Joo Loureno da Cunha?"

"Todos  uma entendemos que deveis ser vs, mestre Ferno Vasques:
--respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios
d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de
conta entre os populares.--Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais
discreto e aposto para taes autos que vs? Quem com mais urgentes
razes proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do
que vs o fizestes hoje na mostra que dmos ao pao esta tarde?"

"Alcacer, alcacer! por nosso capito Ferno Vasques:--bradou unisona
a chusma.

"Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambo!--replicou Ferno
Vasques, socegado o tumulto.--Pelo razoado de hoje terei em paga
a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do manhan terei
as mos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e
enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vs por averiguado,
mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o n da
corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em
costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais
rijo no gasnate de um christo que a vossa ench n'uma aduela
de pipa?"

"Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha
da bsta, me no estourar:--exclamou um bsteiro de conto,
cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam
derribado certas perturbaes d'enthusiasmo politico.

"Amendico Vobis!--gritou um beguino, cujas faces vermelhas e
voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com
as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

"Ol, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres
vir nesse bordo por nossa esteira:--bradou um petintal d'Alfama,
que, segundo parecia, capitaneava um grande troo de pescadores,
barqueiros e galeotes daquelle bairro, ento quasi exclusivamente
povoado de semelhante gente.

"Digo por linguagem"--acudiu o beguino--"que ningum como mestre
Ferno Vasques  homem de cordura e sages para manhan falar a
elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles,
do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil
em ousadia para fugir s gals de Castella e doestar os bons
servos da igreja."

Era alluso pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu
 mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo
modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de
dar a unhada, vem roar-se mansamente pela mo que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a m
vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascra da
emulao; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno
de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um
delles se assentava.

Se, pois, aquella multido no estivesse persuadida da superioridade
intellectual do alfaiate Ferno Vasques, a opinio desses dous
oraculos lhe no teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia,
nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento
de odio que nascra n'um dia, e n'um dia lanra profundas raizes
nos coraes de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao
mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam
juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre
este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas,
erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando
um pouco mais alto.

O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de Joo Loureno
da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso
da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos
dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes
cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e
corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto
e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse
favoravel. Quanto a elrei, a paixo violenta em que este ardia
lhe assegurava a ella o completo dominio no seu corao. Mas
as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubia,
de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do
que na triste vangloria de vr a seus ps um rei bom, generoso
e gentil. Atravs do amor de D. Fernando ella s enxergava o
refulgir da cora, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de
rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas
as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias,
a ida primitiva de todas as suas idas. Leonor Telles no amava
elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della;
e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes,
e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre
superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na
horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade,
quasi insuperavel para outra que no fosse D. Leonor, se interpunha
entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo
de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D.
Leonor, ou que sabiam at onde chegava a sua vingana, a livrou
desse tropeo. Seu marido, Joo Loureno da Cunha, atterrado,
fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia,
a occultas com ella, muito antes da epocha em que comea esta
narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradies
severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da cora e
pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella,
cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com
a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D.
Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o
infante D. Diniz, o mais moo dos filhos de D. Ignez de Castro,
e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeas
da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de
seu animo; este por gratido a D. Henrique de Castella, em quem
achra amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o
salvra da triste sorte de Alvaro Gonalves Coutinho e de Pedro
Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D.
Ignez.

O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor
vago, uma suspeita. Os nobres, porm, que o desapprovavam souberam
transmittir ao povo os proprios temores; e a agitaco dos animos
crescia  medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos.
D. Fernando tinha j revelado aos seus conselheiros a resoluo
que tomra, e estes, posto que a principio lhe falassem com a
liberdade que ento se usava nos paos dos reis, vendo suas
diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio
essa malaventurada resoluo. O povo, porm, no se contentou
com isso.

Conforme as idas desse tempo, alm das consideraes politicas,
semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo
de religio, o qual ainda de maior peso seria hoje, e s-lo-ha em
todos os tempos em que a moral social fr mais respeitada do que
o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro
adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser
considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como
fiadores da successo da cora.

A irritao dos animos, assoprada pela nobreza, tnha chegado
ao seu auge, e a colera popular rebentra violenta na tarde que
precedeu a noite em que comea esta historia.

Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente s portas do
pao, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito
que fazia aquella multido desordenada assustou elrei, que por
um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que
estavam assim reunidos. Ento o alfaiate Ferno Vasques, capito
e procurador por elles, como lhe chama Ferno Lopes, affeiou
em termos violentos as intenes d'elrei, liberalisando a D.
Leonor os titulos de m mulher e feiticeira, e asseverando que o
povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga
rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de
gritas insolentes e ameaadoras do tropel que o seguia, moveu
elrei a responder com agradecimentos s injurias, e a affirmar
que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo
ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro
de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco
a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar
S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solido,
elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom
e fiel povo de Lisboa, as vidraas cradas das esguias janellas
dos paos reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o
esplendor dos sarus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro,
contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas,
com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com
o perpassar contnuo dos magotes e pinhas de gente que se
encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam
immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para
se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem
motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as
vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na
sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo
passava, rei de um dia. Esse rudo, essa vertigem que o agitava
era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena
noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada
profunda, alumiavam o saru popular, as salas do seu folguedo,
a praa e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

Na taberna de micer Folco (onde deixmos as personagens principaes
desta historia, para inserir, talvez fra de logar, o prologo ou
introduco a ella) as acclamaes freneticas dos populares tinham
tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia
seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Ferno Vasques. Fr.
Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito
esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com
o ruido dos amplos pulmes dos galeotes d'Alfama, contrabidos
como em voga arrancada, victoriando o seu capito. O alfaiate
no pde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta
popularidade, e em p sobre o escabello, com a cabea levemente
inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignao e de
bemaventurana, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso
que revelava uma parte dos mysterios do seu corao. Emfim, quando
a grita comeou a asserenar, Ferno Vasques ergueu a cabea, e
com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

Fez-se de novo silencio.

"Seja, pois, como quereis:--disse o alfaiate--mas vede o gro risco
a que me ponho por vs outros. Falarei eu a elrei com liberdade
portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado
de sua real senhoria, mas  necessario que vs todos quantos
ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre
de S. Domingos. Dizem que a adultera  mulher de grande corao
e ousados pensamentos; em Lisboa esto muitos cavalleiros seus
parentes e parciaes. Bsteiros deste concelho, que no vos esqueam
em casa vossas bstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas
ascumas! Os trons e engenhos do castello--accrescentou o alfaiate
em voz mais baixa e hesitando--no vos apoquentaro, ainda que
elrei o quizesse, porque o alcaidemr Joo Loureno Bubal no
 dos affeioados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago
sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar,
amigos!"

--"Alcacer, alcacer!--respondeu a turbamulta.

"Morra a combora!"--gritou Ayras Gil com voz de trovo.--"Morra
a combora!"--repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos
coromens d'arrs e cinctos pretos, que assistiam quelle conclave.

"Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor
tem ouvido subtil:"--disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso
diablico.

"Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"--replicou o
petintal.--"Quando eu quero que me ouam  que falo alto. Alcacer
por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella
e de feitios!"

O petintal emendava a mo como podia. E entre morras e alcaceres;
entre risadas e pragas; entre ameaas vans e insultos inuteis,
aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se
pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se
pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes
deitadas juncto s razes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.

Com os braos cruzados o alfaiate contemplava aquella multido, que
diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel
ao gemido do tufo, que passa de noite pelas saras da campina.
Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde sara o vulto
indelineavel chamado povo, e j ninguem ahi estava, salvo os
dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma
postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirra sobre um
dos bofetes, e j roncava e assobiava como em somno profundo.

Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um
ainda a barba de homem no pungia nas faces: o outro, na alvura
das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros  moda
de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser j
bem larga a historia da sua peregrinao na terra.

O mancebo olhou para Ferno Vasques, que parecia absorto, e depois
para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para
elle, e sorriu-se. Depois o ancio chamou o alfaiate em voz baixa,
mas perceptivel.

Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos,
estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava
em p, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:

"Senhor infante, que vossa merc me perde e o senhor Diogo Lopes
Pacheco!  f que, no meio d'este arrudo, quasi me esquecra
de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que
posso responder pelo povo, e de que manhan no faltaro em S.
Domingos?"

"Na verdade--respondeu o mancebo--que tu governas mais nelle
que meu irmo com ser rei! Veremos se manhan te obedecem como
te obedeceram hoje."

"s um notavel capito:--accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo
no hombro do alfaiate.--Se fosses capaz de reger assim em hoste
uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um
castello."

"Que s entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite
ou de dia, quelle que de mim tivesse preito e menagem."

"Bem dicto!--interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que
comera.--Se t'a negarem no ser por errares as palavras do
preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Ferno Vasques;
muito longe! Assim eu a tivera, de que no me ser preciso cozer
 ponta de punhal a bca de quem ousar dizer que o infante D.
Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna
do gonovez Folco Taca."

Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saram
dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino
que dormia foram mais rapidos e tremulos.

"Quem  aquelle ichacorvos?--proseguiu Diogo Lopes, apontando
para Fr. Roy com um gesto de desconfiana.

" um dos nossos:--respondeu o alfaiate--um dos que mais tem
encarniado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada
desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paos d'el-rei.
Por este respondo eu. No tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe
cozer a bca  ponta de vosso punhal."

"Responde por ti, honrado capito da arraya-miuda--replicou o
velho cortezo.--Quem me responde por elle  o seu dormir profundo:
quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria
este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto
manhan elrei se demorar em S. Domingos, um troo d'arraya-miuda
e bsteiros ha-de commetter o pao, e ou do terreiro, ou rompendo
pelos aposentos interiores,  necessario que uma pedra perdida,
um tiro de bsta disparado por engano, uma ascuma brandida em
algum corredor escuro, nos assegure que elrei no pde deixar
de attender s supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidados
de Lisboa."

"Morta!--exclamou o infante com um gesto de horror.--No, no,
Diogo Lopes; no ensanguenteis os paos de meu irmo, como ..."

"Como ensanguentei os paos de Sancta Clara:--atalhou
Pacheco--dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram c
dentro. Senhor infante, vs esquecestes-vos d'isso, porque eu
posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambio
tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue!
Vs passastes vante, e no vistes os do sangue de vossa me!
Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor
infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem
a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente reca."

D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. No respondeu nada;
mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

Ferno Vasques escutou a preleco politica do velho matador
de D. Ignez de Castro com religiosa atteno. E resolveu tambem
l comsigo no se deixar cahir no fojo.

"Far-se-ha como apontaes:--disse elle falando com Diogo Lopes--mas
se os homens d'armas e bsteiros de Joo Loureno Buval descerem
do castello..."

"No te disse, ainda ha pouco, que Joo Loureno ficaria quedo no
meio da revolta?--Podes estar socegado, que no te certifiquei
d'isso s para animares o povo.  a realidade. Agora tracta de
dispr as cousas para que no seja um dia inutil o dia d'manhan."

Pegando ento na mo do infante, o feroz Pacheco sau da taberna,
e tomou com elle o caminho da Alcaova. Ferno Vasques ficou
um pouco scismando: depois sau, dirigindo-se para a porta do
ferro, e repetindo em voz baixa:--"No me precipitarei no fojo!"

Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho
a cabea, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou
para o cho, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada
por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundra,
chegou  porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso
encaminhou-se para a torre da s da banda do norte, e como um
fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da
cathedral.

[1] Ferno Lopes d a entender (Chr. de D. Joo I. P.
1. c.44) que a denominao de arraya-miuda se comera a dar aos
populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para
os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor
e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado
para si o povo miudo j d'antes e com muita seriedade. Em um
documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3 das Doaes fol.
42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes
e concelho de Bragana e toda a arraya-miuda.

[2] Ferno Lopes affirma que Pacheco no tornra ao
reino desde que fugra por escapar  vingana de D. Pedro I por
causa da morte de D. Ignez, seno no anno de 72, em que viera
por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr.
Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituio
de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no comeo
do seu reinado. No  isto que prova a assistencia de Pacheco
em Portugal no anno de 1371, no s porque depois de vir podia
voltar para Castella, mas tambem essa restituio podia ser feita
estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruio d'um
titulo, ou de terras da cora, por simples merc, no obrigando
a servio pessoal, ao menos at o tempo de D. Joo I, no tornava
necessaria a presena do donatario no reino. O que prova a verdade
da opinio de Santos  a doao feita a Diogo Lopes em 1371
(Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento
de sua quantia, o que supe servio pessoal; porque era pelas
quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.



O Beguino.


Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo,
miseravel, insalubre, que por si s bastra a servir de castigo
a grandes crimes[1], ainda v na extermidade delle umas ruinas,
uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca
altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta
janella so tudo o que resta dos antigos paos d'apar S. Martinho,
igreja que tambem j desappareceu, sem deixar sequer por memoria
um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro  um dos
monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradies de remotas
eras. Nenhuns paos dos nossos reis da primeira e segunda dynastia
foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente
pelos nomes de paos d'elrei, paos dos infantes, paos da moeda,
paos do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos
tempos. So da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis
portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta
Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa,  um mysterio! Se,
transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos,
nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas
pde achar a certido do seu nascimento e dos annos da sua vida!
Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio 
roda de ns, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive
eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque
jazem ahi!

Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no
captulo antecedente, essa janella dos paos d'elrei era a unica
aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas
as outras. S, de quando em quando, quem para l olhasse attento
do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que
ora se chegava  janella, ora se retrahia. Mas o silencio que
reinava naquelles sitios no era interrompido pelo menor rudo.
De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho
as palmas: a figura alvacenta chegou  janella, debruou-se,
disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar
e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto
que chegra subiu rapidamente, e ambos desappareceram atravs
dos corredores e aposentos do pao.

Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos
braos de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia
idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu
aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma
porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a
passear, parando s vezes com os braos cruzados e como entregue
a cogitaes dolorosas.

Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio:
mo alva de mulher o segurava. Esta entrou, aps ella um homem
alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto,
d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou
vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura
de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento.
O homem que passeava assentou-se tambm no unico escabello que
alli havia. Fr. Roy, que o leitor j ter conhecido, ficou ao
p da porta por onde entrara, com a cabea baixa e em postura
abeatada.

"Aproxima-te, beguino!"--disse com voz trmula elrei; porque era
elrei D. Fernando o homem que se assentra.

Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

"Que ha de novo?"--perguntou elrei.

"O povo cada vez est mais alvorotado, e jura falar rijamente
manhan a vossa senhoria. Mas essa no  a peior nova que eu
trago!"

"Fala, fala, beguino!--acudiu elrei, estendendo a mo convulsa
para o ichacorvos.

" que manhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos,
o pao ser accommettido. Pretendem matar..."

"Mentes, beguino!--gritou a dama, erguendo-se do estrado de um
salto, semelhante a tigre descoberto pelos caadores nos matagaes
da sia.--Mentes! Podem no me querer minha: mas assassinar-me!
Isso  impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as
mercs que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte.
Os fidalgos podem persuadi-lo a oppr-se ao nosso casamento; mas
nunca a pr mos violentas na pobre Leonor Telles."

"Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na
minha vida:--replicou o ichacorvos com ar contrito.--Mas ouvi
com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execuo,
haver tres credos, na taberna de Folco Taca."

"Miseraveis!--bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco
da sua amante restituira por um momento a energia.--Miseraveis!
Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-ho.
Quem ousa ordenar tal cousa?"

"Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate
Ferno Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmo D. Diniz
estava tambem com elles:"--respondeu Fr. Roy.

O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

"Velho assassino!--exclamou D. Fernando--cubriste de luto eterno
o corao do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu
amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos
para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"

O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mos, arquejando
violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios
esbranquiados revelavam mais odio que terror, lanou-lhe um
olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

"Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu,
triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens,
que vo pregar um poste  porta destes paos, e mandae-me amarrar
a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaar-me
tranquillamente manhan sem profanar os vossos aposentos reaes.
Ser mais uma grande merc que lhe fareis em recompensa do seu
amor  vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."

"Leonor, Leonor, no me fales assim, que me matas!--gritou D.
Fernando, deitando-se aos ps de D. Leonor e abraando-a pelos
joelhos, com um chro convulso.--Que te fiz eu para me tractares
to cruelmente?"

"D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se
rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma
do peo sobre o throno real. Quem no sabe brandir o ferro, cede;
deixa-o reinar."

"Tens razo, Leonor!--disse D. Fernando, enxugando as lagrymas
e alando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignao.
--Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae.
Eu mesmo vou ao alcaar examinar os engenhos mais valentes que
cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotes e de
cadaveres: os montantes e as bstas dos homens d'armas e bsteiros
do meu alcaide-mr de Lisboa faro o resto. Joo Loureno Bubal
ser fiel a seu rei. Se necessario fr com minhas proprias mos
ajudarei a pr fogo  cidade, para que nem um revoltoso escape.
Adeus, Leonor: conta que sers vingada."

D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy
estava immovel diante delle.

"Joo Loureno Bubal--disse o espia sem se alterar-- dos revoltosos.
Ouvi-o da bca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Ferno
Vasques. Os trons do alcacer esto desapparelhados; e a maior parte
dos homens d'armas e bsteiros do alcaide-mr eram na taberna de
Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam...."

"Cal-te, beguino!"--gritou elrei, empurrando-o com fora e procurando
tapar-lhe a bca.

O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e
ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo
golpe lanava de novo na sua habitual perplexidade.

"... A adultera:--proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque
ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu
ministerio.

"Beguino!--atalhou D. Leonor com voz trmula de raiva--melhor
fra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bca; porque
talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."

"Mas que faremos!?--murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.

"Havia ainda ha pouco tres expedientes,--respondeu D. Leonor,
recobrando apparente serenidade--combater, ceder, fugir. O primeiro
 j impossvel; o segundo!... Porque no o acceitas, Fernando?
Prestes estou para tudo. No me vers mais, ainda que, longe de
ti, por certo estalarei de dor. Cede  fora: os teus vassallos
o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"

"Esquecer-me de ti? No te vr mais? Nunca! Obedecer  fora?
Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:--rei de Portugal,
obedece  fora?--Os pees de Lisboa?! Porque sou manso na paz,
no crem que a minha espada no campo de batalha crte arnezes
como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da
minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras
e solares? O povo vos acordar como me acordou a mim; bramir como
os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no
meio de vossos banquetes, por entre o rudo de vossos folgares.
No ardor de vossos amores dir-vos-ha:--desamae!--Elle ousa j
dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgraado de mim, desgraado
de mim!"

"No queres, pois, deixar-me entregue  minha estrella?--disse
D. Leonor, com voz entre de chro e de ternura, abraando pelo
pescoo o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida
s faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio
olhava espantado para ella.

"No, no! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno,
ou tu subirs a elle."

Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor
Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo
tempo de resignao, proseguiu com voz lenta mas firme:

"Ento resta o fugir."

"Fugir!"--exclamou elrei. E esta palavra s era mais expressiva
que narrao bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado
curtia no corao irresoluto mas generoso, com a ida de um feito
vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um
rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico,
semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras
de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do
seculo quinze, a arte moderna a muito custo pde fazer resurgir. O
mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura
d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feies de
D. Leonor, se no fossem duas rugas que lhe desciam da fronte
e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se
rapidamente, como as vesiculas peonhentas das fauces d'uma vibora.

"Seja, pois, assim! Fujamos:"--murmurou D. Fernando com o tom e
gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdo
ao algoz.

D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura,
uma bola de ouropel, e atirou com ella aos ps do beguino, que,
de mos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na
abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos
sublimes do ceu.

"Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu
silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera
atravessar triumphadora o portal por onde vae sar fugitiva."

O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram
correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas
pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu
immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram
o vigor natural.

Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico
do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo
terror e compaixo. Quando o beguino alevantou a bola, D. Fernando
fitou nelle os olhos e estendeu a mo para o reposteiro sem dizer
palavra.

Fr. Roy curvou a cabea, cruzou de nova as mos sobre o peito,
e, recuando at a porta, desappareceu no corredor escuro por
onde entrra.

Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar,
D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto
terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar
a excessiva luz do sol. A noite a em meio do seu curso, como o
indicava o mortio das tochas, que mal allumiavam o aposento, e
a lua, j no minguante, comeava a subir na abobada do firmamento,
mergulhando no seu claro sereno o brilho esplendido das estrellas.
A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo
e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de
D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio
ao que passava  roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas
horas para poder levar a cabo a resoluo que tomra. Leonor Telles,
encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A
cidade dormia; e apenas o ladro de algum co cortava aquella
especie de zumbido, que  como o respirar nocturno de uma grande
povoao que repousa. L em baixo uma faixa trmula, semelhante
a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Tjo, d'onde mais
largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de
navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem at o promontorio
onde campeava fra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma
especie de floresta lanada entre a cidade e a sua immensa bahia.
Desde o terrado, para o qual dava a janella, at o rio, o bairro
dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes
e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo,
cuja hase assentava sobre o lano oriental da muralha mourisca, e
cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga,
abrigada  sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante
do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua
batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e
meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas.
No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de
um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edfico
da antiga Olisipo, que esquecra alli aos terremotos, s guerras e
aos incendios, e ao qual finalmente chegra a sua hora de desabar,
porque uma alta escada de mo estava encostada  verga que assentava
sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem
posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e
derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabea baixa, os
braos estendidos, e as mos encurvadas sobre os joelhos, parecia
vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de
compaixo por alguns momentos, e, estendendo para elle os braos,
exclamou:

"Fernando!"

Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de
amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor
Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do
tigre.

Elrei deu um estremeo, como se pelos membros lhe houvera coado
uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braos
de Leonor Telles.

"manhan--disse elle com voz affogada,--o rei mais deshonrado
da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas
ser D. Fernando de Portugal. Que me resta? S o teu amor; mais
nada. Porque no me pedem antes a cora real, que para mim tem
sido cora de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor!
serias a mulher mais perversa se um dia me atraioasses."

Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta
mulher tinha um toque divino  claridade da lua. D. Fernando,
embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam
para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

"Fernando!"--proseguiu D. Leonor--"jura-me ainda uma vez que sers
sempre meu, como eu serei sempre tua."

Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

"Juro-t'o uma e mil vezes pela f de leal cavalleiro que at
hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos
de meu nobre e valente avo, que lli dorme juncto ao altar-mr
da s, debaixo das bandeiras infiis que conquistou no Salado.
Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"

"Bem est, rei de Portugal!--atalhou D. Leonor.--Agora s uma
cousa me resta para te pedir. No  favor;  justia."

"No me peas Lisboa, que essa sabe Deus se tornar a ser minha,
rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a
cabea nestes paos de meus antepassados, passando por cima das
ruinas dela! No me peas Lisboa, que talvez manhan deixe de
me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."

"Quero que me ds as minhas arrhas: quero o preo do meu corpo,
segundo foro de Hespanha."

"Villa-viosa  alegre como um horto de flores, e Villa-viosa
dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos  forte e roqueiro: so numerosos
e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos
ser teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lenoes d'aguas
vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem  sombra
das penedias: pdes ter por tua a Cintra. Alemquer  rica no
meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamar senhora."

"Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu no t'as peo em
dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."

"De muita ou de pouca, no me importa! Dar-te-hei o que me pedires."

D. Leonor estendeu a mo para a especie de portada romana, que
se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

" alli que tu me dars o preo do meu corpo, se um dia a cerviz
da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."

Elrei lanou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles
tinha o brao estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que
negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peo:
era a forca, ttrica, temerosa, maldicta!

"Leonor, Leonor!--disse elrei com um som de voz cavo e debil--porque
vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor?
Porque interpes um instrumento de morte e de affronta entre mim
e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso s villas e castellos
de que te fao senhora? Porque trocas a estola do clerigo que
ha-de unir-nos pelo barao aspero do algoz?"

"Rei de Portugal!--respondeu a mulher de Joo Loureno da Cunha
com um brado de furor--ainda me perguntas porque o fao? Tu nunca
sers digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto
pensamentos de sangue a pensamentos d'amor?  porque esses de
quem eu o peo pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque
interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? 
porque o teu bom povo de Lisboa quiz tambm interpr entre ns a
morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro
o fructo do cadafalso s villas e castellos que me offereces?
 porque para os animos generosos no ha vender vinganas por
ouro. Vingana, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva!
Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem sero tambem
perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas
o meu nome, porque te amo, o amaldioem, porque levo os seus
caudilhos ao patibulo. Este  o preo do meu corpo. Sem esse
preo a neta de D. Ordonho de Leo[2] nunca ser mulher de D.
Fernando de Portugal."

E com um brao estendido para o logar sem nome[3] do supplicio,
e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher
vingativa era sublime de atrocidade.

"Tens razo, Leonor:--disse por fim D. Fernando, depois de largo
silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel
mudaram gradualmente.--Tens razo. A futura rainha de Portugal
ter o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-ho
para sempre: os coraes que te desejaram a morte deixaro de
bater. No meu throno, at aqui de mansido e bondade, assentar-se-ha
a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se
faltar ao juramento que te fao de lavar em sangue a tua e a
minha injuria."

A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em
um sorrir de inexplicavel doura.

"Oh, como te hei-de amar sempre!"--murmurou ella. E estas palavras
cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba
amorosa.

Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca
da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.

[1] Isto era escrpto em 1844.

[2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender
de D. Ordonho II, rei de Leo.

[3] Logar sem nome. Ns pelo menos no nos atrevemos a
pr-lh'o. Sabemos s que em tempos remotos a forca esteve perto
da igreja de S. Joo da Praa, freguezia cuja existencia data
pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir.
Doc. 2.) Talvez o terreiro ou praa em que ella estava dsse o
cognome  parochia. Desconfimos, todavia, de que este terreiro
se estendesse para o lado oriental da s, e que nesse caso o
nome fosse Aljami. D. Joo I fez merc em 1392 ao bispo de Lisboa
D. Martinho (Chancel. de D. Joo I, L. 2.) de uns pardieiros
no cho d'Aljami, que partem com os paos do dito bispo, para
fazer umas casas e torre. Os paos dos bispos ficavam para o
lado oriental da s. Alm d'isso Aljami parece derivar-se do
arabico aljamea, que significa o lao com que se amarram o pescoo
e as mos.



Um bulho e uma agulha d'alfaiate


O sol, que havia mais de meia hora subra do oriente cingido
da sua aureola de vermelhido, no meio da atmosphera turva e
cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no roco ou
praa onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas
e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e
pelo de Valverde ao norte. J muitos bsteiros e pees armados
de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paos de Lanarote
Peanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas
d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do
almirante[2], outros da banda da alcaova, outros, emfim,
desembocando das ruas estreitas e irregulares que am dar  opulenta
e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos
doze no meio da praa e s bocas das ruas; falavam, meneavam-se,
riam, cbamavam-se uns aos outros. s vezes aquella m de gente,
cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como
a superficie de um pego passando o tufo. Incerta, vacillante,
informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante
a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom
monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro,
cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e
retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas
quando no podesse romper as portas chapeadas de forte castello.
Ento aquella multido tomava a frma de meia lua, cujas pontas
se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham
topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira,
d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam
pela vastido do terreiro. O povo, que dorme s vezes por seculos,
fra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa
possante vida da praa publica, em que de ordinario  ridiculo
e feroz; mas em que no raro  sublime e terrivel.

Era a manhan immediata  noite em que occorreram os successos
narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta
moral com o seu rei, mas no se descuidra de vir prestes para uma
lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo
argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava
mostras da sua fora e reivindicava o direito de dizer armada--no
quero!--O elemento democratico erguia-se para influir activamente
na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da
aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra
o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a fora
popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam
os animos  revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia.

A hora aprazada para a vinda d'elrei ainda no havia batido; mas
o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera,
embevecido na ida de que obrigaria elrei a quebrar os laos
adulterinos que o uniam a Leonor Telles, no media o tempo pelo
curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se
espalhra a voz de que D. Fernando chegra, e duas vezes o povo
corrra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam,
porm, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas
frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento
terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em
cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que
sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos
e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados
na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de
lodo, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas
lhes imprimra o esculptor, escarnecerem da colera popular, que,
lenta como os stos do oceano, comeava a crescer e a trasbordar.
Apenas l dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas
do orgo e do cantocho monotono dos frades, que offereciam a
Deus as preces matutinas. Era ento que o povo escutava: e
retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saam de
mil bcas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro
dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam
por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de
resignao e de confiana em Deus.

O povo, porm, era como os homens robustos do Genesis: era impio,
porque era robusto.

O dia crescia, e crescia com elle a desconfiana. As noticias
corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedra aos desejos
dos seus vassallos e dos pees, e que viria annuncar ao povo a
sua separao de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava
que elle era firme em sustentar a resoluo contraria. Havia at
quem asseverasse que na alcaova e no terreiro de S. Martnho
se comeavam a ajunctar homens d'armas e bsteiros. A colera
popular crescia, porque a atiava j o temor.

No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros,
lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente:
eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Ferno Vasques;
arguente o petintal; defendente o beguino.

"Que no vira, vos digo eu:--gritava Ayras Gil.--Disse-m'o
Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova,
aos aougues, defronte das taracenas d'elrei."

"Mentiu pela gorja como um perro judeu:--replicou Fr. Roy--No
era Ferno Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a
arraya-miuda elegido por seu propoedor."

"Medo ou dobras do pao podem tapar a boca aos mais ousados, e
faze-los dormir at deshoras--retrucou o petintal.

"Que fazem falar as dobras do pao, sei eu:--tornou o beguino
com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passra:--medo
sabeis vs que faz fugir: inveja sabemos ns todos que faz
imaginar..."

"Descaro e gargantoice que faz mendigar:--interrompeu Ayras
Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para
o ichacorvos, como gal que vae afferrar outra em combate naval.

"Excommunicabo vos"--murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para
resistir ao abalroar do petintal.

E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.

N'isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado
da praa: o povo correu para l. Os dous campeadores voltaram-se:
era o alfaiate.

Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso
para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado,
estendeu o brao e o index para o logar onde passava Ferno Vasques.
Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal
o seguia de longe, lento e cabisbaixo.

O alfaiate, cercado de outros cabeas da revolta da vespera,
encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida
uma sia[4] de valencina reforada, calas de bifa, apatos de
pelle de gamo, chapeiro de ingres com fita de momperle, e cincta
de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu
os degraus do alpendre. D'alli, em p, com os braos cruzados,
correu com os olhos a praa, onde entre o povo apinhado se fizera
repentino silencio. Depois, tirando o chapeiro, cortejou a
turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram
j os de um tribuno.

"Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando
de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, seno!..."

Esta exclamao d'um alentado alfageme que estava pegado com a
balaustrada do alpendre, foi repetido em grta confusa por milhares
de bcas.

De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de
cavalgaduras, que pareciam correr  redea solta: todos os olhos
se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram.

Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.--"So homens d'armas
d'elrei!"--Aquelle oceano de cabeas humanas redemoinhou a estas
palavras, e comeou a dividir-se como o mar vermelho diante de
Moyss. N'um momento viu-se uma larga faixa esbranquiada cortar
aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abrra
desde a rua de Gileanes at S. Domingos. As paredes desta
adelgaavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira
os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos
ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol,
comearam a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em
sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Ferno Vasques
olhou em redor de si: estava s. Descrou; mas ficou immovel.

Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto rudo:
os bsteiros do concelho, postados ao longo dos paos do almirante,
eram talvez os unicos em quem o terror no fizera profunda impresso:
alguns j haviam estendido sobre o brao da bsta os virotes
hervados, e revolvendo a pol faziam encurvar o arco para o tiro.
Os bsteiros de garrucha tinham j o dente desta embebido na
corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes
ns dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados
eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e
internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas
d'Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro
do almirante.

Mas no meio deste susto geral apparecra um heroe. Era Fr. Roy.
Ou fosse imprudente confiana no cargo occulto que lhe dera D.
Leonor, ou fosse robustez d'animo, ou fosse finalmente a persuaso
de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de
recuar ou titubear, correu para a quina da rua d'onde rompa o
rudo, e mirando pela aresta do angulo um breve espao, voltou-se
para o povo, e curvando-se com as mos nas ilhargas, desatou em
estrondosas gargalhadas.

Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do
ichacorvos, o povo comeou a refluir para a praa. Aquellas risadas
produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos
contemplam de Napoleo, na batalha das Pyramides. Os amotinados
recobraram n'um instante toda a anterior energia.

Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos
populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu
claramente a causa daquelle temor que apertra por algum tempo
todos os coraes. Era a crte que chegava.

Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os
ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir
ao auto solemne, em que da bca d'elrei a nao devia ouvir ou
uma resoluo conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como
dos senhores e cavalleiros, ou a confirmao de um casamento, mal
agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado
de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas
cres dos trajos cortezos negrejavam as garnachas dos letrados
e clerigos do pao, e entre o reluzir dos esplendidos arreios
das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos
alcaides-mres e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres
em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o
supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d'elrei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado,
e em todos os rostos transluzia o receio cerca de qual seria
o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam
representantes de todas as classes sociaes.

Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por
seu porte altivo o conde de Barcellos, D. Joo Affonso Tello,
tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se d por
excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei
com sua sobrinha comearam, elle fizera, sincera ou simuladamente,
grandes diligencias para desviar o monarcha de levar vante seus
intentos. D. Fernando persistra, todavia, nelles, e ento o
conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria
Telles, irman de D. Leonor, suscitra a ida de a divorciar de
Joo Loureno da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse
estendido a sua m vontade a todos os parentes de Leonor Telles,
odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros
amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares,
que, tendo-se em poucas horas elevado at  altura do throno,
ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais
distincto membro da fidalguia[6].

"Velha raposa, em que te pese, no ser a adultera rainha da
boa terra de Portugal!--gritava um carniceiro, voltando-se para
uma velha que estava ao p delle, mas olhando de travs para
o conde que passava.

"Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra
do compadre Loureno?--perguntava um alfageme, fingindo falar
com um vizinho, mas lanando tambem os olhos para D. Joo Affonso
Tello.

"Que tendes vs com o lobo que empece ao lobo?--acudiu um lagareiro
calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.--Deixae-os morder
uns aos outros, que  signal de Deus se amercear de ns."

"O que elles mereciam--interrompeu uma regaleira--era serem
alagantados[7]--com boas tiras de couro cru."

"E ella, tia Dordia?--accrescentou um ferreiro.--Conheceis vs
a combora? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumao;
outra do coitado nas costas della![8]"

" costume, ergo direita a pena:"--notou um procurador, que gravemente
contemplava aquelle espectaculo, e que at alli guardra silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um peloto, se disparavam
ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir
os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo no lhes dar
atteno, empallidecia e crava successivamente, e mordia os beios
de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado
no rudo de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que
as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja to
cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior corao e o
anmo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva,
viam-se, porm, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente
seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a
sua unio com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre
elles, e o povo ao v-lo passar saudou-o com um murmurio, que
foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida,
desventuras que devra a um caso analogo, a morte de D. Ignez
de Castro.

Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho
d'elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o
alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram
na praa, subiu aps elles, e esperou que se assentassem no extenso
banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se
para a multido apinhada ao redor:

"Se elrei ainda no  presente--disse em voz intelligivel e
firme--ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do
seu conselho: porventura que elles podero dar-vos resposta em
nome de sua senhoria, e elle vir depois confirmar o seu dicto."

"Senhor Ferno Vasques, sois o nosso propoedor: a vs toca o
falar!"--replicou um do povo.

"Assim o queremos! assim o queremos!"--bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se ento para os cortezos, conselheiros e letrados
do desembargo d'elrei, e disse:

"Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui esto junctas,
de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por
sua honra e servio; e porque  direito escripto, que sendo as
partes principaes presentes, o officio de procurador deve de
cessar no que ellas bem souberem dizer, vs outros que sois
principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a
ns, devieis dizer isto, e eu no; porm, no embargando que
assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vs
outros em ello no quereis pr mo, mostrando que vos doeis pouco
da honra e servio d'elrei....[9]"

"Cal-te, villo!--bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com
voz affogada de clera, que j no podia conter--se no queres
que seja eu quem te faa resfolgar sangue, em vez de injurias,
por essa bca sandia."

O velho Pacheco pz-se tambem em p, exclamando: "Conde de Barcellos,
lembrae-vos de que os burguezes tem por costume antigo o direito
de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de
os reprehenderem. Ns somos menos que os reis."

Ferno Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado
ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignao,
e havia feito um signal com a cabea. No mesmo instante o povo
abrra uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros,
attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o
roco ao tropear da multido, um semi-circulo de mais de quinhentos
bsteiros e pees armados fazia uma grossa parede em frente dos
populares.

Ferno Vasques encaminhou-se ento para D. Joo Affonso Tello, e
com a mo trmula de raiva, segurando-o por um brao, disse-lhe:

"Senhor conde, vs sois que doestaes os honrados burguezes desta
leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz seno repetir
em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que
propuz, no  meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor
conde, no receio vossas ameaas. Quando o nobre despe o gibo
de ferro para vestir o de tela, no sei eu se este  mais forte
que o do peo, e se tambm a sua bca no pde golfar sangue
como a de um pobre villo."

D. Joo forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar
a mo  cincta onde tinha o punhal; mas Ferno Vasques era mais
foroso, e o conde j tinha entrado na idade em que costuma minguar
a robustez do homem. No pde chegar com a mo ao cincto.

"Conde de Barcellos:--proseguiu o alfaiate com um sorriso--no
recorraes a esse argumento; porque eu tambm estou habituado
a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos
que o vosso bulho."

Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram
ouvidas: a grita na praa era j espantosa; as injurias, as pragas,
as ameaas, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande
brado da fria popular, que s tem semelhana com o rudo de
tufo abysmando-se por cavernas immensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os
parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito
maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em
apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi to
irritados como os dos dous contendores.

Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multido, que se agitava
furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as
razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o
espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando
as ameaas do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que
a da vespera, a qual apenas se atrevra ao throno.

Que fazia, porm, o nosso beguino no meio destes preludios de
uma eminente assuada?  o que o leitor ver no seguinte capitulo.

[1] Hoje o monte da Graa.

[2] Hoje o bairro dentro da rua larga de So Roque, Chiado,
Rua do Ouro, Rocio e Calada do Duque.

[3] Hoje Rua dos Capellistas

[4] Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram
communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs,
como se pde vr da lei de D. Affonso IV cerca dos trajos.

[5] D. Beatriz era irman dos infantes D. Joo e D. Diniz
e meia irman d'elrei.

[6] O titulo de conde era o de maior preeminencia entre
ns, e Joo Affonso Tello era ento o unico que em Portugal tinha
semelhante titulo.

[7] Aoutados.

[8] Segundo varios quadernos legaes do nosso direito
consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se s
mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O
alcalde vinha a casa da criminosa punha no cho um travesseiro,
pegava d'uma vara e comeava a bater em cima delle, fazendo-lhe
o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo
por que as mulheres estavam s varas, pena que com menos apparato
se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes.

[9] Textual.--Veja-se Ferno Lopes, Chr. de D. Fernando,
cap. 61.



MIL DOBRAS P-TERRA E TREZENTAS BARBUDAS


Mal Ferno Vasques travra do brao do conde de Barcellos, e a
grita popular comera a atroar a praa, Fr. Roy, escoando-se
ao longo da parede do mosteiro, dobrra a quina que voltava para
a Corredoura[1], e seguindo seu caminho por viellas torcidas
e desertas, chegra  porta do ferro, d'onde, atravessando o
contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol
apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados
campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres
da muralha mourisca, chegra esbaforido a S. Martinho. A porta
do pao estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou.
Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real
para a capella-mr, e a tribuna communicava com o palacio por
um passadio que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor
de si, e escutou um momento: ningum estava na igreja. Subindo
rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadio e encaminhou-se,
sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para
uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O
monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres
pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e pz-se outra
vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma
voz esganiada e colerica perguntou;--Quem est ahi?"

"Eu:--respondeu o beguino.

"Quem  eu?--replicou a voz.

"Honrado D. Judas,  Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus,
que pretende falar a elrei ou  mui excellente senhora D. Leonor,
para negocio de vulto."

"Abre, D. Judas, abre!"--disse outra voz, que pelo metal parecia
feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada
escaamente por uma fresta esguia e engradada de grossos vares
de ferro, a qual dava para uma especie de saguo, ainda mais
acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra
as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereo
muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrra na casa das
arcas da cora--do recabedo do regno. As duas personagens que
ahi estavam, afra a que abrra a porta, eram D. Fernando e D.
Leonor. Elrei, de p, curvado sobre uma das arcas, com a fronte
firmada sobre o brao esquerdo, folheava um desconforme volume
de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas
de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda
com pello[2].

D. Leonor, tambem em p por detraz d'elrei, olhava attentamente
para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mr
D. Judas, grande affeioado de D. Leonor e valido d'elrei. O
judeu apenas voltra a ponderosa chave, sem volver sequer os
olhos para o recem-chegado, tornra immediatamente para ao p
da arca a que elrei estava encostado, e prosegura a vehemente
conversao, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvra ao aproximar-se...

"Mil dobras p-terra e trezentas barbudas so todo o dinheiro
que o vosso fiel thesoureiro vos pde apurar neste momento,
respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado,
e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez
menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis,
que no fica em meu poder uma pogeia."

Elrei no o escutava. Apenas Fr. Roy entrra, D. Leonor se havia
encaminhado para o ichacorvos, e, lanando-lhe um olhar escrutador,
lhe perguntra com visvel anciedade:

"Beguino, a que voltaste aqui?"

"A cumprir com minha obrigao, apesar de vs me terdes dado
hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez
tenha j corrido sangue no roco de Lisboa, e que  espantoso o
tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores
e fidalgos da casa e valia d'elrei."

Fra  palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender
 voz esganiada do thesoureiro-mr, que continuava em tom de
lamentao:

"Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso servio, e
que hoje sou um dos mais mesquinhos e miserveis entre os filhos
d'Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d'Alemdouro,
que so em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?[3]"

"Sangue, dizes tu, beguino?--exclamou elrei--Oh, que  muito!
A quem se atreveram assim esses populares maldictos?"

"Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Ferno
Vasques; mui grande numero de bsteiros, e pees armados de ascumas
rodeavam j o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram
os traidores atroavam a praa."

"Que me dem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o
meu estoque francez:--gritou D. Fernando escumando de colera.--Eu
irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou
acabarei ao p delles. Pagens! onde est o meu donzel d'armas?"

"O teu donzel d'armas, rei D. Fernando,--interrompeu com voz
pausada e firme D. Leonor--segue com os outros pagens caminho
de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui s tens
a mula de teu corpo[4] para seguires jornada."

"Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei
despedaar pelos pees desta cidade abominavel? Lembra-te de que
 teu tio; que foi o teu protector, quando o brao de D. Fernando
ainda se no ergura para te coroar rainha."

"Rei de Portugal, s tu que deves lembrar-te delle, quando o
dia da vingana chegar. Ento cumprir que os traidores e vis
te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje no podes seno
deixar entregue  sua sorte o nobre D. Joo Affonso e os senhores
que so com elle; mas no te esquea que se o seu sangue correr,
todo o sangue que derramares para o vingar ser pouco, como sero
poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolao sobre
os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n'uma
cidade revolta? Os homens d'armas do teu castello quebraram seu
preito, e tumultuam na praa: muitos de teus ricos homens esto
conjurados contra ti: teu proprio irmo o est. Partir! partir!
Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperana est no partir
breve? Porque, depois de tantas hesitaes, ainda hesitar uma
vez? Asseguremos ao menos a vingana, se no podermos salvar
aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expr  furia de homens
refeces e crs, para esconder nossa fuga... fuga; que  o seu
nome!"

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiados
da adultera, e a afflico e o temor comprimidos n'uma lagryma
que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas
que derramra na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria,
desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitira, ainda
mais uma vez cedeu da sua resoluo, se no de homem cordato,
ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

"Partamos. E seja feita a vontade de Deus!"

"Amen--murmurou o ichacorvos.

"Beguino,--interrompeu D. Leonor, voltando-se para Fr. Roy--corre
j ao roco, e dize em voz bem alta aos populares amotinados, que
me viste partir com elrei caminho de Santarem. Talvez assim o conde
seja salvo, porque a furia desses vis sandeus se voltar contra
mim. Dize-o, que dirs a verdade: quando l houveres chegado, o
meu palafrem ter j transposto as portas da cruz. Guardae-vos,
mesquinhos, que elle a torne a passar com sua dona. Ichacorvos! esse
dia ser aquelle em que a adultera pague todas as suas dividas!"

Fr. Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentra
na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Telles cravou
nelle era diabolico, e a palavra--adultera--proferida por ella,
soava como um dobrar de campa, e vinha como involta n'um halito
de sepulchro: o beguino arrependeu-se desta vez mui seriamente
de ter sido to miudo e exacto na parte official que apresentra
na vespera. Calou-se, todavia, e sau com o seu ademan do costume,
cabea baixa e mos cruzadas no peito.

Os tres ficaram outra vez ss.

"D. Judas, meu bom D. Judas:--disse elrei com um gesto de
afflico--eu no entendo estas embrulhadas letras mouriscas da
tua arithmetica. Estou certo de que no deves ao thesouro real
uma unica mealha, e de que nas arcas do haver no existe seno
o que tu dizes: mas de certo no queres que um rei de Portugal
caminhe por seu reino como um romeiro mendigo. Ao menos os dois
mil maravedis de ouro..."

"Ai!--suspirou o thesoureiro-mr--juro a vossa real senhoria
que me  impossivel achar agora outra quantia maior que a de mil
dobras p-terra e trezentas barbudas."

"Fernando--atalhou Leonor Telles--ordena aos moos do monte que
ahi ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir j.  to meu
affeioado D. Judas, que com duas palavras eu obterei o que tu
no podeste obter com tantas rogativas."

Ella sorriu alternativamente com um sorriso angelico para elrei
e para o thesoureiro-mr. D. Fernando obedeceu, e, alevantando
o reposteiro que encobria uma porta fronteira quella por onde
entrra o beguino, desappareceu. O thesoureiro a a falar; mas
ficou com a bca semi-aberta, o rosto pallido, e como petrificado,
vendo-se a ss com D. Leonor. Era que j a conhecia havia largos
tempos.

"D. Judas,--disse esta em tom mavioso--tu has-de fazer servio
a elrei para esta jornada. Dars os dous mil maravedis velhos."

"No posso!--respondeu D. Judas com voz trmula e afogada.

"Judeu!--replicou D. Leonor, apontando para um cofre pequeno,
que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tres
altos de p--o que est naquella arca?"

O thesoureiro-mr hesitou um momento, e depois balbuciou estas
palavras:

"Nada ... ou para falar verdade... quasi nada. Bem sabeis que
d'antes eu alli guardava algumas mealhas que me sobejavam da minha
quantia, mas ha muito que nem essas poucas mealhas me restam."

"Vejamos, todavia:--tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregava.

"Misericordia!--bradou D. Judas com indizivel agonia. Mas
reportando-se, por um destes arrojos que inspiram os grandes
perigos, procurou disfarar o seu susto, continuando com um riso
contrafeito:

"Misericordia, digo; porque fra mais facil achar entre os amotinados
do roco um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do
logar onde terei a chave de uma arca ha tanto tempo inutil e
vazia."

"Perro infiel! eu te vou recordar quem pde dizer onde as havemos
de achar."

"Estaes hoje, mui excellente senhora, merencoria e irosa:--replicou
o thesoureiro-mr, trabalhando por dar s suas palavras o tom da
galantaria, mas visivelmente cada vez mais enfiado e trmulo,--Assim
chamaes perro infiel ao vosso leal servidor, por causa d'uma
chave inutil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe della, e
eu a irei procurar."

"Generoso e leal thesoureiro!--interrompeu D. Leonor, imitando
o tom das palavras do judeu, como quem gracejava--no te ds a
esse trabalho, por tua vida. Quem pde faze-la apparecer  um
velho co descrido, que mora na communa de Santarem. Eu sei de
um remedio que lhe restituir  lingua a presteza d'uma lingua
de mancebo de vinte annos. O seu nome e Issachar. Conhce-lo?"

"Alta e poderosa senhora, vs falaes de meu pobre pae!--respondeu
o thesoureiro-mr, redobrando-lbe a pallidez.--Mas tractemos
agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras p-terra e
trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem
prestes..."

D. Leonor lanou para o judeu um olhar d'escarneo, e proseguiu:

"Do que importa  que eu tracto. Sabes tu, meu querido D. Judas,
que sejam as tuas dobras mil, ou mil e quinhentas, manhan a
estas horas eu D. Leonor Telles, a rainha de Portugal, estarei
em Santarem? Ouviste j dizer que, em no sei qual das torres
do alcacer, ha um excellente potro capaz de desconjuntar n'um
instante os membros do mais robusto villo? Veiu-me agora a ida
que o velho Issachar amarrado a elle deve ser gracioso, porque
tendo vivido muito, constrangido a falar, ha-de contar cousas
incriveis, quanto mais dizer onde est uma chave, cujo paradouro
elle no pde ignorar. No achas tu tambem que  folgana e desporto
digno de qualquer rainha o vr como estouram os ossos carunchosos
de um perro de noventa annos?"

Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacillantes
se recusavam a suste-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as
suas atrozes perguntas, o judeu tinha cahido de joelhos aos ps
della.

"Por merc, senhora,--exclamou elle n'um trance horroroso de
angustia--mandae-me aoutar como o mais vil servo mouro: mandae-me
rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoae a
meu velho pae, que no tem culpa da pobreza de seu filho. Se
eu tivera ou podra alcanar mais que as duas mil dobras e as
quinhentas barbudas que offereci a meu senhor elrei..."

"Judeu!--atalhou D. Leonor--tu deves saber tres cousas: a primeira
 que os tractos do potro so intoleraveis; a segunda  que eu
costumo cumprir as minhas promessas; a terceira  que se neste
momento de aperto eu te podesse applicar o remedio, no o guardaria
para a ossada bolorenta de um lebru desdentado."

"Vendido cem vezes,--proseguiu o thesoureiro-mr lavado em lagrymas,
e procurando abraa-la pelos joelhos--eu no poderia apresentar
neste momento mais que a somma j dicta de duas mil e quinhentas
dobras, e quinhentas barbudas, ainda que vossa merc me mandasse
assar vivo."

"s um louco, D. Judas!--interrompeu Leonor, affastando de si o
judeu com um gesto de brandura.--Por uma miseria de pouco mais
de quinhentas p-terra consentirs que Issachar, que teu pae,
honrado velho! pragueje nas ancias do potro contra o Deus de
Abraham, de Jacob e de Moyss?"

O thesoureiro-mr conservou-se por alguns momentos calado, e na
postura em que estava. Depois, passando o brao de revs pelos
olhos, enxugou as lagrymas e ergueu-se. A resoluo que tomra
era a de um desesperado que vae suicidar-se.

"Aqui estaro, senhora,--murmurou elle--os dous mil maravedis
quando os quizerdes. Procurarei obte-los; mas ficarei perdido.
Agora podeis dar ordem  vossa partida."

"Adeus, meu mui honrado D. Judas:--disse D. Leonor sorrindo.--No
perders nada em ter cedido aos meus rogos."

Dicto isto, sau pela mesma porta por onde sara elrei.

O judeu estendeu os braos com os punhos cerrados para o reposteiro
que ainda ondeava, levou-os depois  cabea, d'onde trouxe uma
boa poro de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta
uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fra
um saquitel pesado, sellado e numerado, e os dous mil maravedis
rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma
das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos, e
como se as foras se lhe tivessem exhaurido no espantoso combate
que se passava na sua alma, atirou-se de bruos sobre a pequena
arca, e abraado com ella desatou a chorar.

"Meu pobre thesouro, juncto com tanto trabalho!--exclamou por
fim entre soluos.--Guardei-te neste cofre com medo de te vr
roubado, e os salteadores vim encontra-los aqui! Mas que se livrem
de eu tornar a receber os direitos reaes das mos dos mordomos.
Meus ricos dous mil maravedis de bom ouro, no voltareis ssinhos
quando vos tornardes a ajunctar com os vossos abandonados
companheiros!"

Esta ida pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se,
tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia
engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e quando
elrei entrou no aposento, j prestes para cavalgar, tinha o bom
do judeu obtido a certeza de que no dava uma pogeia de mais
da somma que lhe fra requerida em nome do potro da torre de
Santarem[5].

"Oh,--exclamou elrei, lanando os olhos para cima do desalmado
folio, sobre cujas paginas amarelladas estava empilhado o dinheiro
--temos os dous mil maravedis?!"

"Saiba vossa real senhoria que felizmente tinha em meu poder
uma somma pertencente a Jeroboo Abarbanel, o mercador da porta
do mar, e de que no me lembrava: ao basculhar as arcas dei com
ella: a quantia est completa, e o honrado mercador no levar
por certo mais de cinco por cento ao mez, emquanto os ovenaes
de vossa senhoria no vierem entregar no thesouro o producto
dos direitos reaes vencidos. Ento pagar-lhe-hei, at  ultima
mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria no ordena
o contrario."

"Faze o que entenderes, D. Judas:--respondeu elrei, que no o
ouvira, attento a metter n'uma ampla bola de argempel, que trazia
pendente do cincto, os dous mil maravedis.--Tudo fio de ti,
honrado e Seal servidor."

E recolhidos os maravedis, sau. O judeu ficou s.

"No inferno ardas tu com Dathan, Cor e Abiron, maldicto
nazareno!...--murmurou elle.--Porm no antes de eu haver colhido
os dous...quero dizer, os tres mil e duzentos maravedis, que me
tiraste com lanta consciencia quanta pde ter a alma tisnada
de um christo."

Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou
interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, sau
pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus
passos, que se alongavam, soou atravs dos corredores por onde
passra Fr. Roy, at que por aquella parte do palacio tudo cau
em completo silencio.


[1] A Corredoura era uma rua, que, passando ao sop do
monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do
centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).

[2] Para no enfadarmos os leitores com um sem numero de
notas declarmos por uma vez que todos os costumes e objectos que
descrevemos so exactos e da epocha, porque para taes descripes
nos fundmos sempre em documentos ou monumentos.

[3] O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado
assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle
pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou
maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos,
isto , menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes
era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar
de p-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal
de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo
maravedi, excedendo em preo mais de quatro vezes. Todavia, bem
pelo contrario, o valor real d'uma dobra p-terra era inferior ao
maravedi velho na razo de 20 para 32 1/2. A alterao da moeda
feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e
transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas,
das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham
a ser iguaes s libras novas deste rei, porque, produzindo at
ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova
moedagem produzindo 165, o que dada a differena do toque entre
o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas
a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada
libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco
de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo
maravedi d'ouro correspondente  vigesima parte de um marco de
prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada
p-terra, sendo o mesmo que 6 libras, no valia mais de 120 soldos,
isto , ficava para aquella moeda na razo de 20 para 32 1/2.

[4] Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam
cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os
cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente
a lei de D. Afonso III sobre os que vo a cas de elrei.

[5] Aquelles que no conhecerem as opinies, estado de
civilisao, e costumes da idade mdia, mediro o thesoureiro-mr
D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se no nos
engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez
de Pombal em uma lei sobre os christos-novos, e acharo inverosimil
a scena antecedente, posto que esteja bem longe d'isso. A falta de
christos habilitados para tractarem materias de fazenda publica,
obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das crtes de 1211,
que os inhibia de empregarem judeus no seu servio. Mas esta
necessidade no podia destruir o profundo desprezo em que se tinha
esta raa, olhada como abominavel em consequencia das convices
politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte
assentava em bons fundamentos. A ida que se fazia de um judeu na
idade mdia acha-se expressa na lei 23. daquellas crtes, e pinta
melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto
podessemos aqui escrever. "Os quaes judeus (diz o legislador) assy
como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus,
solamente porque som homes." Juncte-se a isto o caracter cruel,
hypocrita e cubioso de D. Leonor Telles, to excellentemente
pintado pelo grande poeta chronista Ferno Lopes, e poder-se-ha
ento avaliar devidamente a verosimilhana desta scena de imaginao
no meio de outras scenas da vida real desses tempos.



MESTRE BARTHOLOMEU CHAMBO


Fr. Roy, sando da casa das arcas, atravessra os corredores
vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadio de
S. Martinho, tomra por uma escadinha escura aberta no topo da
estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o
atrio do pao. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar
na morada real s horas mortas, e a sar nas menos frequentadas,
sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar
aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde
entrra, j comearia a povoar-se de fiis, porque, como  facil
de suppr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que
hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se
ao roco, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida
d'elrei.

Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse
que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas,
no havendo ainda ento exercito permanente, nem guardas pagas
para defenso da pessoa real, cuja melhor proteco estava na
propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda
se no abrra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair
pela igreja, se esperar. As consideraes que o tinham movido
a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito
e escuro vo da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto
nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos  meia luz
que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje,
nesses mesmos paos, e n'um desvo igual, talvez no mesmo sitio,
mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma,
esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de
carne humana, e no esperar atroz roda com as garras os ferros
do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim
dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.

Passra obra de meia hora, e o beguino comeava a impacientar-se
mui seriamente quando sentiu ps de cavalgadura no pateo interior do
edificio. D'ahi a pouco um donzel, trazendo na mo uma desconforme
chave, e as rdeas de uma valente mula enfiadas no brao, chegou 
porta e comeou a abri-la. Era um dos donzeis d'elrei. Costumado
a disfarar a sua frequente entrada no pao sob a capa da
mendicidade, e habituado a estender a mo  espera de alguns
soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e
escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas
oraes em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos
os moradores da casa d'elrei, que respeitavam a sua apparente
sanctidade. Por isso, saindo do seu desvo, encaminhou-se para
a porta.

"A madre Sancta Maria vos guarde de mu olhado, de feitios e
de ligamentos:--disse elle, chegando-se ao donzel, e fazendo
sobresair esta ultima palavra.

"Vs aqui, Fr. Roy. por estas horas?--replicou o donzel, voltando-se
admirado.

"Que quereis!--tornou o beguino.-Quando hontem os maldictos burguezes
accommetteram os paos reaes com sua grita e revolta, estava eu
aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquelle desvo, e quando
se fecharam as portas achei-me encurralado c dentro como um
emparedado em seu nicho. A minha profisso de paz e de religio
no me consentia passar por meio de homens possudos do espirito
de colera, e inspirados por Belzebuth, nem o susto me deixava
animo desaffogado para ir roar o burel do meu santo habito pelos
trajos empestados dos filhos de Belial. Tambem a humildade e
mortificao christan se oppunham a que eu subisse a pedir gasalhado
a algum de vs outros os moradores da casa de nosso senhor elrei.
Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento,
alli me deixei ficar sohre as lageas humidas, sobre as duras e
agudas arestas dos degrus daquella escada. Agora, que a revolta
 finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos, e
confiado na providencia de Jesu-Christo, vou-me ao meu gyro diario
para vr se obtenho da caridade dos devotos a pitana usual com
que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou
mil louvores ao justo juiz, que reina eternalmente nos altos
cus."

O beguino revirou beatificamente os olhos, e fez uma visagem entre
afllicta e resignada, levando ao mesmo tempo a mo ao joelho,
como se alli sentisse uma dor agudissima.

"Veneravel Fr. Roy!--atalhou o donzel com as lagrymas nos olhos--se
tivesseis procurado o aposento dos donzes, ns vos dariamos
ao menos um almadraque para repousar, e repartiriamos comvosco
da nossa ca. Mas o mal esta feito, e o peior  que para hoje
no vos posso offerecer abrigo. Vs crdes, sancto homem, que a
revolta  finda, e nunca ella esteve mais accesa. Sua senhoria
vae partir j da cidade ..."

"Sancta Maria val! Sancto nome de Jesus! Accorrei-nos, virgem
bemdicta!--interrompeu Fr. Roy.--Pois os populares teimam em
sua assuada, e elrei deixa-nos aos coitados de ns, humildes
religiosos e cidados pacificos, entregues ao furor dos pees?"

"E que remedio, bom Fr. Roy?!--replicou tristemente o donzel.--Sem
cavalleiros, escudeiros e bsteiros no se faz guerra, nem se
desfazem assuadas, e nada d'isto tem elrei. Agora vou eu ao roco
avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que l
esto, que sigam caminho de Santarem, sob pena de incorrerem
em caso de traio se ficarem em Lisboa, por signal que elrei
me recommendou procurasse avisar primeiro que ningum sua merc
o infante D. Diniz."

"No roco, dizeis vs?--tornou o beguino arregalando os
olhos.--Confesso que vos no entendo."

Durante este dialogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta
do pao, cavalgado na mula que trazia de rdea, e sado ao terreiro
seguido de Fr. Roy, que coxeava, estorcia-se, e suspirava
dolorosamente de quando em quando. Passo a passo, e sofreando
a mula, caminho da s, o pagem narrou ao beguino todas as
particularidades succedidas aquella manhan, as quaes Fr. Roy
sabia melhor do que elle. Chegados defronte dos paos do concelho,
o pagem tomou pelo sop da alcaova e Fr. Roy pela porta do ferro,
no sem terem primeiro sado da bola do donzel para a manga
do beguino alguns pilartes[1], e da bca deste para os ouvidos
daquelle alguns latinorios pios devidamente escorchados.

Apenas passra o largo da s e transpozera a velha e soturna
porta do ferro, Fr. Roy se achra perfeitamente sarado do seu
to agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre
as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no
pelourinho[2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido
de valencina, e coberta a cabea com um grande feltro, arengava
a um troco de bsteiros e pees armados de lanas ou ascumas, de
almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e
na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente,
ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se.
O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambo,
que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar
no beguino:

"J vo-lo disse: d'aqui ningum ble p antes d'elrei nosso senhor
sar para S. Domingos. Nada de bulha fra de sazo, que l esto
os esculcas. Daremos mostra ao pao quando ahi fr s a adultera.
Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso  outro caso. 
preciso que isto se desfaa. A cobra peonhenta deve sar da
toca. No digo que ento no seja possivel esmagar-se-lhe a cabea...
N'um brandir de ascuma... Mas cautela, no haja sangue!...
Pelo menos de innocentes... Leaes e esforados cidados desta
mui leal cid... Sfa, bruto!"

Esta perorao inesperada com que mestre Bartholomeu interrompra
o seu discurso, que se a elevar ao pice da eloquencia, procedra
de lhe ter descido a grossa e espaosa mo do ichacorvos sobre o
hombro, que lhe vergra como se houvessem descarregado em cima
delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrra uma ida abenoada,
a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe
recommendra espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida
de Lisboa com elrei. O mendicante saba que o tanoeiro era homem de
bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido
toda a cidade. Assim se esquivava no s a ser visto no roco
pelo donzel, de quem naquelle instante se apartra, mas tambem
a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia
poderia produzir, attenta a irritao dos animos. Alm d'isto
a lembrana do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D.
Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro,
encarregado (segundo percebra do fim da sua arenga) da commisso,
que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbra a Ferno
Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D.
Leonor. Estas consideraes que lhe haviam passado rapidamente
pelo espirito, e o vr que mestre Bartholomeu no levava geito
de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que s o sentra quando
elle lhe descarregra sobre o hombro a ponderosa mas amigavel
palmada.

"Com mil e quinhentos satanazes!--exclamou mestre Bartholomeu,
voltando-se e vendo ao p de si o beguino.--Sabia que a mo da
sancta madre igreja era pesada; mas no pensava que o fosse tanto!
Que me quereis, Fr. Roy?"

"Dizer-vos que podeis mandar sar vossos esculcas de sua atalaia;
porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem
elrei chegar e passar para S. Domingos."

"Fr. Roy,--replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera--para
interromper-me com uma de vossas bufonerias no valia a pena de
me aleijardes este hombro!"

"Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos
aprouver, bufo ou mentiroso, mas a verdade  que no ser hoje
que os populares falaro com elrei."

"Pois qu, morreu dos feitios da adultera, ou lornou-o invisivel
algum encantador seu amigo?"

"Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador
(aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mos sobre
o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz..."

"Fr. Roy, olhae que estes honrados cidados vos escutam, e que
o auto  mui grave para gastar truanices."

"J disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento
cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei no dormir em
Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante
mula de caminbo; n'outra ia uma dona coberta com um longo vu:
seguiam-no donzeis, falcoeiros e moos de monte. Ao passar ainda
lhe ouvi estas palavras:--olhae aquelles villos traidores como
se junctavam: certamente prender-me quizeram, se l fora[3]!--No
pude perceber mais nada. Que mais, porm,  preciso? Deixastes
fugir a pra: agora catae-lhe o rasto."

"Traidor  elle, que nos ha mentido como um pago!--bradou o
tanoeiro sopesando o montante.--Mas que se guarde de outra vez
trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos
os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas no o ser em vo.
Que dizeis vs outros, honrados burguezes?"

"Escarnidos, escarnidos!--respondeu com grande grila o tropel.--Mas
 f que nunca a adultera ser rainha de Portugal. Morra a combora!"

E no meio da alarida, as pontas das lanas e os largos ferros
das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol
oriental como um vasto brazido.

"Ao roco! ao roco!--gritou mestre Bartholomeu.--Vamos, rapazes:
j que no fazemos aqui nada, ao menos que o povo no seja por
mais tempo burlado!"

E pondo o montante s costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma
das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta,
e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que
ainda poderia alcanar elrei e faz-lo retroceder. O tanoeiro, porm,
no tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e
por isso fingiu no ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos
se achou s no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa comeada entre
os nobres partidrios de Leonor e Ferno Vasques se houvesse
desvanecido, a agitao dos populares, cujo numero crescia
continuamente, no tinha diminuido. Encostado a um dos pilares
do alpendre, o alfaiate ora lanava os olhos de revs para os
senhores da crte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam
de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos
humanos, que elle saba poder agitar ou tornar immoveis com uma
palavra ou com um simples aceno. Semelhante  hora que precede
a procella, em que apenas se vem correr na atmosphera abalada
os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o
estourar dos troves roufenhos e prolongados, aquella hora que
ento passava era espantosa e ameaadora de estragos, sobretudo
quando, aps um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na
praa apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.

Foi n'uma destas interrupes do motim que um pagem, sando ao
galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre,
e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante
D. Diniz.

Este fitou os olhos na escriptura, descrou subitamente, e entregou
o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz
baixa:

"Estamos perdidos!"

Diogo Lopes leu o contedo naquelle escripto fatal, e no mesmo
tom respondeu ao infante:

"O caminho de salvao que nos resta  o de Santarem. Obediencia
e circumspeco!"

O pergaminho passou rapidamente de mo em mo: os fidalgos, letrados,
e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois
de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados.
Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se
atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitao dos outros
fidalgos e conselheiros.

"Vistes a ordem d'elrei. Como um dos mais velhos entre ns, direi
meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de
povo armado e furioso, o nosso dever  pr a vida por obedecer
a nosso senhor elrei."

"Mas,"--atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente
era ouvido como oraculo pelos cortezos--"o caso  grave: o povo
se nos vir retirar enviar-se-ha a ns: se lhes dizemos o motivo
da nossa partida  capaz de desconcertos maiores que os j
commettidos."

"Sua senhoria no devra ter-nos emprasado para este auto, se a
sua inteno era no dar resposta aos populares."

Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo,
no que no levava vantagem  maior parte dos outros membros do
conselho real.

O conde de Barcellos guardava silencio. No podia conceber como
D. Leonor o no avisra a tempo, e por isso preoccupava-o a
indignao, ignorando que a resoluo da fuga fra tomada mui
tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo
quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era
chamar  crte os senhores e cavalleiros de mais confiana,
acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer
motim, se os populares ousassem oppr-se de novo  vontade de
seu rei e senhor. D. Fernando aceitra o conselho, que, se no
era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelaes
do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor
viu, a situao do negocio.

A reflexo de Gil d'Ocem estava em todas as cabeas, e por isso
os cortezos ficaram outra vez em silencio, como buscando um
expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza,
o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano, que ameaava traga-los, encapellavam-se
aos ps deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n'um
circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada.
Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos
para no poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei--disse,
apertando com a mo a fronte, o velho conselheiro de Affonso
V.--Resta-nos s um arbitrio."

"Dizei, dizei!--clamaram a um tempo todos,  excepco do conde
de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.

" necessrio que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que
sejamos os primeiros a affear este procedimento:  necessrio
que vamos adiante da indignao dos pees. Depois dir-lhes-hemos
que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Ento apartar-nos-hemos
sem susto, e sairemos da cidade como podrmos, na certeza de que
no serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da
alcaova de Santarem."

"Mas quem ha-de falar em nosso nome?--perguntou Gil d'Ocem.

"No vosso, mestre Gil das Leis!--interrompeu o conde de
Barcellos.--Nem o receio das affrontas do alguns milhares de
sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldices
sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."

"Viram impendere vero nemo tenetur"--replicou Gil d'Ocem--"ou,
como quem o dissesse por linguagem, ningum  obrigado a deixar-se
matar por amor da verdade ou de seu preito. Vs fazei o que vos
aprouver."

 auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um to
insigne doutor, no havia resistir. Os fidalgos e conselheiros
approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.

"Mas quem ha-de falar ao povo?--insistiu o mestre em leis, que
no parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa
tarefa.

"Eu, se assim o quizerdes"--replicou immediatamente Diogo Lopes.

O manhoso corteso vira claramente que a partida d'elrei transtornava
todos os seus desenhos: todavia calculra n'um momento como,
sem suscitar a indignao de Ferno Vasques, e por consequencia
alguma revelao perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo
que elrei se esquivra  influencia do povo, de cuja ousadia o
velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel,
e ainda suppondo, o que no era de esperar, que o tumulto fosse
avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando,
o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de
ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo,
desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que
poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que
offerecra para a salvao dos cortezos era s para se haver de
salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeio dos cabeas
da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse
decahir da graa de D. Fernando.

Para os calculos de Diogo Lopes faltro, porm, um elemento:
era a delao do beguino; e era justamente, esta falta que os
destruia todos. Assim  a politica.

O sacrifcio de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvao
e agradecimento. Ento elle, sando do circulo, aproximou-se a
Ferno Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos
para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.

"Falhou a traa:--disse o velho cortezo em voz sumida ao
alfaiate.--Elrei acaba de sar da cidade."

Ferno Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes,
como quem no acreditava o que ouvia.

"O que vos digo  a verdade,--continuou Pacheco.--Mas no affrouxar!
Elrei de Castella  por ns, e bom numero de fidalgos portuguezes
o so tambem. Mais; so por ns a maior parte dos que ora aqui
vdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto
de mim e ... de quem vs sabeis."

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lanou de relance os
olhos para D. Diniz.

"Mas elrei tomar por mulher D. Leonor--acudiu o alfaiate
aterrado:--voltar a Lisboa com seus cavalleiros e homens d'armas,
e ento coitados de ns!"

"No temaes: o matrimonio adultero ser condemnado pelo papa. Vs
j tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D.
Fernando pde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal tem
homens d'armas. Podeis estar certo de que no vos abandonaremos.
Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons
e leaes burguezes, que to ousadamente se oppozeram  deshonra
da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles.
Mandae-lhes que faam silencio."

Ferno Vasques obedeceu: o rudo dos populares, que no descontinura
durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez ento um largo discurso, com o qual no cansaremos
os leitores, que pouco mais ou menos tero previsto como seria.
Misturando amargas reprehenses contra D. Fernando com lisonjas aos
populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que
toda a fidalguia estava cheia de indignao. Alludiu  resistencia
por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de
Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo,
a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim,
sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e
tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder
real, suscitou todas as idas que podiam levar os populares a
este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos
fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanas
aos pees de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias
e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro
dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores
e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o
proprio conde de Barcellos, no viram nas suas palavras seno
uma feliz inspirao para os salvar da colera da arraya-miuda.

Durante aquella larga arenga esta guardra silencio, interrompido
a espaos por um desses borborinhos, que so como os annuncios
das erupes do volco popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas
o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por
alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de
olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos
outros fidalgos; aquellas bcas semi-abertas prestes a proromper
em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma
vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e
no poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia
a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes
mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura.
No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos
do povo a o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens
fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praa, o conde teria
corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja
os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio
do povo apinhado, e at dois virotes de bsta pareceu sibilarem
por cima da sua cabea. Mas apertando os acicates, os cavalleiros
seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado
pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de
affcto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto
numero de cortezos, alguns dos quaes tinham fundados motivos
para receiar a irritao desses animos ferozes, exaltados pela
fuga d'elrei.

A cavalgada linha desapparecido, quando um troo de bsteiros
e pees desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu
e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes
Pacheco.

Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei,
lanadas entre os amotinados como um facho sobre monto de lenha
por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto
medonho. As affrontas, que at ahi quasi s se encaminhavam contra
Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As
maldiees, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam
s mais violentas ameaas. Uns juravam que nunca mais elle entraria
em Lisboa; outros propunham que se lanasse fogo aos paos reaes.
Debalde Ferno Vasques trabalhava por aquieta-los; nem j escutavam
o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com
gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D.
Fernando lhes tivesse apparecido, no teriam talvez respeitado
a vida do filho do seu to querido D. Pedro I, o mais popular
de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.

Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou
nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual
silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando
as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar
dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencra fugindo!

O povo adormeceu: os cabeas da revolta estavam irremediavelmente
perdidos.

[1] Moeda de prata de cinco soldos.

[2] As terecenas ou taracenas reaes, isto  o deposito
dos aprestos das gals, de guerra, eram juncto ao sitio em que
hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Aougues
era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua
da Praia.

[3] Nom quis alla hir e partiose da idade com D. Lionor,
ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; "Oulhaae,
&c."--Ferno Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.



UMA BARREGAN RAINHA.


O Douro  bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que
angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem,
volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas
raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada,
porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas,
e atravs desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a
vossa cabea os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio
reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. 
depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava
os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmes, onde muitas
vezes tem depositado j os germens da morte. Ento, se, trepando a
um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do serto,
l vdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca
por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos
ps:  o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que
o geraram. O horisonte at ahi turvo, limitado, indistincto,
expande-se ao longe, contorna-se dos cimos franjados das montanhas
engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder
de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado;
porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou
um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne
e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se
em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu
leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mos
as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto  severo e altivo,
como o de mordomo de casa abastada. Mas no o julgueis antes
de o tractar familiarmente. No faaes cabedal de certo modo
aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o  prova, e
achar-lhe-heis um corao bom, generoso e leal. Rudeza e virtude
so muitas vezes companheiras; e entre ns, degenerados netos do
velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior poro
da desbaratada herana do antigo caracter portuguez no que tinha
bom, que era muito, e no que tinha mau, que no passava de algumas
demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto a ainda longe da sorte
que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no
caracter dos seus filhos, na sua situao e nas mudanas politicas
e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre,
e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus
destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga,
com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com
os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora,
guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral,
semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta,
em vez de o ser  torre de menagem, aos dous campanarios lisos,
quadrangulares e macissos, to differentes dos campanarios dos
outros povos christos, talvez porque entre ns os architectos
arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como
um ferrete da antiga servido na face do templo dos nazarenos;
quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado  roda
da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por
engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria
um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que
em nenhuma outra povoao do reino, a classe ento fraca e no
definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua
fora e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um
amor tenaz d'independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais
de uma legua desde o Seminario at alm de Miragaia, ou antes
at a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente
para o serto, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto
os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo
do bispo, edificado pelo pendor do monte da s, vinha morrer
nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje esto lanadas
a praa de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. Joo, e que
o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do
poente a povoao de Miragaia, assentada ao redor da ermida de
S. Pedro, trepava j para o lado do Olival, e vinha entestar
pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa
ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre
esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio,
at que triumphou a cora. Ento a linha que dividia as tres
povoaes desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos
templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade
monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por
um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam
varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas
ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou
restaurado pelos gasces, se no mentem memorias remotas[1]. Na rua
do Souto, j assim chamada, talvez pela vizinhana de algum bosque
de castanheiros[2], como principal entrada da povoao, andavam
as danas judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos
ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio
evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoao
era o unico motivo legal para fazer danar e foliar judeus e
mouros, que de certo no folgavam com estes forados e dispendiosos
signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda
do bailiado de Lea, Elrei D. Fernando ajunctra em Santarem os
seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na
arte de dissimular, recebra com todas as mostras de boa-vontade
o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior
disfarce, no escacera mercs[3]. Depois em folgares e caadas
vaguera pelo reino com D. Leonor, at que em Eixo fizera um como
manifesto da resoluo que tomra de a receber por mulher, o que
neste dia cumprra na antiga igreja daquella celebre commenda dos
Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero,
agourado pelas maldices populares, que o bispo D. Affonso, menos
escrupuloso que o povo de Lisboa cerca de adulterios, vestia
de festa o seu mui canonico burgo[4].

A cavalgada, que se vra descer ao longo do valle, j atravessava
o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma
antiga porta da povoao primitiva, porta conhecida ainda hoje,
como ento, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D.
Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra;
ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da
ponte pelo infante D. Joo, que familiarmente falava e ria com a
formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e
enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias
a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao
velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto
melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe
consumia o corao, vendo-se como atado ao carro triumphal da
mulher que pouco a pouco se convertra em sua irreconciliavel
inimiga. Aps estas principaes personagens via-se uma grande
multido de cavalleiros, clerigos, cortezos, conselheiros, juizes
da crte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro,
a prata, e as variadas cres dos trajos de festa, que sobresaiam
no cho negro das vestiduras roagantes dos magistrados e clerigos.
Adiante d'elrei as danas dos mouros e judeus volteavam rapidas
ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas.
Segundo o antigo uso seguiam-se s danas cros de donzellas
burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura
dos noivos[6].

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste
era tambem o aspecto dos populares, que sem um s grito de regosijo
se apinhava para vr passar aquelle prestito real. Mil olhos se
cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava
que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por
toda a parte no via neste consorcio seno um crime e uma fonte
de desventuras. Os cortezos, porm, fingiam no perceber o que
passava  roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos
eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei,
mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que
nascia, e calculavam j quantas terras, e que somma de direitos
reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudana
de opinio.

Entre elles no se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao
tracto da crte por largos annos, experimentado em todos os enredos
dos paos, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas
e discursos fingidos, no tardra em perceber que as mercs e
agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel
vingana. Conhecendo que a sedio popular fra inutil, e que,
ainda renovada com mais furia, no poderia resistir s armas de
D. Fernando, havia-se affastado da crte, e posto que s nos
fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e
amigo D. Henrique de Castella, buscra entretanto esquivar-se
ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinio
entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrra resignado
um successo que no podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro,
conservra intacta a sua m vontade a D. Leonor. Abandonado dos
seus parciaes, vendo, se no trahida, ao menos quasi morta, e
inactiva a alliana de Pacheco, e, para maior desalento, seu
irmo mais velho o infante D. Joo ligado com essa mulher, da
qual este principe mal pensava ento lhe viria a ultima ruina;
no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e
irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentra
girar-lhe nas veas o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte,
nunca D. Leonor achra um sorriso nos seus labios; nunca o vra
conter diante della um s signal de despreso. Assim a colera d'elrei
contra seu irmo havia chegado ao maior auge, e os calculos de
fria e paciente vingana estavam resolvidos no animo de Leonor
Telles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma,
que em parte ainda subsiste, e passado em frente da s, juncto
da qual se dilatavam os paos episcopaes. Ahi as danas e folias
pararam e fizeram por um momento silencio: ento o infante D.
Joo, tomando nos braos a formosa rainha, apeou-a do palafrem:
aps ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete.
Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo
portal dos paos, e os donzes conduziam os elegantes cavallos,
as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem
providas cavallarias do mui devoto e poderoso prelado da antiga
Festabole[7].

O aposento principal dos paos, quadra vasta e grandiosa, estava
de antemo ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo
D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava
que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida
das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os
principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mr Ayras
Gomes da Silva, ancio veneravel, que fra seu aio, o orgulhoso
mordomo-mr D. Joo Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do
infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonalves Pereira,
e muitos outros fidalgos que ou seguiam a crte, ou tinham vindo
assistir s bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os
degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes
desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao
porto longinquo, quasi que no cr pisar a terra de seus desejos,
assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade
da sua elevao. A alma sorria-lhe a ml esperanas; a vida
trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus ps um reino! Era
mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto,
um como desejo de perdo aos seus inimigos! Tremeu de si mesma,
e convocando todas as foras do corao, salvou a sua ferocidade
hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto
quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas
o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de
tigre pde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade
costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o
momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em p, D. Fernando estendeu a mo: o tropel
de cortezos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados
da espaosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas:
elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

"Ricos-homens, infanes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais
nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio:
como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque
por elle as coras se perpetuam na linhagem real.  por isso que
eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso
Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres
d'entre vs pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal
ser mais um lao que vos una a mim como parentes, que de hoje
vante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito
que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em
que pez a traidores, D. Leonor Telles  minha mulher! Fidalgos
portuguezes, beijae a mo  vossa rainha.[8]"

O velho alferes-mr Ayras Gomes aproximou-se ento do throno 
voz do seu moo pupillo; ajoelhou e beijou a mo a D. Leonor;
mas o olhar que lanou para elrei era como o de pedagogo que de
mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao
volver d'olhos do ancio, D. Fernando crou e voltou o rosto.

O infante D. Joo, porm, dobrando o joelho aos ps da formosa
rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor
Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi
imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma
significao profunda. Por ventura que no infante D. Joo ella
j no via mais que o precursor da humilhao de D. Diniz, do
seu capital inimigo.

Aps o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante
D. Leonor. Boa parte delles eram como os capites vencidos seguindo
ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer
que, mau-grado desses que se rojavam a seus ps, ella conquistra
o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da cora tinha
passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que,
menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por
fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa
e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda
impubere, sem renome, sem poderio, celebre s por seu bero e pelo
desgraado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem
 que representava um papel analogo ao daquella desventurada,
salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvra rapidamente
os olhos, considerava com os braos cruzados aquelle espectculo em
perfeita immobilidade, de que unicamente sara quando Gil Vasques
de Resende, que estava a seu lado, se affastra, caminhando para
os degraus do estrado. O mancebo apertra a mo do idoso aio,
trmula da idade, com a mo ainda mais trmula de colera. Na
conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a ida de o vr
prostituir os seus cabellos brancos aos ps de uma adultera o
levra a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle,
naquella postura e naquella hora, no fazia mais que colligir
todas as foras da alma para salvar a honra do nome de seus avs,
do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmos,
e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O
velho entendeu o que significava este convulso apertar de mo:
duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.

S faltava D. Diniz, que continura a ficar immovel. Houve um
momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio
era para todos indefinido, mas terrivel.

D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmo, enleiado, ao que
parecia, em scismar profundo.

Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa
quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas,
que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se no fosse o
respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos
e hombros os seus ricos briaes[9].

Os labios d'elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada
pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufo.
Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

"Infante D. Diniz, beijae a mo  vossa rainha!"

Foi um s o volver de todos os olhos para o moo infante: o sussurro
das respiraes cessra.

D. Diniz no respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento:
parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou
com sorriso de amargo escarneo:

"Onde est aqui a rainha de Portugal?"

"Infante D. Diniz!--disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido
demudra.--Soffredor e bom irmo tenho sido por largo tempo:
no queiraes que seja hoje s juiz inflexvel do filho querido
daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mo
da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmo
mais velho, de quem devereis haver vergonha.[10]"

"Nunca um neto do D. Affonso do Salado--replicou o infante com
apparenle tranquillidade--beijar a mo da que elrei seu irmo
e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijar
a mo da mulher de Joo Loureno da Cunha. Primeiro ella descera
desse throno e vir ajoelhar a meus ps; que de reis venho eu,
no ella."

"De joelhos, dom traidor!--gritou D. Fernando, pondo-se em p
e descendo dous degraus do estrado.--De joelhos, vil parceiro
de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer
preito infame aos pees de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso
rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"

D. Diniz viu ento que todos seus passos estavam descobertos:
achava-se por isso  borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas
lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se
na voragem.

"Vil  a mulher barregan e adultera, e essa  ambas as cousas.
Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no
throno, e vs o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso
Deus e do vosso povo! Quem neste logar  o vil e o traidor?"

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabea
e deixou descahir os braos. Elle bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas elrei se alevantra, D. Leonor, cujas faces se haviam
tingido da amarellido da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle
rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia
o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes
que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei
soltra um destes rugidos de desesperao e colera humana, que nem
o rugido da mais brava fera pde igualar; grito de ventriloquo, que
 como o estridor de todas os fibras do corao que se despedaam a
um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento
do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um s hiato,
fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia:
brado que s ter eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo
quando no derradeiro juzo o julgador dos mundos lhe disser:--para
ti as penas eternas.

O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforados cavalleiros
que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o
sangue em todas as veias.

Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulho,
e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala,
onde seu irmo o esperara immovel, com a mo sobre o peito, como
se dissesse: aqui!

Mas D. Fernando no pde offerecer nas aras do adulterio um
fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus ps. Era um
velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas
pelos annos: era aquelle que lhe fra mais que pae, e que elle
respeitava mais que a memria deste: era o seu alferes-mr, o
venervel Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas
de soluos e lagrimas:

"Senhor! que  vosso irmo!"

" um covarde traidor, que deve morrer! Irmo!? Mentes, velho!
Elle j no o !"

 palavra--mentes!--um relampago de vermelhido passou pelas
faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os
pela espada. Fra esta a primeira vez que ella ficra na bainha
depois de to funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes
sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:

"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois
que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz 
filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade;
por vs j me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores
todos os cavalleiros de Portugal: elle  que no tem um s. Senhor
rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmo vos  mister
passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."

Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moo monarcha
revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando
ancio, que pela primeira vez via a seus ps; e com a irresoluo
pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.

Por uma reflexo instantnea a hyena previra que o sangue derramado
pelo fratricida no cahiria smente sobre a cabea deste, mas
tambm sobre a della. Naquelle rosto, ento semelhante ao de
uma estatua, D. Fernando no pde ler a sentena do infante, bem
que l no fundo do corao ella estivesse escripta com sangue.

Entretanto os cortezos, que no furor rompente d'elrei haviam
ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante.
O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se tambm entre
D. Diniz e elrei, quando este arrancra o punhal, parra ao ver
a herica resoluo do alferes-mr; mas ao hesitar de D. Fernando
corrra a abraar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos
animos agitados por paixes diversas, era quem unicamente parecia
tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.

Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com
voz pausada, mas trmula e presa, disse:

"Que esse malaventurado sia d'ante mim."

O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar
o animo de D. Diniz, cujo corao antes d'isso parecra de bronze.
Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que at ento era
uma clera cega, repentina, insensata, que o ameaava: agora,
porm, no modo e na expresso de D. Fernando vira claramente
que era um amor de irmo que expirra.

Com a cabea pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende
saiu do aposento.

Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.

D. Leonor levou ambas as mos ao rosto, e via-se-lhe arquejar
o collo formoso por mal contido suspiro.

"Corao compadecido e generoso!--pensou l comsigo o alferes-mr,
que havia pouco a tractra pela primeira vez.

"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha to esperada
vingana!--pensava Leonor Telles, e o chro rebentou-lhe com
violencia.

"No te afllijas, Leonor:--disse D. Fernando, apertando-a ao
peito.--Que nunca mais eu o veja, e viva, se podr, em paz!"

Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.

O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau.
A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer
que era pesado e mortal, que resfriava todos os coraes.

 meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma
barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro:  ppa
viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros
que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata:
um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia
o companheiro, e dizia assim:

     Mortos me so padre e madre:
     Eu tamanino fiquei.
     Irmos meus mal me quizeram:
     Eu mal no lhes quererei.

     Vou-me correr esse mundo:
     Sabe Deus se o correrei!
     A alma deixo-a c presa;
     O corpo s levarei.

     De meus avs nos solares
     Nasci: dous dias passei:
     Meus irmos, nada vos tenho,
     Seno o nome que herdei.

Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados
das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos
cavalleiros o dra.

Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois
continuaram:

     Se fui rico, ora sou pobre:
     Choro hoje, se j folguei:
     Villas troquei por desvios:
     Muito fui: nada serei.

     Sem padre, madre, ou irmos,
     A quem me soccorrerei?
     A ti, meu Senhor Jesus:
     Senhor Jesus me accorrei!

Um gemido mnis angustiado, que sau involto em soluos, cortou
de novo a cantiga: era do mesmo que j a interrompra. O seu
companheiro bradou aos barqueiros com a voz trmula e cansada
de um ancio:

"Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!"

Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram l comsigo que muito
damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam
to devoto trovar.

Repararam, porm, que dos dous desconhecidos, o que suspirra e
gemra lanra os braos ao pescoo do que falra, e que este,
affagando-o, lhe dizia:

"Quando todos, senhor, vos abandonarem no vos abandonarei eu;
que o devo ao amor com que vos creei, e  esclarecida e sancta
memoria de vosso virtuoso pae."

Ento os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia
muito bem ser que no fossem duas almas damnadas aquellas, mas
sim malaventuradas.

[1] Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. Cunha, Cat. dos
Bispos do Porto, part. 1. pag. 15.

[2] E fezerom mui pressa hua grande praa ante S. Domingos
e a rua do Souto, que era entom todo ortas. F. Lopes, Chr. de D.
Joo I, P. 2. c. 96.--Isto era poucos annos depois da epocha
de que vamos falando.


[3] A 25 de setembro de 1371, em Santarem, fez elrei
merc a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja
e tenha em pagamento da sua quantia. Chancell d'elrei D. Fernando
L. l. f. 84.

[4] Este bispo D. Affonso era ainda o mesmo a quem elrei
D. Pedro, dizem, quizera aoutar por sua prpria mo em consequencia
de elle haver commettido adulterio com a mulher de um honrado
cidado, historia miudamente narrada por Ferno Lopes chronica
daquelle rei, e que ns no sabemos dizer at que ponto seja
verdadeira. D. Rodrigo da Cunha, suppe que o bispo, corrido
desta aventura, escandalosa no pelo delicto, trivialissimo no
clero daquelle tempo, mas pelo ameaado castigo, cousa inaudita
antes e depois de D. Pedro, sara do bispado e nunca mais voltra
ao Porto, posto que ainda vivesse pelo menos at maio de 1732,
como se v do catalogo chronologico dos bispos portuguezes, por J.
P. Ribeiro. Esta opinio, que assenta n'um argumento negativo--a
falta de noticias desse prelado nos documentos consultados por D.
Rodrigo da Cunha, posteriores aos eminentes aoutes-- desmentida
pelo testemunho de Ferno Lopes, no cap. 49 da chronica de D.
Fernando, que fez presente D. Affonso  renovao das pazes
d'Alcoutim, juradas no Porto em 1371.  por isso que, apesar
de Cunha, nos pareceu natural fazer abenoar por um bispo, que
se pinta como manchado de adulterio, um casamento adultero.

[5] Sobre esta antiga topographia vejam-se as inquiries
dos annos de 1268 e 1348 nas Memorias das Inquiries pag. 45
nota 2, e Dissert. Chr. e Crit. tom. 5. pag. 292 e segg.

[6] cerca de semelhante usana veja-se F. Lopes. Chr.
de D. Joo I, P. 2 c. 96.

[7] Na supposta diviso dos bispados, attribuida ao rei
Godo Wamba, d-se ao Porto o nome de Festabole.

[8] Em grande parte extrahido quasi textualmente da
Carta d'Arrhas de Leonor Telles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro
de era de 1410 (1372).

[9] O brial era uma especie de camisola que os cavalleiros vestiam
sobre as armas, e por cima da qual apertaram o cincto da espada.
Tambem o vestiam sobre os pannos interiores quando andavam desarmados.
O seu uso durou por toda a idade media, e era ainda lembrado nos fins
do seculo decimo-sexto, em que o auctor, ou traductor, do Palmeirim
d'Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuarias de
Alfonso IV no se tracta  verdade de tal vestido; mas a razo
d'isso  obvia: o brial era trajo militar, e aquellas leis versam
sobre o vestuario civil. Na ordenao affonsina L. 1., til. 63,
 21, se manda cingir a espada ao movel sobre o brial. O diccionario
de Moraes affirma que o brial era o manto dos cavalleiros:  um dos
bastos destemperos daquella babel da lingua portugueza. Eis o que
diz o auctor do poema do Cid, escripto no meiado do seculo
decimo-segundo, falando no brial. (Sanches Pocs. Cast. ant. al
siglo 15. t. 1. pag. 347.)

  Visti camisu de ranzal tan blanca como el sol
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  Sobre ella un brial primo de ciclaton

  . . . . . . . . . . . . . .
  Sobre esto una piel bermeia . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  De suso cubri un manto que es de grant valor.

[10] Dizendo elrei sanhudamente coulra elle: "Que non
avia vergona nenhuuma, beijarem a mo aa Rainha sua molher o
Infante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmao,
e todollos outros lidallgos do reino, e el soomente dizer que lha
nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle." Fern. Lopes,
Chr. d'elrei D. Fern cap. 62.



JURAMENTO--PAGAMENTO.


Passra mais de um anno depois do casamento d'elrei. Este casamento,
que explicava o repudio da infanta de Castella, no bastra em
verdade para accender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando,
estando j de algum modo previsto nos capitulos addicionaes do
tractado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante offensa
devia gerar no animo do rei castelhano no fosse asss forte para
servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitra novos
motivos de srias desavenas, que no particularisaremos aqui,
por no virem a nosso intento. Baste saber que, depois de inuteis
mensagens e queixas, D. Henrique de Castella, entrando subitamente
em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessra
rapidamente a Beira, passra juncto aos muros de Coimbra, onde
se achava D. Leonor Telles, e vindo offerecer batalha a elrei
D. Fernando, que estava em Santarem, e que no acceitou o combate,
se encaminhra para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas
tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Affonso
III, de cujas torres e adaves viram os castelhanos saquearem e
queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o arrabalde,
sem lhes poderem pr obstaculo. No meio deste apertado crco,
desamparados d'el-rei, que apenas lhes envira alguns de seus
cavalleiros, os moradores de Lisboa no tinham desanimado. Com
varia fortuna haviam resistido aos commettimentos dos castelhanos,
e o que mais duro era de soffrer,  fome,  sede, e at ao receio
de traies de seus naturaes. Finalmente D. Fernando fizera uma
paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e
Lisboa viu affastar dos seus muros o exercito d'elrei de Castella,
que a tivera sitiada durante quasi dous mezes.

Era nos fins de maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso
dia de primavera. O ar eslava tepido e o cu limpo. Pelos campos e
valles via-se verdejar a relva; a madresilva, e as rosas bravias,
enredadas pelos vallados, embalsamavam a atmosphera. Mas estes eram
os unicos signaes que nos arredores de Lisboa revelavam aquella
estao suave no seu clima suavissimo. Tudo o mais contrastava
horrivelmente com elles. Os extensos e bastos olivedos, que nessas
eras a rodeavam, jaziam decepados em terra, como se por alli
tivesse passado fouce gigante meneada por brao de ferro. Pelos
outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se
espalhadas as videiras cobertas de folhas resecadas antes de tempo,
ou ennegrecidas pelo fogo, assimilhando-se a gandra coberta de
urzes, que foi desbravada por fins d'outono. As vastas hortas,
que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos ps dos cavallos,
estavam incultas e abandonadas. Mas sobre este mal assombrado e
triste cho do painel, mais melancholica e afflictiva avultava
ainda a figura principal, a cidade.

O populoso bairro chamado o arrabalde, onde d'antes era contnuo
o rudo discorde de tracto immeriso, achava-se convertido em
um monto de ruinas. Para o lado do sul e poente no se viam
desde os antigos muros (cujo perimetro pouco mais cercava do
que o castello e o bairro a que hoje damos geralmente o nome
d'Alfama) seno edificios queimados, ruas entulhadas, praas
desfeitas, vestigios do sangue, peas de armadura aboladas ou
falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanas e de
espadas, e aqui e acol cadveres ftidos, no s de cavallos,
mas tambm de homens, cujas carnes, meias devoradas pelos ces
ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os
entulhos appareciam como phantasmas os servos mouros, revolvendo
as pedras derrocadas em busca de alguma preciosidade que tivesse
escapado s chammas e ao inimigo; e juncto s paredes negras da
sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado,
depennavam as barbas  roda dos rahbis, que recitavam em tom de
pranto os versiculos hebraicos dos Threnos.

Por meio deste vasto quadro de assolao rompia uma numerosa
companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas
e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Anto
para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro.
A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os
rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o louo
dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra
de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal.
Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o
rinchar alegre dos corcis briosos e dos delicados palafrens,
as doudices dos donzeis, que ora correndo  rdea solta, ora
soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos
cortezos letrados, os faziam vacillar e debruar sobre os ares,
o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos
dos falcoeiros, o latir dos galgos e allos, que atrellados
forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitaes
derrocadas, d'onde saa de vez em quando uma exhalaco de carnia:
este rir, este folgar, este rudo do contentamento, este matiz
de reflexos metallicos, de cres variegadas, passando como um
turbilho atravs daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar
o veu de tristeza que cobria a vasta rea da cidade destruida,
e revoca-la a uma nova existencia.

Mas o povo, apesar d'isso, continuava a estar triste.

A cavalgada chegou ao terreiro da s. Um engenho de arremessar
pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de
que era construdo viam-se ainda manchados de rastos de sangue.
Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro
de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou
tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras
ao cavalleiro, e depois desatou a rir.

Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui
excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.

D. Leonor Telles tinha razo para rir.

Durante o crco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhra
de que vrios moradores da cidade estavam preitejados com elrei
de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava fora a taes
suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco
e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em
Portugal, e as desconfianas recahiam naturalmente sobre aquelles
que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D.
Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram
cabeas. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha
diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir
a sua ruina s causas remotas, s paixes insensatas de D. Leonor
e  imprudencia d'elrei, s nas suggestes de Diogo Lopes e do
infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio
que contra os dous havia concebido se estendra a todos os que
cria serem-lhes affeioados.

Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traio, o
povo furioso correu s moradas daquelles, que, como fica dicto,
lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa
de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles
que no poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram
mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou
culpado. Um desgraado, contra o qual eram mais vehementes as
desconfianas, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaos:
"outro--diz o chronsta[1]--tomarom e pozerom-no na fumda d'huum
engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou
lanono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que
hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e
pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde
elles desejavom, e assi acabou sua vida."

Era por isso que D. Leonor olhra para o engenho, e se rra. O
prprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.

A noite descra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de
S. Martinho, e  luz de muitas tochas parte daquella multido
escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte
subia  sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paos,
cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com
D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de
uma crte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia
quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles
fidalgos que lhe tinham dado provas no equivocas de sincero
affeico e substitura  severidade antiga do pao todo brilho
de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluao dos costumes,
que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida,
como o devia ser nesta crte voluptuaria, apenas ficra na camara
real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joo, D.
Gonalo Telles, irmo de D. Leonor e um donzel da rainha, filho
bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonalves
Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens
achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o
beguino Fr. Roy viera revelar  ento amante de D. Fernando os
intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella sara
fugitiva e amaldicoada do povo. Mas era ahi tambm que ella
vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas,
de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora,
segura j na fronte a cora real. Tudo estava do mesmo modo,
salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa
situao.

Elrei, habitualmente alegre, se assentra triste na cadeira de
espaldas, unico movel do aposento, e encostra a cabea sobre
o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2],
assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem
em silencio: em p, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel
querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento
as determinaes de sua senhora: ao longo da sala o conde de
Barcellos e D. Gonalo Telles passeavam lentamente, conversando
em voz submissa e pausada.

Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes
tinha bem differentes motivos.

A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d'elrei
como um remorso cruel. Pelas suggestes de seu tio adoptivo
consentra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta
Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitra os soccorros de seus
valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lana
em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaar
dos pendes inimigos: elle, cavalleiro, fra vil instrumento
de vingana covarde: elle, rei de Portugal, fra o destruidor
do seu povo; elle, portuguez, recebra o nome de fraco de um
castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta[3]! Estas idas,
que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes,
tomavam maior vulto e fora na solido e no silencio. O pobre
monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha
sobeja razo de estar triste. A lua, que comeava a subir, dava
de chapa, atravs da janella oriental do aposento, no rosto de D.
Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumira
tambem as faces demudadas de afflico. Este logar, esta luz, e
esta hora eram para elle fataes!

Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous
fidalgos comearam a soar na sala contigua: quem quer que era
passeava tambm.

Dos olhos de D. Fernando saam dous tenues reflexos; eram os raios
da lua que se espelhavam em duas lagrymas.

A ranha, alevantando-se ento, disse ao donzel:

"Nunalvares Pereira, vde quem est nessa sala."

Nunalvares abriu a porta, e alongando a cabea voltou-se
immediatamente, e disse:

"O corregedor da crte."

Os dous fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se,
e conservaram-se immoveis.

A rainha fez signal com a mo a Nunalvares para que esperasse:
o donzel ficou  porta sem pestanejar.

D. Leonor encaminhou-se ento para elrei, que, embebido no seu
profundo scismar, no vra nem ouvra o que se fazia ou dizia.
Curvando-se, e firmando o cotovello no brao da cadeira d'elrei
encostou a cabea sobre o hombro delle, com a face unida  sua.

"Que tens tu, Fernando?--perguntou ella com essa inflexo de
voz meiga, que s sabem labios de esposa que muito ama, mas com
que tambem soubera atinar esta mulher sublime de hypocrisia.

"Nada! oh ... nada!"--respondeu elrei, lanando-lhe o brao ao
redor do pescoo, e apertando a face incendiada aquelle rosto
de anjo, que dissimulava um corao de demonio.

Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de
D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimra as lagrymas da
compaixo e do remorso.

"Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!--replicou
a rainha.--Tu s infeliz, e eu sei porque o s. Aborreces j a
pobre Leonor Telles."

O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir
um corao de marmore.

"Enlouqueceste, Leonor?--exclamou el-rei.--Aborrecer-te? Sem
ti este mundo fra para mim um ermo, a cora martyrio, a vida
maldico de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores,
no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio,
tudo te sacrifiquei: no me psa. Mil vezes que tu o queiras
t'o sacrificarei de novo."

"Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes:
fosse metade do meu!"

"Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo,
e vers se as minhas palavras so sinceras!"

"Ha um, rei de Portugal!"--replicou Leonor Telles, em cujos olhos
scintillava o contentamento.

Dizendo isto ella se affastra d'elrei. O seu aspecto tomou
subitamente a expresso grave e severa de uma rainha. A um gesto
que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da crte
entrou. Trazia na mo um pergaminho aberto. Chegou ao p de Leonor
Telles, ajoelhou e entregou-lh'o.

A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe
uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se
 esquerda da cadeira de D. Fernando.

"A prova do que dissestes, rei de Portugal, est em estampardes
no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.[4]"

D. Fernando recebeu o pergaminho e comeou a ler: a cada uma das
extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com
o raio visual, o tremor das suas mos se tornava mais violento,
as contraces do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de
ler atirou o pergaminho ao cho, e com voz terrvel exclamou,
cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:

"Mulher, que me pedes tu?"

"Justia, e as minhas arrhas."

Era a primeira vez que elrei ousava resistir  vontade de Leonor
Telles. Ella ainda no o cria. Habituada a ser obedecida pelo
pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a
insolencia de uma resoluo incontrastavel.

"Justia? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos.
As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus
senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue
e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor
d'inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar,
dos patibulos j tm pendido sobejos cadaveres[5]. E ainda no
satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na
minha capital assolada, confirme uma sentena de morte? Leonor!
tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!"

D. Leonor repellra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando,
que mal acreditava a prpria audacia, com um olhar em que se
misturava a indignao e o despreso. Ella ouvira as suas palavras
sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para
a janella d'onde batia o luar, e estendeu a mo para o cu:

"Ha dous annos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas
horas, um cavalleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto
mulher pde ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o
pelo cu, pelos ossos de seus avs, pela sua f de cavalleiro--e
o cavalleiro mentiu. As bcas de homens vis vomitavam contra essa
mulher, e a essa mesma hora, os nomes de adultera, de barregan,
de prostituta, e pediam a sua morte. O cavalleiro sabia que taes
affrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe,
se o sangue de quem as proferiu no as lava um dia. O cavalleiro
ofereceu a sua alma aos demonios se no as lavasse com sangue--e
esse cavalleiro blasphemou e mentiu. Senhor rei, diante do cu que
elle invocou, perto dos ossos de seus avs, pelos quaes jurou,
 luz da lua que o allumiava, dir-vos-hei: aquelle cavalleiro
foi perjuro, blasphemo, desleal e covarde, e eu a sua victima. 
contra elle que ora vos peo justia. Rei do Portugal, justia!"

Esta ultima palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. Elrei,
que durante o discurso de D. Leonor se ergura pouco a pouco,
fascinado pelo seu gesto diabolico e pelo seu olhar fulminante,
cahiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraado cobriu
a cara com ambas as mos, e depois de um momento de silencio
murmurou:

"Mas como punir aquelles que talvez so cadaveres? A guerra e
a furia popular os puniram!"

D. Leonor trinmphra.

"Nem todos:--proseguu a astuta e sanguinria panthera, accommettendo
o ultimo entrincheiramento, em que D. Fernando j debalde procurava
defender-se.--Os seus mais vis inimigos ainda respiram, e porventura,
ainda sonham vingana. Corregedor da crte, lde os nomes escriptos
em vossa sentena."

O corregedor da crte levantou o pergaminho, affastando-o dos
olhos, e interpondo a mo aberta entre estes e a tocha que Nunalvares
segurava: tossiu duas vezes, inclinou para traz a cabea, e com
o tom cheio e solemne de um mestre em degredos, leu:

"Item: Ferno Vaasques, peom, alfayate, cabea e propoedor dos
ssusodictos rreveis."--Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou
a sua ementa particular, e leu a seguinte cota:

"Vivo; muy malferido dhua ffrechada com hera[6] no ffecto
do meirinho-moor, quando hos da cidade llevarom os castellos
de vencida at ma rrua nova."

Lida esta observao, o corregedor continuou a ler successivamente
os nomes dos rus e as respectivas cotas.

"Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, pcom, capito dhu
corpo dos ssusodictos rreveis."--Dizia a ementa:--"Morto de ssua
door naturall.

"Item: Bertolameu Martijs, ourivez, peom, dizidor de pallavras
de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria, e de gro ssamdice
e desavergonhamento."--Dizia a ementa:--"Morto dhua pedrada
dhu emgenho dos imiguos."

"Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do allcayde
moor que ffoy do caslello desta lyal cidade, capito dos beesteiros
que fforom a Ssam domingos."--Dizia a cota:--"Foy cativo dhos
castellos: dado em rrendiom, e a borrequado na pryssom Dalcaova."

"Item: Bertolameu Chambo, peom, tanoeiro, cabea da beestaria
do concelho, deputado, pera ffazer vilto e affronta a ssua rreal
ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes,
rrainha dona llyanor."--Resava a ementa:--"Morto dhua lamada
aa porta dho fferro."

"Item: Ayras Gil, petintal, capito dos rreveis, gualiotes, arraizes,
e pesquadores Dalfama."--Dizia a cota:--"Ffogido com os castellas."

"Item: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de
sseu officio, bevedo, assoalhador de palavras e dictos devedados,
e scuita dhos reveis."--Notava a ementa:--"Enssandeeu na pryssom
ao lleer da ssemtema."

Pobre Fr. Roy! Vendo-se condemnado  morte, desesperado, revelra
o que tinha sido na revolta--um espia de Leonor Telles. A cota da
ementa fra tudo o que tirra das suas revelaes: o corregedor,
homem agudo como o melhor mestre em leis ou degredos, deduzira
das suas palavras que o beguino endoudecra. Trocava as idas.
Tinha sido espia, mas dos revoltosos.

Alevantado o crco da Lisboa, o corregedor da crte fra o primeiro
presente que a nova rainha envira  cidade. quelle perspicaz
e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar
um sarau digno della, uma sentena de morte. A prova da sua
perspicacia e diligencia estava em ter j no caminho da forca os
desgraados, cuja sentena vinha trazer confirmao real. N'uma
execuo nocturna no havia a receiar tumultos populares, e a
brevidade que a rainha lhe recommendra neste negocio, lhe fazia
crer que no seria desagradavel a sua real senhoria a immediata
execuo dos rus.

Quando acabou a leitura, elrei tirou da bola que trazia ao cindo
o sllo de camafeu, e sem dizer palavra entregou-o ao corregedor.
Este pegou na tocha de Nunalvares, deixou cahir alguns pingos de
cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento
de papel que tirra da ementa, e cravou neste o sllo. As armas
d'elrei ficaram ahi estampadas. O corregedor fizera isto com a
promptido e aceio com que o mais habil algoz enforcaria o seu
proximo.

Depois o honesto magistrado entregou o sllo a elrei, cujo tremor
nervoso se renovra durante a fatal ceremonia. Ao pegar-lhe, o
pobre monarcha deixou-o cahir no cho. O sllo foi rolando e
parou aos ps de D. Leonor Telles. Ella empallideceu. Porqu?
Talvez se lhe figurou uma cabea humana, que rolava diante delia.

O corregedor fez uma profunda venia, e perguntou em voz sumida
 rainha:

"Quando, senhora?"

No mesmo tom D. Leonor respondeu:

"J."

O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O j da seria
mais j do que ella propria pensava.

O corregedor sau.

A um aceno de D. Leonor, o donzel metteu a tocha no annel de
ferro embebido na parede, d'onde a tinha tirado, e encaminhou-se
para juncto da porta, onde ficou com os braos cruzados, olhos
no cho, e immovel como uma estatua. Desde este dia o formoso
donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquella
que lhe cingira a espada. O generoso Nunalvares conhecra que
debaixo desse rosto suave se escondia um instincto de besta-fera.

Os dous fidalgos continuaram a passeiar de um para outro lado,
conversando em voz baixa e como alheios  scena que alli se passava.

Elrei tomra a primeira postura em que estava, com o cotovelo
firmado no brao da cadeira, e a cabea encostada no punho; mas os
seus olhos, revolvendo-se-lhe nas orbitas, incertos e espantados,
exprimiam a dolorosa alienao daquella alma timida, atormentada
por mil affectos oppostos.

Ouvia-se apenas o cico dos dous que conversavam. E por largo
espao aquetle murmurio, e o respirar alto e convulso de D. Fernando
foram o unico rudo que interrompeu o silencio do vasto aposento.

Elrei, com a mo esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se
ir ao som das idas tenebrosas que lhe offuscavam o espirito,
e que protrahidas o levariam bem proximo das raias de completa
loucura. A imagem de Leonor Telles apparecia-lhe como composto
monstruoso de vulto d'anjo e de olhar de demonio. Um amor infinito
arrastava-o para essa imagem; o horror affastava-o della. Via-a
como um simulachro das virgens, que, na infancia, imaginava ao
ouvir ler ao bom de seu aio Ayras Gomes as lendas das martyres;
mas logo cuidava ouvi-la dar risada, infernal passando por cima
das ruinas de cidade deserta. O patibulo e os delirios amorosos;
o cheiro do sangue e o halito dos banquetes misturavam-se-lhe no
senso intimo: e o pobre monarcha, nos seus desvarios, perdra
a consciencia do logar, da hora e da situao em que se achava
naquelle terrivel momento.

Mas um beijo ardente, dado nessa mo que tinha estendida, e lagrymas
ainda mais ardentes que a regavam foram como faisca electrica
revocando-o  razo e  realidade da vida.

A commoo indizivel e mysteriosa que sentira fez-lhe abaixar
os olhos: a rainha estava a seus ps: era ella quem lhe cobria
a mo de beijos e lh'a regava de lagrymas.

D. Fernando affastou-a suavemente de si: ella alevantou o rosto
celeste orvalhado de pranto; era de feito a imagem de uma das
martyres que elle via no seu imaginar da infncia. D. Leonor
ergueu as mos supplicantes com um gesto de profunda angustia:
ento era mais formosa que ellas.

"Ah!"--murmurou elrei:--"porque  o teu corao implacavel, ou porque
te amei eu tanto?!"

"Desgraada de mim!--acudiu D. Leonor entre soluos.--O teu amor
era como o iris do cu: era a minha paz, a minha alegria, a minha
esperana; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Telles
desvanecer-se-ha e passar com elle!"

" porque sabes que esse amor no pde perecer; que esse amor
como um fado escripto l em cima--interrompeu D. Fernando--que
tu me fazes tingir as mos de sangue, para satisfazer tuas crueis
vinganas:  porque sabes que eu esgto sempre o calix das ignominias
quando as tuas mos m'o apresentam, que tu me sacias de deshonra.
Ters acaso algum dia piedade daquelle que fizeste teu servo,
e que no pde esquivar-se a ser tua victima?"

"Oh quanto s injusto, Fernando, e quo mal me conheces!--exclamou
Leonor Telles limpando as lagrymas.--Foi a tua dignidade real, a
tua justia, o teu nome que eu quiz salvar da tua propria brandura.
Aos mesquinhos que me offenderam perdoei de todo o corao; mas
tu, que eras rei e juiz, no o podias fazer. Se o nome de teu
virtuoso pae ainda hoje lembra a todos com venerao e amor, 
porque teu pae foi implacavel contra os criminosos, e aquillo em
que pes a deshonra e a ignominia,  a coroa de gloria immortal
que crca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a
escolher entre a confirmao dessa fatal sentena e a deslealdade
e blasphemia, que no cabem em corao e labios de cavalleiro,
foi por te salvar de ti mesmo. Se crs que nisto fui culpada,
dize-me s--Leonor, j no te amo!--e eu ficarei punida; porque
nessas palavras estar escripta a minha sentena de morte! Possas
tu depois perdoar-me, e proferir sobre a campa da pobre Leonor
uma expresso de piedade!"

As lagrymas e os soluos parecia no a deixarem proseguir. Reclinou
a cabea sobre os joelhos d'elrei, apertando-lhe a mo entre as
suas com um movimento convulso.

Formosa, querida, humilhada a seus ps, como resistiria o pobre
monarcha? Unindo a face quella fronte divina, s lhe disse:--oh
Leonor, Leonor!--e as suas lagrymas misturavam-se com as della.

Durante esta lucta da dor e da hypocrisia, em que, como sempre
acontece, a ultima triumphava, o conde de Barcellos e D. Gonalo
Telles tinham-se encostado  janella fatal que dava para o rio,
e que tambem dominava grande poro do arrabalde occidental da
cidade. O espectaculo da noite era de melancholica magnificencia.

A lua caminhava nos cus limpos do nuvens, e pela face da terra
nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas
aguas, mas esmorecia batendo na povoao, na qual no achava,
alm dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva onde
espelhar-se, ou um sussurro do lesta acorde com as suas harmonias.
O incendio e o ferro tinham passado por l, e Lisboa era um cahos
de ruinas, um cemiterio sem lapides. Apenas no extremo do seu,
d'antes, mais rico e povoado arrabalde amarelejava pulido pelo
tempo o gothico mosteiro de S. Francisco juncto de sua irman mais
velha a igreja dos Martyres. No valle que ficava em meio a luz
do cima embebia-se inutilmente na povoao que jazia extincta.
A bella lua de maio, to fagueira para esta cidade querida,
assemelhava-se  lea, que voltando ao antro acha o seu cachorrinho
morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo,
indifferente, e frio, no o cr, e vae, e volta muitas vezes
renovando seus inuteis affagos. Lisboa era um cadaver, e a lua
passava e sorria-lhe ainda!

Mas no meio daquelle; cho irregular, negro, callado, viam-se
aqui e acol luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao
que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e
de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as reliquias
dos mortos, para lhes darem sepultura christan. Neste piedoso
trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram
acompanhados por alguns do povo, que para se esforarem cantavam
uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham
com triste som bater de vez em quando nos ouvidos dos dous
cavalleiros. Resavam as coplas:

  D'amigos e imigos,
  Que ahi so deitados,
  Levemos os ossos
  Ao cho dos finados.
    Ave Maria!
    Sancta Maria!

  Madre gloriosa,
  Dess'alta ventura
  Demovei os olhos
   nossa tristura.
    Ave Maria!
    Sancta Maria!

  Ao bento Jesus,
  E ao padre eternal
  Pedi que perdoe
  A quem morreu mal.
    Ave Maria!
    Sancta Maria!

Esta longinqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que
se alevantou mais perto dos dous cavalleiros. Uma voz esganiada
dava o seguinte prego:

"....Justia que manda fazer elrei em Ferno Vasques, Joo Lobeira
e Fr. Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mos decepadas
em vida."

Os cavalleiros abaixaram os olhos para o logar d'onde subra
a voz: era no terreiro proximo: os trs padecentes e o algoz,
cercados de alguns bsteiros, aproximavam-se do cadafalso: varios
vultos negros fechavam o prestito: daquella pinha partira a voz
do pregoeiro.

Este prego, dado a horas mortas e n'uma praa deserta, parecia
um escarneo. Mas o corregedor da crte era affamado jurisconsulto
e ns temos ouvido a alguns que na execuo das leis as frmas
so tudo. Assim piamente o cremos.

Duas se tinham, porm, esquecido: os desgraados morriam, como
aquelles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite,
e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.

O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma especie
de marco escuro que estava ao p do patibulo. D'ahi a nada os
cavalleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram successivamente
dois golpes dados como em vo, seguindo-se a cada um delles um
grito de terrivel angustia.

O conde de Barcellos quiz rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na
garganta, e, como Gonalo Telles, recuou involuntariamente.

O grilo que restrugira, chegra aos ouvidos d'elrei.

"Que bradar de homem que matam  este?--perguntou elle.

"A justia de sua senhoria que se executa--respondeu o conde,
que neste momento retrocedia da janella.

"Oh desgraados! to breve!--disse elrei, passando a mo pela
fronte, d'onde manava o suor da afflico e do terror. Olhando
ento para Leonor Telles accrescentou:

"At a derradeira mealha esto pagas vossas arrhas, rainha de
Portugal! Que mais pretendeis de mim?"

E deixou pender a cabea sobre o peito.

D. Leonor no respondeu.

D. Gonalo Telles aproximou-se ento da cadeira de D. Fernando,
e curvou um joelho em terra.

Elrei alevantou os olhos e perguntou-lhe:--Que me quereis?"

"Senhor--respondeu o honrado e nobre cavalleiro--se vossa senhoria
consentisse neste momento em ouvir a supplica de um dos seus
mais leaes vassallos!..."

"Falae:--replicou D. Fernando.

"Joo de Lobeira acaba de receber o premio de sua traio:--proseguiu
D. Gonalo.--O desleal escudeiro possuia avultados bens, que
ficam pertencendo  cora real. Por vossa muita piedade podeis
fazer merc delles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre
moo ensandeceu ha tempos! Tresleu com livros de cavallarias,
e to varrido est que no fala em al, seno em um que anda
imaginando, e a que poz o nome Amadis. Para um mesquinho parvo
e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha
escassa quantia mal chega ..."

"Calae-vos, calae-vos; que isso  negro e vil;--bradou elrei,
redobrando-lbo o horror que tinha pintado no rosto.--Deixae ao
menos que a sua alma chegue perante o throno de Deus!"

"Apenas cincoenta maravedis!"--murmurou D. Gonalo, erguendo-se,
e abaixando os olhos, afflicto com a lembrana de sua extremada
pobreza.

A seis de junho da era de Cesar de 1411 (1373) em um dos andares
da torre do castello, o veador da chancellaria, Alvaro Pires,
passeando de um para outro lado, dictava a um mancebo vestido
de garnacha preta, e que tinha diante de si tinteiro, pennas,
e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota:

"Item. Pera se spreuer a fl'olhas cento e vinte-oyto do llivro
prymeyro da Chancelaria Delrrey noso senhor:--Doaom dos bees de
rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor
contra ho servio de ssua rreal senhoria, ao muy nobre D. Gonaalo
Tellez, per ho muyito divedo que c elrrey ha, e polos muytos
sservios que del te rreebido e ao deante espera de rreeber.[7]"

E o povo?... Oh, este sim! Mostrava-se agradecido e bom, no meio
de tantas infamias e crimes.

Os populares, que, na manhan immediata quella horrivel noite
dos fins de maio, passavam pello terreiro maldict, onde pendiam
da forca os tres cadaveres, meneavam a cabea, e seguindo vante
diziam:

"Boa e prestes foi a justia d'elrei nos traidores. Alcacer por
sua senhoria!"



NOTA FINAL.

D. Fernando guardou at  primavera de 73 a vingana contra os
populares de Lisboa e d'outras terras, que no anno de 71 se tinham
amotinado por causa do seu casamento. V-se isto dos documentos
registados na sua chancellaria e citados por Fr. Manuel dos Sanctos.
Quem attentamente tiver estudado o caracter atroz e dissimulado de
Leonor Telles, to bem pintado por Ferno Lopes, e os factos que
provam a sua influencia sem limites no animo daquelle principe,
no poder esquivar-se a vehementes suspeitas sobre os motivps, que
n'um romance ns damos como reaes, porque ahi  licito faze-lo, da,
alis inexplicavel, inaco com que D. Fernando no quiz oppor-se 
vinda d'elrei de Castella sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus
moradores aos mais espantosos apuros, e que converteu a cidade,
por assim dizer, em um monto de ruinas. Daquelles documentos
resulta que, depois de tirada toda a fora aos habitantes de
Lisboa pela guerra de Castella, em que se viram quasi ss e
abandonados, elrei viera, sobre as ruinas da maior e melhor parte
della, satisfazer os odios de D. Leonor; porque, levantado o
cerco em maro de 73, achmos elrei em Lisboa (aonde no voltra
desde a sua fuga em outono de 71) durante alguns dias de maio, e
em Santarem e outros logares nos mezes seguintes, fazendo mercs
dos bens de cidados mortos, decepados, ou fugidos, do que se
pde concluir que ento foram executados ou banidos, no sendo
de crer que a cobia cortezan tivesse esporado muitos dias sem
prear estes sanguinolentos despojos.

O casamento de Leonor Telles, e as consequencias delle so o
primeiro acto do drama terrivel, da Iliada scelerun da sua vida
politica. Foi este primeiro acto que ns procurmos dispor na tela
do romance historico. Todo o drama daria, nessa frma da arte,
uma terrivel chronica. Desde esta conjunctura, at ser arrastada
em ferros para Castella por aquelles mesmos que chamra a assolar
o seu paiz, a Lucrecia Borgia portugueza  na historia daquella
epocha uma espcie de phantasma diabolico, que apparece onde quer
que haja um feito de traies, de sangue, ou d'atrocidade.

[1] Ferno Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 75.

[2] A rainha... como era ousada e muito faladora: Ferno
Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 126.

[3] Ibid. Cap. 72.

[4] O selo de puridade ou do camafeu era aquelle que
se estampava no proprio pergaminho, e que servia ordinariamente
para o rei expedir documentos de menos importancia, na falta do
chanceller-mr, que tinha o sllo grande, curial, ou do cavallo.
Veja-se a Dissertao 3 de J. P. Ribeiro.

[5] Os tumultos contra o casamento de D. Fernando no
se tinham limitado a Lisboa. Pelas doaes dos bens dos treedores
mortos ou decepados se conhece que houve assoadas e depois vinganas
em Satarem, Leiria, Abrantes e outras partes.

[6] Neste sculo ainda barbaro o uso de hervarou envenenar
as armas de tiro ou arremesso era vulgarissmo nos combates.

[7] a nota  imaginaria, mas esta merc acha-se com
effeito registada a f. 128 do L. 1. da chancellaria de D. Fernando;
cumpre todavia advertir que dessa chancellaria apenas existe
original o 3. livro: o 1.  dos reformados ou estragados por
Gomes Eannes de Azurara.





O CASTELLO DE FARIA (1373)




A breve distancia da villa do Barcellos, nas faldas do Franqueira,
alveja ao longo um convento de Franciscanos. Aprazivel  o sitio,
sombreado de velhas arvores. Sente-se alli o murmurar das aguas
e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o
silencio daquella solido, a qual, para nos servirmos de uma
expresso de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horisontes
parece encaminha e chamar o espirito  contemplao das cousas
celestes.

O monte que se alevanta ao p do humilde convento,  formoso, mas
aspero e severo como quasi todos os montes do Minho. Da sua cora
descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na
face da terra. O espectador colloeado no cimo daquella eminencia
volta-se para um e outro lado, e as povoaes e os rios, e os
prados e as fragas, e os soutos e os pinhaes apresentam-lhe o
panorama variadissimo que se descobre de qualquer ponto elevado
da provncia de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, j se viu regado
de sangue: j sobre elle se ouviram gritos de combatentes, ancias
de moribundos, estridor de habitaes incendiadas, sibilar de
setas, e estrondo de machinas de guerra. Claros signaes de que
ahi viveram homens; porque  com estas balisas que elles costumam
deixar assignalados os sitios que escolheram para habitar na
terra.

O castello de Faria com suas torres e ameias, com sua barbacan
e fosso, com seus postigos e alapes ferrados, campeou ahi como
dominador dos valles vizinhos. Castello real da meia idade, a
sua origem some-se nas trevas dos tempos que j l vo ha muito:
mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de marmore e
de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcacer
das eras dos reis de Leo desmoronou-se e cahiu. Ainda no seculo
dezesete parte da sua ossada estava dispersa por aquellas encostas:
no seculo seguinte j nenhuns vestigios delle restavam, segundo
o testemunho de um historiador nosso. Um eremiterio fundado pelo
celebre Egas Moniz era o unico eccho do passado que ahi restava.
Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro
duque de Bragana D. Affonso. Era esta lagea a mesa em que costumava
comer Salat-ibn-Salat, ultimo senhor de Ceuta. D. Affonso, que
segura seu pae D. Joo I na conquista daquella cidade, trouxe
esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a comsigo
para a villa de Barcellos, cujo conde era. De mesa de banquetes
mouriscos converteu-se essa pedra em ara do christianismo. Se
ainda existe, quem sabe qual ser o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do castello de Faria para se construir
o convento edificado ao sop do monte. Assim se converteram em
dormitorios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de
sepulturas, os umbraes das balhesteiras e postigos em janellas
claustraes. O rudo dos combates calou no alto do monte, e nas
faldas delle alevantou-se a harmonia dos psalmos e o sussurro
das oraes.

Este antigo castello tinha recordaes de gloria. Os nossos maiores,
porm, curavam mais de practicar faanhas, do que de conservar
os monumentos dellas. Deixaram por isso, sem remorsos, sumir
nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um
dos mais heroicos feitos de coraes portuguezes.

Reinava entre ns D. Fernando. Este principe, que tanto degenerra
de seus antepassados em valor e prudencia, fra obrigado a fazer
paz com os castelhanos depois de uma guerra infeliz, intentada sem
justificados motivos, e em que esgotou inteiramente os thesouros
do estado. A condio principal, com que se poz termo a esta lucta
desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha d'elrei de
Castella: mas brevemente a guerra se accendeu de novo; porque
D. Fernando, namorado de D. Leonor Telles, sem lhe importar o
contracto de que dependia o repouso dos seus vassallos, a recebeu
por mulher, com affronta da princesa castelhana. Resolveu-se o
pae a tomar vingana da injuria, ao que o aconselhavam ainda
outros motivos. Entrou em Portugal com um exercito, e recusando
D. Fernando acceitar-lhe batalha, veiu sobre Lisboa e cercou-a.
No sendo o nosso proposito narrar os successos deste sitio,
volveremos o fio do discurso para o que succedeu no Minho.

O Adiantado de Galliza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela
provincia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de p
e de cavallo, emquanto a maior parte do exercito portuguez trabalhava
ou por defender ou por descercar Lishoa. Prendendo, matando e
saqueando, veiu o Adiantado at as immediaes de Barcellos sem
achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porm, sau-lhe ao encontro
D. Henrique Manuel, conde de Ca, e tio d'elrei D. Fernando, com
a gente que pde ajunctar. Foi terrivel o conflicto; mas por
fim foram desbaratados os portuguezes, cahindo alguns nas mos
dos castelhanos.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mr do castello de
Faria, Nuno Gonalves. Sara este com alguns soldados para soccorrer
o conde de Ca, vindo assim a ser companheiro na commum desgraa.
Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello
d'elrei seu senhor das mos dos inimigos. Governava-o em sua
ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros,
de bom grado dsse a fortaleza para o libertar, muito mais quando
os meios de defenso escaceavam. Estas consideraes suggeriram
um ardil a Nuno Gonalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse
conduzir ao p dos muros do castello; porque elle com suas
exhortaes faria com que seu filho o entregasse sem derramamento
de sangue.

Um troo de bsteiros e de homens d'armas subia a encosta do
monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno
Gonalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da
hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por Joo Rodriguez
de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O
exercito victorioso a tomar posse do castello de Faria, que
lhe promettra dar nas mos o seu captivo alcaide.

De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoao
de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas
enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaavam soltas
ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas,
abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se
estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior
ou barbacan.

Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os
almocadens corriam com a rolda[1] pelas quadrellas do muro, e
subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro
aonde se haviam acolhido os habitantes da povoao, estava cuberlo
de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos,
das mulheres, e das creanas, que alli se julgavam seguros da
violencia de inimigos desapiedados.

Quando o troo dos homens d'armas, que levavam preso Nuno Gonalves,
vinha j a pouca distancia da barbacan, os bsteiros que coroavam as
ameias encurvaram as bstas, os homens dos engenhos prepararam-se
para arrojar sobre os contrarios os seus quadrellos e virotes,
em quanto o clamor e o chro se alevantava no terreiro, onde
o povo inerme estava apinhado.

Um arauto sau do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou
para a barbacan: todas as bstas se inclinaram para o cho, e
o ranger das machinas converteu-se n'um silencio profundo.

"Moo alcaide, moco alcaide!--bradou o arauto--teu pae captivo
do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galliza pelo
muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar
comtigo de fra de teu castello."

Gonalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou ento o terreiro,
e chegando  barbacan, disse ao arauto:--"A Virgem proteja meu
pae: dizei-lhe que eu o espero."

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonalves,
e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacan. Chegados
ao p della, o velho guerreiro sau d'entre os seus guardadores
e falou com o filho:

"Sabes tu, Gonalo Nunes, de quem  esse castello, que, segundo o
regimento de guerra, entreguei  tua guarda quando vim em soccorro
e ajuda do esforado conde de Ca?"

"--respondeu Gonalo Nunes--de nosso rei e senhor D. Fernando
de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem."

"Sabes tu, Gonalo Nunes, que o dever de um leal alcaide  de
nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora
fique enterrado debaixo das ruinas delle?"

"Sei, oh meu pae!--proseguiu Gonalo Nunes em voz mais baixa, para
no ser ouvido dos castelhanos, que comeavam a murmurar.--Mas
no vs que a tua morte  certa, se os inimigos percebem que me
aconselhaste a resistencia?"

Nuno Gonalves, como se no tivera ouvido as reflexes do filho,
clamou ento:--Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do
castello de Faria! Maldicto por mim, sepultado sejas tu no inferno,
como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem
nesse castello, sem tropearem no teu cadaver."

"Morra!--gritou o almocadem castelhano--morra o que nos
atraioou."--E Nuno Gonalves cahiu no cho atravessado de muitas
espadas e lanas.

"Defende-te, alcaide!"--foram as ultimas palavras que elle murmurou.

Gonalo Nunes corria como louco ao redor da barbacan, clamando
vingana. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros: grande
poro dos assassinos de Nuno Gonalves misturaram o prprio
sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos accommetteram o castello: no primeiro dia de combate
o terreiro da barbacan ficou alastrado de cadaveres tisnados, e de
colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez
Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chua um colmeiro
incendiado para dentro da cerca: o vento suo soprava nesse dia
com violencia; e dentro em pouco os habitantes da povoao, que
haviam buscado o amparo do castello, pereceram junctamente com
as suas frageis moradas.

Mas Gonalo Nunes lembrava-se da maldico de seu pae: lembrava-se
de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos
os momentos o ultimo grito do bom Nuno Gonalves:--"Defende-te,
alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos
muros do castello de Faria. O moo alcaide defendia-se como um
leo, e o exercito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu
brioso procedimento, e pelas faanhas que obrra na defenso
da fortaleza, cuja guarda lhe fra encommendada por seu pae no
ultimo trance da vida. Mas a lembrana do horrivel successo estava
sempre presente no espirito do moo alcaide; e, pedindo a elrei o
desonerasse do cargo, que to bem desempenhra, foi depr ao p
dos altares a cervilheira e o saio de cavalleiro, para se cubrir
com as vestes pacificas do sacerdocio. Ministro do sanctuario,
era com lagrymas e preces que elle podia pagar a seu pae o ter
cuberto de perpetua gloria o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta gloria, no ha hoje ahi uma unica pedra que a atteste.
As relaes dos historiadores foram mais duradouras que o marmore.

[1] Roldas e sobreroldas eram os soldados e officiaes
encarragados de rondarem os postos e atalaias.





A ABOBADA (1401)




O CGO.


O dia 6 de Janeiro do anno da Redempo 1401 tinha amanhecido
puro e sem nuvens: os campos, cubertos aqui de relva, acol de
searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol,
verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para
o lavrador. Era um destes formosissimos dias de inverno, mais
gratos que os do estio, porque so de esperana, e a esperana
vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus s concedeu
aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que comea a
subir na eclptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da
terra, ennegrecida pela humidade, errando por entre os troncos
pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a um
bando de creanas no primeiro vio da vida a folgar e a rolar-se
por cima da campa, sobre a qual ha muito sussurrou o ultimo ai da
saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era
um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos,
que querem fazer-nos acceitar como cousa mui poetica

   Esses glos do norte, esses brilhantes
   Caramellos dos tpes das montanhas,

sem se lembrarem de que

   Do sol do meio-dia aos raios vividos,
   Parvos!--se lhes derretem: a brancura
   Perdem co'a nitidez, e se convertem
   De lucidos cristaes em agua chilre;

destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando
o denso vu da estao das tempestades.

No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado
da Batalha, fervia o povo entrando para a nova igreja, que de mui
pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os frades
dominicanos, a quem elrei D. Joo I tinha doado esse magnifico
mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquellas altas abobadas,
onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do
celebrante, que entoava os kyries.

Mas no era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava
pelo profundo portal do templo para dentro do recincto sonoro
daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adorao
dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde
dentro da igreja, e diante do rico presepe que os frades tinham
alevantado juncto ao arco da capella do fundador ento apenas
comeada. A concorrencia era grande, porque os habitantes da
Canoeira, d'Aljubarrota, de Porto-de-Ms e dos mais logares vizinhos,
desejosos de ver to curioso espectaculo, tinham deixado desertas
as povoaes para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro.
Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros para o valle por
sendas torcidas, aquellas multides, vestidas de cores alegres,
e semelhantes no seu todo a serpentes immensas, que, transpondo
as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao
longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando
a planicie, em que avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja
corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da
estao invernosa.

No campo contiguo ao edificio, aqui e acol, alevantavam-se casarias
irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cubertas
de madeira, e abertas para todos os lados,  maneira de simples
telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do
tempo eram as moradas dos mestres e artifices que trabalhavam no
edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n'uns pedras s desbastadas,
n'outros algumas onde se comeavam a divisar lavores, n'outros,
emfim, pedaos de cantaria, em que os mais habeis esculptores e
entalhadores j tinham estampado os primores dos seus delicados
cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel poro de
pedras, lavradas, pulidas, e promptas para serem collocadas em
seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro,
que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis
rendados, peas dos fustes, capiteis gothicos, laarias de bandeiras,
cordes de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou
ainda no cho endurecido pelo contnuo perpassar de trabalhadores,
officiaes, e mais obreiros desta maravilhosa machina. Quem de
longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos
primores de esculptura, julgra ver o assento de uma cidade
antiquissima, arrasada pela mo dos homens ou dos seculos, de
que s restra em p um monumento, o mosteiro. E todavia, esses
que pareciam restos de uma antiga Balbek no eram seno algumas
pedras que faltavam para o acabamento d'um convento de frades
dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria, vulgarmente
chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava
meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os
habitantes das proximas povoaes, e de todo o ruido e algazarra
que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas
traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do orgam,
soltando a espaos suas melodias, que sussurravam e morriam ao
longe, suaves como um pensamento do cu.

No estava, porm, inteiramente ermo o terreiro da frontaria
do edificio. Assentado sobre um troo de fuste, com os ps ao
sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela
sombra de um telheiro, a qual se comeava a prolongar para o lado
do oriente, via-se um velho, veneravel de aspecto, que parecia
embebido em profundas meditaes: pendia-lhe sobre o peito uma
comprida barba branca: tinha na cabea uma touca foteada, um
gibo escuro vestido, e sobre elle uma capa curta ao modo antigo.
A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas
feies revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados
morava um animo rico de alto imaginar: as faces do velho eram
fundas, as maans do rosto elevadas, a fronte espaosa e curva,
e o perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada
como quem vivra vida de continuo pensar, e correndo com a mo
os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando
o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou
approvava com eloquencia muda os primores ou as imperfeies
do artifice, que copira  ponta de cinzel aquella pagina do
immenso livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam
simplesmente o mosteiro da Batalha.

Emquanto o velho scismava ssinho, e palpava o canto subtilmente
lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos,  portaria
do mosteiro, que perto d'alli ficava, outras figuras e outra
scena se viam. Dous frades estavam em p no limiar da porta,
e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos
dos ps, e estendendo os pescoos, parecia quererem descubrir no
horisonte, que as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto:
depois de assim olharem um pedao, encolhiam os pescoos, e
voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa,
que levava seus visos de no acabar.

"Oh homem!--dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta
e as barbas e cabellos grisalhos davam certo ar de auctoridade
sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na cr
negra da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.--J
disse a vossa reverencia, que elrei me escreveu de seu proprio
punho que viria assistir ao auto da adorao dos reis, e de caminho
veria a casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar
os simples que sustentavam a abobada."

"E nego eu isso?--replicou o outro frade.--O que digo  que me
parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa
paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que l vae o meio-dia;
daqui a pouco tocar a vesperas e s duas por tres  noite. No
vdes, padre mestre, a que horas vir a acabar o auto? E este
povo, este devoto povo que ahi est, que ahi vem, ha-de ir com
o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com
raparigas..."

"T, t--interrompeu o prior.--Temos luar agora, e vo de consum.
O caso no  esse, padre procurador, o caso  se est tudo aviado
para agasalharmos elrei e os de sua companha."

"Oh l, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido
tanto descano como hoste ou cavalgada de castelhanos diante
das lanas do Condestavel: o peior  que, segundo me parece, e
dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"

"No falta quem tarda: elrei no quebrar a palavra ao seu antigo
confessor. O que quero  que todos os novios e coristas, que tem
de fazer suas representaes no auto, estejam a ponto e vestidos,
para elle comear logo que sua senhoria chegue."

"Nada receeis; que tudo est preparado: do que duvido  de que
comecemos, se por elrei houvermos de esperar."

O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia,
e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra
vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade
do habito uma especie de sobrecu para resguardar os olhos dos
raios do sol, que, j muito inclinado para o occidente, batia
de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.

Porm, meio descorooado, o dominicano logo abaixou os olhos:
nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar
de olhos viu o cgo, que estava ainda assentado sobre o fuste
da columna.

Para escapar talvez s reflexes do seu companheiro, o reverendo
bradou ao velho:

"Oh l, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro!
No vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale,
na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que
em seus alforges trazem por ahi os physicos."

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e
encaminhou-se para o cgo.

"Quem  que me fala?--perguntou este, alando a cabea.

"Fr. Loureno Lampra, vosso amigo e servidor, honrado mestre
Affonso. To esquecida anda j minha voz em vossas orelhas, que
me no conheceis pela toada?"

"Perdoae-me, mui devoto padre prior:--atalhou o velho, tenteando
com os ps o cho para erguer-se, no momento em que Fr. Loureno
Lampra chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne,
procurador do mosteiro:--perdoae-me! Foi-se o vr, vae-se o
ouvir. Em distancia, j no acrto a distinguir as falas."

"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:--disse Fr. Loureno,
segurando o cgo pelo brao:--O indigno prior do mosteiro da
Victoria no consentir que o mui sabedor architecto e imaginador
Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que
traou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes
rei D. Joo  nossa ordem, se alevante para estar em p diante
de pobre frade..."

"Mas esse religioso--interrompeu o cgo-- o mais abalisado
theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor Joo das
Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei:
Affonso Domingues  apenas uma sombra de homem, um troo de capitel
partido e abandonado no p das encruzilhadas, um velho tonto de
quem j ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condio
vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, no
achareis n'isso muitos de vossa igualha."

"De merencorio humor estaes hoje:--disse o prior sorrindo.--No
s eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vs em suas cartas.
No sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tena que vos concedeu
em paga da obra que traastes, e dirigistes, em quanto Deus vos
concedeu vista, no prova que no foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"--bradou o velho--"Com sangue comprei essa honra!
Comigo trago a escriptura."--Aqui mestre Affonso, puxando com
a mo tremula as atacas do gibo, abriu-o e mostrou duas largas
cicatrizes no peito.--"Em Aljubarrota foi escripto o documento
 ponta de lana por mo castelhana: a essa mo devo meu foro,
que no ao Mestre d'Aviz. J l vo quinze annos! Ento ainda
estes olhos viam claro, e ainda para este brao a acha d'armas
era brinco. Elrei no foi ingrato, dizeis vs, veneravel prior,
porque me concedeu uma tena!?--Que a guarde em seu thesouro;
porque ainda s portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres
se reparte po por cgos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho no pde continuar: a voz
tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe
pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Loureno
tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito
para o cgo durante algum tempo com o olhar vago de quem no
o comprehendia. Depois a ida da tardana d'elrei e da tardana
do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer
uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo
como espinho pungente. Comeou a bufar e a bater o p, semelhante
ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o
architecto havia-se posto em p: um pensamento profundamente
doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada,
e houve um momento de silencio. Por fim segurando com fora a
manga do habito de Fr. Loureno, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado
da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li j, e mais de uma vez:--respondeu o prior:-- obra prima
daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et
actio segundo Aristoteles; e se no houvesse nessa escriptura
algumas ousadias contra o papa..."

"Pois sabei, reverendo padre,--proseguiu o architecto, atalhando
o impeto erudito do prior,--que este mosteiro, que se ergue diante
de ns, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma:
concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia:
cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina
de cano immensa; mas cano que cumpria se escrevesse em marmore,
porque s o marmore era digno della: os milhares de lavores que
tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei
arrancaram-me das mos o livro, e nas paginas em branco mandaram
escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam
mortos, no o estavam os do espirito. O estranho a quem deram
meu cargo no me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram
nessa pedra que o meu alento no a bafejra. Que direito tinha
o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face
de um archanjo que eu crera? Que direito tinha para me espremer
o corao debaixo dos seus apatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que
tem dispendido? O ouro! ... No! OMeslred'Aviz sabe que o ouro
 vil; s nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos
houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu;
porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha
alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras
pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar
perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias.
E roubaram-me o filho da minha imaginao, dando-me uma tena!...
Com uma tena paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeo-vos,
senhor rei, a merc!... sois em verdade generoso ... mas o nome
de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumir este
no brilho de sua fama mentida..."

O cgo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falra
lhe exhaurira as foras: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se
outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em p diante
delle.

"Estaes mui perturbado pela paixo, mestre Affonso--disse Fr.
Loureno depois de uma larga pausa--por isso menoscabaes mestre
Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos
substituir. Quanto a vs, pensaram os do conselho d'elrei que
deviam propr-lhe vos dsse repouso e honrado sustentamento para
os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor
e experto architecto de Portugal, cuja memoria ser eterna, e
nunca offuscada."

"Obrigado--atalhou o velho--aos conselheiros d'elrei pelos bons
desejos que em meu prol tm. So politicos, almas de lodo, que
no comprehendem seno proveitos materiaes. Do-me o repouso
do corpo, e assassinam-me o da alma! crca de mestre Ouguet,
no serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar:
mas que ponha elle por obra suas traas, e deixem-me a mim dar
vulto s minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro
de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter
vivido com a revoluo, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter
tumultuado com o povo defronte dos paos da adultera[2]; ter
pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. No
 este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse
encommendado seu desenho e edificao, mas nacional, mas popular,
mas da gente portugueza, que disse: no seremos servos do
estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na
sociedade dos irmos obreiros[3], trabalhou nas ss de Inglaterra,
de Frana, e de Alemanha: ahi subiu ao gru de mestre, mas a sua
alma no  aquecida  luz do amor de patria; nem, que o fosse,
 para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mos
de portuguezes devia ser concebido e executado at seu final
remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou
do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes l foram
mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimares.
Sei que no seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas
ns deixariamos successores, que conservassem puras as tradies
da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo vir em que,
nesta obra dos seculos, no haja mos vigorosas que prosigam
os lavores que mos cansadas no poderam levar a cabo. Ento
o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficar truncado.
Mas Affonso Domingues tem uma penso d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos
meno no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma
janella no momento em que o cgo terminava estas palavras, e
uma velha, em cuja cabea alvejava uma toalha mui branca, gritou
da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Est prompta a ca, e comea
a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

"Vamos l, vamos l, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta
com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o
ourlo que o apertava. Chegando ao p do velho, tocou-lhe com
o brao, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:--disse a ama, fazendo sua mesura,
seguida de um lamber de dedos, e de dous puxes nas barbas da
estriga quasi fiada.

"V na graa do Senhor, filha:--respondeu Fr. Loureno, e
accresccntou drigindo-se ao cgo:

"Meu irmo, Deus acceita s ao homem, em desconto da grande divida,
a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens  que nunca
me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a ca ainda ao lume, foi puxando o
cgo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te aps a vista
o siso. Aborrida cousa  a velhice. No vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha
estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli
manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Loureno
viu-o em p sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo
procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!... Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Loureno, volvendo os olhos para o cimo de
um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com
grande aodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expresso proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia,
Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero
de artifices christos, principalmente gregos, se ajunctaram com
elles, e formaram todos uma corporao, que tinha suas leis e
estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes.
Esta foi a origem da Maonaria. Conversation's Lexicon.



MESTRE OUGUET.


Uma das innumeraveis questes, que, em nosso entender, eternamente
ficaro por decidir,  a que versa sobre qual dos dous dictados--voz
do povo  voz de Deus--ou--voz do povo  voz do diabo--seja o
que exprima a verdade.  indubitavel que o povo tem uma especie
de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes,
sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal
navio sado do porto, to rico de mercadorias como de esperanas,
se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o
tempo, e a voz popular renlisa-se com exaco espantosa. Assim
de batalhas; assim de mil factos. Quem d estas noticias? Quem as
trouxe? Como se derramaram? Mysterio  esse, que ainda ninguem
soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro?
Mysterio. No ha, nem haver, talvez, nunca, philosopho que o
explique; salvo se tal phenomeno  uma das maravilhas do magnetismo
animal. Esse meio inintelligivel de dar soluo a tudo o que se
no entende,  acaso a unica via de resolver a dvida. Se o ,
ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos meno no fim
do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira 
planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja,
impaciente j pela demora do auto, comeou-se a espalhar um sussurro,
que cada vez crescia mais: o motivo delle no era facil sabe-lo:
nenhuma novidade occorrra; ninguem tinha entrado ou saido. De
repente toda aquella multido se agitou, remoinhou pela igreja,
e principiou a borbulhar pelo portal fra, como por bico de funil
o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e
todos queriam v-lo descalvagar, porque D. Joo I, plebeu por
herana materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito
por uma revoluo, e confirmado por cincoenta victorias, era o
mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis
da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em
outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre
a cota uma jrnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em
punho, em maneira de caada. Chegando  porta do mosteiro, onde
o esperava j Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de
um salto, e com rosto risonho e a mo no barrete, agradeceu sua
cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados  roda delle:
--"viva D. Joo I de Portugal: morram os castelhanos!"--grito
absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o
povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o
bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente
elrei da vista da multido, que tornou a sumir-se no templo para
ver o auto, que no podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos no honrasse
nosso auto; porque o sol no tarda a sumir-se no poente:--dizia
Fr. Loureno a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bof, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de
ter que levar a vossos ps mais uma mentira com os outros peccados,
que me no fallecem, se manhan me quizesse confessar ao meu
antigo confessor:--tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis
de vos accusar, este no fra o menos grave, e de que eu muito
a custo absolveria vossa merc:--retrucou o prior, que tinha
aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no pao, do
que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:--disse elrei,
parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Loureno o
encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeio,
e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"No foi grande o feito, para tomar repouso:--acudiu elrei:--que
de Santarem aqui  uma corrida de cavallo; muito mais para quem,
em vez de cota de malha, arnez e braaes, traz vestidos de seda.
Despi-los-hei bem depressa, j que elrei de Castella quer jogar
mais lanadas, e no vieram a concluso de treguas o Mestre de
Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre;
mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de
pr seu fecho e remate. Onde est elle? Quero agradecer-lhe a
boa diligencia."

"Beijo-vos as mos pela merc:"--disse mestre Ouguet, que, sabendo
da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vr aquella
grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da
comitiva:--"Se quereis vr a casa do capitulo, vamos para a banda
da crasta."--Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e
encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em
idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga,
cujos tegumentos tinham soffrido grande distenso, em consequencia
da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer
havia bem vinte annos. Desde muito moo que comera a produzir
grande impresso no seu espirito a invectiva do apostolo contra
os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel
fraqueza resolvra traze-lo sempre sopeado. No lhe dava treguas;
se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pso de dez
atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso
mister de cangiro permanente. Mortificava-o assim, para que no
lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominao.
De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: no fazia
aos seus semelhantes seno o mal absolutamente indispensavel ao
proprio interesse: nunca matra ninguem, e pagava com pontualidade
exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico
do mundo, no o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre
o cadaver de seu pae para tocar a mta de qualquer designio
ambicioso: com tres lices de phrases oucas dava panno para
se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a
Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou
obter e alcanou a proteco da rainha D. Philippa, que, havendo
Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro
da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na
sua mocidade subido ao gru de mestre na sociedade secreta dos
obreiros edificadores.

Esta  em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de
uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaa
enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos
das Crtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a
appario de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias
de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade
e importancia, que por pirraa s nossas glorias provavelmente
os castelhanos nos levaram.

O lano da crasta, fronteiro ao cuberto por onde a elrei, estava
ainda por acabar. Apenas D. Joo I entrou naquelle magnifico
recincto, olhou para l, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que no vo to aprimorados os lavores daquellas arcarias
como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se  risca nesta parte--tornou o architecto--o desenho
geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque
seria grave erro destruir a harmonia desta pea: mas se vossa
merc m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma
cousa que vos dizer cerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:--respondeu elrei--que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia--proseguiu mestre Ouguet--de seguir outro desenho
no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na
planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os
melhores mestres de pedraria. Era at impossivel que se fizesse
uma abobada to achatada, como na primitiva traa se delineou:
eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer
essa mudana no que elle havia traado?--interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:--replicou David Ouguet.--Cgo, e por isso
inhabilitado para levar a cabo a edificao, teimaria que o seu
desenho se pde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo
por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso.
Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre
Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que
havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettra ambas as mos no cincto,
estendra a perna direita excessivamente empertigada, e com a
fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os
circumstantes.

"Mestre Ouguet--acudiu elrei com aspecto severo--lembrae-vos
de que Affonso Domingues  o maior architecto portuguez. No
entendo de vossas distinces de sciencia e de engenho: sei s
que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos
proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados
edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vs falaes com
pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso
cargo est hoje."

"Vossa merc me perdoe:--tornou mestre Ouguet, adocicando o tom
orgulhoso com que falra.--Longe de mim menoscabar mestre Domingues:
ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razo do que
fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de
Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral
de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava
para a casa do capitulo: Fr. Loureno Lamprea, como dono da casa,
correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao
umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos
e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa
tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do
umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho,
as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas atravs
da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque
o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se
divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficra
 porta, mas Fr. Loureno tinha entrado.

"Reverendo prior--disse elrei voltando-se para Fr. Loureno--vim
tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adorao,
e manhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o
prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando j os ultimos
cavalleiros do sequito real am saindo pelo lado opposto, caminho
da igreja. Com as mos mettidas no cincto de couro preto que
trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou at o meio
daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros
tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando
para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros,
seno um paiz sfaro e inculto? Sois vs, homens brigosos, capazes
dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. L vo, l
vo os frades celebrar um auto! No serei eu que assista a elle;
eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis
selvagens, antes de tentardes representar mysterios fra melhor
que mandasseis vir alguns irmos da sociedade dos escrives de
parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos,
ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da
nao que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais
na consciencia, da nao que lhe dava de beber, quando erguendo
casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se
arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu
a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabea entre
as mos, e gritando a espaos:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se v que no principio do
seculo 15. os mysterios eram representados em Londres pelos
escrives de parochia, incorporados em sociedade por Henrique
3., em 1409.



O AUTO.


Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria
estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e
macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de
curiosos besties e lavores: era este o logar onde elrei devia
assistir ao auto da adorao dos reis. No mesmo estrado havia
varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e
cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao
p do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da
parede um devoto presepio[1], mui erguido do cho, e representando
serranias agrestes, ao sop das quaes estava armada uma especie
de choa, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado
o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. Jos,
acompanhados de varios anjos, em acto de adorao. Diante da
cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso
de muitas tboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia
duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir
as personagens do auto.

Tanto que elrei sau da porta do cruzeiro que d para a sacristia,
encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de
espaldas, conduzido por Fr. Loureno, que com todos os modos de
homem cortezo offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros
e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saram logo as primeiras figuras
do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso
pelas pranchas de que fizemos meno.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo
ao auto. Tres que vinham adiante representavam a F, a Esperana,
e a Caridade: aps ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba;
todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que
enlevava os olhos da grande multido dos espectadores era o Diabo,
vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo
tablado, e seu forcado na mo, mui vistoso e bem posto. Feitas
as venias a elrei, a Idolatria comeou seu arrazoado contra a
F, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse
em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que
a F acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em
que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella F no era
culpada de ter chegado to asinha esse dia. Ento o Diabo vinha
lamentando-se de que a Esperana comeasse de entrar nos coraes
dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar
toda a gente; que se dava ao dmo por vr as perrarias que a
Esperana lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos,
que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel.
Ainda que o Diabo fizesse de truo da festa, nem por isso a sua
contendora, a Esperana, dava descargo de si com menos compostura
do que a to honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia
ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando
os grandes desvairos que pelo mundo am, e como os homens se
arremessavam desacordadamente no inferno, a mandra para lhes
apontar o direito caminho do cu; e por aqui seguia com razes
mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas
os ouvintes, se a devoto riso os no movesse o Diabo com seus
tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o
auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo
esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas
as razes da Esperana, travou della mui rijo, e com voz torvada e
rosto acceso, comeou de bradar, que esta dona era sanda, porque
entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros,
e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de
boa razo, que a gente vil houvesse igual quinho no cu com os
senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fra da
geral opinio e direito, indo por aqui discursando com remoques
mui orgulhosos, como a Suberba que era. No soffreu, porm, o
animo da Caridade to descomposto razoar da sua figadal inimiga,
e lh'o atalhou com tomar a mo naquelle ponto, e notar que os
filhos de Ado eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a
Suberba inventra as vans distinces entre os homens, e que  vida
eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados,
do que os potentes, o que provou claramente  sua contraria com
bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui
corrida, por no ter contra to grande auctoridade resposta cabal.
E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para
dar sua sentena, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria,
o Diabo e a Suberba, e annunciar s tres virtudes que as a elevar
ao cu, onde reinariam em gloria perduravel. Ento o Diabo, fazendo
horribilissimos biocos, pegou pelas mos s duas companheiras,
e fugiu pela igreja fra com grandes apupos e doestos dos
espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas
liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas
de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degrus
das ondas de papelo para a terra de soalho) em vez de subir ao
cu, como annuncira, desceu pelas pranchas, que davam para o
pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu 
sacristia, acompanhado da F, Esperana e Caridade, to victoriadas
pelos espectadores, como apupado fra o Diabo e as suas infernaes
companheiras.

Ainda bem no eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma
porta do cruzeiro, saram os tres reis magos, ricamente vestidos
ao antigo, com roupas talares de fina tla, mantos reaes, e coras
na cabea. Adiante vinha Balthasar, homem j velho, mas bem disposto
de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas,
posto que brancas, bem povoadas: logo aps elle vinha o rei Belchior,
e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que
eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham
de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como
uma estrella os guira at Jerusalem, e como desta cidade, depois
de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a
Bethlem, e com grande folgana encontravam ahi o presepe, para
fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa
d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro
que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo
ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David,
    Divinal
Salvador da triste raa
    Humanal,
Que descestes l do assento
    Celestial;
Vs da gloria imperador
    Eternal,
Acceitae este offertorio
    No real,
Pobre si.  quanto posso:
    No hei al.
O que fra compridoiro
    De auto tal
Bem o sei. Andei ms vias,
    Por meu mal;
Que dez dias prantei tendas
    De arrayal
Nas soides fundas d'Arabia,
    Mui fatal.
Meus camellos ha tisnado
    Sol mortal;
E um, de vento do deserto,
    Vendaval.
O presente, que ahi vdes,
    Pouco vai;
 somente algum incenso
    Oriental;
Que o thesouro que eu trazia,
    Mui cabal,
Soterrou-mo a tempestade
    No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua orao
em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo
a urna que trazia nas mos ante o presepe, disse:

      Vindo sou I do Cataio
      A adorar-vos alto infante,
         Redemptor:
      No me poz na alma desmaio
      Ser de lerra to distante
         Rei, senhor!
       bem torva a minha lace:
      Minhas mos tingidas so
         De negrura;
      Mas na terra onde o sol nace
      Mais se cobre o corao
         De tristura;
      Porque o torpe Mafamede
      Sua crena mui sandia
         Mandou l;
      E no ha quem della arrede
      Essa gente, que aperfia
         Em ser m.
      Real tronco de Jess
      Mui fermoso, se eu podra
         Vos levra;
      E comvosco  vossa f
      Os incrus eu convertra,
         E os salvra.
      Ora quero vr se peito
      So Jos, que  vosso padre ....

Um sussurro, que comera no momento em que o rei preto ajoelhou,
e que mal deixra ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo
leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal
ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, no pde,
continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a cora de
louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio
delle saam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei
tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos:
todos indagavam a origem do motim; mas no havia acertar com
ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multido, sem touca
na cabea, cabellos desgrenhados, bca torcida e cuberto de escuma,
olhos esgazeados, saltou para dentro da ta, que fazia um claro
em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou
immovel, com os braos estendidos para o tecto, as palmas das
mos voltadas para cima, e a cabea encolhida entre os bombros,
como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas
e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!--exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!--gritou Fr. Loureno, com todos os signaes de
assombro.

"Mestre Ouguet!--repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem
dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?--rosnou David Ouguet, com uma voz
comprimida e sepulchral.--Malvados! Querem assassinar-me?! Querem
arrojar sobre mim esse monto de pedras, como se eu fra um co
judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha
alma!"--E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar flego:--
"No vos chegueis ahi!--bradou elle.--No vedes essas fendas
profundas como o caminho do inferno? So escuras: mas atravez
dellas l enxergo eu o luar! Vs no, porque vossos olhos esto
cegos ... porque o vosso bom nome no se escoa por l!... Cgos?
No vs!... mas elle!... Elle  que se ri e folga em sua orgulhosa
suberba! Vde como escancra aquella bca hedionda; como revolve,
debaixo das palpebras cubertas de vermelhido, aquelles olhos
embaciados!... Maldicto velho, foge diante de mim!... Maldicto,
maldicto!... Curvada ja no centro ... sentia-a escaliar e ranger...
Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!... Anda, que eu
bem ouo as tuas gargalhadas!... No ha um raio que te confunda?..
No!"

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mos, e ficou
outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de
roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam
pasmados para o architecto que assim interrompra a solemnidade
do auto. Um silencio profundo succedra ao rudo, que a apparico
daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam
fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado sada
das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um
crebro passou este pensamento: em mais de uma cabea os cabellos
se eriaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum
duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria
o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das
suas irreverentes diabruras? S uma supposio havia, que no
era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso,
em consequncia de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse
escondido na ultima confisso, que fizera na vespera de Natal. Isto
era possivel, e at natural; que no vivia elle a mais justificada
vida. Suppr que endoudecra parecia grande desproposito; porque
nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecra os
gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra
que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje
ridculos, mas segundo as idas daquella epocha hem fundados
e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que
tinha vindo assistir ao auto, e estava em p atraz do estrado,
e perto de Fr. Loureno Lampra. Revolvendo taes pensamentos,
no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, no pde
ter-se que, p ante p, se no chegasse ao prior, e lh'os
communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"No vou fra disso:"--respondeu o prior, que, emquanto o outro frade
lhe falra, estivera dando  cabea em signal de approvao.--"O
olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar no
sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se
chantou naquelle miseravel corpo, como vs aventaes. Se assim
, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares
e tropelias atalhar o mui devoto auto da adorao. Examinemos
se assim , eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Loureno chegou-se a el-rei, e disse-lhe o
que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o
prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e
fez signal com a mo aos fidalgos e cavalleiros para que tambem
se assentassem.

Fr. Loureno, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja
acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos
e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se
encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez
da porta da sacristia, Fr. Loureno voltou pela igreja abaixo,
revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou  ta, abriu-a, e
encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e
fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmo,
tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de
joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das oraes.

S mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre
as mos.

O prior lanou a estola  roda do pescoo do possesso, e queria
atar os tres ns do ritual; mas o paciente deu um estremeo,
e tirando as mos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

"Frade abominvel, tambem tu s conluiado com o cgo?"

"No ha duvida!--disse por entre os dentes o prior:--mestre Ouguet
est endemoninhado."

Tirando ento da manga um pergaminho, em que estavam escriptas
varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabea do mestre, fazendo
sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou ento uma destas risadas nervosas, que
horrorisam, e que to frequentes so quando o padecimento moral
sobrepuja as forcas da natureza.

"Co tinhoso--bradou Fr. Loureno--espirito das trevas, enganador,
maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e
refece demnio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor
de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sias deste
miseravel corpo."

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

"No cedes?!"--proseguiu o prior--"Recorrerei ao septimo, ao mais
terrivel exorcismo. Veremos se poders a teu salvo escarnecer
das creaturas feitas  imagem e semelhana de Deus."

Depois de varias ceremonias e oraes, Fr. Loureno chegou-se
ao pobre irlandez, e comeou a repetir o conjuro, fazendo-lhe
uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que
proferia lentamente:

"Hel--Heloym--Heloa--Sabaoth--Helyon--Esereheye--Adonay--Iehova--
Ya--Thetagrammaton--Saday--Messias--Hagios--Ischiros--Otheos--
Athanatos--Sother--Emanuel--Agla--......

"Jesus!"--bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

"Diabo!"--gritou mestre Ouguet; e cau no cho como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os coraes
deixaram de bater, e em que todos os olhos, braos e pernas ficaram
fixos como se fossem de bronze.

Um rudo semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado
dentro do mosteiro, e que sora da banda da sacristia, tinha
arrancado aquelle grito de mil bcas, e tinha convertido em estatuas
essa multido de povo.

Ha situaes to violentas, que se durassem, a morte se lhes
seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar
com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois
destes abalos espantosos; e ento, melhor que nunca, elle sente
em si que, posto que despenhado, no perdeu a sublimidade da sua
origem divina. A reaco segue a aco; e quanto mais timido
o individuo se mostrou, mais viva  a conscincia da propria
fora, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. Joo I, aos cavalleiros do seu sequito,
e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle
instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia
que Fr. Loureno practicava; o rudo inesperado que rompra o
exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir
por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam
pedir confisso a uma grande manada de philosophos encyclopedistas,
e que por isso, no  de admirar fizessem uma impresso vivissima
em homens de um seculo, no s crente, mas tambem supersticioso.
Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar
alento a todos os que ahi estavam.

", em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e
ouvido--disse elle com voz firme, voltando-se para os que o
rodeavam;--mas cumpre indagar d'onde procede o rudo que veiu
interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio
tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos
examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e
a cruz  nosso amparo: se natural, que haver no mundo capaz
de pr espanto em cavalleiros portuguezes?"

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a
sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis
magos (que ainda estavam em p sobre o tablado) e uma grande
parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei a adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia.
Cruzaram o arco gothico, que dava communicao para a sacristia:
ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto
dava uma luz frouxa e mortia, e a esta luz incerta e baa
encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos
recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer
sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

"Jesus!"

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito
cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fra,
entulhando-lhe quasi um tero da altura. Olhando para o interior
daquella immensa quadra no se viam seno enormes fragmentos
de cantos lavrados, de laarias, de cornijas, de voltas e de
relevos: a lua, que passava tranquilla nos cus, reflectia o
seu claro pallido sobre este monto de ruinas semelhantes aos
monumentos irregulares de um cemiterio christo; e por cima daquelle
temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater
nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam
este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Loureno
cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha
desabado em terra!

[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um
estabulo, ou estrebaria; mas a accepo vulgar desta palavra  a
de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando
a choa de Belm, em que nasceu o Salvador.

[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens
Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham
e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que no so
propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo,
que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos  que para o
demonio, pae da suberba, no pde haver maior pirraa do que
ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar.
Veja-se o livro citado, edio de Lyo de 1604--Tom. 3. pg.
83.



UM REI CAVALLEIRO.


Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro
da Batalha,  roda de um bufete de carvalho de lavor antigo,
cujos ps, torneados em linha espiral, eram travados por uma
especie de escabllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam
assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor j tractou
nos antecedentes capitulos. Eram estas D. Joo I, Fr. Loureno
Lampra, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava  cabeceira
da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo  sua esquerda Fr.
Joanne. Alm destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas
lidas nas chronicas deste reino tambem conhecero: taes eram os
doutores Joo das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei,
cavalleiros mui graves e auctorisados, e afra elles mais alguns
fidalgos, que D. Joo I particularmente estimava. Atraz da cadeira
d'elrei um pagem esperava, em p, as ordens de seu real senhor.
O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.

Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho,
no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traa
ou desenho do mosteiro, que delinera mestre Affonso Domingues,
onde, alm dos prospectos geraes do edificio, illuminados
primorosamente, se viam todos os crtes e alados de cada uma
das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha
a mo estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular,
ao passo que falava com o prior:

"Parece impossivel isso; porque natural desejo  de todos os
homens alcanarem repouso e po na velhice, e no vejo razo para
mestre Affonso se doer da merc que lhe fiz."

"Pois a conversao que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem,
pouco antes de vossa merc chegar."

"E como vae David Ouguet?--perguntou elrei.

"Com grande melhoria:--respondeu o prior.--Dormiu bom espao,
e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem aps ns
na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecra
que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentra
apertar-se-lhe o corao, e que com a sua afflico corrra pela
crasta fra como doudo; que no cu se lhe affigurava um relampaguear
incessante e medonho; que via ... nem elle sabe o que via, o pobre
homem. Depois disso, diz que perdra o tino, e de nada mais se
recorda."

"Nem dos exorcismos?--perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com
um sorriso malicioso.

"Nem dos exorcismos:--retrucou Fr. Loureno no mesmo tom, mas
subindo-lhe ao rosto a vermelhido da colera.--A proposito, doutor.
Dizem-me que Annequim  morto[1], e que elrei proveu o cargo em
um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta merc singular?"

E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados.
Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta,
naquelle jogo de alluses que era as delicias do tempo, quando
elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:

"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa  morada d'Affonso Domingues,
dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso
com tento; e lembrae-vos de que elle  um antigo cavalleiro,
que militou com vosso mui esforado pae."

O pagem sau a cumprir o mandado d'elrei.

"Dizeis vs--proseguiu este, dirigindo-se a Joo das Regras e
a Martim d'Ocem--que talvez Affonso Domingues se enganasse em
suppr que era possivel fazer uma abobada to pouco erguida,
como  a que elle traou para o capitulo. No creio eu que to
entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou
a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem  noite
procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta
edificao."

"E que falta foi essa, se a vossa merc apraz dizer-m'o?--replicou
Joo das Regras.

"A de no seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:--tornou
elrei.

"E se a execuo de sua traa fosse impossivel?--acudiu o doutor.

"Impossivel!?"--atalhou elrei.--"E no contava elle com leva-la
a effeito, se Deus o no tolhesse dos olhos?"

"E  disso que mais se doe mestre Affonso,"--interrompeu o prior.--"A
sua grande canseira  que ninguem saber continuar a edificao
do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu
livro de pedra, porque ninguem  capaz de entender o pensamento
que o dirigiu na concepo delle."

"Roncaras e feros so esses proprios de quem foi homem d'armas
de Nunalvares:--disse o chanceller Joo das Regras.--Todos os
de sua bandeira so como elle. Porque sabem jogar boas lanadas,
teem-se em conta de principes dos discretos; e o cgo no se
esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."

Joo das Regras, emulo de Nunalvares, no perdeu este ensejo
de lhe pr pcha; mas D. Joo I que conhecia serem esses dous
homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre
com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o
condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes
menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lanar
na balana, em que Joo das Regras mostrava o grande peso da sua
penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates
salvado a patria do dominio estranho, e a cabea do chanceller
das mos do carrasco, de que no o livrariam nem os grus de
doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.

"Deixae l o condestavel, que no vem ao intento;--disse elrei:--o
que me importa  ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera
antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o
capitulo de Sancta Maria da Victoria ficar em ruinas. Mestre
Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao cho a abobada: se Affonso
Domingues fr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme,
concluirei d'ahi que vale mais o cgo que o limpo de vista; e
digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja,
alm de cgo, opo[2] e mouco."

Neste momento entrava o velho architecto, agarrado ao brao de
Alvaro Vaz d'Almada, que o veiu guiando para o topo da desmesurada
banca de carvalho,  roda da qual se travra o dialogo, que acima
transcrevemos.

"Dom donzel, onde  que est elrei?"--dizia Affonso Domingues ao
pagem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento.

D. Joo I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pagem:

"Agora nenhum rei est aqui, mas sim o Mestre d'Aviz, o vosso
antigo capito, nobre cavalleiro de Aljubarrota."

"Beijo-vos as mos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um
velho homem de armas, que para nada presta hoje. Vde o que de mim
mandaes; porque de vossa ordem aqui me trouxe este bom donzel."

"Queria vr-vos e falar-vos; que de corao vos estimo, honrado
e sabedor architecto do mosteiro de Sancta Maria."

"Architecto do mosteiro de Sancta Maria, j o no sou; vossa
merc me tirou esse encargo: sabedor, nunca o fui, pelo menos
muitos assim o creem, e alguns o dizem: dos titulos que me daes
s me cabe hoje o de honrado; que esse, merc de Deus,  meu, e
fra infamia rouba-lo a quem j no pde pegar em um montante
para defende-lo."

"Sei, meu bom cavalleiro, que estaes mui torvado comigo por dar
a outrem o cargo de mestre das obras do mosteiro: n'isso cria
eu fazer-vos assignalada merc. Mas venhamos ao ponto: sabeis
que a abobada do capitulo desabou hontem  noite?"

"Sabia-o, senhor, antes do caso succeder."

"Como  isso possivel?!"

"Porque todos os dias perguntava a alguns desses poucos obreiros
portugueses que ahi restam, como ia a feitura da casa capitular:
no desenho della pozera eu todo o cabedal de meu fraco ingenho,
e este aposento era a obra prima de minha imaginao: por elles
soube que a traa primitiva fra alterada, e que a junctura das
pedras era feita por modo diverso do que eu tinha apontado:
prophetisei-lhes ento o que havia de acontecer. E--accrescentou
o velho com um sorriso amargo--muito fez j o meu successor em
por tal arte lhe pr o remate, que no desabasse antes das vinte
e quatro horas."

"E tinheis vs por certo que se vossa traa se houvera seguido,
essa desmesurada abobada no viria a terra?"

"Se estes olhos no tivessem feito com que eu fosse posto de
banda como uma carta de testamento antiga, que se atira, por
inutil, para o fundo de uma arca, a pedra do fecho dessa abobada
no teria de vir esmigalhar-se no pavimento antes de sobre ella
pesarem muitos sculos; mas os de vosso conselho julgaram que
um cgo para nada podia prestar."

"Pois se ousaes levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o faaes,
e desde j vos nomeio de novo mestre das obras do mosteiro, e
David Ouguet vos obedecer."

"Senhor rei--disse o cgo, erguendo a fronte, que at alli tivera
curvada:--vs tendes um sceptro e uma espada; tendes cavalleiros
e bsteiros; tendes ouro e poder: Portugal  vosso, e tudo quanto
elle contm, salvo a liberdade de vossos vassallos: nesta nada
mandaes. No!... vos digo eu: no serei quem torne a erguer essa
derrocada abobada! Os vossos conselheiros julgaram-me incapaz
d'isso: agora elles que a alevantem."

As faces de D. Joo I tingiram-se do rubor do despeito.

"Lembrae-vos, cavalleiro,--disse elle--de que falaes com D. Joo
I."

"Cuja cora--acudiu o cgo--lhe foi posta na cabea por lanas,
entre as quaes reluzia o ferro da que eu brandia. D. Joo I 
assaz nobre e generoso, para no se esquecer de que nessas lanas
estava escripto:--os vassallos portuguezes so livres."

"Mas--tornou elrei--os vassallos que desobedecem aos mandados
daquelle em cuja casa tem acostamento[3], podem ser privados
de sua moradia..."

"Se dizeis isso pela que me dstes, tirae-m'a; que no vo-la pedi
eu. No morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota
achar sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer
 mingua de todo humano soccorro, bem pouco importa isso a quem v
arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquillo por que trabalhou
toda a vida, um nome honrado e glorioso."

Dizendo isto, o velho levou a manga do gibo aos olhos baos,
e embebeu nella uma lagryma mal sustida. Elrei sentiu a piedade
coar-lhe no corao comprimido de despeito, e dilatar-lh'o
suavemente. Uma das dores d'alma, que em vez de a lacerar a consolam,
 sem duvida a compaixo.

"Vamos, bom cavalleiro,--disse elrei pondo-se em p--no haja
entre ns doestos. O architecto do mosteiro do Sancta Maria vale
bem o seu fundador! Houve um dia em que ns ambos fomos pelejadores:
eu tornei celebre o meu nome, a consciencia m'o diz, entre os
principes do mundo, porque segui avante por campos de batalha;
ella vos dira tambm que a vossa fama ser perpetua, havendo
trocado a espada pela penna, com que traastes o desenho do grande
monumento da independencia e da gloria desta terra. Rei dos homens
do acceso imaginar, no desprezeis o rei dos melhores cavalleiros,
os cavalleiros portuguezes! Tambem vs fostes um delles; e
negar-vos-heis a proseguir na edificao desta memoria, desta
tradio de marmore, que ha-de recordar aos vindouros a historia
de nossos feitos? Mestre Affonso Domingues, escutae os ossos de
tantos valentes, que vos accusam de trahirdes a boa e antiga
amizade: vem de todos os valles e montanhas de Portugal o sodo
desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade,
por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadaveres de
cavalleiros! Eia, pois: se no perdoaes a D. Joo I uma supposta
affronta, perdoae-a ao Mestre d'Aviz, ao vosso antigo capiio,
que em nome da gente portugueza vos cita para o tribunal da
posteridade, se refusaes consagrar outra vez  ptria vosso
maravilhoso ingenho, e que vos abraa como antigo irmo nos combates,
porque certo cr que no quereis perder na vossa velhice o nome
de bom e honrado portuguez."

Elrei parecia grandemente commovido, e talvez involuntariamente,
lanou um brao ao redor do pescoo do cgo, que soluava e tremia
sem soltar uma s palavra.

Houve uma longa pausa: todos se tinham posto em p quando elrei
se ergura, e esperavam anciosos o que diria o velho. Finalmente
este rompeu o silencio:

"Vencestes, senhor rei, vencestes!... A abobada da casa capitular
no ficar por terra. Oh meu mosteiro da Batalha, sonho querido
de quinze annos de vida entregues a cogitaes, a mais formosa
das tuas imagens ser realisada, ser duradoura como a pedra em
que vou estampa-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se:
as unicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves, que tenho
ouvido ha muitos annos, so as que vos saram da bca: s D. Joo
I comprehende Affonso Domingues; porque s elle comprehende a valia
destas duas palavras formosissimas, palavras de anjos--patria e
gloria. A passada injuria a vossos conselheiros a attribui sempre,
que no a vs, posto que de vs, que ereis rei, me queixasse:
varre-la-hei da memoria, como o entalhador varre as lascas e a
pedra moda pelo cinzel de cima do vulto, que entalhou em fuste
de columna arrendada. Que me restituam os meus officiaes e obreiros
portuguezes; que portuguez sou eu, portugueza a minha obra! De hoje
a quatro mezes podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei,
ou a casa capitular da Batalha estar firme, como  firme a minha
crena na immortalidade e na gloria."

Elrei apertou ento entre os braos o bom do cgo, que procurava
ajoelhar a seus ps. Era a attraco de duas almas sublimes,
que voavam uma para a outra. Por fim D. Joo I fez um signal ao
pagem, que se aproximou:

"Alvaro Vaz, acompanhae este nobre cavalleiro a sua pousada.
E vs, mestre mui sabedor, ide repousar: dentro de quinze dias
vossos antigos officiaes tero voltado de Guimares para cumprirem
o que mandardes. Mui devoto padre prior,--continuou elrei,
voltando-se para Fr. Loureno--entendei que d'ora avante Affonso
Domingues, cavalleiro de minha casa, torna a ser mestre das obras
do mosteiro de Sancta Maria da Victoria, em quanto assim lhe
aprouvr."

O prior fez uma profunda reverencia.

A alegria tinha tolhido a voz do architecto: diante de toda a
crte elrei o havia desaffrontado, e j, sem desdouro, podia
acceitar o encargo de que o tinham despojado. Com passos incertos,
e seguro ao brao do pagem, sau do aposento, feita venia a elrei.

Este deu immediatamente ordem para a partida; e quando todos
am saindo, o prior chegou-se ao velho chanceller, e disse-lhe
em tom submisso:

"Doutor Johannes a Regulis, espero que narreis fielmente  rainha
o que succedeu, e a certifiqueis de quanto me custa ver tirada
a rgua magistral a mestre Ouguet..."

"Foi--tornou o politico discipulo de Bartholo--mais uma faanha
de D. Joo I: comeou por brigar com um louco, e acabou abraando-o,
por lhe vr derramar uma lagryma. Bem trabalho por fazer do Mestre
de Aviz um rei; mas sae-me sempre cavalleiro andante. No lhe
succedra isto se, em vez de passar a mocidade em pelejas, a
houvera passado a estudar em Bolonha. Tendo-lhe dicto mil vezes
que  preciso lisongear os inglezes, porque carecemos delles:
a tudo me responde com dizer que com Deus e o proprio montante
tem em nada Castella: todavia a gente ingleza ufanava-se de ser
David Ouguet o mestre desta edificao; e que importava que ella
fosse mais ou menos primorosa a troco de contentarmos os que
comnosco esto liados? Quanto a vs, reverendo prior, ficae
descanado: tudo fia a rainha de vossa prudencia, que  muita,
posto que no vistes Bolonha. Vamos, reverendissimo."

A crte j tinha sado; e os dous velhos seguiram-na ao longo
daquellas arcadas, conversando um com o outro em voz baixa.

[1] Annequim era o bobo do pao em tempo de D. Fernando,
a quem sobreviveu.

[2] Coixo.--Fui vista ao cgo, e pe ao po. Trad. do
livro de Job. Fragmento do seculo 14.

[3] Acostamento,  o mesmo que moradia.



O VOTO FATAL.


Rica de galas, a primavera tinha vestido os campos da Estremadura
do vio de suas flores: a madresilva, a rosa agreste, o rosmaninho,
e toda a casta de boninas teciam um tapete odorifero e immenso por
charnecas, comoros, e sapaes, e pelo cho das matas e florestas,
que agitavam as frontes somnolentas com a brisa de manhan purissima,
mostrando aos olhos um balouar de verdura compassado com o das
seras rasteiras, que mais longe, pelas veigas e outeiros, ondeavam
suavemente. Eram sete de Maio da era de Cesar de 1439, ou, como
os letrados diziam, do anno da redempo, 1401. Quatro mezes
certos se contavam nesse dia, depois daquelle em que, n'uma das
quadras do aposento real no mosteiro da Batalha, se passra a
scena, que no antecedente capitulo narrmos, e que extrahimos
do famoso manuscripto mencionado no capitulo II, com aquella
pontualidade e verdade, com que o grande chronista F. Bernardo
de Brito citava s documentos innegaveis e auctores certissimos,
e com aquella imparcialidade e exaco, com que o philosopho de
Ferney referia e avaliava os factos em que podia interessar a
religio christan.

Assistiu o leitor  promessa que mestre Affonso Domingues fez a
D. Joo I de que dentro de quatro mezes lhe daria posto o remate
na abobada da casa capitular de Sancta Maria da Victoria, e lembrado
estar de como elrei lhe promettra, tambem, mandar vir de Guimares
todos os officiaes portuguezes, que, despedidos da Batalha por
mestre Ouguet como menos habilidosos que os estrangeiros, haviam
sido mandados para a obra, posto que grandiosa, menos importante de
Sancta Maria da Oliveira, hoje desaportuguesada e caiada e dourada
e mutilada pelo mais barbaro abuso da riqueza e da ignorancia
clerical. A palavra do Mestre d'Aviz no voltra atraz, no por
ser palavra de rei, mas por ser palavra de cavalleiro portuguez
daquelles tempos, em que to nobres affectos e instinctos havia
nos coraes de nossos avs, que de bom grado lhes devemos perdoar
a rudeza. Tendo partido de Alcobaa para Guimares, onde nesse
anno se ajunctavam cortes, apenas ahi chegra tinha mandado partir
para Sancta Maria da Victoria os officiaes e obreiros mais
entendidos, que vieram apresentar-se a mestre Affonso.

Este, resolvido tambem a cumprir o promettido, mettra mos 
obra. O capitulo foi desentulhado: aproveitaram-se as pedras da
primeira edificao que era possivel aproveitar, lavraram-se outras
de novo, armaram-se os simples, e muito antes do dia aprazado o
fecho ou remate da abobada repousava no seu logar.

Durante estes quatro mezes os successos politicos tinham trazido
D. Joo I a Santarem, onde se fizera prestes com bom numero de
lanas, bsteiros, e pees para ir ajunctar-se com o Condestavel,
e entrarem ambos por Castella, cuja guerra tinha recomeado, por
se haverem acabado as treguas. Para esta entrada se apparelhra
elrei com uma lustrosa companhia de seus cavalleiros, e caminhando
pela margem direita do Tejo, acampra juncto a Tancos, onde se
havia de construir uma ponte de barcas para passar o exercito,
e seguir vante at o Crato, que era o logar aprazado com o
Condestavel, para junctos irem dar sobre Alcantara.

Em Val-de-Tancos estava assentado o arraial da hoste d'elrei: os
petintaes, que tinham vindo de Lisboa, trabalhavam na ponte de
barcas, que se deviam lanar sobre o Tejo; os bsteiros limpavam
suas bstas, e folgavam em luctas e jogos; os cavalleiros corriam
pontas, atiravam ao tavolado, monteavam, ou matavam o tempo em
banquetes e beberronias. Tinham chegado quelle sitio a cinco
de Maio, e no seguinte dia elrei partra afforradamente para
a Batalha, porque no se esquecra de que os quatro mezes, que
pedira Affonso Domingues para alevantar a abobada, eram passados,
e fra avisado por Fr. Loureno de que a obra estava acabada, mas
que o architecto no quizera tirar os simples seno na presena
d'elrei.

Antes de partir de Lisboa, D. Joo mandra sair dos carceres, em
que jaziam, bom numero de criminosos e de captivos castelhanos,
que, com grande pasmo dos povos, e rodeados por uma grossa manga de
bsteiros, tomaram o caminho da Batalha, sem que ninguem aventasse
o motivo d'isto. Todavia elle era obvio: elrei pensou que, assim
como a abobada do capitulo desabra da primeira vez, passadas
vinte quatro horas depois de desamparada, podia agora derrocar-se
em cima dos obreiros no momento de lhe tirarem os prumos e travezes
sobre que fra edificada. Sollicito pela vida de seus vassallos;
parente do povo por sua me, e crendo por isso que a morte de
um popular tambem tinha seu trance de agonia, e que lagrymas
de orphos pobres eram to amargas, ou porventura mais que as
de infantes e senhores, no quiz que se arriscassem seno vidas
condemnadas, ou pela guerra, ou pelos tribunaes, e que naquella
se tinham remido pela covardia, e nestes pela piedade ou antes
esquecimento dos juizes. E se da primeira vez lhe no occorrra
esta ida, fra porque tambem na memoria de obreiros portuguezes
no havia lembrana de ter desabado uma abobada apenas construida.

Seguido s por dous pagens, D. Joo I atravessou a villa de Ourem
pelas horas mortas do quarto de modorra, e antes do meio-dia
apeou-se  portaria do mosteiro.

Os officiaes, que trabalhavam em varios lavores, pelos telheiros
e casas ao redor do edificio, viram passar aquelle cavalleiro e
os dous pagens, mas no o conheceram: D. Joo I vinha cuberto
de todas as peas, e ao galgar o ginete pelo outeiro abaixo,
tinha descido a viseira.

"Benedicite!--dizia elrei, batendo devagarinho  porta da cella
de Fr. Loureno.

"Pax vobis, domine!--respondeu o prior que logo conheceu elrei,
e veio abrir a porta.

"No vos incommodeis, reverendissimo--disse D. Joo, entrando
na cella, e sentando-se em um tamborete.--Deixae-me resfolegar
um pouco, e dae-me uma vez de vinho."

"No vos esperava to de salto;--tornou Fr. Loureno: e abrindo
um armario, tirou delle uma borrcha e um cangiro de madeira,
que encheu de vinho, e pegando com a esquerda em uma escudela de
barro de Estremoz[1] cheia de uma especie de bolo feito de mel,
ovos, e flor de farinha, apresentou a elrei aquella collao.

"Excellente almoo:--dizia elrei, descalando o guante ferrado,
e cravando a espaos os dedos dentro da escudela, d'onde tirava
bocados do bolo, que ajudava com alentados beijos dados no cangiro.
Depois que cessou de comer, limpando a mo ao forro do tonelete,
poz-se em p, em quanto Fr. Loureno guardava os despojos daquella
batalha:

"Bof--disse D. Joo, rindo--que no ando a meu talante, seno
com o arnez s costas! Cada vez que o visto, parece-me que torno 
mocidade, e que sou o Mestre d'Aviz, ou antes o simples cavalleiro,
que, confiado s em Deus, corria solto pelo mundo, monteando
edomas[2] inteiras, e tendo sobre a consciencia s os peccados
de homem, e no os escrupulos de rei."

"E ento--atalhou o prior--o vosso confessor Fr. Loureno era
um pobre frade, cujos unicos cuidados se encerravam em saber
as horas do cro, e em ler as sagradas escripturas, porm que
hoje tem de velar muitas noites, pensando no modo de no deixar
affrouxar a disciplina e boa governana de to alteroso mosteiro.
Mas, segundo vosso recado, que hontem recebi, vindes para assistir
ao tirar dos simples da mui famosa abobada, o que mestre Domingues
aporfia em s fazer perante vs?"

"A isso vim, porm de espao; que no ser nestes cinco dias,
que esteja prompta a ponte de barcas, que mandei lanar no Tjo
para passar minha hoste. Durante elles, com vossos mui religiosos
frades me apparelharei para a guerra, enthesourando oraes e
recebendo absolvio de meus erros."

"Os principes pios--acudiu o prior com ar de compunco--so sempre
ajudados de Deus, principalmente contra herejes e scismaticos,
como os perros dos castelhanos, que a Virgem Maria da Victoria
confunda nos infernos."

"Amen!--respondeu devotamente elrei.

"Avisarei, pois, mestre Affonso de vossa vinda, para que mande
pr tudo em ordenana de se tirarem os simples: elle me pediu
que o mandasse chamar apenas fosseis chegado."

Fr. Loureno sau, e d'ahi a pouco voltou acompanhado do architecto,
que um rapaz guiava pela mo.

"Guarde-vos Deus, mestre Affonso Domingues!--disse elrei, vendo
entrar o cgo--Aqui me tendes para vr acabada a feitura da
mirifica abobada do capitulo de Sancta Maria, cujos simples no
quizestes tirar seno em minha presena."

"Beijo-vo-las, senhor rei, pela merc: dous votos fiz se levasse
a cabo esta feitura; era esse um delles..."

"E o outro?--atalhou elrei.

"O outro, dir-vo-lo-hei em breve; mas por ora permitti que para
mim o guarde."

"So negocios de consciencia:--acudiu o prior.--Elrei no quer,
por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo."

D. Joo I fez um signal de assentimento ao parecer do seu antigo
padre espiritual.

Elrei, o prior, e o architecto ainda se demoraram um pedao falando
cerca da obra, e do que cumpria fazer no proseguimento della;
mas o cgo dissera o que quer que fra em voz baixa ao rapaz
que o acompanhava, o qual sara immediatamente, e que s voltou
quando os tres acabavam a conversao.

"Ferno d'Evora--disse o cgo, sentindo-o outra vez ao p de
si--fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques
o meu recado?"

"Senhor, si! Envia-vos elle a dizer que tudo est prestes."

"Ento vamos a vr se desta feita temos mais perduravel abobada."

Isto dizia elrei saindo da cella de Fr. Loureno, e seguindo ao
longo do claustro. J a este tempo se tinha espalhado no mosteiro
a nova da sua chegada, e os frades comeavam de ajunctar-se para
o cortejarem. Do mosteiro rompra a noticia, e se espalhra na
povoao, aonde concorrra muita gente dos arredores, principalmente
de Aljubarrota, por ser dia de mercado: de modo que quando elrei
desceu  crasta j alli se achavam apinhados homens e mulheres,
que queriam v-lo, e ainda mais saber se desta vez a abobada
vinha ao cho, para terem que contar aos vizinhos e vizinhas da
sua terra.

As portas da casa do capitulo estavam abertas: via-se dentro
della tal machina de prumos, travezes, andaimes, cabrestantes,
escadas, que bem se podra comparar a composio daquelles simples
 fabrica do mais delicado relogio.  porta, que dava para a
crasta, estava um homem em p, que se desbarretou apenas viu
elrei, a cuja direita vinha o architecto, seguido por Fr. Loureno
e por outros frades.

O pequeno Ferno d'Evora disse algumas palavras a Affonso Domingues,
o qual lhe respondeu em voz baixa. Ento o rapaz acenou ao homem
desbarretado, que se chegou timidamente ao cgo. Era um mancebo,
que mostrava ter de idade, ao mais, vinte cinco annos; de rosto
comprido, tez queimada, nariz aquilino, olhos pequenos e vivos.
Chegando-se ao cgo, este o tomou pela mo, e voltando-se para
elrei, disse:

"Aqui tendes, senhor, a Martim Vasques, o melhor official de
pedraria que eu conheo; o homem que, com mais alguns annos de
esperiencia, ser capaz de continuar dignamente a serie dos
architectos portuguezes."

"E debaixo de meu especial amparo estar Martim Vasques--respondeu
elrei--que por honrado me tenho com haver em meus senhorios homens
que vos imitem.[3]"

Ainda bem no eram acabadas estas palavras, sentiu-se um sussurro
entre o povo, que girava livremente pela crasta, e que se enfileirou
aos lados: chegava a gente que devia tirar os simples.

Entre duas alas de bsteiros vinha um bom numero de homens, magros,
pallidos, rotos e descalos: o porte de alguns era altivo, e
em seus farrapos se divisava a razo d'isso: eram bsteiros
castelhanos, que em diversos recontros e pelejas tinham cahido
nas mos dos portuguezes. As guerras entre Portugal e Castella
assemelhavam-se s guerras civis de hoje: para vencidos no havia
nem caridade, nem justia, nem humanidade: ser mettido em ferros
era ento uma ventura para o pobre prisioneiro; porque os mais
delles morriam assassinados pelo povo desenfreado, em vingana
dos mus tractos que em Castella padeciam os captivos portuguezes.
Com os castelhanos vinham d'envolta varios criminosos condemnados
 morte por suas malfeitorias.

"Misericordia!--bradou toda aquella multido, ao passar por elrei:
e cahiram de bruos sobre as lageas do pavimento.

"Comvosco a tenho, mesquinha gente:--disse elrei commovido--Se
tirardes os simples, que vdes acol, a abobada no desabar sobre
vs, soltos e livres sereis. Erguei-vos, e confiae na sciencia do
grande architecto que fez essa mirifica obra. Mandar-vos comprar
vossa soltura a custo de to leve risco, quasi que  o mesmo que
perdoar-vos."

Os presos ergueram-se; mas a tristeza lhes ficou embebida no
corao, e espalhada nas faces: o terror fazia-lhes crer que j
sentiam ranger e estalar as vigas dos simples, e que, s primeiras
pancadas, as pedras desconformes da abobada, desatando-se da
immensa volta, os esmagariam, como o p do quinteiro esmaga a
lagarta enroscada na planta viosa do horto.

Neste momento quatro forosos obreiros chegaram  porta do capitulo,
trazendo sobre uma pavila uma grande pedra quadrada. Martim
Vasques, que j l estava, gritou ao cgo architecto:

"Mui sabedor mestre Affonso, que quereis se faa do canto, que
para aqui mandastes trazer?"

"Assentae-o bem debaixo do fecho da abobada, no meio desse claro,
que deixam os prumos centraes dos simples."

Os obreiros fizeram o que o architecto mandara: este ento voltou-se
para elrei, e disse:

"Senhor rei,  chegado o momento de vos declarar meu segundo
voto. Pelo corpo e sangue do Redemptor jurei que, assentado sobre
a dura pedra, debaixo do fecho da abobada, estaria sem comer nem
beber durante tres dias, desde o instante em que se tirassem
os simples. De cumprir meu voto ninguem poder mover-me. Se essa
abobada desabar, sepultar-me-ha em suas ruinas: nem eu quizera
encetar, depois de velho, uma vida deshonrada e vergonhosa. Esta
 a minha firme resoluo."

Dizendo isto, o cgo travou com fora do brao de Ferno d'Evora,
e encaminhou-se para a porta do capitulo.

"Esperae, esperae!--bradou elrei.--Estaes louco, dom cavalleiro?
Quem, se vs morrerdes, continuar esta fabrica, to formosa
filha de vosso engenho?"

"Mestre Ouguet:--tornou o cgo, parando.--No sou to vil que
negue seu saber e habilidade: se a abobada desabar segunda vez,
ninguem no mundo  capaz de a fechar com uma s volta, e para
a firmar sobre uma columna erguida no centro, mestre Ouguet o
far. Quanto ao resto do edificio, fazei senhor rei que se prosiga
meu desenho:  o que ora vos peo to smente."

E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas,
que sustinham as traves dos simples: elrei, Fr. Loureno, e os
mais frades ficaram atonitos e calados.

"Que to honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros
castelhanos cousa  que se no pde soffrer: mas o voto  voto,
seno..."

Estas palavras partiam da bca d'uma gorda velha, cuja tez
avermelhada dava indicios de compleio sanguinea e irritavel,
e que de mos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas
do povo presenceava o caso.

"Tendes razo, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo
eu:--acudiu elrei, voltando-se para a velha.--Mas juro a Christo,
que estou espantado de s agora vos vr! Porque me no viestes
falar?"

"Perdoe-me vossa merc:--replicou a velha.--Eu vim trazer po 
feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri ...
se eu correria para vos falar! Mas estes bcas abertas no me
deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar... Parecieis-me
carregado de semblante. Que  isso? Temos novas voltas com os
excommungados castelhanos? Se assim , trosquiae-mos outra vez
por Aljubarrota, que a p no se quebrou nos sete que mandei
de presente ao diabo, e ainda l est para o que der e vier."

Soltando estas palavras, a velha tirou as mos das algibeiras,
e cerrando os punhos, ergueu os braos ao ar, com os meneios
de quem j brandia a tremebunda e patriotica p de forno, que
hoje  gloria e braso da gothica villa de Aljubarrota.

"Podeis dormir descanada, tia Brites:--respondeu elrei,
sorrindo-se.--Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a
gente de nossa terra  cortez: elrei de Castella veio visitar-nos
varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura
suas visitaes."

Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e
a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto;
e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello,
batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular.
Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim
Vasques.

Passada uma hora, aquelle monto de vigas, barrotes, taboas,
cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela
crasta fra em collos de homens: os presos tinham sido postos
em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vr ir soltos
os bsteiros castelhanos; e s no centro da ampla quadra se via
uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabea pendida para o peito,
estava assentado um velho.

A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem
todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle no
lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco
retirando da crasta, onde ao pr do sol comeou a bater o luar
de uma formosa noite de Maio.

Trs dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a
pedra fria, nem se quer cedra s rogativas de Anna Margarida,
que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevra
a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vr se o movia
a tomar alguma refeio: tudo recusou o cgo: a sua resoluo
era inabalavel. Tambm a abobada estava firme, como se fra de
bronze. No terceiro dia  tarde elrei, que tinha passado o tempo
em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu 
crasta acompanhado de Fr. Loureno e de outros frades, e chegando
 porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto 
pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras
cerradas encostado nos braos delles.

O mancebo e a velha choravam e soluavam, sem dizerem palavra.

"Que temos de novo?--perguntou elrei, chegando  porta, e vendo
aquelles dous estafermos.--Completam-se ora os tres dias do
voto: ainda mestre Affonso teimar em estar aqui mais tempo?"

"No senhor:--respondeu Martim Vasques, com palavras mal
articuladas:--no estar aqui mais tempo; porque seu corpo  herana
da terra; sua alma repousa com Deus."

"Morto!?"--bradaram a uma voz elrei e Fr. Loureno; e correram
para o cadaver do architecto, olhando, todavia, primeiro para
a abobada com um gesto de receio.

"Nada temaes, senhores:--disse Martim Vasques--As ultimas palavras
do mestre foram estas: a abobada no cahiu ... a abobada no
cahir!"

O architecto, j velho, no pde resistir ao jejum absoluto a que
se condemnra. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e
Anna Margarida, se quiz erguer cahiu moribundo nos braos delles,
e aquelle genio de luz mergulhou-se nas trvas do passado.

Elrei derramou algumas lagrymas sobre os restos do bom cavalleiro,
e Fr. Loureno resou em voz baixa uma orao fervente pela alma
generosa, que at o ultimo arranco escrevra sobre o marmore
o hymno dos valentes de Aljubarrota.

Na pedra, sobre a qual Mestre Affonso expirra, ordenou elrei se
tirasse, parecido quanto fosse possivel retratando-se um cadaver,
o vulto do honrado architecto, e que esta imagem fosse collocada
em um dos angulos da casa capitular, onde durante mais de quatro
seculos, como as sphynges monumentaes do Egypto, tem dado origem s
mais desvairadas hypotheses e conjecturas.  pobre Anna Margarida,
que ficava sem arrimo, doou D. Joo I, tambem, as casas em que
o mestre morava, fazendo-lhe, alm disso, assignaladas mercs.

Mestre Ouguet, pelo que o cgo dissera a elrei cerca da sua
capacidade para o substituir, e porque, emfim, era estrangeiro,
foi logo restituido ao cargo que occupra, e quando nos seres
do mosteiro alguem falava nos meritos de Affonso Domingues e na
sua desastrada morte, cortava o irlandez a conversao, dizendo
com um riso amarello:

"Olhem que foi forte perda!"

[1] A loua de Estremoz  antiquissima em o nosso paiz.
No tempo de Francisco I de Frana, mandavam-se buscar os pucaros
desta loua a Portugal, para beber a agua, que ento, bem como
hoje, se tornava nelles excessivamente fria.

[2] Semanas.

[3] Martim Vasques foi o 3. mestre das obras da Batalha
e Ferno d'Evora o 4.--Veja-se a Memoria de D. Francisco de S.
Luiz no 10. volume das da Academia.




FIM DO TOMO I.

       *       *       *       *       *

INDICE.

O ALCAIDE DE SANTAREM

(590--961)


I

II

III

IV


ARRHAS POR FORO D'HESPANHA

(1371--2)


I A Arraya-miuda

II O Beguino

III Um Bulho e uma Agulha de Alfaiate

IV Mil Dobras P-terra e trezentas Barbudas

V Mestre Bartholomeu Chambo

VI Uma Barregan Rainha

VII Juramento--Pagamento


O CASTELLO DE FARIA

(1373)


A ABOBADA

(1401)


I O Cgo

II Mestre Ouguet

III O Auto

IV Um Rei Cavalleiro

V O Voto Fatal





End of the Project Gutenberg EBook of Lendas e Narrativas (Tomo I)
by Alexandre Herculano

*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS E NARRATIVAS (TOMO I) ***

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